PITADA
DE SAL
O que diz - MÁRIO
PINTO
A noite continuou áspera. Nunca
mais me encontrei,
nem sei se morri, mas não quero
voltar a nascer. Serei
quem sou, sem enganos nem
reparos. Prefiro estes bares a
esses outros hermeticamente
fechados e esteticamente
desolados. Estou farto de bocejos
largos a pepsodent e de
falar com intelectuais de barba
aparada, prefiro um sorriso
de alguém desconhecido e que até
diga alguns disparates
ou prometa que um dia me trará um
garrafão de vinho da
sua aldeia. Embora saiba e
conheça o bê-à-bá da circuns-
tância, gosto de ouvir este tipo
de promessas, fazem-me
lembrar cheiros e gostos que
conservo de criança, quando
pela mão de meu pai passeava nas
feiras e entrava nas
barracas de frango de churrasco,
febras e sopa de couves
com feijão sempre a sair.
(in "Monossílabo", Coimbra, 1994)
*
Mário Pinto teve o seu destino
ligado à sua escrita. Nascido em 1959 em Coimbra (onde
estudou e se diplomou em Administração Autárquica), era
um sonhador, não se sabendo hoje se é vivo ou morto. A
sua última aventura foi ter viajado para Angola, ao
serviço do ensino voluntário, onde dizem que poderá ter
marcado encontro com uma bala perdida, nos idos anos
90. Ao nível literário pertenceu ao NERP (Barreiro) e
colaborou na revista "Última Geração" (Porto). Para além
de colaborações esparsas (O Despertar, Correio da Manhã,
Suplemento Ler e Escrever do "Diário de Lisboa"), foi
professor e tertuliano (integrando o grupo de amigos de
Dórdio Guimarães e Natália Correia), tendo publicado,
entre outros, os livros "Trapézio da memória" (1992) e
"Monossílabo" (1994), sendo José António Gonçalves fiel
depositário da sua última obra, ainda inédita, cuja
edição está a ser por este preparada.
*
UM POETA DA
MADEIRA
JOÃO LUÍS DE ORNELAS
TEIXEIRA
VIAGEM NO SANGUE DUM FUTURO QUALQUER
Ao amigo Herberto Helder
- Poeta de "A Colher na
Boca"
Eclodiu automática a emoção incontida
Subitamente concretizada sentiu-se
sem apoio
Um vácuo angustiante viajou
disfarçado no íntimo
E ficou alheio à paisagem circundante
vogando sem sentido
Preso às chamas vorazes dum sonho
inconsequente
Sem participar da viagem no sangue
dum futuro qualquer
Recolhi nas mãos esguias e inquietas
os gestos que se perderam
Bruma cinéria duma Ilha estática e
esquecida da navegação
Onde os homens-substâncias
estratificam-se em camadas paralelas
Repousantes, em habilidades débeis,
mas horrivelmente cómodas.
Possuído do desejo das cousas
irrealizáveis pressentiu uma Verdade
Exigente como era ao apelo das forças
interiores abalou para longe
O rumo era difícil e incerto e,
apesar (ou talvez por isso) definitivo
(in "Da Ilha que Somos", volume
colectivo, org. A. J. Vieira de Freitas, CMF, 1977)
QUISERA SER OUTRO
Quisera ser outro
Como se não me bastasse ser eu!...
Quisera ser outro
E arremessei virilmente meus despojos
Das íntimas batalhas passadas.
O vento do entusiasmo levou as cinzas
para longe
Olhei-me ao espelho da vida. Não me
conheci.
Ignorado (para sempre) qual o real?
Ora, desconheço-me doutrora
Sabe-me tanto a outro não-eu...
Quisera ser outro...
Sem deixar de ser eu...
E, ora vejo, adaga luminosa
Do meu sonho árabe
Longe-vagante,
Meu débil ser
Num espasmo sanguíneo
Escrever convulso na terra
A história do que não fui
Mas viria a ser.
Quisera ser outro
Sem deixar de ser eu...
E, fiquei eternamente ancorado
Ao cais da Criação
Esperando a redenção do ser.
(in "Da Ilha que Somos", volume
colectivo, org. A. J. Vieira de Freitas, CMF, 1977)
O já desaparecido poeta madeirense
deixou uma sua autobiografia para a posteridade, antes de
conhecer a fama, ao escrever a letra do Hino da Autonomia da
Madeira, na sequência da Constituição da República
Portuguesa de 1976, a qual aqui se reproduz:
(Autobiografia) - "Madeirense, por
nascimento, por direito consanguíneo e assumpção.
Regionalista. Humanista. Existencialista («eu sou eu e a
minha circunstância»). "Rebelde e gitano". Delicado sem ser
frágil. Emigrou para Moçambique onde teve vários empregos.
Colaboração: Eco do Funchal, "O Barbante" (órgão dos
gráficos de L. M.). Direcção do "Madeira Press". Livro
inédito de poemas e duas novelas.
Adora leões e leopardos, bossa-nova,
vinhos de mesa e comida regional. Não se considera génio,
mas impõe a sua individualidade. É anti-convencional. Sua
frase preferida, a de Óscar Wilde: "Nada alcança tanto êxito
como o excesso".
***
Um poema inédito
de
José António
Gonçalves
O MAR DOS PARDAIS
para a Gilda
continuar a sonhar
a água está impedida
pela língua
de areia
recua primeiro e avança
em turbilhão
sobre a mulher
ela sonha o pesadelo da água
e pensa em mar
e ele acontece
é um pressuposto de ondas
em gosto de sal
e molha os pés
desconhece-se o tempo a hora
o poder do sol
o lugar da árvore
mas bastou-lhe pensar em tronco
em folhas verdes
e chegou um prado
com o sonho invadido por pardais
o canto esgotou os ramos
e estremeceu os frutos
a árvore foi escurecendo
aos poucos e era noite
no seu pesadelo
o olhar prendia-se ao templo
no brilho dos relâmpagos
ao espelho das sombras
a água voou na distância
e banhou as asas
dos pardais
e a praia recebeu as vagas
como um descampado
ama os pássaros
afastando as ervas daninhas
deu-lhe de comer
e chorou a sua água
José António Gonçalves
(inédito.15/2/04)