PENSAR UM NOME

 

1

para falar de uma ilha não há

um nome único. é preciso dizer casas

e telhados, um cemitério ao fundo

onde algures a água pode chegar

- essa água sempre girando à volta

dos olhos dessa mesma gente

abatendo o pó das mesmas ruas

e enxotando as mesmas crianças

das mesmíssimas soleiras de porta.

 

2

pensar um nome sem árvores

ou um bom punhado de velhos no jardim municipal

e oferecer o seu gosto salgado

ao paladar do turista exigente

farto da cor do mar sem o beijo do céu

e atento ao ritmo do xaramba

- a madeira saberia a alumínio

batido na ombreira

dos dias mornos

derretendo nos bois a canção dos vilões

curiosos dos limites das montanhas

e da maneira como morre o sol.

 

3

no interior das casas cheira a cal

e à pedra mole onde dormem os séculos.

o cimento e o andaime vão chegando

derradeiramente comandados pelos amantes da areia

e vão cobrindo de tijolo o espaço do calhau

- apetece rebentar na cabeça do silêncio

este amor pelas coisas antigas

a saudade das mãos cansadas

e de saborear a terra sem flores murchas.

 

4

a ilha é um nome verde

sonhador de uma manhã de versos

onde caiba um poema de planícies eternas.

 

José António Gonçalves

(in «A Crista de Neptuno», Ilha 2, CMF, 1979)

 

 

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