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A POESIA DOS CALENDÁRIOS |
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Fevereiro |
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Albano Martins
Não forces a tua inspiração. Deixa a poesia vir naturalmente e não obrigues a mentir o coração.
Albano Martins
(in "Vocação do Silêncio (1950-1985," 1990; "Agenda Poética 2000 - 50 Anos de Vida Literária", Edições Universidade Fernando Pessoa, org. Beatriz Werget, 1999) ***
Bloco Poético de Notas
- Selecção de JAG -
FERNANDO SYLVAN
Meninas e Meninos
Infância
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PITADA DE SAL
O que diz - Elbert Hubbart
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UM POETA DA MADEIRA
FILIPE CAMACHO
a Arthur Rimbaud
Fecham-se as paredes das casas de Inverno Contam as horas nos dedos dos choupos os ponteiros do vento espada Nestes dias os gatos são pardos e choram como crianças as caras das capelas órfãs
Desce-me o rubor aos dedos Toco na sebenta do rapaz raro Sonhava desertos e lagartos incandescentes flores nos catos E ele ainda não sabia que era um santo rezando a guerra o ímbele suspiro das flores aquáticas rodeadas de seixos carentes de búzios
Ele sabia o destino desta catedral
Uma só voz um dia seria minha e o corpo desenhado em círculos de farinha e leite e o sangue embriagado de fé pintariam meus lábios nos tectos
Os teus - rapaz raro - já o cantaram antes quando marcavas as pontes com pétalas e pedrinhas multicolores Espirais rumo aos céus cinzentos de cristal
(inédito)
OS BICHINHOS QUE HABITAM OS OLHOS DAS FORMIGAS
I Vários minutos apenas da réstea terrena de um homem A planta dos pés agrafada aos telhados Nos telhados dos céus tudo são lembranças líquidas e em cálidos momentos perde-se o gelo e o fogo do que poderia ser vida Bebia sofregamente a sobriedade e o sonho despia-se de flores na primavera
e lembrava agora os ocasos da vida: Um acaso que fosse apenas um livro esquecido pelas palavras nas linhas assimétricas
Nunca provei um monco nem o néctar da flor jarra onde dizia: bebe-me! nem esfolei os joelhos nas brincadeiras de beco em criança, nem o gridoce da seiva da vulva rosácea
Crucificado nas tardes de Outono onde se escondiam bichinhos de conta e outros insectos debaixo do manto que se ia amarelecendo no tédio do olhar das janelas fechadas
Nunca mais, Sílvia, felina fêmea, castigarás o corpo erecto de teu irmão nem meus olhos inocentes penetrarão tuas coxas, nem as dele balanceando-se em lufadas de enxofre
A vinha apodrece dentro de mim e o vinho é água que se fez sangue
II Nestes telhados vejo as caras redondas dos anjos, alvas línguas de pétalas cantando o perfume de Deus
Já o vi uma vez
Queixava-se da sua transparência queria um corpo também Queria estátuas enormes e frescos nos tectos das catedrais
Tentava tocar por vezes nos semi-sólidos servos os salvos, como eu, mas era etéreo, era absoluto de magia duma magra, tão magra matéria sagrada que o impedia até de segurar nas mãos os bichinhos que habitam os olhos das formigas
(inédito; lido na Homenagem do Bi-centenário de Giacomo Leopardi, no Funchal, Teatro Municipal de Baltazar Dias, 1999)
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POEMÁRIO Assírio & Alvim 2004
ANDRÉ BRETON
RANO RARAKU
Como o mundo é belo A Grécia nunca existiu Não passarão O meu cavalo acha a ração na cratera Homens-pássaros remadores arqueados Voaram-me em volta da cabeça porque Também sou eu Quem lá está Atolado a três quartos A troçar dos etnólogos Na amena noite do Sul Não passarão A planura não tem fim Quem se destaca é risível As altas imagens caíram
Xenóphiles (1948)
André Breton
(1196-1966)
(in "Poemas": Tradução: Ernesto Sampaio)
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IMAGINÁRIO Assírio & Alvim 2004
FRANZ KAFKA
(...) "Sinto-me feliz", disse o conandante, com uma vénia, que só pessoas com formação militar são capazes de fazer, "por ter conhecido o seu sobrinho, senhor senador. É uma honra muito especial para o meu navio ter sido o palco para um encontro destes. Mas a viagem na entrecoberta deve ter sido muito desagradável, aliás, quem é que pode saber a identidade dos que viajam lá. Pois bem, fazemos tudo o que está ao nosso alcance para facilitar o mais possível a viagem dos que viajam na entrecoberta, muito mais do que, por exemplo, as linhas americanas, mas fazer de uma talviagem um prazer é algo que efectivamente ainda não conseguimos". "Não me fez mal nenhum", disse Karl. "Não lhe fez mal nenhum", repetiu o senador, rindo alto. (...)
Franz Kafka
(1883-1924)
(in "O Fogueiro - Um Fragmento"; tradução: Álvaro Gonçalves)
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Um Poema
de
José António Gonçalves
AVES RUMANDO A NORTE
aves estranhas rumam a norte às vezes
cansadas do sul
buscam novos pontos cardeais ao vento
mudas de impaciência
riscam as nuvens em silêncio e batem
o desespero nas asas
não encontram o sol refugiado aos pés
do horizonte tropical
coleccionam bátegas de chuva no rosto
ensopadas de suor
não recuam até às portas do céu e avançam
prisioneiras do voo
seguem em direcção de constelações etéreas
sem olhar para trás
é como se uma consciência viva e madura
lhes soprasse a voz de comando
o sacrifício é o nada a morte o ápice
o hálito do infinito
desenham mapas de sombras com a luz às costas
e gritam de desimporte
são essas as aves que não rumam a sul
atraídas pelo norte
José António Gonçalves
(in "Os Pássaros Breves",
ed. Átrio, Lisboa, posfácio
de João Rui de Sousa, 1995)
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Selecção e Montagem: JAG |
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