venham devagar. ouçam as bombas zunirem nos ares. não
levantem as mãos. abandonem as armas no solo ferido. tragam
um sorriso nos lábios. mordam a saliva quente. o que esperamos
é silencioso. rasteja como um réptil. não escouceia. nem se deixa
amolecer pelo cansaço. vem sempre. devagar. assim como vamos
ao encontro do passado. abraça-nos sem ruído e sem queixume. no
chão como trapos esquecemos como é tarde. venham devagar. como a
madrugada. ou as aves metálicas brotando da terra. frias. voando junto
aos gritos surdos. venham devagar. sempre devagar. aprendam
a descobrir a noite. o código de maldição das corujas. a linha do
horizonte, de onde ninguém mais regressa. estamos sós. perdidos
na ilha. envelhecemos. como o vinho. apodrecemos nos cadernos
escolares. as guerras são de papel. venham devagar. deixem-se
matar, mas não lentamente. os vossos filhos jazem em canteiros
brancos. como o meio-dia.
(in "20 Textos para Falar de Mim", col. cadernos Ilha, nº.1, 1988)