TEM O PODER DA ÁGUA

 

Para a Hermenegilda

 

tem o poder da água a força que doma o relâmpago

a invernia a bruma da Ponta de S. Lourenço

e faz estremecer de silêncio a luz breve

que recorta as Desertas ao fundo esperando apenas

pelo ruído das gaivotas ao amanhecer

 

tem o poder do vento o alento que sugere

a subida aos píncaros dos arbustos do Poiso

onde às vezes se colhe o granizo dente-de-cão

estendendo devagar os dedos na mão aberta

só porque faz frio e sabemos que choveu

 

tem o poder das nuvens revoltas o medo da Travessa

comovendo os marinheiros de outras eras em sobressalto

quando o mar se abre em abismos e fronteiras

revelando o paredume invicto de descobertas e labirintos

onde brincam cegos os peixe-espada-pretos

 

tem o poder da água do vento e das nuvens

o tempo que devasta o fogo das clareiras nas serras

onde as crianças buscam sonhos e os pássaros hesitam

na abordagem dos ramos secos das árvores temendo a noite que não chegará nunca

 

todos esses poderes renascem afinal

sempre que as montanhas se desfazem devagar

na imensidão das planícies

abrindo vales onde antes havia muros

e construindo homens no lugar das casas

 

 

José António Gonçalves

(in "Os Pássaros Breves", Colecção "O Lugar da Pirâmide", nº. 38,

posfácio de João Rui de Sousa, Ed. Átrio, Lisboa, 1995)

 
 

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