SONHO DE MENINO

para Deja e Soraya

 

Como numa pintura abstracta, à segunda visão,

as coisas, as cores, os seres, tomam forma

e fazem sentido. Como numa paisagem

rural. Como num mural urbano. Como no amor.

 

Havia a calçada de pedra viva, os rebentos em flor

nas entradas sombreadas de vinhedo das casas.

Por todo o lado, havia um delicioso cheiro a água-pé,

a bolo de mel nas manhãs de Setembro, a licores

de frutas, a pão de batata-doce, misturando-se

com a harmonia de gaitas ao desafio dos bailinhos,

dos xarambas nos adros brancos das igrejas.

 

Havia uma revoada de mulheres de negro

ameaçando o silêncio obscuro das sacristias

e um olhar divinamente distraído do anjo tímido

acabado de chegar ao coro sem conhecer os hinos,

as hossanas e as bênçãos milagrosas dos santos.

 

Havia uma árvore despida de ramos e de folhas,

com saudades de ter sido verde, encostada a um muro

pintado de cal creme no renascer das manhãs habituais,

cumprindo rigorosamente os preceitos

da natureza e dos seus rituais.

 

E havia um pouco de tudo o que atormenta o coração

dos homens: diz-se que uma chama de amor perdida,

como um violento açaime calando o grito

de todas as paixões, uma brisa leve de loucura

no arraial das vindimas, cumprindo-se, no lugar

onde mora a falsa pista de dança, o lagar

de madeira e cantaria, um destino: o pisar da uva,

o jorrar do vinho, o sol que amadurece o bago

na latada do tempo.

 

Havia. Mas uma nuvem cinzenta, se calhar

numa das tempestades de Dezembro,

apagou tudo da memória, como se fosse

um sonho de menino. É disso que me lembro.

Às vezes nas manhãs de Abril,

outras nas noitinhas de Setembro.

 

José António Gonçalves

(in "Memórias da Casa de Pedra", colecção

"Terra à Vista", nº. 1, Editora "Arguim", nota

de contra-capa de Albano Martins, 2002)

 

 

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