VEM

 

1 

 

Vem. Imagina-te no centro de todas as viagens.

Traz o perfume de outras eras, dos dias felizes em que fomos

alguma coisa mais. Talvez crianças breves, pássaros

feridos por um amor com sede de infinito.

 

Lembra-me os invernos, os outonos com sabor a erva

e a folhas gastas pelo tempo. E abre-me as janelas

que me fechaste um dia. E deixa-me entrar como uma brisa

em busca dos teus olhos, soprando nos teus cabelos.

 

Mas vem. Cobre-te de névoa e de flores. Veste o céu azul

e os prados verdes. E sorri, no silêncio possível do reencontro.

Deixa-te cair, nua e leve, nas asas do vento,

como uma pétala de rosa sem destino,

uma bola mágica de sabão

reflectindo sonhos no espaço. E aconchega-te dentro de mim.

 

Mas vem, anjo de transparências, de mãos brancas e suaves,

fruto exótico das minhas miragens. Vem. Traz a pureza

dos campos, o som das ribeiras correndo pelas encostas,

o murmúrio da noite de encontro às madrugadas.

 

 

2

 

Vem, apenas. Como se o mundo estivesse acabando,

a cada passo que dás em busca do meu sonho. E depois

não houvesse mais nada. Só tu e eu, enlaçados em viagem,

sobrevoando todos os horizontes. 

 

Mas vem. Vem. Vem sem perguntares pelo amanhã,

pelos abismos que se abrem nas fronteiras dos nossos corpos.

Vem apenas. Com a lucidez dos espelhos e a espuma

inquieta do mar, batendo no calhau da praia.

 

Vem, docemente, como um papagaio de papel-de-seda

em tardes de vento brando. E fala-me de fadas, de castelos,

de rios mansos, onde alguma vez pudemos navegar.

Mas diz-me coisas sobre as árvores e as casas. Ou leva-me

contigo, como se fossemos apenas aves e voássemos com

o mesmo bater de asas. Vem, ou deixa-me morrer

com a tua lembrança numa manhã cinzenta,

com as gaivotas gritando no cais

e os vagabundos repartindo o seu sono

com os meus pesadelos. Mas vem,

como se partisses para sempre

e me esquecesses

nas tempestades das invernias desta ilha

algures perdida no tempo.

Vem.

 

José António Gonçalves

 

(in "Os Pássaros Breves", pgs. 31/32, Colecção "O Lugar da Pirâmide",

nº. 38, posfácio de João Rui de Sousa, Ed. Átrio, Lisboa, 1995)

 
 

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