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GIACOMO LEOPARDI E O SUAVE DESPRENDIMENTO DO INFINITO
aproveitemos a pedra solitária à beira do caminho e sentemo-nos, Leopardi, para descansar do esforço da jornada que nos traz de Recanati para o mundo onde Dante e Petrarca aprenderam a construir torres de marfim e a pesquisar o odor da espuma solta pelo mar profundo
à distância, Roma e Florença empurram-nos, cândidas, para o Sol atravessando os campos e beijando os pássaros enquanto pensamos em flores, na lua e no compasso íntimo das mais distintas estações, para esquecermos o frio do Inverno de Milão, a riqueza recusada e a quentura breve do inferno
agora já não há remédio, os livros ilustram a casa abandonada, as palavras ecoam um pouco por toda a parte e a fuga aos muros sanguíneos revela-se impraticável. regressemos então aos jardins do berço paterno, carregando o dia em que foi possível saltar célere a cerca que por lá havia
não vale a pena dar importância à brancura iluminada do claustro nem ao deus que não se recolhe à mesa dos homens embriagado pelo seu acostumado ruidoso silêncio divino como ave imponente percorrendo os céus com as suas asas na serena reivindicação de absoluto dono do tempo e do destino
a tabuleta indica certeira para Pisa, como uma seta contratada para se centrar no alvo, no coração onde a humanidade dança e desconhece o sabor do orvalho em Nápoles, o verde calmo das encostas, a doçura da brisa outonal, a cor do casario, a conjugação do amor com a poesia ou da chuva com o estio
a viagem aponta para o que mora onde há lugar, o resíduo de um lapso branco numa folha de papel ou o viver atormentado nas vigílias claras de uma cama dura sem que valha alguma coisa a carne fraca, a angústia, o sono, a dor flagelada nos ossos, a fome trocada pela magia da literatura
a terra fica por debaixo dos pés e cheira ao pudor dos dilúvios espera o momento de renascer na água e abraça todos os ventos é cega como os olhos que leram muito nas noites húmidas e eternas e sorri para os que a amam, alimentando as suas almas transparentes com o pão de trigo fermentado no suor de povos enxutos de rezas
vem por aqui, persegue a marca das poeiras, pressente a erva morta de uma nova estrada. recorda como Stendhal ao longe não aguarda por vozes distantes de outras cidades, preenchendo devagar as tardes com o rumor dos teus Cantos, divertido com o perfume dos trovadores e derramando os teus versos como vinho na cabeça de sábios viticultores
a carga é pesada, chama Ranieri, Silvia, Fanny Tozzeti, uma aleluia apaixonada, um ou dois padres jesuítas, um tratado de filosofia, uma citação com sentido, um ensaio de filologia, a oração junto ao túmulo de Tasso, o pó das antigas bibliotecas e vamos dormir, quietos e puros, como só dormem os poetas
assim, cá estamos Leopardi, noutro areal, despido de barcos, traçando rotas em mapas escondendo a morte, a loucura, a alegria, o vácuo das manhãs, a juventude e o seu suave desprendimento, como se um lençol cobrisse o que não é preciso ser dito e mostrasse o teu rosto espelhado nas sombras do infinito
José António Gonçalves (in "Giacomo Leopardi e o suave desprendimento do infinito", Poesia, Madeira, 1999)
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