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Albano
Martins
Não foi
a beleza
que
tivemos
por
momentos
nas mãos.
Afrodite
foi só
o
relâmpago
aceso
durante a
noite
que dura
ainda.
Albano
Martins
(in "A
Voz do Olhar", 1998;
"Agenda
Poética 2000 -
50 Anos
de Vida Literária",
Edições
Universidade
Fernando
Pessoa,
org.
Beatriz Werget, 1999)
***
Bloco Poético de Notas
E TUDO ERA POSSÍVEL
Na minha
juventude antes de ter saído
da
casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido
Chegava o
mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido
E tudo se
passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer
Só sei
que tinha o poder duma criança
entre as
coisas e mim havia vizinhança
e tudo era
possível era só querer
(in
"Homem de Palavra(s)", Ed. Presença, 1999)
POVOAMENTO
No teu
amor por mim há uma rua que começa
Nem árvores nem casas existiam
antes que tu tivesses palavras
e todo eu fosse um coração para elas
Invento-te e o céu azula-se sobre esta
triste condição de ter de receber
dos choupos onde cantam
os impossíveis pássaros
a nova primavera
Tocam sinos e levantam voo
todos os cuidados
Ó meu
amor nem minha mãe
tinha assim um regaço
como este dia tem
E eu chego e sento-me ao lado
da primavera
"in "Aquele
Grande Rio Eufrates", Ed. Presença, 1996)
JOSÉ O
HOMEM DOS SONHOS
Que nome dar ao
poeta
esse ser dos espantos medonhos?
Um só encontro próprio e justo:
o de josé o homem dos sonhos
Eu canto os
pássaros e as árvores
Mas uns e outros nos versos ponho-os
Quem é que canta sem condição?
É josé o homem dos sonhos
Deus põe e o
homem dispõe
E aquele que ao longo da vereda vem
homem sem pai e sem mãe
homem a quem a própria dor não dói
bíblico no nome e a comer medronhos
só pode ser josé o homem dos sonhos.
(in "O Homem de
Palavra(s)", Ed. Presença, 1995)
*
Ruy Belo, poeta e
ensaísta português (1933-1978), era natural de São
João da Ribeira, Rio Maior. Licenciado em Filologia
Românica e em Direito pela Universidade de Lisboa,
obteve o grau de doutor em Direito Canónico pela
Universidade Gregoriana de Roma, com uma tese
intitulada «Ficção Literária e Censura
Eclesiástica». Exerceu, ainda que brevemente, um
cargo de director-adjunto no então ministério da
Educação Nacional, tendo também ocupado, um lugar de
leitor de Português na Universidade de Madrid
(1971-1977). Regressado, então, a Portugal, deu
aulas na Escola Técnica do Cacém, no ensino
nocturno. Em 1991 foi condecorado, a título póstumo,
com o grau de Grande Oficial da Ordem Militar de
Sant'iago da Espada. Na sua passagem pela imprensa,
foi director literário da Editorial Aster e chefe de
redacção da revista Rumo. Os seus primeiros
livros de poesia foram Aquele Grande Rio Eufrates
(1961) e O Problema da Habitação (1962). Às
colectâneas de ensaios Poesia Nova (1961) e
Na Senda da Poesia (1969). Seguiram-se obras
cuja temática se prende ao religioso e ao
metafísico, sob a forma de interrogações acerca da
existência. É o caso de Boca Bilingue (1966),
Homem de Palavras(s) (1969), País Possível
(1973, antologia), Transporte no Tempo
(1973), A Margem da Alegria (1974), Toda a
Terra (1976) e Despeço-me da Terra da Alegria
(1977). A sua obra, organizada em três volumes sob o
título Obra Poética de Ruy Belo em 1981, foi,
entretanto, alvo de revisitação crítica, sendo
considerada uma das obras cimeiras, apesar da
brevidade da vida do poeta, da poesia portuguesa
contemporânea. Apesar do curto período de actividade
literária, tornou-se um dos maiores poetas
portugueses da segunda metade deste século, tendo as
suas obras sido reeditadas diversas vezes.
Destacou-se ainda pela tradução de autores como
Antoine de Saint-Exupéry, Montesquieu, Jorge Luís
Borges e Federico García Lorca. Em 2001, publica-se
Todos os Poemas.
***
PITADA DE SAL
O que diz -
JOÃO LUÍS AGUIAR
DEIXA-ME EM
CASA
"Hugo era
aprendiz de escritor. Dizia ser aprendiz de escritor.
Tirou um curso de criação literária depois das oito
horas de trabalho na oficina de pintura do pai. Aprendeu
todas as técnicas da arte de bem escrever: o monólogo, a
descrição, os diálogos, a escrita automática, a poesia.
Conviveu com as mais diferenciadas vozes. Chegou até a
conviver com alguns escritores jubilados. Contudo
continua a confessar que não sabe o que é isso que dá
pelo nome de literatura. (...) Tentou o isolamento, a
distância, a ausência, o recolhimento. Deixou a vida. A
vida acontecia aos outros e ele escrevia. Morria. Morria
escrevendo. A escrita matava. (...) A vida acontece
primeiro; a literatura vem depois. (...) Sei que ainda
vive pintando automóveis. Não sei se já escreve".
(in "Contos de Maré
Cheia", Colecção "Prosas da Ilha",
Direcção e prefácio
de José António Gonçalves, Editorial
Correio da Madeira,
1995)
*
João
Luís Aguiar nasceu no Funchal em 1959. Licenciado em
Filosofia pela Universidade do Porto, é professor do
Ensino Secundário na Madeira. Antigo dirigente sindical,
é colaborador de vários órgãos de comunicação social, em
páginas de literatura. Frequentou os cursos de "Criação
Literária" e "Realização de Cinema, Vídeo e Multimédia"
do Cine Forum do Funchal e foi fundador do Clube de
Criação Cinematográfica da Escola da Escola Secundária
Dr. Ângelo Augusto da Silva. Está a preparar novos
livros, depois de ter publicado em 1995 a sua obra
"Contos de Maré Cheia".
UM POETA DA
MADEIRA
JOSÉ
VITO
BARRETO
1
procuramos a
dimensão exacta das palavras
nosso lento
orgasmo de silêncio
ainda por
construir
2
triste corola tua
frouxa flor em holocausto exangue
nosso lento coito
conjecturado
trabalhando
desde a forma ao
fundo teu lindo corpo estatual
aquele corpo que
lento se consome, ou, se queres
digo que te dou
nas palavras a seiva doce da frase
3
as palavras são
como esse teu desejo louco
de agarrar os
pássaros e depois choro.
o choro pelas
crianças famintas do biafra
ou essa tua ânsia
fracasso impune procura esquálida
duma autenticidae
frustradda completamente frustrada.
4
justificação das
palavras: construí o poema com o
sangue triste da
revolta pensando plantar novas casas
sobre o absurdo
da carne. o poema saíu triste seco
e sem nexo
no esquecimento de um riso cristalino.
(in "Ilha", Ed.
Poesia 2000, Funchal, 1975)
José Vito Barreto
(n. Canhas, Ponta do Sol, Madeira, 1955). Licenciado em
Economia pelo Instituto Superior de Economia de Lisboa, em
1980, desde essa data que adoptou a Capital como local de
residência, onde hoje é membro directivo de uma companhia
seguradora. Nos anos setenta foi colaborador no Funchal do
programa de rádio "Psicadélico", do "Suplemento 2000" do
"Jornal da Madeira" e em 1993, do "Suplemento Cultura" do
"Notícias da Madeira", ambos dirigidos por José António
Gonçalves que também o incluiu na colectânea "Ilha", (Poesia
2000, 1975), com um conjunto de poemas.
*
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POEMÁRIO
Assírio & Alvim
2004
A casa esteve toda a
noite lá longe, no mar,
o bosque quebrando
entre a escuridão, os montes troando,
o vento fustigando os campos
sob as janelas,
também ele escuro nos seus
volteios, cego e molhado,
até ao nascer do dia. Então,
sob um céu alaranjado,
viam-se nesses montes lugares
novos, o vento trazia
uma luz cortante, luminosidade
negra e esmeralda
a ondular como se vista pelas
lentes de uns olhos loucos.
Pelo meio-dia trepei por uma
das paredes da casa
até à porta do depósito de
carvão. Ousei olhar mais para cima:
por entre a força do vento que
amolgava os meus olhos
os montes pareciam tendas a
ressoar, retesadas nas cordas,
os campos estremeciam e via-se
um esgar na linha do horizonte,
na iminência de rebentar e
desaparecer com mais uma chicotada:
o vento arrancava dali uma
pega e um alcatraz
de cauda preta a dobrar-se
devagar como uma barra de ferro. A casa
retinia como se fosse uma fina
taça verde prestes
a estilhaçar-se a qualquer
momento. Enfiados
nas cadeiras frente ao lume,
aperta-se-nos
o coração e não há livro ou
pensamento que nos distraia nem somos
capazes de nos distrair uns
com os outros. Olhamos o fogo a arder
e sentimos tremer os alicerces
da casa, mas permanecemos sentados
vendo a janela a abanar, quase
a cair para dentro,
ouvindo o grito das pedras sob
o horizonte.
Ted Hughes
(1930-1998)
Tradução de Helder Moura Pereira)
***
IMAGINÁRIO
Assírio & Alvim
2004
TEIXEIRA DE PASCOAES
(...)
O homem superior
volve os olhos para as estrelas, para cima, para as alturas do
infinito; mas um animal irracional, o meu jerico, por exemplo,
não tira os olhos da terra onde pousa as patas. Também há seres
humanos que abençoam as trevas em que vivem. São os enviados da
estupidez; que a estupidez, como a Inteligência, tem os seus
ministros plenipotenciários neste mundo.
Mas nós, meus
amigos, elevemos os olhos para cima. Cultivemos a Poesia e, com
ela, os verdadeiros sentimentos que devem orientar a nossa vida:
a tolerância, a compaixão, a piedade, o amor do próximo e o amor
de todas as cousas belas.
O aperfeiçoamento
da Humanidade depende do aperfeiçoamento de cada um dos
indivíduos que a formam. Enquanto as partes não forem boas, o
todo não pode ser bom. Os homens, na sua maioria, são ainda maus
e é, por isso, que a sociedade enferma de tantos males. Não foi
a sociedade que fez os homens; foram os homens que fizeram a
sociedade.
Quando os homens
se tornarem bons, a sociedade tornar-se-á boa, sejam quais forem
as bases políticas e económicas em que ela assente. Dizia um
bispo francês que preferia um bom muçulmano a um mau cristão.
Assim deve ser. As instituições aparecem com as virtudes ou com
os defeitos dos homens que as representam.
(...)
Teixeira de Pascoaes
(1877-1952)
(in "A Saudade e o
Saudosismo")
***
Um poema
inédito
de
José António
Gonçalves
A MEMÓRIA DOS
ELEFANTES
para minha
mãe, Eulália
o que estará no
círculo das águas
no redemoinho
que me atrai para
o fundo
do verde para o
negro último da luz
quantos serão as
algas que me esperam
os moluscos os
peixes saudosos
no abismo da
minha mergulhança
nas manhãs de
bruma
do janeiro frio
que força será
essa que clama
por uma paga um
sacrifício
no coração das
correntezas
e nunca se detém
seja por quem for
como numa cascata
infinita
quem é que me
chama ainda
dessas horas
líquidas despidas de sol
para pagar com a
vida o uso
do sal que
alimenta os oceanos
as aventuras dos
homens e das naus
os repentinos
mantos de negrume
as penumbrentas
passagens
dos
superpetroleiros incógnitos
e eu inocente
culpado
dessas viagens
a minha ânsia é o
afastamento da terra
o destino o ir ao
encontro do horizonte
da linha
desmaiada do crepúsculo
é o grito
implodindo no peito
em direcção à
fundura do abismo
o caderno de
apontamentos dos horrores
o despertar
confuso das descobertas
da memória dos
elefantes
e prometo que não
me esqueço
com a memória dos
elefantes
reescreve-se a
história
só o
passado existe na calmaria
o futuro
mantém-se em cinza
e nada mais será
como era
ontem hoje amanhã
dantes
da própria
era
afoguem-me nesse
círculo de água
para eu o
transformar em areia
em terra em
arvoredo em céus
num oásis onde os
homens
possam crescer na
sua condição
de homens
percorrendo todos
os mares
na pista do
perdão do afago
da mão recolhida
dos deuses
(olha mãe o dia
nasceu
com o espelho
branco
da lua cheia)
José António
Gonçalves
(inédito.12/2/04)
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