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Albano Martins
Também as cores
amanhecem, também
elas
acordam com as golas
da madrugada e cantam
a explosão do sol.
Algumas
são água pura. A
outras
o pincel
conferiu-lhes
o rubor que se
esconde
na nervura
de certas folhas.
Outras,
ainda, festejam o
nascimento
da alegria. Ou do
amor,
tanto faz. Ou não
fosse ele
uma festa.
Albano Martins
(in
"A Voz do Olhar", 1998;
"Agenda Poética 2000
-
50 Anos de Vida
Literária",
Edições Universidade
Fernando Pessoa,
org. Beatriz Werget,
1999)
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Bloco Poético de Notas
aquém
da vidraça
nos
vem ao ombro
a mão
precisa
avenidas de água
regressam
do
fulgor
da
névoa
tão
certas
como
o estio:
este
refúgio
de
cigarras
num
hemisfério
por
saber
epígrafe
movem
teus olhos
a
sombra
densa
quero
neles o lume dos navios
e
lentamente
noites de abismo
sobre
o mar
sílaba
uma
sede um azul incendiado
o
vinho o sal: terrenos de ternura
em
teus quadris o tempo descuidado
e as
colmeias de avelãs na sombra escura
na
lida dos corpos uma raiz
inunda a tarde de parábolas por colher:
é a
fonte a baga silvestre o giz
na
lousa das ilhas a nascer
mas
guarda na dança das mãos
uma
sílaba em flor: para os lentos
desassossegos os alaúdes vãos
uma
sílaba na relva das mãos:
cisterna dos ventos
José Manuel Mendes asceu em Luanda, em Setembro
de 1948, mas encontra-se radicado em Braga, desde a
adolescência. Ainda muito jovem começou a participar
activamente em movimentos estudantis, associativos e
políticos, tendo publicado o seu primeiro livro, de
poesia aos 15 anos. Licenciou-se em Direito pela
Universidade de Coimbra, é advogado, mas foi também
professor do ensino secundário (1968/1980) e deputado à
Assembleia da República (1980/1991). Actualmente é
docente do curso de Comunicação Social da Universidade
do Minho e preside à direcção da Associação Portuguesa
de Escritores e do Conselho de Opinião da RDP. É também
membro da Comissão Nacional da UNESCO e do Conselho
Cultural da Universidade do Minho.Tem cerca de 30 livros
publicados (poesia, ficção, crónicas, ensaio), sendo os
seus últimos títulos "Presságios do Sul" (Grande Prémio
ITF de Literatura) e "O Rio Apagado". Recentemente saiu
a 5ª edição de "Ombro, arma!" (ed. Caminho).
***
PITADA DE SAL
O que diz -
Fernando Venâncio
"(...) Há
recolhas de estudos onde nenhuma evolução se percebe, ou
talvez tenha existido. Ou, tendo-a havido, aparece agora
camuflada. A universidade, sempre assustada com a
experiência do tempo, tende a encorajar essa encenação. Ora,
em História Literária, decerto nela, nada é tão esclarecedor
como o suceder de perspectivas, de abordagens, de
resultados. Não é mau a gente enganar-se. Mau é não saber
que fazer com o erro. E os estudos universitários vivem no
pânico de errar. (...) Nunca tive vergonha de ter coisas
para ensinar. E também aqui me separo dos "estudos
universitários" de maior vigência, vítimas de um segundo
terror: o de poderem parecer transmitir conhecimentos. Como
se ser bom professor não fosse recomendação. Quando o
'ensino' superior deixar de, para conseguir também, apreço,
deixar de escudar-se na "investigação", um sopro de ar
fresco passará pela Universidade e seré mesmo bom estar lá.
(...) As minhas referências são, sobretudo, portuguesas.
Outros se orgulham das suas leituras estrangeiras - eu
orgulho-me dos pensadores do meu país. Eu sei que eles
mesmos sempre se citaram pouquíssimo entre si, e
sinceramente duvido que se lessem. Mas tal não impede, até
aconselha, que alguém faça por eles essa tarefa. (...)
Talvez que gente como eu, inconfortável no lugar onde
estiver, acabe sempre, por isso mesmo, a vozear no deserto".
(in "Objectos Achados -
Ensaios Literários",
1982-2002, Edições
Caixotim, 2002)
*
Fernando Venâncio (Mértola, 1944), foi professor em
algumas universidades da Holanda, estando presentemente a
leccionar Literatura Portuguesa na de Amsterdão, onde se
doutorou, em 1995, com a tese "Estilo e Preconceito. A
Língua Literária em Portugal na época de Castilho"
(Edições Cosmos, 1998). É (ou foi) colaborador de várias
publicações (Expresso, JL, Colóquio-Letras, Ler, entre
outras), com ensaio, crónica e crítica literária. Tem vários
livros publicados, de entre os quais se destacam "Um Almoço
de Negócios em Sintra" (trd. da novela de Gerrit Komjri,
1998), "José Saramago: a luz e o sombreado" (Ensaio, 2000) e
os seus romances "Os Esquemas de Fradique " (1999) e "El-Rei
no Porto" (2001). Reuniu em dois volumes os seus trabalhos
críticos literários mais recentes "Maquinações e Bons
Sentimentos" (Campo das Letras) e "Objectos Achados -
Ensaios Literários" (Edições Caixotim), (2002).
*
UM POETA DA
MADEIRA
MARCO REYNOLDS
(..."as flores
descerão das árvores desoladamente. Será outono o último
suspiro da tua vida.")
ÚLTIMO ADEUS
Um dia
as flores descerão
das árvores desoladamente. Será
outono o último
suspiro da tua vida.
Com bondade e
profundo conhecimento
em teu rosto
olharás a terra seca
e das árvores
mortas os dedos esgarços cravados no céu.
Porque nesse dia não
haverá
mistérios para ti
nem o louco receio do
que há por vir e todos os teus
sentidos estarão
debruçados sobre o modo
como se transcorreu a
tua vida.
E tudo compreenderás
e aceitarás da
multidão tão sublime
e trágica que
connosco partilha
a fugaz ilusão
de um tempo
simultâneo
e não será implacável
no seu julgamento
mas à tua medida
serás paciente e sábia conselheira
e acolhedora.
E ao fim desse dia de
radiosa lucidez
o sol ficar-te-á
poente para sempre
e o teu corpo
irradiará
uma luz exemplar
luz que ilumine o meu
tempo e signifique
a consumação da tua
maternidade.
A CONSTRUÇÃO
(excerto)
Digo: amo-te
e a palavra enche-me
a cabeça.
Enche-me os lábios e
o coração e
ecoa em tom de
realidade determinada.
Amo-te amo-te
amo-te.
E não como um poente
esplendor se
dissipa na noite
ou o luar morre com a
luz do sol
como no fundo da vida
mesquinha
se extinguem os
fulgores de nossos corações
e a lembrança dos
brilhos aliciantes fenece
no lodo da memória
como um velho-pedinte
morre abandonado
num banco de jardim
ou morre o soldado
no minuto em que
recordou os ausentes
e anteviu a
felicidade futura
como morrem todas as
coisas do mundo
oh não quero que
morra
o nosso amor.
Quero-o
eterno
como poema ou
sinfonia
exemplar e
significativo
com um cipreste
amenizante
como depois da
tempestade
o canto da primeira
ave.
Digo: amo-te
e a palavra não morre
nos meus lábios
(in "Gestação de uma
Nova Face", 1970)
Marco Reynolds ( pseudónimo literário de José Alberto
Reynolds Mendes, n. Funchal, 1939). Com uma brilhante carreira
militar, foi promovido a Brigadeiro em 1994. Desempenhou o cargo
de Comandante Operacional e de Comandante da Zona Militar da
Madeira entre 1996 e 1998, como Major-General. Por ter atingido
o limite de idade no posto, passou então à situação de reserva.
Colaborou como poeta em diversos jornais e revistas, tendo a sua
obra sido divulgada também aos micorfones da Emissora Católica
de Angola e do Posto Emissor do Funchal. Está incluído no
episcilégio de Luís Marino, "Musa Insular" (1959) e na antologia
organizada por José António Gonçalves, "O Natal na Voz dos
Poetas Madeirenses" (1989). Revelou-se, em 1970, com o opúsculo
"Gestação de uma Nova Face", com prefácio de Horácio Bento de
Gouveia, o qual está no
prelo, revisto e aumentado.
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POEMÁRIO
Assírio & Alvim
2004
EDWIN MUIR
Amigo, perdi o
caminho. Eco: O caminho prossegue.
Há outro caminho?
Eco: O caminho é só um.
Tenho de reconstruir o
trilho. Eco: Está perdido e desapareceu.
Para trás, tenho de
caminhar para trás! Eco: Nenhum vai lá ter, nenhum.
Então farei daqui o meu
lugar. Eco: A estrada continua.
Permanecerei imóvel e
fixarei o meu rosto. Eco: A estrada avança.
Ficarei aqui, ficarei
para sempre. Eco: Nenhum se fica por aqui, nenhum.
Não consigo encontrar o
caminho. Eco: O caminho prossegue.
Oh, os lugares por que
passei! Eco: Essa viagem acabou.
E o que virá por fim?
Eco: A estrada prossegue.
Edwin Muir
(1887-1959)
(in Rosa do Mundo-2001 Poemas
para o Futuro;
Tradução de Cecília Rego
Pinheiro)
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IMAGINÁRIO
Assírio & Alvim
2004
(...)
Quando alcançaram a
hoste, já Artur e a sua hoste, formada por homens da Ilha dos
Poderes haviam descido para Caer Fadon; e Rhonabway apercebeu-se que
Iddawc e ele próprio estavam a seguir o mesmo caminho que Artur
trilhara. Ao desmontarem dos cavalos, ouviram um grande alarido e
deram conta de grande confusão nas fileiras da hoste, com os homens
que guarneciam os flancos a passarem-se para o centro e os que
ocupavam o centro a deslocarem-se para os flancos. E logo depois
viram um cavaleiro que se acercava. E o cavaleiro e o seu cavalo
vinham ambos vestidos com uma cota de malha, com os anéis de um
branco mais branco que o branco da mais branca açucena e os cravos
que cravejavam os anéis da malha eram de um vermelho mais vermelho
que o vermelho do sangue mais vermelho. E o cavaleiro vinha
cavalgando por entre as gente de aquela hoste.
(...)
"in "O Mabinogion (Contos Celtas
Medievais)",
Tradução de José Domingos Morais)
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Um poema inédito
de
José António Gonçalves
AMORES DE ARRAIAL
O louro ilustrava os
mastros
das bandeiras nos
arraiais - dizia
o vulto caminhando
por sobre
as ruínas da igreja.
Ali prendia-se uma
ponta
com gravetos e
dava-se-lhe a volta
onde os namorados
mordiscavam
as orelhas - aduzia a
sombra
deixada para trás
pelo vulto
exposta na
cinza ainda quente.
Com o louro dava-se
sabor
à carne e
juntava-se-lhe o sal
e uns bocados de alho
fresco
para a espetada
sangrada -
murmurava outro
combatente
ainda com um Cristo
fumegante
nas mãos feridas pelo
lume.
A culpa é do louro e
da fome,
sem o louro não
haveria espetada
a juntar os
antigos amores
- sentenciava a
volátil figura
entre luzes de adro
e de céu aberto ao
desflorar
da geada invernosa
- e para quê? Só por
ciúme?
Toda a gente sabe que
paixões
de arraial são como
as chuvadas
no meio do deserto do
Sara:
dão sempre em nada.
- Olhem bem para o
carvão
em que a igreja se
tornou
desde o tecto ao
chão,
do sacrário aos
santos, à sacristia:
é como qualquer casa
ardida.
- Ainda há vinho? Já
é madrugada.
Se nada se pode fazer
pela igreja
cada um que vá à sua
vida.
Credo em cruz
louvado seja.
José António Gonçalves
(inédito.15.11.03. Relato
de um sonho em cama no
Hospital Regional do Funchal)
JAG
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