PORTO SANTO, VERÃO DE 1973

 

oiço a música forjada e quente do sol e do mar

embravecido, num cântico azul, sem manhãs, nem

pureza, nem casas. os barcos, brancos e vermelhos

brilham e baloiçam, baloiçam e brilham afogados

pela água fria e irritada. as palavras flamejam

e soltam-me gritos amorfanhados enquanto as construo

na areia da praia em chama, onde o mar despeja

a sua ira da cor do céu. a hora, esta hora, é aquela

do beijo, da fervura, da comida, do sono, ou então

a do amor. é um castelo, uma cara, no chão molhado

o tempo. uma mão. cinco dedos num esconderijo profundo

do gesto, do vómito sem cor nem corpo. é o sol e as

formigas, o vento e a música procurando um porto, um

cais, ou um navio, um braço queimado correndo a pele

e o suor do sonho. oiço as vozes, a música, e congemino

um silêncio cavalgando o ruído enquanto o calor cai

nos olhos, devorando a carne e o pensamento. ao meu

pé, algumas crianças jogam lama no meio-dia e procuram

a mãe. encontram-na na água morna do porto, perdida

e embrenhada na alma dum santo sem auréola, primitivo,

no coração dum homem só e húmido, embriagado, dizendo

versos com as rimas colorindo as pálpebras inchadas.

 

e toda a gente fala, ao mesmo tempo. a tarde desprende-me

o lugar da mão assustada. e ela, solta, é o rosto fornicado

da esperança, a água bebida com sal, bebida com sol, sem

saber a nada. é uma carta, um diário, ou um postal. é o

porto santo moldado na pedra negra, escavada ao alcance

da música e do poema. sem loucura, nem amor.

 

José António Gonçalves

(in «Vinte Textos Para Falar de Mim», Col. Cadernos Ilha, Nº. 1, 1988)

 

 

 

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