É O MAR QUEM VENCE

 para José Manuel Mendes

 

o marinheiro viu o abismo e deu o passo em frente

soprado pela força do vento nas velas enfunadas

escutando o rumor fundo das vagas cavadas

nos olhos vidrados do adamastor indiferente

 

é mais além a contenda o fogo fátuo do horizonte

o lugar onde se avista o testemunho da descoberta

a sede feroz a água solta transformada em fonte

a repentina voz presa em busca da alma liberta

 

é preciso ir avançar bramir no silêncio eterno

quebrar o ímpeto surdo da oca imensidão marinha

fremir o espírito das ondas e ao trespassar-lhe a espinha

reduzi-las ao sentido da palavra impressa nas noites de inverno

 

mais tarde é o cheiro da terra pisada a bandeira

a conferir presença posse cor firme da nacionalidade

e depois a vontade de seguir sempre na esteira

de um chamado a que ninguém pertence

e onde é apenas o mar quem vence

o apelo de abraçar a lonjura com o rosto da liberdade

 

 José António Gonçalves

(in «À Espera dos Deuses», Ed. Correio da Madeira, 1999)

 

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