RETRATO DE IUVENTUTCHENCKO

    memória da viagem do poeta à Madeira

 

Iuventutchencko abre os braços

e reclama numa voz cava e solene

as agruras do mundo

mesmo que ninguém lhe peça

rigorosamente nada.

 

Abre os braços

e até podia fechá-los

num abraço definitivo

às causas mais incríveis dos homens

- menino infeliz dos brinquedos

que nunca lhe deram

na Rússia antiga.

 

Tem o corpo duma montanha escarpada

onde se abrem vales para a liberdade

e mostra rios de esperança onde a fala lhe falta

fatigado da emoção de cantar a poesia dos pássaros

e dos homens desencontrados

nas planícies de outros poemas.

 

É como se fosse um carro raríssimo

de colecção particular e motor reforçado

e diz isso mesmo quando denuncia a última vez

que uma fronteira derrubou o sorriso de um lenhador

a meio de uma colina branca

 

enquanto cá em baixo uma aldeia planeia

uma maneira sigilosa de alcançar o outro lado

sem que morra o filho de um presidente de câmara

ou uma irmã afastada do senhor padre cura.

 

O muro de Berlim lá está, frio e farpado

como um campo de concentração. Sopra

um vento de Leste na respiração de Iuventutchencko,

adivinhando os caminhos da liberdade

por um relampejante momento.

 

Abre os braços na cidade do funcho

como se a camisa o cansasse com o cheiro do suor

e precisasse de dividir o peso das cores berrantes

que a consomem no palco e nos gestos

 

e balbucia coisas ininteligíveis em russo

como se tudo isso fosse normal e cantasse

o céu aberto

ao chão

no seio de outras pátrias.

 

Iuventutchencko suspende o grito na garganta

e por mais estranho que pareça

a pequena multidão que o aplaude com vivo ardor

espera pacientemente pela versão do tradutor

mesmo confirmando com abanos de cabeça

compreender o sentido dos seus versos.

 

Afinal, declamava poemas sobre a política dos homens

como se apenas contasse histórias de amor. 

 

 

José António Gonçalves

(inédito)

 

 

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