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O SILÊNCIO DAS PIMPINELAS
Isto é, às vezes esqueço-me de mim e surpreendo-me quando me lembro do infinito silêncio das pimpinelas. Das pimpinelas verdes desarrumadas nas latadas da vinha por sobre as janelas verdes da casa. Das pimpinelas persistentes de que ninguém particularmente cuidava e nasciam, morriam e renasciam em estações incógnitas e sempre verdes como as vinhas das latadas. Pimpinelas aguadas - como devem ser todas as pimpinelas - e verdes para se confundirem com as sombras verdes de todos os vinhedos do meu avô. Verdes e silenciosas como as folhas dos vinhedos que deitavam sombra no quintal e cheiravam a nada, como aliás creio devem cheirar todas as outras pimpinelas que se misturam com outros vinhedos nos inúmeros quintais de todas as outras velhas casas rotuladas de vizinhança.
Pimpinelas que só deixavam de vestir a sua importância aguada e verde, às vezes branca, quando chegava a páscoa e a mãe começava a falar de inhame. Nessas alturas faltava-nos água na boca e iniciava-se o ciclo da transformação da festa da pimpinela no dia a dia do inhame. Então a mãe ria-se e o pai disfarçava: lá venha agora o inhame, resignando-se, enquanto o prato recebia a cor lilás e a gente varria para trás da porta as esquecidas folhas do vinhedo.
José António Gonçalves (in «As Memórias da Casa de Pedra», Ed. Arguim Editora Regionalista, 2002)
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