PORQUE NASCI

 

sou poeta porque nasci só no orvalho das manhãs

e descobri nas palavras que explorei no silêncio

a explicação das coisas     a razão da brancura

a vontade inexplicável de estar aqui

onde caí com as mãos presas e os olhos vendados

o corpo negro e nu descoberto ao longo dos montes.

sou poeta. gritei-o longe com a força da minha voz

e as valas fecharam-se e deixaram-me passar.

mantos azuis ventos fortes mares estranhos

céus límpidos tomaram conta de mim. sou poeta.

nasci só, no orvalho das manhãs, protegido

por flores

por bombas, por maldições e o meu corpo é uma haste

ou harpa ou arma, pedaço de pão, fogo, fome ou lanterna

brinquedo rodando nas mãos de jugos. sou poeta.

dêem-me o vosso arado. deixai-me cultivar vossas terras

áridas, vossos desertos secos. deixai-me soçobrar

nos vossos barcos náufragos. deixai-me criar epitáfios

fogueiras, lendas. deixai-me com os vossos filhos vagando pelas

montanhas, pela lã das ovelhas. pelas

ventanias. deixai-me construir um ruído mudo de silêncio

uma voz calada, mais vibrante que esta branda fala

para dizer-vos um poema     sou poeta     nasci rosa

no orvalho transparente das manhãs.

 

José António Gonçalves

(in «Vinte Textos Para Falar de Mim», Col. Cadernos Ilha, Nº. 1, 1988)

 

 

 

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