ESQUEMA DE UMA RENÚNCIA

 

1

é sempre na noite aproximada

do poema que a mim mesmo não prometo

quando sinto a ânsia do reconhecimento: ilha despedaçada

na solidão do crepúsculo

verticalmente duradouro

 

2

um telhado antigo desce sobre mim

deitado ao comprido

nos olhos cerrados da manhã infinita

 

companheiro das horas transparentes

b. b. king continua a angústia negra

que a lucille dormente não recusa

 

recolhe na hipnose dos sons

o rastro de sangue

que os blues maduros abandonaram

nas tardes condescendentes de new orleans

 

3

a parede em vaivém cadenciado

despedaça a boa vontade da poesia desnecessária

 

no palácio carbonizado do poema

o intelectual cristaliza o balanço do pensamento:

na noite respingou

um suspiro definitivo

e a palavra recolheu-se amarga

no cerne imperceptível do papel branco

 

José António Gonçalves

(in "A Crista de Neptuno", 1979, "ILHA 2",

prefácio de Natália Correia, CMF; "Tem o Poder

da Água", "Obra Poética 1973-1995", Editorial "Éter",

prefácio de Ernesto Rodrigues, Lisboa, 1996)

 

 

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