A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

 

Fevereiro

13

 
 
 
 
***
 
Albano Martins
 
 
 
 
Não foi
a beleza
que tivemos
por momentos
nas mãos. Afrodite
foi só
o relâmpago
aceso
durante a noite
que dura ainda.
 

  

Albano Martins
 
 

(in "A Voz do Olhar", 1998;

"Agenda Poética 2000 -
50 Anos de Vida Literária",
Edições Universidade
Fernando Pessoa,
org. Beatriz Werget, 1999)
 
 
***
 
Bloco Poético de Notas 
 
 

RUY BELO

  

E TUDO ERA POSSÍVEL 

Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar

das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar

da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer

(in "Homem de Palavra(s)", Ed. Presença, 1999)

 

POVOAMENTO

 

No teu amor por mim há uma rua que começa
Nem árvores nem casas existiam
antes que tu tivesses palavras
e todo eu fosse um coração para elas
Invento-te e o céu azula-se sobre esta
triste condição de ter de receber
dos choupos onde cantam
os impossíveis pássaros
a nova primavera
Tocam sinos e levantam voo
todos os cuidados
Ó meu amor nem minha mãe
tinha assim um regaço
como este dia tem
E eu chego e sento-me ao lado
da primavera

"in "Aquele Grande Rio Eufrates", Ed. Presença, 1996) 

 

JOSÉ O HOMEM DOS SONHOS

Que nome dar ao poeta
esse ser dos espantos medonhos?
Um só encontro próprio e justo:
o de josé o homem dos sonhos

Eu canto os pássaros e as árvores
Mas uns e outros nos versos ponho-os
Quem é que canta sem condição?
É josé o homem dos sonhos

Deus põe e o homem dispõe
E aquele que ao longo da vereda vem
homem sem pai e sem mãe
homem a quem a própria dor não dói
bíblico no nome e a comer medronhos
só pode ser josé o homem dos sonhos.

(in "O Homem de Palavra(s)", Ed. Presença, 1995) 

*

Ruy Belo, poeta e ensaísta português (1933-1978), era natural de São João da Ribeira, Rio Maior. Licenciado em Filologia Românica e em Direito pela Universidade de Lisboa, obteve o grau de doutor em Direito Canónico pela Universidade Gregoriana de Roma, com uma tese intitulada «Ficção Literária e Censura Eclesiástica». Exerceu, ainda que brevemente, um cargo de director-adjunto no então ministério da Educação Nacional, tendo também ocupado, um lugar de leitor de Português na Universidade de Madrid (1971-1977). Regressado, então, a Portugal, deu aulas na Escola Técnica do Cacém, no ensino nocturno. Em 1991 foi condecorado, a título póstumo, com o grau de Grande Oficial da Ordem Militar de Sant'iago da Espada. Na sua passagem pela imprensa, foi director literário da Editorial Aster e chefe de redacção da revista Rumo. Os seus primeiros livros de poesia foram Aquele Grande Rio Eufrates (1961) e O Problema da Habitação (1962). Às colectâneas de ensaios Poesia Nova (1961) e Na Senda da Poesia (1969). Seguiram-se obras cuja temática se prende ao religioso e ao metafísico, sob a forma de interrogações acerca da existência. É o caso de Boca Bilingue (1966), Homem de Palavras(s) (1969), País Possível (1973, antologia), Transporte no Tempo (1973), A Margem da Alegria (1974), Toda a Terra (1976) e Despeço-me da Terra da Alegria (1977). A sua obra, organizada em três volumes sob o título Obra Poética de Ruy Belo em 1981, foi, entretanto, alvo de revisitação crítica, sendo considerada uma das obras cimeiras, apesar da brevidade da vida do poeta, da poesia portuguesa contemporânea. Apesar do curto período de actividade literária, tornou-se um dos maiores poetas portugueses da segunda metade deste século, tendo as suas obras sido reeditadas diversas vezes. Destacou-se ainda pela tradução de autores como Antoine de Saint-Exupéry, Montesquieu, Jorge Luís Borges e Federico García Lorca. Em 2001, publica-se Todos os Poemas.

 

***
 
PITADA DE SAL 
 
O que diz - JOÃO LUÍS AGUIAR
 
 
 
 
DEIXA-ME EM CASA
 
"Hugo era aprendiz de escritor. Dizia ser aprendiz de escritor. Tirou um curso de criação literária depois das oito horas de trabalho na oficina de pintura do pai. Aprendeu todas as técnicas da arte de bem escrever: o monólogo, a descrição, os diálogos, a escrita automática, a poesia. Conviveu com as mais diferenciadas vozes. Chegou até a conviver com alguns escritores jubilados. Contudo continua a confessar que não sabe o que é isso que dá pelo nome de literatura. (...) Tentou o isolamento, a distância, a ausência, o recolhimento. Deixou a vida. A vida acontecia aos outros e ele escrevia. Morria. Morria escrevendo. A escrita matava. (...) A vida acontece primeiro; a literatura vem depois. (...) Sei que ainda vive pintando automóveis. Não sei se já escreve".
 
 
 
(in "Contos de Maré Cheia", Colecção "Prosas da Ilha",
Direcção e prefácio de José António Gonçalves, Editorial
Correio da Madeira, 1995)
 
 
*
 
 
João Luís Aguiar nasceu no Funchal em 1959. Licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto, é professor do Ensino Secundário na Madeira. Antigo dirigente sindical, é colaborador de vários órgãos de comunicação social, em páginas de literatura. Frequentou os cursos de "Criação Literária" e "Realização de Cinema, Vídeo e Multimédia" do Cine Forum do Funchal e foi fundador do Clube de Criação Cinematográfica da Escola da Escola Secundária  Dr. Ângelo Augusto da Silva. Está a preparar novos livros, depois de ter publicado em 1995 a sua obra "Contos de Maré Cheia". 
 
 
 
 
UM POETA DA MADEIRA
 
 
 
 
JOSÉ VITO BARRETO 
 
 
 
1º. POEMA DAS PALAVRAS
 
 
1
 
procuramos a dimensão exacta das palavras
nosso lento orgasmo de silêncio
ainda por construir
 
2
 
triste corola tua frouxa flor em holocausto exangue
nosso lento coito conjecturado
trabalhando
desde a forma ao fundo teu lindo corpo estatual
aquele corpo que lento se consome, ou, se queres
digo que te dou nas palavras a seiva doce da frase
 
3
 
as palavras são como esse teu desejo louco
de agarrar os pássaros e depois choro.
o choro pelas crianças famintas do biafra
ou essa tua ânsia fracasso impune procura esquálida
duma autenticidae frustradda  completamente frustrada.
 
4
 
justificação das palavras: construí o poema com o
sangue triste da revolta pensando plantar novas casas
sobre o absurdo da carne. o poema saíu triste seco
e sem nexo no esquecimento de um riso cristalino. 
 
 
 
 
(in "Ilha", Ed. Poesia 2000, Funchal, 1975)
 
 
 

*

 
José Vito Barreto (n. Canhas, Ponta do Sol, Madeira, 1955). Licenciado em Economia pelo Instituto Superior de Economia de Lisboa, em 1980, desde essa data que adoptou a Capital como local de residência, onde hoje é membro directivo de uma companhia seguradora. Nos anos setenta foi colaborador no Funchal do programa de rádio "Psicadélico", do "Suplemento 2000" do "Jornal da Madeira" e em 1993, do "Suplemento Cultura" do "Notícias da Madeira", ambos dirigidos por José António Gonçalves que também o incluiu na colectânea "Ilha", (Poesia 2000, 1975), com um conjunto de poemas.
 
 
*
 
****
 

 

POEMÁRIO

 

Assírio & Alvim

 

2004

 

 

 

 

TED HUGHES

 

 

A casa esteve toda a noite lá longe, no mar,

o bosque quebrando entre a escuridão, os montes troando,

o vento fustigando os campos sob as janelas,

também ele escuro nos seus volteios, cego e molhado,

 

até ao nascer do dia. Então, sob um céu alaranjado,

viam-se nesses montes lugares novos, o vento trazia

uma luz cortante, luminosidade negra e esmeralda

a ondular como se vista pelas lentes de uns olhos loucos.

 

Pelo meio-dia trepei por uma das paredes da casa

até à porta do depósito de carvão. Ousei olhar mais para cima:

por entre a força do vento que amolgava os meus olhos

os montes pareciam tendas a ressoar, retesadas nas cordas,

 

os campos estremeciam e via-se um esgar na linha do horizonte,

na iminência de rebentar e desaparecer com mais uma chicotada:

o vento arrancava dali uma pega e um alcatraz

de cauda preta a dobrar-se devagar como uma barra de ferro. A casa

 

retinia como se fosse uma fina taça verde prestes

a estilhaçar-se a qualquer momento. Enfiados

nas cadeiras frente ao lume, aperta-se-nos

o coração e não há livro ou pensamento que nos distraia nem somos

 

capazes de nos distrair uns com os outros. Olhamos o fogo a arder

e sentimos tremer os alicerces da casa, mas permanecemos sentados

vendo a janela a abanar, quase a cair para dentro,

ouvindo o grito das pedras sob o horizonte.

 

Ted Hughes

 

(1930-1998)

 

 

 

(in "O Fazer da Poesia";

Tradução de Helder Moura Pereira)

 

 

***

 

 

 

 

 IMAGINÁRIO

 

Assírio & Alvim

 

2004

 

 

                                      

TEIXEIRA DE PASCOAES

 

 

 

       

     (...)

     O homem superior volve os olhos para as estrelas, para cima, para as alturas do infinito; mas um animal irracional, o meu jerico, por exemplo, não tira os olhos da terra onde pousa as patas. Também há seres humanos que abençoam as trevas em que vivem. São os enviados da estupidez; que a estupidez, como a Inteligência, tem os seus ministros plenipotenciários neste mundo.

    Mas nós, meus amigos, elevemos os olhos para cima. Cultivemos a Poesia e, com ela, os verdadeiros sentimentos que devem orientar a nossa vida: a tolerância, a compaixão, a piedade, o amor do próximo e o amor de todas as cousas belas.

    O aperfeiçoamento da Humanidade depende do aperfeiçoamento de cada um dos indivíduos que a formam. Enquanto as partes não forem boas, o todo não pode ser bom. Os homens, na sua maioria, são ainda maus e é, por isso, que a sociedade enferma de tantos males. Não foi a sociedade que fez os homens; foram os homens que fizeram a sociedade.

    Quando os homens se tornarem bons, a sociedade tornar-se-á boa, sejam quais forem as bases políticas e económicas em que ela assente. Dizia um bispo francês que preferia um bom muçulmano a um mau cristão. Assim deve ser. As instituições aparecem com as virtudes ou com os defeitos dos homens que as representam.

    (...)

 

 

 

Teixeira de Pascoaes

 

(1877-1952)

 

(in "A Saudade e o Saudosismo")

 

 

 

*** 

 
Um poema inédito
 
de
 
José António Gonçalves
 
 
          
A MEMÓRIA DOS ELEFANTES
 
                     para minha mãe, Eulália
 
o que estará no círculo das águas
no redemoinho
que me atrai para o fundo
do verde para o negro último da luz
 
quantos serão as algas que me esperam
os moluscos os peixes saudosos
no abismo da minha mergulhança
nas manhãs de bruma
do janeiro frio
 
que força será essa que clama
por uma paga um sacrifício
no coração das correntezas
e nunca se detém
seja por quem for
como numa cascata infinita
 
quem é que me chama ainda
dessas horas líquidas despidas de sol
para pagar com a vida o uso
do sal que alimenta os oceanos
as aventuras dos homens e das naus
os repentinos mantos de negrume
as penumbrentas passagens
dos superpetroleiros incógnitos
e eu inocente culpado
dessas viagens
 
a minha ânsia é o afastamento da terra
o destino o ir ao encontro do horizonte
da linha desmaiada do crepúsculo
é o grito implodindo no peito
em direcção à fundura do abismo
o caderno de apontamentos dos horrores
o despertar confuso das descobertas
da memória dos elefantes
 
e prometo que não me esqueço
 
com a memória dos elefantes
reescreve-se a história
só o passado existe na calmaria
o futuro mantém-se em cinza
e nada mais será como era
ontem hoje amanhã
dantes
da própria
era
 
afoguem-me nesse círculo de água
para eu o transformar em areia
em terra em arvoredo em céus
num oásis onde os homens
possam crescer na sua condição
de homens
percorrendo todos os mares
na pista do perdão do afago
da mão recolhida dos deuses
 
(olha mãe o dia nasceu
com o espelho branco
da lua cheia)
 
 
José António Gonçalves
 
(inédito.12/2/04)
 

Selecção e Montagem: JAG