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Albano
Martins
Só os
cabelos
lhe
cingem
as
feições. Eu não
lhes
chamaria flores. Diria
simplesmente que se trata
de um
enorme enxame de abelhas
prestes
a
assaltar-lhe a boca
e a
devorar-lhe
a maçã
dos lábios. E deles
fazer um
duplo
favo de
mel.
Albano
Martins
(in "A
Voz do Olhar", 1998;
"Agenda
Poética 2000 -
50 Anos
de Vida Literária",
Edições
Universidade
Fernando
Pessoa,
org.
Beatriz Werget, 1999)
***
Bloco Poético de Notas
AFFONSO ROMANO DE
SANT'ANA
Amor e Medo
Estou te
amando e não percebo,
porque, certo, tenho medo.
Estou te amando, sim, concedo,
mas te amando tanto
que nem a mim mesmo
revelo este segredo.
(in CD "Affonso
Romano de Sant'Anna por Tônia Carrero"
da Coleção
"Poesia Falada").
e os corpos de
intermédio.
Empilhar livros,
quadros,
Vizinhos se
assustam de manhã
ante os destroços
junto à porta:
- pareciam se
amar tanto!
um tempo em que
sorridente
o amor aglutinava
festas e jantares.
Armou-se um certo
modo de despir-se,
Amou-se um
sorriso e um certo
modo de botar a
mesa. Amou-se
No entanto, o
amor bate em retirada
com suas roupas
amassadas, tropas de insultos
malas
desesperadas, soluços embargados.
Gastou-se o amor
por amor?
bonecos e
brinquedos pendem
numa colagem de
afetos natimortos.
O amor ruiu e tem
pressa de ir embora
Erguerá outra
casa, o amor?
Escolherá
objectos, morará na praia?
Viajará na neve e
na neblina?
Tonto, perplexo e
sem rumo
com pedaços de
passado na cabeça
mais que uma mala
de chumbo.
(in "Poeti
Brasiliani Contemporanei",
a cura de Silvio
Castro, tradução de
Giampaolo Tonini, Veneza,
1996).
*
Affonso Romano de
Sant'Anna, mineiro de 1937, nasceu em berço pobre.
Pagou seus estudos de primário e ginásio carregando
marmitas, trouxas de roupas para lavadeiras,
vendendo papel e balas no cinema. De bicicleta,
vendia seus produtos de armazém em armazém; enquanto
esperava ser atendido, lia os livros que conseguia
nas bibliotecas do SESI e do SAPS. Cursou a
faculdade de Letras de Belo Horizonte e trabalhou em
bancos e em jornais para custear seus estudos
universitários. Em 1956 coordenou movimentos de
vanguarda e no ano seguinte, engajou-se numa
experiência diferente, o "Madrigal Renascentista",
onde usou sua bela voz de barítono, regida por Isaac
Karabtchevsky. No ano de 1962 lançou seu primeiro
livro, o ensaio "O Desemprego da Poesia". Em 1969
apresentou sua tese de doutorado "Carlos Drumond de
Andrade, o Poeta 'Gauche', no Tempo e Espaço.",
publicado em 1972 e que lhe garantiu os quatro
prêmios mais importantes no universo literário
brasileiro. No Rio de Janeiro, ensinou na PUC e na
UFRJ. Durante 1973 e 76 dirigiu o Departamento de
Letras e Artes da PUC/RJ. Após várias estadias como
professor em algumas das principais universidades
norte-americana, foi convidado em 1978 para a
cadeira de Literatura na Universidade de Colônia, na
Alemanha. Em 1981/1982 foi para a França leccionar
como professor visitante em Aix-en-Provence.
Presidiu o Conselho do Centro Regional para o
Fomento do Livro na América Latina e no Caribe (CERLALC),
no período 1993/1995), sendo também o Secretário
Geral da Associação das Bibliotecas Nacionais
Ibero-Americanas (1995/1996), que reúne 22
instituições. Proferiu conferências em diversos
países, entre outros: México, Dinamarca, Chile,
Canadá, Argentina, Portugal (incluindo a ilha da
Madeira), Estados Unidos e Espanha. Foi Presidente
da Fundação Biblioteca Nacional, 1990/1996. Por
este trabalho recebeu o Prêmio Especial de Marketing
- concedido pela Associação Brasileira de Marketing.
Autor de vasta bibliografia em diversos géneros
literários (incluindo antologias dentro e fora do
Brasil, realce para alguns dos seus livros de
natureza poética: "A Poesia Possível" (poesia
reunida) - 1987 - Rocco/RJ; "O Lado Esquerdo do Meu
Peito"- 1991 - Rocco/RJ; "Epitáfio para o século XX"
(antologia) - 1997 - Ediouro/SP; "Melhores poemas de
Affonso Romano de Sant'ana- Global/SP; "A grande
fala e Catedral de Colônia" (ed. comemorativa) -1998
- Rocco, Rio; "O intervalo amoroso" (antologia). -
1999 - L&PM/Porto Alegre; "Textamentos" - 1999 -
Rocco/RJ.
***
PITADA DE SAL
O que diz -
DÓRDIO GUIMARÃES
Que anjos te levaram
de mim sem meu consentimento?
Quem excedeu o direito
do meu amor e de minha entrega?
Ignoraram-me como à
vida se despreza e raptaram-te, a ti,
que tanta pressa
tinhas de escrever um tanto mais.
Não te deixaram
concluir o projecto de iniciação em nuvem,
traíram a tua
temporada ao serviço desse deus de cobiça e ciúme.
9/4/93
Que júbilo seria
entrares por essa porta,
mesmo cansada, mesmo
exausta, mesmo porta
e solenemente pronta
dares-me um beijo e logo
exaurires nos meus
braços o teu desconhecido.
Apenas isso, por um
minuto, por uma imagem,
inteira como a visita
da paloma que és e ressuscita.
10/4/93
(in "Cynthia
e a Absoluta Viagem",
*
Dórdio
Guimarães (n. Porto, 1938; f. Lisboa, 1997) dedicou toda
a sua vida à sua musa e esposa, já no fim da vida, da
escritora Natália Correia. Nâo resistiu durante muito
tempo ao desgosto da perda de "Cynthia", como ele a
chamava. Toda a sua obra foi-lhe dedicada, mesmo quando
escrevia sobre outros. Realizador de cinema e televisão,
editor, jornalista, crítico, poeta, revelou-se com o
livro "Tempo Imediato (Ed. Confluência, 1961), tendo
publicado no Funchal o seu último, numa edição
organizada por José António Gonçalves, na Editorial
Correio da Madeira, com o título de "Única" (1995).
UM POETA DA
MADEIRA
VIOLETA TEIXEIRA
Evolam-se. São
volutas
De incenso.
Inalo-as.
Voos velozes de
ópios.
Viagens ilúcidas,
Alucinantes.
Ovos oclusos nos
Labitintos
gélidos dos
Bosques marinhos.
Ascensão e queda
Da carne
insurrecta do poeta.
*
Para o meu amigo Abílio Febra
(Artista Plástico)
Não dormem
As pedras. Têm
lumes nos olhos.
Aquecem o sono
Dos pássaros.
Pulsam
Nas palavras do
poeta.
*
Canto a
cegonha-negra, o abutre-do-Egipto,
O
corvo-marinho-de-faces-brancas,
O bufo-real, a
águia real, a águia de Bonelli,
O grifo, o
papa-figos. Canto, em suma, uma
Avifauna
especial, que me sobrevoa os neurónios,
Quando as
insónias se instalam nos lençóis da
Noite,
estilhaça-me a clepsidra,
Põe-me a reler os
Pessanha, os Baudelaire,
E a enalar os
fumos do ópio do tempo em
Que os poetas
tertuliavam nos fumoirs.
*
Sem efeito de
fecho,
A vós,
voyeurs do pathós
Do Outro,
digo-vos tão-só
Que sou um bicho
ferozmente ferido,
Tão ferido, que
sacio a fome de verde,
A sede dos
sonhos, que não sonho,
O cio de um corpo
proibido,
Sem que, da
pastagem, se solte
O frémito das
crinas de um afecto,
Salvo no lençol
freático do escrito.
*
Faz-me, da boca,
Uma foz!
Fá-lo!
Desagua seiva.
Lava. Espuma.
Nasça-me
Uma lagoa, onde
Floresça uma
lua-d'água
que me saiba ser
tua.
*
Falo-te de
casas-casas
Falo-te das casas
que são pedra e terra
E sangue; falo-te
das casas que são bocas
Amantes dos azuis
luzentes, do sumo
Das laranjas
astrais, dos voos apolíneos
E musicais;
falo-te das casas, cujo hálito
São ervas verdes
olorosas, corolas
De vermelhos
líquidos e quentes; falo-te
Das casas que são
carícias de areias
E de brisas de
pinhos marítimos; falo-te
Das casas que são
conchas com bichos
Dentro; falo-te
de cantatas de águas e espumas
Brancas, se
balanceando, como folhas de álamos.
Falo-te, em suma,
das casas-casas.
Falo-te das
casas, onde não me coube,
Onde nunca me
coube o ser-me
Respiração
dentro.
(in "Resinas de
Abulia",
Ed. Magno,
DRAC-2003)
Violeta Carmelita
Teixeira dos Santos nasceu no Funchal (Madeira). Licenciada
em Filologia Romântica pela Universidade de Letras de
Lisboa, é professora na Escola Secundária de Francisco
Rodrigues Lobo, em Leiria, onde reside há cerca de trinta
anos. É co-autora de manuais escolares de Português A, para
os 10º., 11º., e 12º., anos e participou na colectânea
"Juntos por Timor Loro Sae" (1999). É autora de cinco livros
de poesia: " "Falo-vos de Silêncio" (1999), "Lânguidas
Fúrias" (2000), "Afluentes Lunares" (1º. Prémio CM de
Leiria, "Afonso Lopes Vieira"2001), "Partos de Pandora"
(2002) e "Resinas de Abulia" (2003).
*
****
POEMÁRIO
Assírio & Alvim
2004
NOVALIS
Estamos
sós
com
tudo o que
amamos.
NOVALIS
(1772-1801)
(in "Fragmentos",
trad., Mário Cesariny)
***
IMAGINÁRIO
Assírio & Alvim
2004
GUSTAVO ADOLFO
BÉCQUER
Ela era formosa,
formosa com essa formosura que suscita a vertigem, com essa
formosura que em nada se parece com a que sonhamos com anjos e
que, no entanto, é sobrenatural; formosura diabólica, que talvez
o Demónio empreste a alguns seres para os tornar seus
instrumentos na terra.
Ele amava-a; amava-a com
esse amor que não conhece freio nem limites; amava-a com esse
amor em que se procura o gozo e só se encontram martírios, amor
que se assemelha à felicidade e que, não obstante, dir-se-ia que
o céu o infunde para expiação de uma culpa.
Ela era caprichosa,
caprichosa e extravagante, como todas as mulheres do mundo; ele,
supersticioso, supersticioso e valente, como todos os homens do
seu tempo. Ela chamava-se María Antúnez; ele, Pedro Alfonso de
Orellana. Os dois eram toledanos e os dois viviam na mesma
cidade que os viu nascer.
A tradição que esta
maravilhosa história conta, acontecida há muitos anos, nada mais
diz acerca dos personagens que foram seus heróis. (...)
Gustavo Adolfo
Bécquer
(1836-1870)
(in "Lendas",
trad. José Domingos
Morais)
***
Um poema
inédito
de
José António
Gonçalves
VELHAS IMAGENS
a prisão é o ombro
aconchegante
recebendo o peso da cabeça
voluntariamente
a palavra tranquilizadora
dos ocasos
a luz da vela iluminando
os sótãos
revelando a nitidez dos
contornos das sombras
e descodificando os
títulos dos livros empoeirados
a liberdade corre pelos
vales
bate asas nas tardes de
caça nas penas
suadas das codornizes
condenadas à morte
e espelha-se nos lagos das
estampas escondidas
por detrás dos armários
vazios das casas
disfarçando a solidão que
as atormenta
o prisioneiro acalenta
acordar na manhã seguinte
com as mãos agitando o ar
e o corpo vertical
vendo-se a passear na
ausência do silêncio da cela
e sonha deitar-se na areia
de uma praia distante
escutando o mar
acariciando a dureza do calhau
pintando o horizonte com a
cor dos olhos da amada
no seu imaginário cinzento
as velhas imagens
reinventam em torvelinho
desconhecidas paisagens
sem se lembrar de mais
nada
José António
Gonçalves
(inédito.17/10/99)
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