A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

 

Fevereiro

14

 
 
***
 
 
Albano Martins
 
 
Só os cabelos
lhe cingem
as feições. Eu não
lhes chamaria flores. Diria
simplesmente que se trata
de um enorme enxame de abelhas
prestes
a assaltar-lhe a boca
e a devorar-lhe
a maçã dos lábios. E deles
fazer um duplo
favo de mel.
 
 

 

Albano Martins
 
 

(in "A Voz do Olhar", 1998;

"Agenda Poética 2000 -
50 Anos de Vida Literária",
Edições Universidade
Fernando Pessoa,
org. Beatriz Werget, 1999)
 
***
 
Bloco Poético de Notas 
 
AFFONSO ROMANO DE SANT'ANA

 

 

Amor e Medo
                                                                   
 
Estou te amando e não percebo,
porque, certo, tenho medo.
Estou te amando, sim, concedo,
mas te amando tanto
que nem a mim mesmo
revelo este segredo.
 
 
 (in CD "Affonso Romano de Sant'Anna por Tônia Carrero"
  da Coleção "Poesia Falada").

 

  

Separação

 

Desmontar a casa

e o amor. Despregar

os sentimentos

das paredes e lençóis.

Recolher as cortinas

após a tempestade

das conversas.

 

O amor não resistiu

às balas, pragas, flores

e os corpos de intermédio.

 

Empilhar livros, quadros,

discos e remorsos.

Esperar o infernal

juízo final do desamor.

 

Vizinhos se assustam de manhã

ante os destroços junto à porta:

- pareciam se amar tanto!

Houve um tempo:

                  uma casa de campo,

                  fotos em Veneza,

um tempo em que sorridente

o amor aglutinava festas e jantares.

 

Armou-se um certo modo de despir-se,

de pentear-se.

Amou-se um sorriso e um certo

modo de botar a mesa. Amou-se

um certo modo de amar.

No entanto, o amor bate em retirada

com suas roupas amassadas, tropas de insultos

malas desesperadas, soluços embargados.

 

Faltou amor no amor?

Gastou-se o amor por amor?

Fartou-se o amor?

 

No quarto dos filhos

outra derrota à vista:

bonecos e brinquedos pendem

numa colagem de afetos natimortos.

 

O amor ruiu e tem pressa de ir embora

envergonhado.

Erguerá outra casa, o amor?

Escolherá objectos, morará na praia?

Viajará na neve e na neblina?

 

Tonto, perplexo e sem rumo

um corpo sai porta afora

com pedaços de passado na cabeça

e um impreciso futuro.

No peito o coração pesa

mais que uma mala de chumbo.

                             

(in "Poeti Brasiliani Contemporanei",

a cura de Silvio Castro, tradução de

Giampaolo Tonini, Veneza, 1996).

*

Affonso Romano de Sant'Anna, mineiro de 1937, nasceu em berço pobre. Pagou seus estudos de primário e ginásio carregando marmitas, trouxas de roupas para lavadeiras, vendendo papel e balas no cinema. De bicicleta, vendia seus produtos de armazém em armazém; enquanto esperava ser atendido, lia os livros que conseguia nas bibliotecas do SESI e do SAPS. Cursou a faculdade de Letras de Belo Horizonte e trabalhou em bancos e em jornais para custear seus estudos universitários. Em 1956 coordenou movimentos de vanguarda e no ano seguinte, engajou-se numa experiência diferente, o "Madrigal Renascentista", onde usou sua bela voz de barítono, regida por Isaac Karabtchevsky. No ano de 1962 lançou seu primeiro livro, o ensaio "O Desemprego da Poesia". Em 1969 apresentou sua tese de doutorado "Carlos Drumond de Andrade, o Poeta 'Gauche', no Tempo e Espaço.", publicado em 1972 e que lhe garantiu os quatro prêmios mais importantes no universo literário brasileiro. No Rio de Janeiro, ensinou na PUC e na UFRJ. Durante 1973 e 76 dirigiu o Departamento de Letras e Artes da PUC/RJ. Após várias estadias como professor em algumas das principais universidades norte-americana, foi convidado em 1978 para a cadeira de Literatura na Universidade de Colônia, na Alemanha. Em 1981/1982 foi para a França leccionar como professor visitante em Aix-en-Provence. Presidiu o Conselho do Centro Regional para o Fomento do Livro na América Latina e no Caribe (CERLALC), no período 1993/1995), sendo também o Secretário Geral da Associação das Bibliotecas Nacionais Ibero-Americanas (1995/1996), que reúne 22 instituições. Proferiu conferências em diversos países, entre outros: México, Dinamarca, Chile, Canadá, Argentina, Portugal (incluindo a ilha da Madeira), Estados Unidos e Espanha. Foi Presidente da Fundação Biblioteca Nacional,   1990/1996. Por este trabalho recebeu o Prêmio Especial de Marketing - concedido pela Associação Brasileira de Marketing. Autor de vasta bibliografia em diversos géneros literários (incluindo antologias dentro e fora do Brasil, realce para alguns dos seus livros de natureza poética: "A Poesia Possível" (poesia reunida) - 1987 - Rocco/RJ; "O Lado Esquerdo do Meu Peito"- 1991 - Rocco/RJ; "Epitáfio para o século XX" (antologia) - 1997 - Ediouro/SP; "Melhores poemas de Affonso Romano de Sant'ana- Global/SP;  "A grande fala e Catedral de Colônia" (ed. comemorativa) -1998 - Rocco, Rio; "O intervalo amoroso" (antologia). - 1999 - L&PM/Porto Alegre; "Textamentos" - 1999 - Rocco/RJ.

 

***
 
PITADA DE SAL 
 
O que diz - DÓRDIO GUIMARÃES
 
 
 
Que anjos te levaram de mim sem meu consentimento?
Quem excedeu o direito do meu amor e de minha entrega?
Ignoraram-me como à vida se despreza e raptaram-te, a ti,
que tanta pressa tinhas de escrever um tanto mais.
Não te deixaram concluir o projecto de iniciação em nuvem,
traíram a tua temporada ao serviço desse deus de cobiça e ciúme.
 
9/4/93
 
Que júbilo seria entrares por essa porta,
mesmo cansada, mesmo exausta, mesmo porta
e solenemente pronta dares-me um beijo e logo
exaurires nos meus braços o teu desconhecido.
 
Apenas isso, por um minuto, por uma imagem,
inteira como a visita da paloma que és e ressuscita.
 
10/4/93
 
(in "Cynthia e a Absoluta Viagem",
 
*
Dórdio Guimarães (n. Porto, 1938; f. Lisboa, 1997) dedicou toda a sua vida à sua musa e esposa, já no fim da vida, da escritora Natália Correia. Nâo resistiu durante muito tempo ao desgosto da perda de "Cynthia", como ele a chamava. Toda a sua obra foi-lhe dedicada, mesmo quando escrevia sobre outros. Realizador de cinema e televisão, editor, jornalista, crítico, poeta, revelou-se com o livro "Tempo Imediato (Ed. Confluência, 1961), tendo publicado no Funchal o seu último, numa edição organizada por José António Gonçalves, na Editorial Correio da Madeira, com o título de "Única" (1995).
 

 

 
 
UM POETA DA MADEIRA
 
 
 
VIOLETA TEIXEIRA
 
 

 

Evolam-se. São volutas
De incenso. Inalo-as.
Voos velozes de ópios.
Viagens ilúcidas,
Alucinantes.
 
Ovos oclusos nos
Labitintos gélidos dos
Bosques marinhos.
 
Ascensão e queda
Da carne insurrecta do poeta.
 
*
 
                    Para o meu amigo Abílio Febra
                                                (Artista Plástico)
 
Não dormem
As pedras. Têm
lumes nos olhos.
 
Aquecem o sono
Dos pássaros. Pulsam
Nas palavras do poeta.
 
*
 
Canto a cegonha-negra, o abutre-do-Egipto,
O corvo-marinho-de-faces-brancas,
O bufo-real, a águia real, a águia de Bonelli,
O grifo, o papa-figos. Canto, em suma, uma
Avifauna especial, que me sobrevoa os neurónios,
Quando as insónias se instalam nos lençóis da
Noite, estilhaça-me a clepsidra,
Põe-me a reler os Pessanha, os Baudelaire,
E a enalar os fumos do ópio do tempo em
Que os poetas tertuliavam nos fumoirs.
 
 
*
 
Sem efeito de fecho,
A vós, voyeurs do pathós
Do Outro, digo-vos tão-só
Que sou um bicho ferozmente ferido,
Tão ferido, que sacio a fome de verde,
A sede dos sonhos, que não sonho,
O cio de um corpo proibido,
Sem que, da pastagem, se solte
O frémito das crinas de um afecto,
Salvo no lençol freático do escrito.
 
*
 
Faz-me, da boca,
Uma foz!
 
Fá-lo!
Desagua seiva.
Lava. Espuma.
 
Nasça-me
Uma lagoa, onde
Floresça uma lua-d'água
que me saiba ser tua.
 
*
 
Falo-te de casas-casas
 
 
Falo-te das casas que são pedra e terra
E sangue; falo-te das casas que são bocas
Amantes dos azuis luzentes, do sumo
Das laranjas astrais, dos voos apolíneos
E musicais; falo-te das casas, cujo hálito
São ervas verdes olorosas, corolas
De vermelhos líquidos e quentes; falo-te
Das casas que são carícias de areias
E de brisas de pinhos marítimos; falo-te
Das casas que são conchas com bichos
Dentro; falo-te de cantatas de águas e espumas
Brancas, se balanceando, como folhas de álamos.
 
Falo-te, em suma, das casas-casas.
Falo-te das casas, onde não me coube,
Onde nunca me coube o ser-me
Respiração dentro.
 
 
 
(in "Resinas de Abulia",
Ed. Magno, DRAC-2003)  
 
 
 

*

 
Violeta Carmelita Teixeira dos Santos nasceu no Funchal (Madeira). Licenciada em Filologia Romântica pela Universidade de Letras de Lisboa, é professora na Escola Secundária de Francisco Rodrigues Lobo, em Leiria, onde reside há cerca de trinta anos. É co-autora de manuais escolares de Português A, para os 10º., 11º., e 12º., anos e participou na colectânea "Juntos por Timor Loro Sae" (1999). É autora de cinco livros de poesia: " "Falo-vos de Silêncio" (1999), "Lânguidas Fúrias" (2000), "Afluentes Lunares" (1º. Prémio CM de Leiria, "Afonso Lopes Vieira"2001), "Partos de Pandora" (2002) e "Resinas de Abulia" (2003). 
 
 
*
 
****
 

 

POEMÁRIO

 

Assírio & Alvim

 

2004

 

 

 

    NOVALIS

 

 

 

Estamos

 

 

 

sós

 

 

 

com

 

 

 

 

tudo o que

 

 

 

amamos.

 

 

 

NOVALIS

 

(1772-1801)

 

(in "Fragmentos",

trad., Mário Cesariny)

 

 

 

***

 

 

 

 

 IMAGINÁRIO

 

Assírio & Alvim

 

2004

 

 

                                      

GUSTAVO ADOLFO BÉCQUER

 

 

       

 

     Ela era formosa, formosa com essa formosura que suscita a vertigem, com essa formosura que em nada se parece com a que sonhamos com anjos e que, no entanto, é sobrenatural; formosura diabólica, que talvez o Demónio empreste a alguns seres para os tornar seus instrumentos na terra.

    Ele amava-a; amava-a com esse amor que não conhece freio nem limites; amava-a com esse amor em que se procura o gozo e só se encontram martírios, amor que se assemelha à felicidade e que, não obstante, dir-se-ia que o céu o infunde para expiação de uma culpa.

    Ela era caprichosa, caprichosa e extravagante, como todas as mulheres do mundo; ele, supersticioso, supersticioso e valente, como todos os homens do seu tempo. Ela chamava-se María Antúnez; ele, Pedro Alfonso de Orellana. Os dois eram toledanos e os dois viviam na mesma cidade que os viu nascer.

    A tradição que esta maravilhosa história conta, acontecida há muitos anos, nada mais diz acerca dos personagens que foram seus heróis. (...)

 

 

Gustavo Adolfo Bécquer

 

 

(1836-1870)

 

 

(in "Lendas",

trad. José Domingos Morais)

 

 

 

*** 

 
Um poema inédito
 
de
 
José António Gonçalves
 
 
 
VELHAS IMAGENS
 
a prisão é o ombro aconchegante
recebendo o peso da cabeça voluntariamente
a palavra tranquilizadora dos ocasos
a luz da vela iluminando os sótãos
revelando a nitidez dos contornos das sombras             
e descodificando os títulos dos livros empoeirados
 
a liberdade corre pelos vales
bate asas nas tardes de caça nas penas
suadas das codornizes condenadas à morte
e espelha-se nos lagos das estampas escondidas
por detrás dos armários vazios das casas
disfarçando a solidão que as atormenta
 
o prisioneiro acalenta acordar na manhã seguinte
com as mãos agitando o ar e o corpo vertical
vendo-se a passear na ausência do silêncio da cela
e sonha deitar-se na areia de uma praia distante
escutando o mar acariciando a dureza do calhau
pintando o horizonte com a cor dos olhos da amada
 
no seu imaginário cinzento as velhas imagens
reinventam em torvelinho desconhecidas paisagens
sem se lembrar de mais nada 
 
 
José António Gonçalves
 
(inédito.17/10/99)

 

Selecção e Montagem: JAG