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Albano Martins
APOLO
DITO STRANGFORD
Sem
braços
e sem
pernas,
como
podem
chamar-lhe Apolo?
E só
o sexo
aponta ainda
a
direcção do sol.
Albano Martins
(in
"A Voz do Olhar", 1998;
"Agenda Poética 2000 -
50
Anos de Vida Literária",
Edições Universidade
Fernando Pessoa,
org.
Beatriz Werget, 1999)
***
Bloco Poético de Notas
MISTÉRIO
mistério pensamos
de ti
que tens a suavidade
do vento nas flores
e no teu sorriso
sonhamos o veludo azul dos teus olhos
enquanto num horizonte longo de silêncio
escutamos
o impossível rumor dum rio entre as estrelas
IMAGEM
o pão branco
quando tu o mastigavas
o céu ardia
enrolando-se no fumo
SUGESTÃO
ainda não é hoje o
dia de amanhã
ou já foi
quando tu te debruçavas
e dançavas
com a farinha e a água
José Vultos Sequeira
nasceu em Mora, Alentejo, em 1945. Poeta e
autor de obras infanto-juvenis, foi distinguido
em concursos literários nacionais, desde o seu
primeiro livro, "A Lição das Coisas", com o
qual conquistou o 1º. Prémio de Literatura
Infanto-Juvenil da Associação Portuguesa de
Escritores/1980 (Edições 1 de Outubro).
Publicou, entre outros, "Da Semente ao Pão" (Ed.
Sismet, 1980), "As Histórias da Figueira"
(recomendado pelo Júri de Literatura para
Crianças da Fundação Calouste Gulbenkian, 1980),
salientando-se ainda as suas obras "Rosto
Operário" (Edição Caso, 1987) e "Praça de Sol"
(Edição Selva, 1991) e "Um Sol dentro de Casa"
(1998). Escreveu também uma novela "A Outra
Faena" (Edição Caso, 1980) e "Oficina Geral",
com desenhos de José Mouga (E. de A., 1999).
Personalidade curiosa, pela sua humildade,
sentimentos nobres, o antigo operário
converteu-se numa figura singular das letras
contemporâneas, onde granjeou o respeito e a
amizade sinceras, como as do pintor Artur Bual,
que o incluiu no seu Círculo. O seu sonho era
ser toureiro,mas honra-se da sua condição de
poeta.
***
PITADA DE SAL
O que diz
- Rudyard Kipling
SE...
Se
és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te
desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;
Se és capaz de pensar — sem que a
isso só te atires;
Se encontrando a desgraça e o
triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver
mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;
Se és capaz de arriscar numa única
parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: "Persiste!";
Se és capaz de, entre a plebe, não
te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma
utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por
segundo,
Ao mínimo fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E o que mais — tu serás um homem, ó meu filho!
(Tradução de
Guilherme de Almeida)
*
Rudyard Kipling
tornou-se mais famoso com um poema, o célebre "If...",
traduzido à letra pelo "Se..." em português, do que
pela sua vasta e preciosíssima obra, onde se destaca
o não mais renomado "Livro da Selva", adaptado a
incontáveis séries de televisão, cinema e desenhos
animados. Nascido na Índia, na cidade de Bombaim, em
1865, local onde o seu pai tinha a importante
posição de Conservador do Museu Lahore, chega a
viver durante seis anos em Iglaterra (1971-1982,
após o que retornou às suas raízes. A sua obra, que
lhe mereceu o Prémio Nobel da Literatura em 1907,
está impregnada da vivência exótica e da filosofia
orientais.
*
UM POETA
DA MADEIRA
IRENE DE
MENDONÇA E FREITAS
No Forte de
Santiago - o silêncio;
No Forte - as
ameias - vislumbre da conversa das aves, caravels de
corsários, negros fumos, alguns azuis, botes talvez,
ânforas douradas, pilhagens e não só, música da água,
fluxo-refluxo, "lodo, verde lodo, rochas molhadas, Golfo
da Biscaia, música de Grieg, nuvens abertas, destilar de
caudais, mar da Grécia, êxtases, freiras também, cabelo
escondido, asas de gaivota...
E nós, com
bocas de pássaros e pelo mar baptizados de Heróis
Gregos.
Um toque ao
de leve no meu ombro, um toque diáfano de amigo, para
levá-lo comigo assim nesta viagem (in)terrompida.
- "Faúlhas!"
- (disse-me ele) vermelhas e rubras e azuis, incêndio
magnífico, assim tangencial à linha do Horizonte.
- Ardera,
ardera tudo - (afirmei-lhe eu) até ao sorriso!
- Ardera
tudo! pensei.
Pôr-do-Sol!
(Inédito,
Maio- 1996)
Oração para
uma Viagem
Inspiro-me
nas aves,
e canto;
(têm o hálito
leve e surdo e sonham
e nem se
apercebem da aragem cálida das tardes)...
Fujo do peso
do Mundo
rarefaço as
ideias
a lógica
viajo ao
Impossível
"dependuro-me" lá,
aonde o Sol é
mais perto,
aonde o mar é
mais azul;
Corro à
procura de mim
encontro-me
depois, atrás do Sol-pôr, assim
Renascida
(por entre os Céus e a Terra)
de novo
Impoluta
De novo
Soberba
De novo,
indefesamente Segura
De novo e
novamente
Nas Mãos de
Deus!
(... e levo
comigo os que eu amo;
só porque Os
Amo!)...
(inédito)
Irene de Mendonça e
Freitas (n. Funchal, 1941) foi colaboradora de vários
suplementos literários na Região Autónoma da Madeira,
incluindo "A Pedra", do extinto "Comércio do Funchal" e
o "Suplemento Cultura", do "Notícias da Madeira"
(dirigido por José António Gonçalves, 1993). Encontra-se
representada nas colectâneas "Musa Insular" (Luís
Marino, Eco do Funchal, 1959) e "Vers'Arte 91" (J.A.Gonçalves,
AEM, 1991), assim como na edição bilingue/francês de
"Contos Contemporâneos da Madeira" (SRE). Em 1994, a
DRAC-Direcção Regional dos Assuntos Culturais editou-lhe
o livro de poemas "No Vértice da Palavra".
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POEMÁRIO
Assírio & Alvim
2004
TONINO GUERRA
O
camponês afeiçoou-se a uma cerejeira desde que sua mulher
faleceu. Todas
as manhãs a
visitava, afagando seu tronco. No mês em que o camponês
esteve de
cama, com
bronquite, também a cerejeira adoeceu. depois levantou-se e
voltou a
acariciá-la e a
falar-lhe e, rapidamente, a cerejeira de mil folhas enfeitou
seus ramos.
Um dia,
no mercado, ao comprar uma foice, o camponês sentiu um
irresistível
desejo de
regressar aos seus campos. Parecia-lhe que a cerejeira
precisava de si.
Encontrou-a toda
florida, sorrindo para ele.
Sentou-se,
então, sob a árvore, com as costas apoiadas no tronco e, de
improviso,
sobre o corpo do camponês, choveram todas as pétalas da
cerejeira em
flor.
Tonino Guerra
(1920)
(in
"Histórias para uma Noite de Calmaria",
Tradução de Mário Rui de Oliveira)
***
IMAGINÁRIO
Assírio & Alvim
2004
PAUL BOWLES
(...)
A terra era agora uma vastidão de
areia, salpicada aqui e ali de alguns arbustos
retorcidos
virados para baixo ante a virulenta luz do sol. Adiante, o
azul do céu ia
passando a
branco, com um clarão ainda mais intenso que nunca imaginara
ser
possível: assim
era o ar sobre a cidade. Antes de ter consciência dela, já
estavam a
passar pelas suas
muralhas cinzentas de lama. As crianças gritavam quando viam
a
camioneta, as
suas vozes eram como agulhas brilhantes. Port ainda tinha os
olhos
fechados; ela
resolveu não o incomodar até chegarem ao fim da viagem.
Fizeram
uma curva
pronunciada para a esquerda, levantando uma nuvem de poeira,
e
entraram por um
grande portão numa enorme praça aberta - uma espécie de
antecâmara da
cidade, na extremidade da qual havia outro portão, ainda
maior. Além,
os homens e os
animais desapareciam, mergulhados na escuridão. A camioneta
parou com um
solavanco, e o condutor saiu abruptamente e foi-se embora
com o ar
de quem não
tivesse mais nada a ver com aquilo.Os passageiros ainda
dormiam, ou
bocejavam e
começaram a olhar à procura das suas coisas, a maior parte
das quais
não se encontrava
nos lugares onde as tinham posto na noite anterior.
(...)
Paul Bowles
(1910-1999)
(in "O Céu que nos
Protege";
Tradução de José
Agostinho Baptista)
***
Um poema
inédito
de
José António
Gonçalves
ESSA PALAVRA
VINHO
não era pela
cor
nem pelo
aroma
nem pela
densidade
ou por outro
qualquer
dos seus
encantos
que se
definia a qualidade
de um bom
copo de vinho
no despertar
da minha idade
sempre em
correria
por todos os
cantos
o bom vinho
descobria-se
pela própria
palavra vinho
chegava
alguém à adega
ou à taberna
e sabia-se
logo da qualidade
do bom vinho
pela própria
palavra vinho
pelo timbre
de voz
com que se
dizia
vinho
a palavra
vinho entrava
no balcão e
abria a pipa
puxando o
vinho pela mangueira
e deitava-o
num copo
apenas um
copo
e alguém
bebia desse vinho
perante os
olhares brilhantes
de quem não
bebia
desse vinho
e então o
bebedor dizia
a palavra
vinho
é um bom
vinho
e todos
concordavam
em uníssono
em coro
celestial
isto sim é
vinho
é um bom
vinho
venha vinho
era por
Setembro
as uvas ao
Sol
desciam para
o cesto
de vimes
e entravam no
lagar
à espera da
pisa
e do bailado
da repisa
e dos cheiros
a água-pé
das vertigens
do bagaço
dos cantares
das raparigas
e dos homens
de pernas rubras
fazendo que
andam
mas não andam
ficando
sempre no mesmo
lugar
ao ritmo do
mesmo passo
dentro do
lagar
era por
Setembro
e vinham os
cuidados
depois do
lavar da cascadura
o endireitar
dos aros
o assegurar
com estacas
o movimento
do madeirame
e as sombras
no chão
de pedra-mole
para
adormecer o vinho
e acordá-lo
com enxofre
servindo-o à
luz da vela
no centro da
escuridão
e toda a
gente ficava
nas nuvens da
expectativa
à espera de
ser feita a prova
num bailado
de brindes
para honrar o
vinho novo
é vinho?
a pergunta
começava
girando no
meio do povo
na garganta
dos mais sedentos
e iluminava
ávidos olhares
fixos na luz
púrpura
do néctar dos
deuses
é vinho?
insistiam
insistiam
insistiam
como se o mundo
não tivesse
ontem
nem amanhã
nem presente
ah, como me
lembro
dos olhos
dessa gente.
é vinho! está
no ponto!
então a
rodada entrava
num rodízio
de felicitações
até chegar o
momento de acabar
o que
houvesse no vasilhame.
do paladar
gargarejante
dos escanções
reluzentes
e do expôr os
copos ao Sol
para o
despirem na cor
e do cuspir
no chão
o néctar dos
deuses
disso já não
me lembro
- se era
vinho
era vinho
o vinho bom
o vinho da
palavra vinho
e era todo
bebido
a começar por
Novembro
é vinho!
vamos
cá voltar mais
vezes
até tornar a
rebentar
o trabalho de
Setembro.
José António
Gonçalves
(inédito.15.11.03.Funchal)
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