O MENINO DE BRANCO

               para o António Ramos Rosa

 

Pousemos as mãos

sobre a fronte

do menino de branco.

É preciso deixá-las

exactamente pousadas

como se apenas voassem

sobre a fronte

do menino de branco.

 

O peso das mãos é pertença

duma balança

de penas

de aves exóticas

e tem o condão de impressionar

as tardes mornas e pesadas

por contraste com a leveza

do seu percurso aéreo

e suave

sobre a fronte

do menino de branco.

 

Ninguém sabe porque razão

mãos tão graves e calosas

(como as costas das renas

voadoras do pólo norte)

têm movimento de asa

sobrevoando

a fronte

do menino de branco.

 

Até parece uma projecção

sobre um écran de cinza

soltando o fumo de uma lareira milenar

com assados no espeto

e uma dama rosada acariciando o cavaleiro

no retempero de aventuras nas cruzadas

e esse fumo assumisse os contornos

de umas mãos

pousadas

sobre a fronte

do menino de branco.

 

Seriam essas mãos

apenas mãos em movimento

mãos de trabalhador

com suor reprimido entre os poros

- sábio condutor de percursos

de mãos entre mãos -

tratando de perder

(por um fugaz instante)

o poder do seu peso

para conquistar

(num espaço breve)

o gesto que ao de leve

roça e pousa

sobre a fronte

do menino de branco?

 

Era Dezembro

e chovia.

Seriam essas mãos

pássaros

ou anjos brilhantes

e o menino de branco

apenas

um menino de branco?

 

 

José António Gonçalves

 (in "Lembro-me Desses Natais",

textos introdutórios: João Rui de Sousa

e Vergílio Alberto Vieira; ilustrações:

Maurício Fernandes. Ed. Correio da Madeira,2000)

 

 

 

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