A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

 

Fevereiro

12

 
 
 
 
 
Albano Martins
 
 
 
APOLO DITO STRANGFORD 
 
 
 
Sem braços
e sem pernas,
como podem
chamar-lhe Apolo?
E só o sexo
aponta ainda
a direcção do sol.
 
 
 
Albano Martins
 
 

(in "A Voz do Olhar", 1998;

"Agenda Poética 2000 -
50 Anos de Vida Literária",
Edições Universidade
Fernando Pessoa,
org. Beatriz Werget, 1999)
 
 
***
 
Bloco Poético de Notas 
 
 

JOSÉ VULTOS SEQUEIRA

 

 

MISTÉRIO

 

mistério pensamos
de ti
que tens a suavidade
do vento nas flores
e no teu sorriso
sonhamos o veludo azul dos teus olhos

enquanto num horizonte longo de silêncio
escutamos
o impossível rumor dum rio entre as estrelas

 

IMAGEM

o pão branco
quando tu o mastigavas
o céu ardia
enrolando-se no fumo


SUGESTÃO

ainda não é hoje o dia de amanhã
ou já foi
quando tu te debruçavas
e dançavas
com a farinha e a água

 

 

*

José Vultos Sequeira nasceu em Mora, Alentejo, em  1945. Poeta e autor de obras infanto-juvenis, foi distinguido em concursos literários nacionais, desde o seu primeiro livro, "A Lição das Coisas", com o qual conquistou o 1º. Prémio de Literatura Infanto-Juvenil da Associação Portuguesa de Escritores/1980 (Edições 1 de Outubro). Publicou, entre outros, "Da Semente ao Pão" (Ed. Sismet, 1980), "As Histórias da Figueira" (recomendado pelo Júri de Literatura para Crianças da Fundação Calouste Gulbenkian, 1980), salientando-se ainda as suas obras "Rosto Operário" (Edição Caso, 1987) e "Praça de Sol" (Edição Selva, 1991) e "Um Sol dentro de Casa" (1998). Escreveu também uma novela "A Outra Faena" (Edição Caso, 1980) e "Oficina Geral", com desenhos de José Mouga (E. de A., 1999). Personalidade curiosa, pela sua humildade, sentimentos nobres, o antigo operário converteu-se numa figura singular das letras contemporâneas, onde granjeou o respeito e a amizade sinceras, como as do pintor Artur Bual, que o incluiu no seu Círculo. O seu sonho era ser toureiro,mas honra-se da sua condição de poeta.

 
 
***
 
PITADA DE SAL 
 
O que diz - Rudyard Kipling
 
SE...
 
Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;
Se és capaz de pensar — sem que a isso só te atires;
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;
Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: "Persiste!";
Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao mínimo fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E o que mais — tu serás um homem, ó meu filho!
 
(Tradução de Guilherme de Almeida) 
 
 
*
 
 Rudyard Kipling tornou-se mais famoso com um poema, o célebre "If...", traduzido à letra pelo "Se..." em português, do que pela sua vasta e preciosíssima obra, onde se destaca o não mais renomado "Livro da Selva", adaptado a incontáveis séries de televisão, cinema e desenhos animados. Nascido na Índia, na cidade de Bombaim, em  1865, local onde o seu pai  tinha a importante posição de Conservador do Museu Lahore, chega a viver durante seis anos em Iglaterra (1971-1982, após o que retornou às suas raízes. A sua obra, que lhe mereceu o Prémio Nobel da Literatura em 1907, está impregnada da vivência exótica e da filosofia orientais.
 
 
 
 
*
 
UM POETA DA MADEIRA
 
 
IRENE DE MENDONÇA E FREITAS
 
 
 
No Forte de Santiago - o silêncio;
 
 
No Forte - as ameias - vislumbre da conversa das aves, caravels de corsários, negros fumos, alguns azuis, botes talvez, ânforas douradas, pilhagens e não só, música da água, fluxo-refluxo, "lodo, verde lodo, rochas molhadas, Golfo da Biscaia, música de Grieg, nuvens abertas, destilar de caudais, mar da Grécia, êxtases, freiras também, cabelo escondido, asas de gaivota...
 
E nós, com bocas de pássaros e pelo mar baptizados de Heróis Gregos.
 
Um toque ao de leve no meu ombro, um toque diáfano de amigo, para levá-lo comigo assim nesta viagem (in)terrompida.
 
- "Faúlhas!" - (disse-me ele) vermelhas e rubras e azuis, incêndio magnífico, assim tangencial à linha do Horizonte.
 
- Ardera, ardera tudo - (afirmei-lhe eu) até ao sorriso!
- Ardera tudo! pensei.
 
Pôr-do-Sol!
 
(Inédito, Maio- 1996)
 
 
 
 
Oração para uma Viagem
 
 
Inspiro-me nas aves,
e canto;
(têm o hálito leve e surdo e sonham
e nem se apercebem da aragem cálida das tardes)...
 
Fujo do peso do Mundo
rarefaço as ideias
a lógica
viajo ao Impossível
"dependuro-me" lá,
aonde o Sol é mais perto,
aonde o mar é mais azul;
 
Corro à procura de mim
encontro-me depois, atrás do Sol-pôr, assim
 
Renascida (por entre os Céus e a Terra)
de novo Impoluta
De novo Soberba
De novo, indefesamente Segura
De novo e novamente
Nas Mãos de Deus!
 
(... e levo comigo os que eu amo;
só porque Os Amo!)...
 
(inédito) 
 
 

*

 
Irene de Mendonça e Freitas (n. Funchal, 1941) foi colaboradora de vários suplementos literários na Região Autónoma da Madeira, incluindo "A Pedra", do extinto "Comércio do Funchal" e o "Suplemento Cultura", do "Notícias da Madeira" (dirigido por José António Gonçalves, 1993). Encontra-se representada nas colectâneas "Musa Insular" (Luís Marino, Eco do Funchal, 1959) e "Vers'Arte 91" (J.A.Gonçalves, AEM, 1991), assim como na edição bilingue/francês de "Contos Contemporâneos da Madeira" (SRE). Em 1994, a DRAC-Direcção Regional dos Assuntos Culturais editou-lhe o livro de poemas "No Vértice da Palavra".
 
 
 
****
 

 

POEMÁRIO

 

Assírio & Alvim

 

2004

 

  

 

TONINO GUERRA 

 

        O camponês afeiçoou-se a uma cerejeira desde que sua mulher faleceu. Todas

 

as manhãs a visitava, afagando seu tronco. No mês em que o camponês esteve de

 

cama, com bronquite, também a cerejeira adoeceu. depois levantou-se e voltou a

 

acariciá-la e a falar-lhe e, rapidamente, a cerejeira de mil folhas enfeitou seus ramos.

 

        Um dia, no mercado, ao comprar uma foice, o camponês sentiu um irresistível

 

desejo de regressar aos seus campos. Parecia-lhe que a cerejeira precisava de si.

 

Encontrou-a toda florida, sorrindo para ele.

 

     Sentou-se, então, sob a árvore, com as costas apoiadas no tronco e, de

 

improviso, sobre o corpo do camponês, choveram todas as pétalas da cerejeira em

 

flor.

  

 

 

Tonino Guerra

 

(1920)

 

(in "Histórias para uma Noite de Calmaria",

Tradução de Mário Rui de Oliveira)

 

 

 

***

 

 IMAGINÁRIO

 

Assírio & Alvim

 

2004

 

 

                                      

PAUL BOWLES

 

 

       

        (...)

       

    A terra era agora uma vastidão de areia, salpicada aqui e ali de alguns arbustos

 

retorcidos virados para baixo ante a virulenta luz do sol. Adiante, o azul do céu ia

 

passando a branco, com um clarão ainda mais intenso que nunca imaginara ser

 

possível: assim era o ar sobre a cidade. Antes de ter consciência dela, já estavam a

 

passar pelas suas muralhas cinzentas de lama. As crianças gritavam quando viam a

 

camioneta, as suas vozes eram como agulhas brilhantes. Port ainda tinha os olhos

 

fechados; ela resolveu não o incomodar até chegarem ao fim da viagem. Fizeram

 

uma curva pronunciada para a esquerda, levantando uma nuvem de poeira, e

 

entraram por um grande portão numa enorme praça aberta - uma espécie de

 

antecâmara da cidade, na extremidade da qual havia outro portão, ainda maior. Além,

 

os homens e os animais desapareciam, mergulhados na escuridão. A camioneta

 

parou com um solavanco, e o condutor saiu abruptamente e foi-se embora com o ar

 

de quem não tivesse mais nada a ver com aquilo.Os passageiros ainda dormiam, ou

 

bocejavam e começaram a olhar à procura das suas coisas, a maior parte das quais

 

não se encontrava nos lugares onde as tinham posto na noite anterior.

 

    (...)

   

 

 

Paul Bowles

 

(1910-1999)

 

(in "O Céu que nos Protege";

Tradução de José Agostinho Baptista)

 

 

 

*** 

 
Um poema inédito
 
de
 
José António Gonçalves
 
 
ESSA PALAVRA VINHO
 
 
 
não era pela cor
nem pelo aroma
nem pela densidade
ou por outro qualquer
dos seus encantos
que se definia a qualidade
de um bom copo de vinho
no despertar da minha idade
sempre em correria
por todos os cantos
 
o bom vinho descobria-se
pela própria palavra vinho
 
chegava alguém à adega
ou à taberna
e sabia-se logo da qualidade
do bom vinho
pela própria palavra vinho
pelo timbre de voz
com que se dizia
vinho
 
a palavra vinho entrava
no balcão e abria a pipa
puxando o vinho pela mangueira
e deitava-o num copo
apenas um copo
e alguém bebia desse vinho
perante os olhares brilhantes
de quem não bebia
desse vinho
 
e então o bebedor dizia
a palavra vinho
é um bom vinho
e todos concordavam
em uníssono
em coro celestial
isto sim é vinho
é um bom vinho
venha vinho
 
era por Setembro
as uvas ao Sol
desciam para o cesto
de vimes
e entravam no lagar
à espera da pisa
e do bailado da repisa
e dos cheiros a água-pé
das vertigens do bagaço
dos cantares das raparigas
e dos homens de pernas rubras
fazendo que andam
mas não andam
ficando sempre no mesmo
lugar
ao ritmo do mesmo passo
dentro do lagar
 
era por Setembro
e vinham os cuidados
depois do lavar da cascadura
o endireitar dos aros
o assegurar com estacas
o movimento do madeirame
e as sombras no chão
de pedra-mole
para adormecer o vinho
e acordá-lo com enxofre
servindo-o à luz da vela
no centro da escuridão
 
e toda a gente ficava
nas nuvens da expectativa
à espera de ser feita a prova
num bailado de brindes
para honrar o vinho novo
 
é vinho?
a pergunta começava
girando no meio do povo
na garganta dos mais sedentos
e iluminava ávidos olhares
fixos na luz púrpura
do néctar dos deuses
 
é vinho?
insistiam insistiam
insistiam como se o mundo
não tivesse ontem
nem amanhã nem presente
 
ah, como me lembro
dos olhos dessa gente.
 
é vinho! está no ponto!
então a rodada entrava
num rodízio de felicitações
até chegar o momento de acabar
o que houvesse no vasilhame.
 
do paladar gargarejante
dos escanções reluzentes
e do expôr os copos ao Sol
para o despirem na cor
e do cuspir no chão
o néctar dos deuses
disso já não me lembro
 
- se era vinho
era vinho
o vinho bom
o vinho da palavra vinho
e era todo
bebido
a começar por Novembro
 
é vinho!
vamos cá voltar mais vezes
até tornar a rebentar
o trabalho de Setembro. 
 
 
José António Gonçalves
 
(inédito.15.11.03.Funchal)
 
 
 
 
 

Selecção e Montagem: JAG