PARA FALAR DE MIM

 

1

vieram de mim os longos sóis e os longos dias.

vieram de mim o arrastar dos bancos, os cânticos das igrejas,

e vim eu, senhor do meu nariz, nobre sem títulos nem castelos

nem divisas,

duma ilha pequena, perdida numa concha

de mar, onde nasci. era a primeira vez

que eu abria os olhos, e senti-me rei e marinheiro. estava

embrulhado numa alga, e adormecia numa gruta, adornada

por búzios quietos. os peixes visitavam-me e afastavam

os murmúrios, os gritos, os monstros pelados,

e o eco da minha voz, que habitavam os meus sonhos. é por

isso que me revesti da luz cintilante das suas escamas

e tenho, dizem-no as mulheres que desconheço, um suor

sem perfume, um suor sem matéria, enquanto que o meu corpo

tem o encanto do cheiro a maresia.

 

2

trouxe comigo

do país onde vi as mãos me crescerem,

um barco de madeira carcomida, amaldiçoada

pelo vento marinho,

numa viagem de calados suspiros.

 

3

cheguei, depois de muito navegar, a

uma terra verde,

bordada a pérolas no mar. abandonei a viagem

e passei a conviver com sereias e ninfas

silenciosas, que perdiam o seu tempo plantando

palmeiras, cuidando de animais selvagens, soltando

 aves em sorrisos lentos,

pelos buracos vermelhos das suas bocas, infantis e sensuais,

em rotas roxas.

 

4

após longos meses, longos sóis e longos dias

que criei, escrevo: estrangeiro meu espírito em meu

corpo,

ou perdido meu sentido dento de mim –

a ilha é pequena. a minha voz perde-se no seu verde incansável.

 

5

trago nos meus dedos sabor

amargo e estranho. as naus se foram e rebocaram o meu barco,

deixando sulcos no meu peito. trago sabor amargo

nos meus dedos. quem mos devolve iguais aos da minha

infância? quem mos torna pequenos? está a fonte

da minha saciação longe da minha sede e o meu fulgor sem alento

é transporte impróprio para  me levar à satisfação. meus

dedos, agora reparo porque estou cansado, não chegam para a

minha ausência,

nem esta minha insuportável sede para o meu regresso.

 

6

vieram de mim longos, longos dias,

vieram de mim os cânticos das igrejas, as orações de desespero,

o arrastar dos bancos, o gosto a salsa. de madeira

é esta ilha órfã de nascença, minha irmã e minha amante, minha

candeia anunciada em minha voz, reflectida em meu grito,

reproduzida dentro de mim. terra verde e talvez virgem, há muito

tempo, no meu regaço antigo,

por que me perdi.

 

José António Gonçalves

(in «É Madrugada e Sinto», Funchal, 1974)

 

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