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Albano Martins
O que a maçã,
lavada
do seu peso,
diz à balança
do espaço
é isto:
deixa-me voar,
que já tenho asas.
Albano Martins
(in "A Voz do Olhar", 1998;
"Agenda Poética 2000 -
50 Anos de Vida Literária",
Edições Universidade
Fernando Pessoa,
org. Beatriz Werget, 1999)
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Bloco Poético de Notas
VASCO GRAÇA MOURA
não és mais do que as outras, mas és nossa, e crescemos em ti. nem se imagina que alguma vez uma outra língua possa pôr-te incolor, ou inodora, insossa, ser remédio brutal, mera aspirina, ou tirar-nos de vez de alguma fossa, ou dar-nos vida nova e repentina. mas é o teu país que te destroça, o teu próprio país quer-te esquecer e a sua condição te contamina e no seu dia a dia te assassina. mostras por ti o que lhe vais fazer: vai-se por cá mingando e desistindo, e desde ti nos deitas a perder e fazes com que fuja o teu poder enquanto o mundo vai de nós fugindo: ruiu a casa que és do nosso ser e este anda por isso desavindo connosco, no sentir e no entender, mas sem que a desavença nos importe nós já falamos nem sequer fingindo que só ruínas vamos repetindo. talvez seja o processo ou o desnorte que mostra como é realidade a relação da língua com a morte, o nó que faz com ela e que entrecorte a corrente da vida na cidade. mais valia que fossem de outra sorte em cada um a força da vontade e tão filosofais melancolias nessa escusada busca da verdade e que a ti nos prendesse melhor grade. bem que ao longo do tempo ensurdecias, nublando-se entre nós os teus cristais, e entre gentes remotas descobrias o que não eram notas tropicais perdidas no enredar das nossas vias por desvairados, lúgubres sinais, mísera sorte, estranha condição, em que, por nos perdermos, te perdias. neste turvo presente tu te esvais, por ser combate de armas desiguais. matam-te a casa, a escola, a profissão, a técnica, a ciência, a propaganda, o discurso político, a paixão de estranhas novidades, a ciranda da violência alvar que não abranda entre rádios, jornais, televisão. e toda a gente o diz, mesmo essa que anda por tempos de ignomínia mais feliz e o repete por luxo e não comanda, com o bafo de hienas dos covis, mais que uma vela vã nos ventos panda cheia do podre cheiro a que tresanda. foste memória, música e matriz de um áspero combate: apreender e dominar o mundo e as mais subtis equações em que é igual a xis qualquer das dimensões do conhecer, dizer de amor e morte, e a quem quis e soube utilizar-te, do viver, do mais simples viver quotidiano, de ilusões e silêncios, desengano, sombras e luz, risadas e prazer e dor e sofrimento, e de ano a ano, passarem aves, ceifas, estações, o trabalho, o sossego, o tempo insano do sobressalto a vir a todo o pano, e bonanças também e tais razões que no mundo costumam suceder e deslumbram na só variedade de seu modo, lugar e qualidade, e coisas certas, inexactidões, venturas, infortúnios, cativeiros, e paisagens e luas e monções, e os caminhos da terra a percorrer, e arados, atrelagens e veleiros, pedacinhos de conchas, verde jade, doces luminescências e luzeiros, que podias dizer e desdizer no teu corpo de tempo e liberdade. agora que és refugo e cicatriz esperança nenhuma hás-de manter: o teu próprio domínio foi proscrito, laje de lousa gasta em que algum giz se esborratou informe em borrões vis. de assim acontecer, ficou-te o mito de seres de vastos, vários e distantes mundos que serves mal nos degradantes modos de nós contigo. nem o grito da vida e do poema são bastantes, por ser devido a um outro e duro atrito que tu partiste até as próprias jantes nos estradões da história: estava escrito que iam desconjuntar-te os teus falantes na terra em que nasceste. eu acredito que te fizeram avaria grossa. não rodarás nas rotas como dantes, quer murmures, escrevas, fales, cantes, mas apesar de tudo ainda és nossa, e crescemos em ti. nem imaginas que alguma vez uma outra língua possa pôr-te incolor, ou inodora, insossa, ser remédio brutal, vãs aspirinas, ou tirar-nos de vez de alguma fossa, ou dar-nos vidas novas repentinas. enredada em vilezas, ódios, troça, no teu próprio país te contaminas e é dele essa miséria que te roça. mas com o que te resta me iluminas.
Crónica
eram barcos e barcos que largavam fez-se dessa matéria a nossa vida marujos e soldados que embarcavam e gente que chorava à despedida
ficámos sempre ou quase ou por um triz correndo atrás das sombras inseguras sempre a sonhar com índias e brasis e a descobrir as próprias desventuras
memória avermelhada dos corais com sangue e sofrimento amalgamados se rasga escuridões e temporais traz-nos também nas algas enredados
e ganhou-se e perdeu-se a navegar por má fortuna e vento repentino e o tempo foi passando devagar tão devagar nas rodas do destino
que ou nós nos encontramos ou então ficamos uma vez mais à deriva neste canto que é nosso próprio chão sem que o canto sequer nos sobreviva
(in "Letras do Fado Vulgar")
Vasco Graça Moura nasceu no Porto, em 1942. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa. Ocupa actualmente um cargo directivo na Fundação Gulbenkian. Tradutor, ensaísta, poeta e romancista, por diversas vezes premiado.
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PITADA DE SAL
O que diz - FRANCISCO FERNANDES
"E um belo dia chegou a surpresa! Um rádio, um Nordmend, lembro-me bem, novinho em folha, com um teclado que parecia uma dentadura de marfim, um mostrador brilhante com luz por dentro, com um «ponteiro» vertical vermelho que era accionado, à direita, por um botão branco e redondo, gémeo de outro que estava à esquerda, mas esse só servia para aumentar ou baixar o volume. Quando se ligava parecia que se libertava lentamente de uma hibernação, produzia ruídos de estática enquanto aquecia e se rodava o tal da direita, até que surgia uma voz ou um som musicalmais ou menos afinado. Ficámos todos à volta do aparelho que a minha mãe começava a dominarr na técnica e nas opções.
Acho que esse foi o momento de maior alegria que vi bailar nos olhos da minha mãe.
Nos dias que se seguiram, ouvia pela noite dentro os sons da busca e os resultados da mesma. Parecia que procurava qualquer coisa em especial.
- Se encontrares, baixa o volume - dizia o meu pai.
- Hei-de encontrar ... - respondia a minha mãe.
Uma noite ouvi comentários que não consegui definir. Percebi que o som tinha baixado. Fiquei curioso e dirigi-me ao quarto dos meus pais, onde a telefonia (pois claro, telefonia!, e eu a chamar-lhe rádio!) estava alojada.
Olharam-me, primeiro suspeitando que se tratasse de mais uma manifestação de sonambulismo em que eu era perito e, depois, quando me perceberam bem acordado, pareceram comprometidos. Ouvi uma voz de 'baixo', voz de poeta, soube depois. Vim mais tarde a saber que era a do Manuel Alegre.
Estavam ouvindo, baixinho, a Rádio Argel/Rádio Portugal Livre, a rádio que só falava a verdade..."
(in "Memórias com Mar", Colecção Terra à Vista, 5, Ed. Arguim-Madeira2002)
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Francisco Fernandes (Funchal, 1952) é o actual Secretário Regional da Educação no Governo da Madeira. Economista, é licenciado em Finanças e Mestre em Gestão do Desporto. Foi professor do Ensino Preparatório e presidente do Instituto do Desporto da RAM. A sua obra literária distribui-se pelo ensaio, a crónica, a narrativa e a literatura infanto-juvenil. Recentemente foi premiado pelo Júri do Concurso Cidade do Funchal/Edmundo de Bettencourt. Estudioso e multifacetado, está a elaborar novas obras e tem outras no prelo.
UM POETA DA MADEIRA
CARLOS CRISTÓVÃO
QUINZE ANOS
A Clarissa que mora na minha rua
fez ontem anos.
Veio-nos pedir flores
porque fazia anos...
Clarissa mora numa casa
de dois quartos e cozinha...
São nove nessa casa de dois quartos e cozinha...
A tia velha tem um caroço no peito
e geme de noite,
mas Clarissa fez quinze anos e quis flores...
Na casa de dois quartos e cozinha
são pobres de ilusões e ricos de desenganos...
Oxalá queiras ter sempre flores, Clarissa,
no dia dos teus anos...
(in "Ínclitos Ilhéus", II vol., José Abel
O. Marques Caldeira, Eco do Funchal, 1997)
O PESCADOR DA ILHA
- Vai para o mar, oh! pescador.
O mar rodeia a tua ilha,
o mar tem peixe
para as tuas longas, mágicas redes...
... assim tivesse um mar que matasse as minhas sedes!
E o pescador respondeu
ao poeta:
- Espera mais um pouco,
o mar tem peixe, mas também tem ondas,
acalma a tua alma inquieta,
deixa passar a levadia,
deixa o mar ser azul
e espera que a noite não seja tão fria...
(in "Saudades da Ilha - Evocações Poéticas da Ilha da Madeira",
org. José Viale Moutinho, Edições Asa, 2003)
NATUREZA MORTA
Cravos, rosas, açucenas,
orquideas e verbenas...
tudo me passou à porta.
Inebriou-me o seu perfume divino,
mas entristeceu-me o seu destino:
iam a cobrir uma morta...
(in "Arquipélago", colectânea,
Editorial Eco do Funchal, 1952)
ETERNO POEMA
Já vi safiras, esmeraldas,
maravilhosos diamantes,
mas não tinham a beleza,
a magia espontânea, a viveza,
- todas essas pedras preciosas e brilhantes -
das ondas iluminadas pela lua,
plenas de revérberos cintilantes.
... ... ... ... ... ... ... ... ...
Assim, vi olhares expressivos,
lânguidos e amantes,
e piedosos também,
mas não tinham o encanto,
o brilho, para mim,
único, santo,
do olhar da minha Mãe!
(Do livro inédito "Improvisos")
Carlos Cristóvão da Câmara Leme Escórcio de Bettencourt, nascido no Funchal em 1924 e falecido recentemente (anos noventa), pertenceu à Tertúlia Ritziana, na qual se integravam poetas como Herberto Helder, António Aragão e Jorge Freitas, tendo participado no volume que estes publicaram com outros autores, intitulado "Arquipélago", em 1952. Desde muito novo cultivou a poesia, a novela, o conto e o romance, assim como o teatro, tendo publicado mais de uma dezena de opúsculos e deixado inéditos outros tantos. O renomado escritor madeirense Horácio Bento de Gouveia salientou-lhe, entre as suas qualidades, "o valor regional, com o palpitar de vidas que existem fora da órbita da imaginação", o seu jeito para "o género narrativo e descritivo", a expressão das personagens "com uma linguagem viva e real", realçando a sua "riqueza de vocabulário" e "correcção gramatical". A sua vocação de asceta foi ao ponto de doar as suas propriedades e outros bens à sua terra-natal para usufruto dela na defesa da Cultura, tendo a sua quinta em Machico sido transformada na Casa do Artista, hospedando poetas, pintores e outros profissionais das Artes. O seu espólio literário é valioso, incluindo os exemplares raros existentes na sua biblioteca particular.
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POEMÁRIO
Assírio & Alvim
2004
JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA
A CASA
Esta casa é a tua casa
quanto ao que permanece
nem sei que dizer
tanto me feriu a
insignificância do mundo
a relativa veracidade concedida aos lírios
minhas habilidades inexperientes
a obscuridade brilha para lá
da própria enseada
José Tolentino Mendonça
(Madeira, Machico, 1965)
(in "Baldios")
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IMAGINÁRIO
Assírio & Alvim
2004
INGMAR BERGMAN
A película corre no projector, crepitando. Passa a uma velocidade considerável: vinte e quatro imagens por segundo, vinte e sete metros bem contados, por minuto. As sombras jorram pela parede branca. É magia. Mas uma magia de uma sobriedade excepcional e impiedosa. Nada pode ser alterado, anulado. E tudo avança, ruidosamente, as vezes que quisermos, e sempre com essa docilidade imutável e fria. Coloquem um copo vermelho em frente da objectiva, as sombras serão vermelhas, isso que importa? Façam passar o filme ao contrário, de trás para diante, o resultado não será, de forma alguma, diverso. Só há uma única alteração que é radical. Desliguem o interruptor da corrente, apaguem esse arco luminoso que assobia, rebobinem o filme, voltem a colocá-lo na caixa. Esqueçam.
(...)
INGMAR BERGMAN
(1944)
(in "Lágrimas, e Suspiros seguido de Persona e de Dependência", Tradução de Armando Silva Carvalho)
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Um poema inédito
de
José António Gonçalves
OS COFRES DO CÉU
as chuvas chegaram com a primavera
nas asas das rezas
de alguns agricultores descontentes
tementes do ano de seca
e da morte das culturas
no seu vínculo com a terra
têm as mãos nos bolsos à altura das rugas
e um sorriso desprendido de milhões
de tristezas
com os pés descalços a acariciarem
a água fria
no seio das raízes
que pareciam enxutas
a foice afasta as pedras recolhe matagal
e desenha sombreados na lama
no lugar do regadio
fazendo contas à vida ao recomeço
às esperanças de quem nunca
afinal
desistiu
resolutamente
de nada
as chuvas chegaram com a primavera
e a água perdeu-se lesta e breve
no breu
silencioso
da madrugada
o agricultor imagina já um novo dia
e remira a terra mexida
e deposita
sempre pensando na vida
e nas benesses da eucaristia
outras rezas
nos cofres
do céu
JOSÉ ANTÓNIO GONÇALVES
(inédito.22.2.04)
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