NINA SIMONE

 

sobrevoa a cidade uma angústia com a forma

de pássaro negro

 

com o vento escutam-se gemidos sussurros

lamentos doloridos de outros tempos

 

se abrirmos as janelas descortinaremos vultos

vagarosos

procurando-se no nevoeiro

 

ao longe há florestas e colinas serpenteadas de estradas

um rumor de quintas em dia de trabalho

um clamor de igrejas numa manhã de domingo

 

é possível que alguém reclame o sangue

o branco do algodão queimando dedos frágeis

uma lágrima de transparente estertor

molhando a terra

 

um grito devasta a pradaria espantando as aves

rebentando as algemas

e onde havia penumbra e medo

deposita os acordes luminosos de um piano

e rega-os com a voz

como se fossem flores

disfarçadas de poemas

 

11.3.91

 

José António Gonçalves

(in "À Espera dos Deuses",

Ed. Correio da Madeira, 1999)

 

 

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