A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

 

Fevereiro

11

 
 
  
***
 
Albano Martins
 
 
  
Também as cores
amanhecem, também elas
acordam com as golas
da madrugada e cantam
a explosão do sol. Algumas
são água pura. A outras
o pincel conferiu-lhes
o rubor que se esconde
na nervura
de certas folhas. Outras,
ainda, festejam o nascimento
da alegria. Ou do amor,
tanto faz. Ou não fosse ele
uma festa.
 
 
Albano Martins
 
 

(in "A Voz do Olhar", 1998;

"Agenda Poética 2000 -
50 Anos de Vida Literária",
Edições Universidade
Fernando Pessoa,
org. Beatriz Werget, 1999)
 
***
 
Bloco Poético de Notas 
 
 

 

 

JOSÉ MANUEL MENDES

 

aquém da vidraça

nos vem ao ombro

a mão precisa

 

avenidas de água

regressam

do fulgor

da névoa

 

tão certas

como o estio:

este refúgio

de cigarras

num hemisfério

por saber

 

epígrafe

 

movem teus olhos

a sombra

densa

quero neles o lume dos navios

 

e lentamente

noites de abismo

sobre o mar

 

sílaba

 

uma sede um azul incendiado

o vinho o sal: terrenos de ternura

em teus quadris o tempo descuidado

 

e as colmeias de avelãs na sombra escura

na lida dos corpos uma raiz

inunda a tarde de parábolas por colher:

é a fonte a baga silvestre o giz

na lousa das ilhas a nascer

 

mas guarda na dança das mãos

uma sílaba em flor: para os lentos

desassossegos os alaúdes vãos

 

uma sílaba na relva das mãos:

cisterna dos ventos

 

(in "Presságios do Sul",

Editorial Caminho, 1993)

 

*

José Manuel Mendes asceu em Luanda, em Setembro de 1948, mas encontra-se radicado em Braga, desde a adolescência. Ainda muito jovem começou a participar activamente em movimentos estudantis, associativos e políticos, tendo publicado o seu primeiro livro, de poesia aos 15 anos. Licenciou-se em Direito pela Universidade de Coimbra, é advogado, mas foi também professor do ensino secundário (1968/1980) e deputado à Assembleia da República (1980/1991). Actualmente é docente do curso de Comunicação Social da Universidade do Minho e preside à direcção da Associação Portuguesa de Escritores e do Conselho de Opinião da RDP. É também membro da Comissão Nacional da UNESCO e do Conselho Cultural da Universidade do Minho.Tem cerca de 30 livros publicados (poesia, ficção, crónicas, ensaio), sendo os seus últimos títulos "Presságios do Sul" (Grande Prémio ITF de Literatura) e "O Rio Apagado". Recentemente saiu a 5ª edição de "Ombro, arma!" (ed. Caminho).

 
 
***
 
PITADA DE SAL 
 
O que diz - Fernando Venâncio
 
 
 
"(...) Há recolhas de estudos onde nenhuma evolução se percebe, ou talvez tenha existido. Ou, tendo-a havido, aparece agora camuflada. A universidade, sempre assustada com a experiência do tempo, tende a encorajar essa encenação. Ora, em História Literária, decerto nela, nada é tão esclarecedor como o suceder de perspectivas, de abordagens, de resultados. Não é mau a gente enganar-se. Mau é não saber que fazer com o erro. E os estudos universitários vivem no pânico de errar. (...) Nunca tive vergonha de ter coisas para ensinar. E também aqui me separo dos "estudos universitários" de maior vigência, vítimas de um segundo terror: o de poderem parecer transmitir conhecimentos. Como se ser bom professor não fosse recomendação. Quando o 'ensino' superior deixar de, para conseguir também, apreço, deixar de escudar-se na "investigação", um sopro de ar fresco passará pela Universidade e seré mesmo bom estar lá. (...) As minhas referências são, sobretudo, portuguesas. Outros se orgulham das suas leituras estrangeiras - eu orgulho-me dos pensadores do meu país. Eu sei que eles mesmos sempre se citaram pouquíssimo entre si, e sinceramente duvido que se lessem. Mas tal não impede, até aconselha, que alguém faça por eles essa tarefa. (...) Talvez que gente como eu, inconfortável no lugar onde estiver, acabe sempre, por isso mesmo, a vozear no deserto".
 
 
(in "Objectos Achados -
Ensaios Literários",
1982-2002, Edições
Caixotim, 2002)
 
*
 

Fernando Venâncio (Mértola, 1944),  foi professor em algumas universidades da Holanda, estando presentemente a leccionar Literatura Portuguesa na de Amsterdão, onde se doutorou, em 1995, com a tese "Estilo e Preconceito. A Língua Literária em Portugal na época de Castilho" (Edições Cosmos, 1998). É (ou foi) colaborador de várias publicações (Expresso, JL, Colóquio-Letras, Ler, entre outras), com ensaio, crónica e crítica literária. Tem vários livros publicados, de entre os quais se destacam  "Um Almoço de Negócios em Sintra" (trd. da novela de Gerrit Komjri, 1998), "José Saramago: a luz e o sombreado" (Ensaio, 2000) e os seus romances "Os Esquemas de Fradique " (1999) e "El-Rei no Porto" (2001). Reuniu em dois volumes os seus trabalhos críticos literários mais recentes "Maquinações e Bons Sentimentos" (Campo das Letras)  e "Objectos Achados - Ensaios Literários"  (Edições Caixotim), (2002).

 
*
UM POETA DA MADEIRA
 
 
MARCO REYNOLDS
 
 
(..."as flores descerão das árvores desoladamente.   Será outono   o último suspiro da tua vida.")
 
ÚLTIMO ADEUS
 
Um dia
as flores descerão das árvores desoladamente.    Será
outono       o último suspiro da tua vida.
 
Com bondade e profundo conhecimento
em teu rosto
olharás a terra seca
e das árvores mortas     os dedos esgarços cravados no céu.
Porque nesse dia não haverá
mistérios para ti
nem o louco receio do que há por vir     e todos os teus
sentidos estarão debruçados sobre o modo
como se transcorreu a tua vida.
E tudo compreenderás e aceitarás da
multidão tão sublime e trágica que
connosco partilha
a fugaz ilusão
de um tempo simultâneo
e não será implacável no seu julgamento
mas      à tua medida serás paciente e sábia conselheira
e acolhedora.
 
E ao fim desse dia de radiosa lucidez
o sol ficar-te-á poente para sempre
e o teu corpo irradiará
uma luz exemplar
luz que ilumine o meu tempo e signifique
a consumação da tua maternidade.
 
A CONSTRUÇÃO
 
(excerto)
 
Digo:     amo-te
e a palavra enche-me a cabeça.
Enche-me os lábios e o coração e
ecoa em tom de realidade determinada.
Amo-te     amo-te     amo-te.
 
E não como um poente esplendor     se
dissipa na noite
ou o luar morre com a luz do sol
como no fundo da vida mesquinha
se extinguem os fulgores de nossos corações
e a lembrança dos brilhos aliciantes fenece
no lodo da memória
como um velho-pedinte morre abandonado
num banco de jardim
ou morre o soldado
no minuto em que recordou os ausentes
e anteviu a felicidade futura
como morrem todas as coisas do mundo
oh não quero que morra
o nosso amor.
 
Quero-o
eterno
como poema ou sinfonia
exemplar e significativo
com um cipreste
amenizante
como depois da tempestade
o canto da primeira ave.
 
Digo:     amo-te
e a palavra não morre nos meus lábios
 
(in "Gestação de uma Nova Face", 1970)
 
 

*

 
Marco Reynolds ( pseudónimo literário de José Alberto Reynolds Mendes, n.  Funchal, 1939). Com uma brilhante carreira militar, foi promovido a Brigadeiro em 1994. Desempenhou o cargo de Comandante Operacional e de Comandante da Zona Militar da Madeira entre 1996 e 1998, como Major-General. Por ter atingido o limite de idade no posto, passou então à situação de reserva. Colaborou como poeta em diversos jornais e revistas, tendo a sua obra sido divulgada também aos micorfones da Emissora Católica de Angola e do Posto Emissor do Funchal. Está incluído no episcilégio de Luís Marino, "Musa Insular" (1959) e na antologia organizada por José António Gonçalves, "O Natal na Voz dos Poetas Madeirenses" (1989). Revelou-se, em 1970, com o opúsculo "Gestação de uma Nova Face", com prefácio de Horácio Bento de Gouveia, o qual está no prelo, revisto e aumentado.
 
 
****
 

POEMÁRIO

Assírio & Alvim

2004

 

 

 

EDWIN MUIR

 

 

Amigo, perdi o caminho.     Eco: O caminho prossegue.

Há outro caminho?     Eco: O caminho é só um.

Tenho de reconstruir o trilho.    Eco: Está perdido e desapareceu.

Para trás, tenho de caminhar para trás!    Eco: Nenhum vai lá ter, nenhum.

Então farei daqui o meu lugar.   Eco: A estrada continua.

Permanecerei imóvel e fixarei o meu rosto.    Eco: A estrada avança.

Ficarei aqui, ficarei para sempre.   Eco: Nenhum se fica por aqui, nenhum.

Não consigo encontrar o caminho.     Eco: O caminho prossegue.

Oh, os lugares por que passei!    Eco: Essa viagem acabou.

E o que virá por fim?    Eco: A estrada prossegue.

 

Edwin Muir

(1887-1959)

(in Rosa do Mundo-2001 Poemas para o Futuro;

Tradução de Cecília Rego Pinheiro)

 

***

 

 IMAGINÁRIO

Assírio & Alvim

2004

 

  (...)

   Quando alcançaram a hoste, já Artur e a sua hoste, formada por homens da Ilha dos Poderes haviam descido para Caer Fadon; e Rhonabway apercebeu-se que Iddawc e ele próprio estavam a seguir o mesmo caminho que Artur trilhara. Ao desmontarem dos cavalos, ouviram um grande alarido e deram conta de grande confusão nas fileiras da hoste, com os homens que guarneciam os flancos a passarem-se para o centro e os que ocupavam o centro a deslocarem-se para os flancos. E logo depois viram um cavaleiro que se acercava. E o cavaleiro e o seu cavalo vinham ambos vestidos com uma cota de malha, com os anéis de um branco mais branco que o branco da mais branca açucena e os cravos que cravejavam os anéis da malha eram de um vermelho mais vermelho que o vermelho do sangue mais vermelho. E o cavaleiro vinha cavalgando por entre as gente de aquela hoste.

    (...) 

 

"in "O Mabinogion (Contos Celtas Medievais)",

Tradução de José Domingos Morais)

 

*** 

Um poema inédito
 
de
 
José António Gonçalves
 
 
AMORES DE ARRAIAL
 
O louro ilustrava os mastros
das bandeiras nos arraiais - dizia
o vulto caminhando por sobre
as ruínas da igreja.
 
Ali prendia-se uma ponta
com gravetos e dava-se-lhe a volta
onde os namorados mordiscavam
as orelhas - aduzia a sombra
deixada para trás pelo vulto
exposta na cinza ainda quente.
 
Com o louro dava-se sabor
à carne e juntava-se-lhe o sal
e uns bocados de alho fresco
para a espetada sangrada -
murmurava outro combatente
ainda com um Cristo fumegante
nas mãos feridas pelo lume.
 
A culpa é do louro e da fome,
sem o louro não haveria espetada
a juntar os antigos amores
- sentenciava a volátil figura
entre luzes de adro
e de céu aberto ao desflorar
da geada invernosa
- e para quê? Só por ciúme?
Toda a gente sabe que paixões
de arraial são como as chuvadas
no meio do deserto do Sara:
dão sempre em nada.
 
- Olhem bem para o carvão
em que a igreja se tornou
desde o tecto ao chão,
do sacrário aos santos, à sacristia:
é como qualquer casa ardida.
 
- Ainda há vinho?  Já é madrugada.
Se nada se pode fazer pela igreja
cada um que vá à sua vida.
Credo em cruz
louvado seja.
 
José António Gonçalves
 
(inédito.15.11.03. Relato
de um sonho em cama no
Hospital Regional do Funchal)
 
JAG
 
 

Selecção e Montagem: JAG