A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

 

Fevereiro

15

 
 
 
  
***
 
 
Albano Martins
 
 
O ingénuo
escultor
representou assim
a fecundidade:
deixou-lhe nus
os seios e o útero
fechado. E só o rosto
crispado
diz que a vida
está prestes
a nascer. E é
dos olhos
também fechados
que jorra o leite
da maternidade.
 

 

Albano Martins
 
 

(in "A Voz do Olhar", 1998;

"Agenda Poética 2000 -
50 Anos de Vida Literária",
Edições Universidade
Fernando Pessoa,
org. Beatriz Werget, 1999)
 
 
 
 
***
 
Bloco Poético de Notas 
 
  
 
 
LUÍS ADRIANO CARLOS
 
 
 
LÉXICO NÓRDICO
 
Do busto aos joelhos
nem sempre se acende o lume.
 
*
 
Entre o gelo e a chama
escuta-se um rumor
de águas invisíveis.
 
*
 
Em cada palavra no ar
há dois voos indistintos.
 
*
 
Por uma noite não valia a pena
acenderem-se todas as estrelas.
Uma de cada vez nos bastava só.
 
*
 
Das tuas mãos ao pólo norte
não existe espaço nem para a morte.
 
*
 
Num bocejo adormeceste
fora da minha cama.
 
*
 
Do léxico ao sexo
nos derramámos
em noites parciais
de um nunca sempre
quase.
 
*
 
Frio
e breve
quase nunca
muda sempre.
 
*
 
De nada nos amamos
como se fora entrudo.
 
*
 
Em meu coração as terças-feiras
lembram-me barcos dinamarqueses.
 
 
(in "A Mecânica do Sexxo XXI", Quási, 2003)
 
 
 
 
DEZEMBRO
 
 
No teu sorriso de vidro
o frio escorre das paredes de dezembro.
 
Congela as cinzas de um amor decepado.
 
No abismo do teu rosto
as lágrimas de orvalho são icebergues nórdicos.
 
Vagueiam à deriva em meus olhos de mar.
 
No teu bafo de névoa
as palavras trazem regatos de gelo.
 
Escuto-as no silêncio da árvores nuas.
 
No teu corpo combustível
imagino um livro em que leio o fogo.
 
E acendo uma fogueira por dentro do inverno.
 
 
 
(in "A Mecânica do Sexxo XXI", Quási, 2003)
 
 
*
 
É no território das palavras
que sonhas fabricar as ruínas
da manhã dos pássaros.
 
É no coração dos lábios
que a pólvora espreita o lume
e o deflagrar da tarde.
 
É no leito do poema
que vens plantar a sombra
onde as facas brilham.
 
É nas vertentes do rosto
que podes beber o sangue
das sílabas torturadas.
 
(in "A Mecânica do Sexxo XXI", Quási, 2003)
 
 

* 

Luís Adriano Carlos, ensaísta, poeta, crítico e professor universitário, autor das primeiras teses de mestrado e de doutoramento sobre a obra de Jorge de Sena, nasceu em Vila Nova de Foz Côa, em 1959. Premiado pela APE, pela sua obra "Fenomenologia do Discurso Poético - Ensaio sobre Jorge de Sena" (Campo das Letras), é Professor na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e tem no seu haver  livros de ficção, ensaio e de poesia - A Mecânica do Sexo XX, A Invenção do Problema, Livro de Receitas e A Mecânica do Século XXI, entre outros. Também cuidou das edições das obras completas de Luís Veiga Leitão, Políbio Gomes dos Santos, Saul Dias e Alberto de Serpa. Realce para um novo volume de ensaios, Uma Literatura no Inferno.

 
 
 
 
 
 
***
 
PITADA DE SAL 
 
O que diz - MÁRIO PINTO
 
 
 
 
A noite continuou áspera. Nunca mais me encontrei,
nem sei se morri, mas não quero voltar a nascer. Serei
quem sou, sem enganos nem reparos. Prefiro estes bares a
esses outros hermeticamente fechados e esteticamente
desolados. Estou farto de bocejos largos a pepsodent e de
falar com intelectuais de barba aparada, prefiro um sorriso
de alguém desconhecido e que até diga alguns disparates
ou prometa que um dia me trará um garrafão de vinho da
sua aldeia. Embora saiba e conheça o bê-à-bá da circuns-
tância, gosto de ouvir este tipo de promessas, fazem-me
lembrar cheiros e gostos que conservo de criança, quando
pela mão de meu pai passeava nas feiras e entrava nas
barracas de frango de churrasco, febras e sopa de couves
com feijão sempre a sair.
 
 

 

(in "Monossílabo", Coimbra, 1994)
 
 
 
*
Mário Pinto teve o seu destino ligado à sua escrita. Nascido em 1959 em Coimbra (onde estudou e se diplomou em Administração Autárquica), era um sonhador, não se sabendo hoje se é vivo ou morto. A sua última aventura foi ter viajado para Angola, ao serviço do ensino voluntário, onde dizem que poderá ter marcado encontro com uma bala perdida, nos idos anos 90.  Ao nível literário pertenceu ao NERP (Barreiro) e colaborou na revista "Última Geração" (Porto). Para além de colaborações esparsas (O Despertar, Correio da Manhã, Suplemento Ler e Escrever do "Diário de Lisboa"), foi professor e tertuliano (integrando o grupo de amigos de Dórdio Guimarães e Natália Correia), tendo publicado, entre outros, os livros "Trapézio da memória" (1992) e "Monossílabo" (1994), sendo José António Gonçalves fiel depositário da sua última obra, ainda inédita, cuja edição está a ser por este preparada.
 
*
 
UM POETA DA MADEIRA
 
 
 
JOÃO LUÍS DE ORNELAS TEIXEIRA
 
 
 
 
 
VIAGEM NO SANGUE DUM FUTURO QUALQUER
 
        Ao amigo Herberto Helder
        - Poeta de "A Colher na Boca"
 
Eclodiu automática a emoção incontida
Subitamente concretizada sentiu-se sem apoio
Um vácuo angustiante viajou disfarçado no íntimo
E ficou alheio à paisagem circundante vogando sem sentido
Preso às chamas vorazes dum sonho inconsequente
Sem participar da viagem no sangue dum futuro qualquer
Recolhi nas mãos esguias e inquietas os gestos que se perderam
Bruma cinéria duma Ilha estática e esquecida da navegação
Onde os homens-substâncias estratificam-se em camadas paralelas
Repousantes, em habilidades débeis, mas horrivelmente cómodas.
Possuído do desejo das cousas irrealizáveis pressentiu uma Verdade
Exigente como era ao apelo das forças interiores abalou para longe
O rumo era difícil e incerto e, apesar (ou talvez por isso) definitivo
 
 
(in "Da Ilha que Somos", volume colectivo, org. A. J. Vieira de Freitas, CMF, 1977)
 
 
 
QUISERA SER OUTRO
 
 
Quisera ser outro
Como se não me bastasse ser eu!...
 
Quisera ser outro
E arremessei virilmente meus despojos
Das íntimas batalhas passadas.
 
O vento do entusiasmo levou as cinzas para longe
Olhei-me ao espelho da vida. Não me conheci.
Ignorado (para sempre) qual o real?
 
Ora, desconheço-me doutrora
Sabe-me tanto a outro não-eu...
 
Quisera ser outro...
Sem deixar de ser eu...
 
E, ora vejo, adaga luminosa
Do meu sonho árabe
Longe-vagante,
Meu débil ser
Num espasmo sanguíneo
Escrever convulso na terra
A história do que não fui
Mas viria a ser.
 
Quisera ser outro
Sem deixar de ser eu...
E, fiquei eternamente ancorado
Ao cais da Criação
Esperando a redenção do ser.
 
(in "Da Ilha que Somos", volume colectivo, org. A. J. Vieira de Freitas, CMF, 1977)
 
 
 

*

 
O já desaparecido poeta madeirense deixou uma sua autobiografia para a posteridade, antes de conhecer a fama, ao escrever a letra do Hino da Autonomia da Madeira, na sequência da Constituição da República Portuguesa de 1976, a qual aqui se reproduz:
 
(Autobiografia) - "Madeirense,  por nascimento,  por direito consanguíneo e assumpção. Regionalista. Humanista. Existencialista («eu sou eu e a minha circunstância»). "Rebelde e gitano". Delicado sem ser frágil. Emigrou para Moçambique onde teve vários empregos. Colaboração: Eco do Funchal, "O Barbante" (órgão dos gráficos de L. M.). Direcção do "Madeira Press". Livro inédito de poemas e duas novelas.
Adora leões e leopardos, bossa-nova, vinhos de mesa e comida regional. Não se considera génio, mas impõe a sua individualidade. É anti-convencional. Sua frase preferida, a de Óscar Wilde: "Nada alcança tanto êxito como o excesso".
 
 

 

*** 

 
Um poema inédito
 
de
 
José António Gonçalves
 
 

 

 
 
O MAR DOS PARDAIS
 
 
                                        para a Gilda continuar a sonhar                                                
 
 
 
a água está impedida
pela língua
de areia
 
 
recua primeiro e avança
em turbilhão
sobre a mulher
 
 
ela sonha o pesadelo da água
e pensa em mar
e ele acontece
 
 
é um pressuposto de ondas
em gosto de sal
e molha os pés
 
 
desconhece-se o tempo a hora
o poder do sol
o lugar da árvore
 
 
mas bastou-lhe pensar em tronco
em folhas verdes
e chegou um prado
 
 
com o sonho invadido por pardais
o canto esgotou os ramos
e estremeceu os frutos
 
 
a árvore foi escurecendo
aos poucos e era noite
no seu pesadelo
 
 
 
o olhar prendia-se ao templo
no brilho dos relâmpagos
ao espelho das sombras
 
 
 
a água voou na distância
e banhou as asas
dos pardais
 
 
 
e a praia recebeu as vagas
como um descampado
ama os pássaros
 
 
 
afastando as ervas daninhas
deu-lhe de comer
e chorou a sua água
 
 
 
José António Gonçalves
 
(inédito.15/2/04)
 
 
 
 
 
 
 
 

Selecção e Montagem: JAG