POEMA PARA OS QUE COMPREENDEM

 

malvada sede a do guerreiro insaciável do sangue

sangue preto igual ao branco mais branco mais branco

 

insuportável arma que se vende se vende e trespassa

a fronteira da razão o corpo indivisível da liberdade

 

ninguém pede misericórdia ou uma palavra de consolo

tudo se limita ao construir de novos impérios

 

ali não há tempo de fugir tudo é o fim e o princípio

caminho cruel que termina sempre numa cova

no impacto de uma bala ou duma bandeira

 

ao longe longe muito longe e agasalhados

gigantes vermelhos vermelhos vermelhos que nunca mais acabam

esfregam as mãos de contentes até arderem de gozo

 

mais abaixo no despir do seu calor e da dúvida

outro fogo consome irmãos devora esperanças

 

faz morrer a luz nos olhos das crianças.

 

 

José António Gonçalves

(in "20 Textos Para Falar de Mim", Colecção Cadernos Ilha, nº.1,

Prémio Literatura/Leacock/1988, Funchal, 1988)

 

 

 

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