MEIO DIA

 

venham devagar. ouçam as bombas zunirem nos ares. não

levantem as mãos. abandonem as armas no solo ferido. tragam

um sorriso nos lábios. mordam a saliva quente. o que esperamos

é silencioso. rasteja como um réptil. não escouceia. nem se deixa

amolecer pelo cansaço. vem sempre. devagar. assim como vamos

ao encontro do passado. abraça-nos sem ruído e sem queixume. no

chão como trapos esquecemos como é tarde. venham devagar. como a

madrugada. ou as aves metálicas brotando da terra. frias. voando junto

aos gritos surdos. venham devagar. sempre devagar. aprendam

a descobrir a noite. o código de maldição das corujas. a linha do

horizonte, de onde ninguém mais regressa. estamos sós. perdidos

na ilha. envelhecemos. como o vinho. apodrecemos nos cadernos

escolares. as guerras são de papel. venham devagar. deixem-se

matar, mas não lentamente. os vossos filhos jazem em canteiros

brancos. como o meio-dia.

 

José António Goncalves

(in "20 Textos para Falar de Mim", col. cadernos Ilha, nº.1, 1988)

 

 

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