A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Fevereiro

10

 
 
 
Albano Martins

 

Não forces a tua inspiração.

Deixa a poesia vir naturalmente

e não obrigues a mentir o coração.

 

Albano Martins

 

 

(in "Vocação do Silêncio (1950-1985," 1990;

"Agenda Poética 2000 -

50 Anos de Vida Literária",

Edições Universidade

Fernando Pessoa,

org. Beatriz Werget, 1999)

 

***

 

Bloco Poético de Notas 

 

- Selecção de JAG -

 

 

 

FERNANDO SYLVAN 

 

Meninas e Meninos

Todos já vimos
nos livros, nos jornais, no cinema e na televisão
retratos de meninas e meninos
a defender a liberdade de armas na mão.

Todos já vimos
nos livros, nos jornais, no cinema e na televisão
retratos de cadáveres de meninos e meninas
que morreram a defender a liberdade de armas na mão.

Todos já vimos!
E então?

 

Infância

as crianças brincam na praia dos seus pensamentos
e banham-se no mar dos seus longos sonhos

a praia e o mar das crianças não têm fronteiras

e por isso todas as praias são iluminadas
e todos os mares têm manchas verdes

mas muitas vezes as crianças crescem
sem voltar à praia e sem voltar ao mar


(in A Voz Fagueira de Oan Timor; Centro Virual Camões))

 

*

Fernando Sylvan (1917-1993) nasceu em Díli (Timor-Leste).

Pseudónimo de Abílio Leopoldo Motta-Ferreira.

Foi presidente da Sociedade de Língua Portuguesa.

Participante activo da Resistência Maubere.

Poeta, prosador, dramaturgo e ensaísta.

 

***

 

PITADA DE SAL 

 

O que diz - Elbert Hubbart

 

 

    "Conheço um homem dotado de brilhantes qualidade, mas que não tem habilidade para tratar de um negócio seu e é completamente incapaz de cuidar dos de outrem, porque constantemente traz consigo a vã suspeita de que o seu chefe o oprime ou pretende oprimi-lo. Não pode mandar nem obedecer. Se lhe dessem uma carta para levar a Garcia, provavelmente a sua resposta seria: "Leve-a o senhor".

     Este homem vagueia pelas ruas, de noite, em busca de trabalho. O vento sopra-lhe no fato esburacado. Mas ninguém, que o conheça, se atreve a empregá-lo, porque é um facho aceso de descontentamento. Impenetrável à razão, a única coisa que o pode impressionar é a extremidade de uma bota número quarenta e três, de sola grossa.

    Bem sei que um ser assim, disforme moralmente, é tão digno de lástima como o estropiado físico. Mas é necessário também que, na nossa comiseração, não nos esqueçamos dos homens que se esforçam por levar a cabo uma grande empresa e cujas horas de trabalho, entre apupos, os venvelhecem prematuramente na luta contra os frios indiferentes, os imbecis ociosos e os ingratos sem coração.

    Expressei-me com dureza? É possível que sim, mas quando todos mostram piedade pelos maus, eu desejo dedicar uma palavra de simpatia ao homem que triunfa, ao que, contra os maiores obstáculos, dirigiu os esforços de outros e que, tendo chegado ao fim da empresa, verifica que nela só escassamente ganhou alimentos e roupa".

 (in "UMA CARTA PARA GARCIA", Elbert Hubbart, tradução:J. C. Sousa Marques, Edições Flamingo, 1988) 

*

"Uma Carta para Garcia", de Elbert Hubbart, livro de que se imprimiram mais de quarenta milhões de exemplares e é um êxito mundial, havendo quem diga que é a "mais elevada tiragem de que há memória", no universo da literatura, tendo começado por ser editado em folhetos de meio milhão de exemplares. É citado por todos os continentes, muito embora muitos dos que utilizam a suas expressões nunca tenham lido o opúsculo. O seu autor redigiu-o numa hora, depois de cear, a 22 de Fevereiro de 1899, dia do inversário natalício de Washington. Trata-se da história verídica de um soldado norte-americano, Rowan,  que cumpriu com a sua missão de entregar, em nome do seu Comando, uma carta ao General Garcia, envolvido numa guerra em Cuba, sem que se soubesse do seu paradeiro, nem houvesse meios próprios para levar a cabo a ordem. Mas Rowan levou o encargo recebido até aofim e cumpriu. Hubbart perpetuou a sua atitude exemplar, ao conversar com o filho Albert sobre o assunto e decidir contá-lo. 

 

 

***

 

UM POETA DA MADEIRA

 

 

FILIPE CAMACHO

 

a Arthur Rimbaud

 

Fecham-se as paredes das casas de Inverno

Contam as horas nos dedos dos choupos

os ponteiros do vento espada

Nestes dias os gatos são pardos

e choram como crianças

as caras das capelas órfãs

 

Desce-me o rubor aos dedos

Toco na sebenta do rapaz raro

Sonhava desertos e lagartos incandescentes

flores nos catos

E ele ainda não sabia

que era um santo rezando a guerra

o ímbele suspiro das flores aquáticas

rodeadas de seixos carentes de búzios

 

Ele sabia o destino desta catedral

 

Uma só voz um dia seria minha

e o corpo desenhado em círculos de farinha e leite

e o sangue embriagado de fé

pintariam meus lábios nos tectos

 

Os teus - rapaz raro - já o cantaram antes

quando marcavas as pontes

com pétalas e pedrinhas multicolores

Espirais rumo aos céus cinzentos de cristal

 

(inédito)

 

OS BICHINHOS QUE HABITAM OS OLHOS DAS FORMIGAS

 

I

Vários minutos apenas

da réstea terrena de um homem

A planta dos pés agrafada aos telhados

Nos telhados dos céus

tudo são lembranças líquidas

e em cálidos momentos perde-se o gelo e o fogo

do que poderia ser vida

Bebia sofregamente a sobriedade

e o sonho despia-se de flores na primavera

 

e lembrava agora os ocasos da vida:

Um acaso que fosse apenas um livro

esquecido pelas palavras nas linhas assimétricas

 

Nunca provei um monco

nem o néctar da flor jarra

onde dizia: bebe-me!

nem esfolei os joelhos nas brincadeiras de beco

em criança,

nem o gridoce da seiva da vulva rosácea

 

Crucificado nas tardes de Outono

onde se escondiam bichinhos de conta

e outros insectos

debaixo do manto

que se ia amarelecendo

no tédio do olhar das janelas fechadas

 

Nunca mais, Sílvia,

felina fêmea, castigarás o corpo erecto

de teu irmão

nem meus olhos inocentes

penetrarão tuas coxas, nem as dele

balanceando-se em lufadas de enxofre

 

A vinha apodrece dentro de mim

e o vinho é água

que se fez sangue

 

II

Nestes telhados vejo as caras redondas dos anjos,

alvas línguas de pétalas

cantando o perfume de Deus

 

Já o vi uma vez

 

Queixava-se da sua transparência

queria um corpo também

Queria estátuas enormes e frescos nos tectos das catedrais

 

Tentava tocar por vezes nos semi-sólidos servos

os salvos, como eu,

mas era etéreo, era absoluto de magia

duma magra, tão magra matéria sagrada

que o impedia até de segurar nas mãos

os bichinhos que habitam os olhos das formigas

 

(inédito; lido na Homenagem do Bi-centenário de Giacomo Leopardi,

no Funchal, Teatro Municipal de Baltazar Dias, 1999)

 

 

 

*

 

Filipe Camacho  nasceu no Funchal, Madeira, em 1997. Frequenta o ensino secundário na Escola Francisco Franco. Colabrou com textos inéditos no projecto de António Fournier (Universidade de Pisa, Itália), no Teatro Municipal de Baltazar Dias, destinado a assinalar o Bicentenário do nascimento do Poeta Giacomo Leopardi, em 1999. Foi seleccionado para integrar uma antologia de poetas atlânticos, organizada por José António Gonçalves (a aguardar edição). Está a preparar a publicação de um livro de poemas.

 

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POEMÁRIO

Assírio & Alvim

2004

 

ANDRÉ BRETON

 

 

  

RANO RARAKU

 

 

 

Como o mundo é belo

A Grécia nunca existiu

Não passarão

O meu cavalo acha a ração na cratera

Homens-pássaros remadores arqueados

Voaram-me em volta da cabeça porque

Também sou eu

Quem lá está

Atolado a três quartos

A troçar dos etnólogos

Na amena noite do Sul

Não passarão

A planura não tem fim

Quem se destaca é risível

As altas imagens caíram

 

                                            Xenóphiles (1948)

 

 

André Breton

 

(1196-1966)

 

(in "Poemas":

Tradução: Ernesto Sampaio)

 

 

 

***

 

 

IMAGINÁRIO

Assírio & Alvim

2004

 

FRANZ KAFKA

 

 

    (...)

    "Sinto-me feliz", disse o conandante, com uma vénia, que só pessoas com formação militar são capazes de fazer, "por ter conhecido o seu sobrinho, senhor senador. É uma honra muito especial para o meu navio ter sido o palco para um encontro destes. Mas a viagem na entrecoberta deve ter sido muito desagradável, aliás, quem é que pode saber a identidade dos que viajam lá. Pois bem, fazemos tudo o que está ao nosso alcance para facilitar o mais possível a viagem dos que viajam na entrecoberta, muito mais do que, por exemplo, as linhas americanas, mas fazer de uma talviagem um prazer é algo que efectivamente ainda não conseguimos".

    "Não me fez mal nenhum", disse Karl.

    "Não lhe fez mal nenhum", repetiu o senador, rindo alto.

    (...)

 

 

 

Franz Kafka

 

(1883-1924)

 

 

(in "O Fogueiro - Um Fragmento";

tradução: Álvaro Gonçalves)

 

 

*** 

 

Um Poema

 

de

 

José António Gonçalves

 

 

 

AVES RUMANDO A NORTE

 

aves estranhas rumam a norte às vezes

cansadas do sul

 

buscam novos pontos cardeais ao vento

mudas de impaciência

 

riscam as nuvens em silêncio e batem

o desespero nas asas

 

não encontram o sol refugiado aos pés

do horizonte tropical

 

coleccionam bátegas de chuva no rosto

ensopadas de suor

 

não recuam até às portas do céu e avançam

prisioneiras do voo

 

seguem em direcção de constelações etéreas

sem olhar para trás

 

é como se uma consciência viva e madura

lhes soprasse a voz de comando

 

o sacrifício é o nada a morte o ápice

o hálito do infinito

 

desenham mapas de sombras com a luz às costas

e gritam de desimporte

 

são essas as aves que não rumam a sul

atraídas pelo norte

 

José António Gonçalves

 

 

(in "Os Pássaros Breves",

ed. Átrio, Lisboa, posfácio

de João Rui de Sousa, 1995)

  

 

 

 

Selecção e Montagem: JAG