RENTE AOS OLHOS

 

        ao poeta A. J. Vieira de Freitas

 

 

rente aos olhos a lágrima a

manhã o orvalho a mão

sobre o arado e o sol nascendo

 

rente aos olhos a rosa o gume do

espinho a terra crua inchando

sob os pés gretados e o suor

crescendo

 

rente à pele o amor a voz de

prisão às coisas à cinza ao

azul do mar batendo a praia de-

serta e inocente

 

rente ao homem os dedos cansados

o sono infinito os canteiros vazios

dois palmos de novo dia e um poema

branco                    sem palavras

 

 

 

José António Gonçalves

(in "Movimento, Cadernos de Poesia e Crítica, nº.1,

Funchal, 1973, com António Ramos Rosa, Eugénio de Andrade,

Pedro Támen, José Bento, A. J. Vieira de Freitas,

José António Gonçalves, José Agostinho Baptista

e Gualdino Avelino Rodrigues; "Tem o Poder da Água",

José António Gonçalves, Editorial Éter, prefácio de

Ernesto Rodrigues, Lisboa, 1996)

 

 

 

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