| SOMBRA LUNAR 1 Ao longe a mulher parece a sombra lunar de um gavião voando por sobre os sonhos de todos os sóis. De perto surge branca como a neve dos Himalaias ou o vento seco que agasalha os pássaros como a nuvem que abraça os aviões na solidão intercontinental. 2 Por ora, enquanto mulher, passa por mim, leve e pura, em viagem caleidoscópica sem calendário estelar. E deixa-me, na tentação da noite, ao menos o sorriso, o andar das aves que perturba a tempestade absoluta do tempo. 3 Adormeçamos nas ondas do mar sem apelos, nem desejos obscuros. Ou seja, descansadamente no intervalo dos livros (se não houver luz) entre os muros, como habitualmente.
José António Gonçalves (in "Aventura na Casa dos Livros", Col. Cadernos Ilha, nº. 10, Ed. Correio da Madeira, 2000)
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