O DIA DE FALAR DO PAI

              Para a Arabela, o Marco e a Natacha

 

Lá em casa, havia a mãe, a costura, as imagens do Cristo

nas paredes e os bordados, o riso das irmãs e uns maracujás

nas latadas fracalhotas, umas nespereiras

e um telhado acastanhado que nos lembrava nos outonos

as primaveras de uns dias despidos de chuva.

 

E lá em casa havia uma roda viva de vizinhas

que vinham experimentar roupa, conversar com a mãe

sobre o tempo, a importância do calor no verão e do frio

nos invernos, sempre disfarçando a verdadeira razão

das conversas.

 

Escondidas traziam cartas dos filhos chorados nas guerras

de Angola, da Guiné ou Moçambique, dos sobrinhos

emigrados no Brasil e de uns primos obscuros que de África

do Sul perguntavam se os prédios estavam a valorizar-se

ou se existiam notícias de uns terrenos baratos

onde se poderia construir casas com os tijolos dos sonhos,

desses inesperados sonhos com que se erguem

as colunas, as naves brancas das catedrais.

 

Era nesses dias que, com os meus irmãos, debaixo

das pimpineleiras tenras e verdes, nos recordávamos

de outras eras. Aí decidíamos, que era dia de falar

do pai. Longe estava, recordava o carteiro

todas as manhãs quando se desculpava pela ausência

de uma palavrinha da estranja. As lágrimas escondiam

no rosto da mãe a esperança de um conforto, enquanto

alguém nos chamava para jogarmos à bola no descampado

do lagar do padre Isaías ou para um mergulho no poço do fiscal.

 

Calávamos o silêncio de outros silêncios e desculpávamo-nos

com um a gente já vai, calma, não chore, depois varremos

o quintal, cuidamos das galinhas e damos banho ao porco,

tratando-o com o respeito de quem o merece

na prontidão da morte pelo Natal.

 

As missas de domingo matavam-nos de obrigação

no ritmo da preguiça. A mãe olhava-nos tão sublimemente

que parecia Nossa Senhora aos pés do Senhor bem juntinha

à Cruz esperando pela Ressurreição. E a gente, às vezes,

nada. Sofrimento pelo acordar, pelo vestir, pela reza, pelo cantar

e a sorte de sair da Igreja em felicidade pelo cumprimento

da continência ao Sacrário. Ficávamos mais leves, os sapatos

doíam menos nos pés e durante algumas horas quedávamo-nos

nos mistérios dos sermões, da vida eterna, da confissão,

dos infernais domínios do pecado e das aflições dos inocentes

quando confrontados com as culpas dos outros.

 

Mas, de vez em quando, era o instante de em outro altar

escrevermos a palavra pai, o pai que no outro lado do mundo

carregava o nosso nome como se fosse o dele, apenas dele,

um nome com o suor todo de quem trabalha para alicerçar

uma casa, para desbravar a terra, oferecer doces e acariciar

animais, com o fato conveniente para visitar capelas, servir

de padrinho, brilhar em casamentos, baptizados, arraiais

e outras festanças, comprar carros, trazer brinquedos especiais,

contar anedotas, ganhar a adversários costumeiros aos jogos

de cartas, tocar rajão, entrar no despique e olvidar a maravilha

de uma viagem, de um anoitecer, do olor do feno nas chuvadas,

das alegrias das azedas ou das azáleas

deixadas na rua ao toque do orvalho.

 

Era o dia de falar do pai, mas estranhamente só se escutavam

sussurros, não se conheciam contradições, todos concordavam

pela mesma afinação, como as orquestras nas sinfonias, as irmãs

tocavam-nos nos ombros, marcando sinais de contenção

e lá voltávamos ao mesmo, interrompida a fascinação, ou seja,

ao vazio de um universo tão grande, como inexplicável

é o infinito. Depois, quietos, entreolhávamo-nos sobressaltados,

apenas vivos porque sentíamos dentro de nós o sangue

a latejar, ao ritmo de uma falta contínua e azul de ar,

igual ao eco do bater do coração.

 

Esses eram os dias destinados a falar do pai.

Para a mãe ficavam todos os outros,

no resto vagaroso do passar dos anos.

 

José António Gonçalves

(in «As Memórias da Casa de Pedra»,

Ed. Arguim Editora Regionalista, 2002)

 

 

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