A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Fevereiro

18

 
 
 
  
***
 
ALBANO MARTINS
  
 
PPoderia dizer-se
destas mãos: há flores
que desabrocham
ao contrário, que mergulham
as suas raízes
no vento. Que têm
a cabeça deitada
no infinito.
 
 
Albano Martins
 
 

(in "A Voz do Olhar", 1998;

"Agenda Poética 2000 -
50 Anos de Vida Literária",
Edições Universidade
Fernando Pessoa,
org. Beatriz Werget, 1999)
 
 
 
 
***
 
Bloco Poético de Notas 
 
VERGÍLIO FERREIRA
 

  

DA MINHA LÍNGUA VÊ-SE O MAR

 

Uma língua é o lugar donde se vê o Mundo e em que
se traçam os limites do nosso pensar e sentir. Da minha
língua vê-se o mar. Da minha língua ouve-se o seu rumor,
como da de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do
deserto. Por isso a voz do mar foi a da nossa inquietação.

 

*

Citações:

 

Para o artista, querer não é poder, mas apenas poder querer. Disso se faz a sua glória e o seu desastre. Há todavia aí uma glória sem desastre nenhum, que é habitar num momento de ilusão o palácio encantado do mistério e maravilha. E é o pouco que é bastante. O que fica depois são os despojos desse tudo.

Deus inventou o sexo, nós inventámos o amor. Ele tinha razão.

Tenho tantas saudades de ser eu. De ver. De me deslumbrar numa iluminação.

Ama o próximo como a ti mesmo. É um grande risco. Eu, por exemplo, detesto-me.

Realizei uma obra, fiz nela a minha proposta, disse o que tinha a dizer. (...) Publiquei Para Sempre.

Não comunico com o mundo pelos pés ou pelas mãos ou os olhos. Comunico pelo bico da caneta. E por ele transmito o influxo da vida como pelo dedo de um Deus.

Somos um país de analfabetos. Destes alguns não sabem ler.

Não se pode imaginar uma cor, fora das cores do espectro solar. Não se pode ouvir um som, fora da nossa escala auditiva. Não se pode pensar, fora das possibilidades da lingua em que se pensa.

Achariámos rídiculo que se pudesse dizer, por exemplo, de um amoroso repudiadom que ele sofreu três polegadas de vexame ou meio quilo de opróbrio. Mas é exactamente o mesmo que acontece ao dizer-se que se esteve três quartos de hora à espera da namorada no café, porque a paciência não tem nada a haver com o percurso solar.

Admira-se uma obra com a inteligência e ama-se com a pessoa toda. Por isso é mais económico admrar do que amar.

A arte inscreve no coração do homem o que a vida lhe revelou sem ele saber como.

A arte nasce de uma solidão e dirige-se a outra solidão.

A arte tem o dom de dar beleza. mesmo ao que nasceu e se criou para a fealdade.

A beleza é do imaginário e a imaginação é uma forma de se possuir o que não se possui.

A Ciência não é um meio de "explicar", mas apenas de "constatar" o que descobriu provisoriamente nisso que constatou.

A eternidade não se mede pela sua duração, mas pela intensidade com que a vivemos.

A grande revolução da poesia de Pessoa foi a sua intelectualização.

Há mais sossego na simples melancolia do que em todas as alegrias muito altas.

Há monumentos ao soldado desconhecido. Mas não há só um só aos heróis a que não calhou poderem sê-lo.

A história está cheia de grandes renovadores dela. Ou dos que lhe falharam a renovação. Porque é que Cristo acertou em dois milénios e Marx não chegou a acertar num século?

A morte apenas subscreve o que já somos como excedentários. E há só que deixá-la rubricar à pressa o nosso destino, que tem mais que fazer.

A música é sempre anterior a si, de tempo nenhum, de um absoluto não presentificado, de um tempo anterior ao tempo, de um fora dele, da eternidade.

Nas utopias que até hoje se imaginaram faltou sempre imaginar o que aconteceria depois. Que se imagine uma vida em que se realizasse tudo o que se desejasse. Alguma coisa faltaria ainda em tudo em que já não faltava, e não saberiamos o quê. É isso que não sabes que é fundamental.

Não há pergunta sobre o para quê de uma flor que lhe tire o encantamento. O sentido de ser é o ser.

Nós exigimos a liberdade mas igualmente a sua razão de ser. Que é que justifica uma luz que nada ilumina e se perde no vazio?

Nós sofremos com a morte porque não nos foi infligido o horror de não podermos morrer.

O comunismo distingue-se fundamentalmente do facismo porque foi o primeiro.

O corpo entende-se, a alma compreende-se.

O corpo explica-se e pode discutir-se. A alma é inexplicável e só há que recriá-la em nós ou recusá-la.

O estilo de um grande artista, ele próprio não o sabe. Como a sua voz. Ou os seus gestos. Ou a mímica do seu rosto quando fala. Porque quando o souber tê-lo-ia já perdido.

O homem é um ser fictício em todo o seu ser. E é precisa Morte para ele enfim ser verdadeiro.

(florilégio retirado de diferentes obras do autor)

*

Vergílio Ferreira (1916-1996) nasceu em Melo (Gouveia). Licenciado em Filologia Clássica pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra em 1940. Professor de liceu. Romancista e ensaísta. Prémio Camões. É um dos mais significativos ficcionistas portugueses contemporâneos. Estreou-se com O Caminho Fica Longe (1943). Entre os seus outros romances, contam-se Manhã Submersa (1954, obra adaptada ao cinema por Lauro António), Aparição (1959, Prémio Camilo Castelo Branco), Alegria Breve (1965, Prémio da Casa da Imprensa), Para Sempre (1983), Até ao Fim (1987, Grande Prémio de Novela e Romance da Associação Portuguesa de Escritores), Em Nome da Terra (1990), Na Tua Face (1993, Grande Prémio de Novela e Romance da APE) e, já após a sua morte, Cartas a Sandra (1996). Entre a sua obra ensaística, contam-se os volumes Arte Tempo (1988), Espaço do Invisível (1965-87, em quatro volumes) e Do Mundo Original (1957). Publicou ainda, a partir de 1981, nove volumes do diário Conta-Corrente.

 
 
***
 
PITADA DE SAL 
 
O que diz - A BÍBLIA
 
 
    Senhor, não me repreendais com o Vosso desdém, nem me castigueis com o Vosso furor!
    As Vossas setas penetraram em mim, pesou sobre mim a Vossa mão.
    Nada há de são na minha carne, perante o Vosso furor, nada há de intacto nos meus ossos por causa do meu pecado.
    De facto, os meus pecados elevaram-se acima da minha cabeça, como pesada carga oprimem-me em demasia.
    As minhas chagas são fétidas e purulentas, por causa da minha loucura.
    Estou encurvado e extremamente abatido; caminho todo o dia na tristeza.
    As minhas entranhas ardem em febre; não há parte alguma sã na minha carne.
    Estou enfraquecido e grandemente alquebrado; grito alto, de tal maneira se agita em mim o meu coração.
    Senhor, diante de Vós estão todos os meus suspiros e o meu gemido não Te é oculto.
 
        (Salmos, 38, 1-10)
 
 

 

***
 

 

UM POETA DA MADEIRA
 
 
 
 
FRANCISCO ÁLVARES DE NÓBREGA
("Camões Pequeno")
  
 

SONETO

    A Newton

Ave real, que a esfera demandando,
Sobre o clima britano o voo erguias,
E de perto a tratar c'os astros ias,
leis infalíveis a seu giro dando;
 
Bem merecidas lágrimas, soltando,
Consente que te orvalhe as cinzas frias,
Pesaroso também de que os teus dias
Tão prestes fossem para lá voando,
 
Já que ao Empírio, aonde as asas bates,
Ir não posso cingir-te ufano e ledo
Viçosa rama em fúlgidos remates;
 
Sentindo de te ver partir tão cedo,
(O carpir os heróis pertence aos Vates)
De cá teu nome entoarei a medo.
 
SONETO
 
    No dia da prisão do A.
 
Como está este dia tão soturno!
Pavoroso negrume o ar enluta;
Naquele galho a regougar se escuta,
Crendo que é noite, o carpidor nocturno.
 
Envolto em nuvens o farol diurno,
Como que jaz em abafada gruta,
E a térrea, imensa mole, informe e bruta,
Volver parece ao caos taciturno.
 
O encrespado mar, de negro tinto,
ostenta em sua túmida voragem
Querer o Orbe aniquilar faminto.
 
Sucedeu Bórias torvo à branda aragem:
Da viva inquietação, que n'alma sinto,
O'dia de pavor, tu és a imagem.
 
SONETO
 
Áspera algema, que meu pulso apertas,
Afrontoso grilhão, que o pé me prendes,
Paredes, que da morte as cores tendes,
Escuras, feias, hórridas, desertas;
 
Quando terei as minhas mãos libertas,
Quando solto este pé, assim m'ofendes,
Portas, que me fechais, que me contendes,
Oh! quando, quando vos vereis abertas!
 
Se os seus ouvidos os meus ais não fecha
O Nume excelso, que a inocência escuda,
E a paz suave ainda gostar me deixa,
 
O exemplo seguirei da penha ruda,
De todos é pisada, e não se queixa
Humilde, imóvel, insensível, muda.
 
SONETO
 
Se me recordo, meu Camões divino,
De que em pobre hospital, sórdido, agreste,
O derradeiro adeus ao Mundo deste,
Leio em tua desgraça o meu destino.
 
O Drago da doença, atroz, maligno,
Cospe em meu corpo tragadora peste:
Que meu fatal instante em fim se apreste,
Espero, como tu, em leito indigno.
 
Com tudo melhor sorte em ti conheço:
Tu do desprezo sofres só o insulto,
Eu entre ferros ao sepulcro desço;
 
Tu sem nota, eu infame me sepulto;
Porém menos, também, menos mereço,
Porque tu eras sábio, eu sou estulto.
 
(in "Vida e Obra de Francisco Álvares de Nóbrega",
Editora Arguim-Madeira, 5ª. edição, 2001)
 
*
Francisco Álvares de Nóbrega (1772-1806), era natural de Machico (Madeira) e viveu entre a sua terra-natal, o Funchal e Lisboa, onde acabou por morrer, de lepra e outras doenças. Ficou popularizado, depois de uma vida plena de desventuras que, por motivos políticos, o conduziu ao conhecimento frequente das cadeias do Reino, como o "Camões Pequeno", facto que ainda hoje interessa aos estudiosos da Literatura Portuguesa, como foi o caso do madeirense Joel Serrão. Este chegou mesmo a interrogar-se do porquê desse cognome, já que "nenhum poeta português se pôde arrogar a ser grande quando o ponto de referência é Camões", nem mesmo "Fernando Pessoa, que por de mais saber, procurou, em vão, elidir a grandeza do poeta quinhentista!", pelo que "todos os poetas portugueses, madeirenses ou não, são 'pequenos' relativamente à grandeza solar do grande lírico do século XVI". A sua obra, que se encontrava esgotada, foi recuperada por Alberto Figueira Gomes, no volume "Rimas", publicado como "separata" do jornal "Voz da Madeira", em 1958, de onde foi respigado um livro-síntese, "Vida e Obra", dado à estampa em 2001 pela Editora Arguim-Madeira.
 
*
 
****
 

 

POEMÁRIO

 

Assírio & Alvim

 

2004

 

 

HUGO VON HOFMANNSTHAL

 

 

 

 

 

    O HOMEM SÓ SE APERCEBE, NO

 

MUNDO, DAQUILO QUE EM SI JÁ SE

 

ENCONTRA; MAS PRECISA DO MUNDO

 

PARA SE APERCEBER DO QUE SE

 

ENCONTRA EM SI;  PARA ISSO SÃO,

 

PORÉM, NECESSÁRIOS ACTIVIDADE E

 

SOFRIMENTO.

 

 

 

HUGO VON HOFMANNSTHALL

 

(1874-1929)

 

 

(in "Livro de Amigos";

tradução de José A. Palma Caetano)

 

 

 

***

 

 

IMAGINÁRIO

Assírio & Alvim

2004

 

LUIS MARIGÓMEZ

 

 

 

(...)

Que teria acontecido se nunca tivesses vindo trabalhar para o escritório? Ou se eu não estivesse lá, ou se Julián estivesse disposto a jogos sentimentais, ou se o Enrique tivesse sido um pouco mais atraente e tivesse ocultado a sua condição de aleijado? Quero dizer que há sempre um acaso que surge quando começa uma história. Se não aparecesses no preciso instante em que o fizeste teria havido outra a ocupar o teu lugar, iluminando essa caverna? É difícil sabê-lo. Em todo o caso, não estaria agora aqui, entretido com estes papéis, porque os acontecimentos teriam sido diferentes. Ou não? Poderia falar-se de ti como uma espécie de Orfeu feminino que entra no Tártaro sem procurar Eurídice. Claro que é difícil que eu me ajuste a esse papel. O escritório, pelo contrário, está bem representado na metáfora. Ias de passagem; entraste com curiosidade. Em todo o caso, como ele, saíste só, e talvez ferida. Se fosses mais bonita e com Julián em forma, teria caído na sua rede, e talvez ele se tivesse assustado menos do que com Marisa e acabasse por consentir-te a seu lado. Gostaria de ti? Porque não? E Enrique? Imagina-o antes da sua infelicidade. Não o conheci então e já ninguém fala disso. Parece que era mais espevitado e, claro, não sofria as crises que agora são cíclicas.

(...)

 

 

LUIS MARIGÓMEZ

 

(1957)

 

(in "Vésperas"; tradução do poeta madeirense José Agostinho Baptista)

 

 

 

 

 

 

*** 

  

Um poema inédito
 
de
 
José António Gonçalves
 

  

 

O FADO DO MEU PAÍS

 

este é o país das forças ocultas

o rosto de um povo em marcha

para um lugar bíblico para além

de tudo o que possa ser imaginado

este é o território com mar e campos

um sol desigual e um futuro resignado

 

 

esta é a pátria de sangue seco e pobre

onde as memórias crescem todos os dias

para falar de heróis condestáveis e barões

alguns príncipes e reis sem castelos nem reino

com uma multidão de sucessores nas barricadas

organizada para a guerra do suor mesmo sem treino

 

 

esta é nação com o olor das eiras e das chuvas

com o fado dos marialvas nas janelas abertas

e a ambição de não ultrapassar as vozes do destino

com o silêncio do que se passa em casa sempre na boca

e uma vida de feirante de cigano de viajante eterno

com o sonho maior de voltar mais tarde ao calor da toca

 

 

esta é a terra calcinada do passado onde se repete

em cada história a esperança num amanhã melhor

de rios que serão oceanos e montanhas continentes

de angústias que se transformam em fogosos bailaricos

de miragens altaneiras voando sobre dez milhões

de filhos de viriato sem fortuna e armados em ricos

 

 

 

 

José António Gonçalves

 

(inédito, 24/2/04)

 

 

 

Selecção e Montagem: JAG