PPoderia
dizer-se
destas mãos: há flores
que desabrocham
ao contrário, que mergulham
as suas raízes
no vento. Que têm
a cabeça deitada
no infinito.
Albano Martins
(in "A Voz do
Olhar", 1998;
"Agenda Poética 2000 -
50 Anos de Vida Literária",
Edições Universidade
Fernando Pessoa,
org. Beatriz Werget, 1999)
***
Bloco Poético de
Notas
VERGÍLIO FERREIRA
DA MINHA LÍNGUA VÊ-SE O MAR
Uma língua é o
lugar donde se vê o Mundo e em que
se traçam os limites do nosso pensar e sentir. Da
minha
língua vê-se o mar. Da minha língua ouve-se o seu
rumor,
como da de outros se ouvirá o da floresta ou o
silêncio do
deserto. Por isso a voz do mar foi a da nossa
inquietação.
Para o artista, querer não é
poder, mas apenas poder querer. Disso se faz a sua
glória e o seu desastre. Há todavia aí uma glória
sem desastre nenhum, que é habitar num momento de
ilusão o palácio encantado do mistério e maravilha.
E é o pouco que é bastante. O que fica depois são os
despojos desse tudo.
Deus inventou o sexo, nós
inventámos o amor. Ele tinha razão.
Tenho tantas saudades de ser eu.
De ver. De me deslumbrar numa iluminação.
Ama o próximo como a ti mesmo. É
um grande risco. Eu, por exemplo, detesto-me.
Realizei uma obra, fiz nela a
minha proposta, disse o que tinha a dizer. (...)
Publiquei Para Sempre.
Não comunico com o mundo pelos pés
ou pelas mãos ou os olhos. Comunico pelo bico da
caneta. E por ele transmito o influxo da vida como
pelo dedo de um Deus.
Somos um país de analfabetos.
Destes alguns não sabem ler.
Não se pode imaginar uma cor, fora
das cores do espectro solar. Não se pode ouvir um
som, fora da nossa escala auditiva. Não se pode
pensar, fora das possibilidades da lingua em que se
pensa.
Achariámos rídiculo que se pudesse
dizer, por exemplo, de um amoroso repudiadom que ele
sofreu três polegadas de vexame ou meio quilo de
opróbrio. Mas é exactamente o mesmo que acontece ao
dizer-se que se esteve três quartos de hora à espera
da namorada no café, porque a paciência não tem nada
a haver com o percurso solar.
Admira-se uma obra com a
inteligência e ama-se com a pessoa toda. Por isso é
mais económico admrar do que amar.
A arte inscreve no coração do
homem o que a vida lhe revelou sem ele saber como.
A arte nasce de uma solidão e
dirige-se a outra solidão.
A arte tem o dom de dar beleza.
mesmo ao que nasceu e se criou para a fealdade.
A beleza é do imaginário e a
imaginação é uma forma de se possuir o que não se
possui.
A Ciência não é um meio de
"explicar", mas apenas de "constatar" o que
descobriu provisoriamente nisso que constatou.
A eternidade não se mede pela sua
duração, mas pela intensidade com que a vivemos.
A grande revolução da poesia de
Pessoa foi a sua intelectualização.
Há mais sossego na simples
melancolia do que em todas as alegrias muito altas.
Há monumentos ao soldado
desconhecido. Mas não há só um só aos heróis a que
não calhou poderem sê-lo.
A história está cheia de grandes
renovadores dela. Ou dos que lhe falharam a
renovação. Porque é que Cristo acertou em dois
milénios e Marx não chegou a acertar num século?
A morte apenas subscreve o que já
somos como excedentários. E há só que deixá-la
rubricar à pressa o nosso destino, que tem mais que
fazer.
A música é sempre anterior a si,
de tempo nenhum, de um absoluto não presentificado,
de um tempo anterior ao tempo, de um fora dele, da
eternidade.
Nas utopias que até hoje se
imaginaram faltou sempre imaginar o que aconteceria
depois. Que se imagine uma vida em que se realizasse
tudo o que se desejasse. Alguma coisa faltaria ainda
em tudo em que já não faltava, e não saberiamos o
quê. É isso que não sabes que é fundamental.
Não há pergunta sobre o para quê
de uma flor que lhe tire o encantamento. O sentido
de ser é o ser.
Nós exigimos a liberdade mas
igualmente a sua razão de ser. Que é que justifica
uma luz que nada ilumina e se perde no vazio?
Nós sofremos com a morte porque
não nos foi infligido o horror de não podermos
morrer.
O comunismo distingue-se
fundamentalmente do facismo porque foi o primeiro.
O corpo entende-se, a alma
compreende-se.
O corpo explica-se e pode
discutir-se. A alma é inexplicável e só há que
recriá-la em nós ou recusá-la.
O estilo de um grande artista, ele
próprio não o sabe. Como a sua voz. Ou os seus
gestos. Ou a mímica do seu rosto quando fala. Porque
quando o souber tê-lo-ia já perdido.
O homem é um ser fictício em todo
o seu ser. E é precisa Morte para ele enfim ser
verdadeiro.
(florilégio
retirado de diferentes obras do autor)
Vergílio
Ferreira (1916-1996) nasceu em Melo (Gouveia).
Licenciado em Filologia Clássica pela Faculdade de
Letras da Universidade de Coimbra em 1940. Professor
de liceu. Romancista e ensaísta. Prémio Camões. É um
dos mais significativos ficcionistas portugueses
contemporâneos. Estreou-se com O Caminho Fica Longe
(1943). Entre os seus outros romances, contam-se
Manhã Submersa (1954, obra adaptada ao cinema por
Lauro António), Aparição (1959, Prémio Camilo
Castelo Branco), Alegria Breve (1965, Prémio da Casa
da Imprensa), Para Sempre (1983), Até ao Fim (1987,
Grande Prémio de Novela e Romance da Associação
Portuguesa de Escritores), Em Nome da Terra (1990),
Na Tua Face (1993, Grande Prémio de Novela e Romance
da APE) e, já após a sua morte, Cartas a Sandra
(1996). Entre a sua obra ensaística, contam-se os
volumes Arte Tempo (1988), Espaço do Invisível
(1965-87, em quatro volumes) e Do Mundo Original
(1957). Publicou ainda, a partir de 1981, nove
volumes do diário Conta-Corrente.
***
PITADA DE
SAL
O que diz - A BÍBLIA
Senhor, não me repreendais com o
Vosso desdém, nem me castigueis com o Vosso furor!
As Vossas setas penetraram em
mim, pesou sobre mim a Vossa mão.
Nada há de são na minha carne,
perante o Vosso furor, nada há de intacto nos meus ossos por
causa do meu pecado.
De facto, os meus pecados
elevaram-se acima da minha cabeça, como pesada carga
oprimem-me em demasia.
As minhas chagas são fétidas e
purulentas, por causa da minha loucura.
Estou encurvado e extremamente
abatido; caminho todo o dia na tristeza.
As minhas entranhas ardem em
febre; não há parte alguma sã na minha carne.
Estou enfraquecido e grandemente
alquebrado; grito alto, de tal maneira se agita em mim o meu
coração.
Senhor, diante de Vós estão todos
os meus suspiros e o meu gemido não Te é oculto.
(Salmos, 38, 1-10)
***
UM POETA DA MADEIRA
FRANCISCO ÁLVARES DE
NÓBREGA
("Camões Pequeno")
SONETO
A Newton
Ave real, que a esfera demandando,
Sobre o clima britano o voo erguias,
E de perto a tratar c'os astros ias,
leis infalíveis a seu giro dando;
Bem merecidas lágrimas, soltando,
Consente que te orvalhe as cinzas frias,
Pesaroso também de que os teus dias
Tão prestes fossem para lá voando,
Já que ao Empírio, aonde as asas bates,
Ir não posso cingir-te ufano e ledo
Viçosa rama em fúlgidos remates;
Sentindo de te ver partir tão cedo,
(O carpir os heróis pertence aos Vates)
De cá teu nome entoarei a medo.
SONETO
No dia da prisão do A.
Como está este dia tão soturno!
Pavoroso negrume o ar enluta;
Naquele galho a regougar se escuta,
Crendo que é noite, o carpidor nocturno.
Envolto em nuvens o farol diurno,
Como que jaz em abafada gruta,
E a térrea, imensa mole, informe e bruta,
Volver parece ao caos taciturno.
O encrespado mar, de negro tinto,
ostenta em sua túmida voragem
Querer o Orbe aniquilar faminto.
Sucedeu Bórias torvo à branda aragem:
Da viva inquietação, que n'alma sinto,
O'dia de pavor, tu és a imagem.
SONETO
Áspera algema, que meu pulso apertas,
Afrontoso grilhão, que o pé me prendes,
Paredes, que da morte as cores tendes,
Escuras, feias, hórridas, desertas;
Quando terei as minhas mãos libertas,
Quando solto este pé, assim m'ofendes,
Portas, que me fechais, que me contendes,
Oh! quando, quando vos vereis abertas!
Se os seus ouvidos os meus ais não fecha
O Nume excelso, que a inocência escuda,
E a paz suave ainda gostar me deixa,
O exemplo seguirei da penha ruda,
De todos é pisada, e não se queixa
Humilde, imóvel, insensível, muda.
SONETO
Se me recordo, meu Camões divino,
De que em pobre hospital, sórdido, agreste,
O derradeiro adeus ao Mundo deste,
Leio em tua desgraça o meu destino.
O Drago da doença, atroz, maligno,
Cospe em meu corpo tragadora peste:
Que meu fatal instante em fim se apreste,
Espero, como tu, em leito indigno.
Com tudo melhor sorte em ti conheço:
Tu do desprezo sofres só o insulto,
Eu entre ferros ao sepulcro desço;
Tu sem nota, eu infame me sepulto;
Porém menos, também, menos mereço,
Porque tu eras sábio, eu sou estulto.
(in "Vida e Obra de Francisco Álvares de
Nóbrega",
Editora Arguim-Madeira, 5ª. edição, 2001)
*
Francisco Álvares de Nóbrega
(1772-1806), era natural de Machico (Madeira) e viveu entre
a sua terra-natal, o Funchal e Lisboa, onde acabou por
morrer, de lepra e outras doenças. Ficou popularizado,
depois de uma vida plena de desventuras que, por motivos
políticos, o conduziu ao conhecimento frequente das cadeias
do Reino, como o "Camões Pequeno", facto que ainda hoje
interessa aos estudiosos da Literatura Portuguesa, como foi
o caso do madeirense Joel Serrão. Este chegou mesmo a
interrogar-se do porquê desse cognome, já que "nenhum poeta
português se pôde arrogar a ser grande quando o
ponto de referência é Camões", nem mesmo "Fernando Pessoa,
que por de mais saber, procurou, em vão, elidir a grandeza
do poeta quinhentista!", pelo que "todos os poetas
portugueses, madeirenses ou não, são 'pequenos'
relativamente à grandeza solar do grande lírico do século
XVI". A sua obra, que se encontrava esgotada, foi recuperada
por Alberto Figueira Gomes, no volume "Rimas", publicado
como "separata" do jornal "Voz da Madeira", em 1958, de onde
foi respigado um livro-síntese, "Vida e Obra", dado à
estampa em 2001 pela Editora Arguim-Madeira.
*
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POEMÁRIO
Assírio & Alvim
2004
HUGO VON HOFMANNSTHAL
O HOMEM SÓ SE APERCEBE, NO
MUNDO, DAQUILO QUE EM SI JÁ SE
ENCONTRA; MAS PRECISA DO MUNDO
PARA SE APERCEBER DO QUE SE
ENCONTRA EM SI; PARA ISSO SÃO,
PORÉM, NECESSÁRIOS ACTIVIDADE E
SOFRIMENTO.
HUGO VON HOFMANNSTHALL
(1874-1929)
(in "Livro de Amigos";
tradução de José A. Palma Caetano)
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IMAGINÁRIO
Assírio & Alvim
2004
LUIS MARIGÓMEZ
(...)
Que teria acontecido se nunca tivesses vindo trabalhar para o
escritório? Ou se eu não estivesse lá, ou se Julián estivesse
disposto a jogos sentimentais, ou se o Enrique tivesse sido um
pouco mais atraente e tivesse ocultado a sua condição de
aleijado? Quero dizer que há sempre um acaso que surge quando
começa uma história. Se não aparecesses no preciso instante em
que o fizeste teria havido outra a ocupar o teu lugar,
iluminando essa caverna? É difícil sabê-lo. Em todo o caso, não
estaria agora aqui, entretido com estes papéis, porque os
acontecimentos teriam sido diferentes. Ou não? Poderia falar-se
de ti como uma espécie de Orfeu feminino que entra no Tártaro
sem procurar Eurídice. Claro que é difícil que eu me ajuste a
esse papel. O escritório, pelo contrário, está bem representado
na metáfora. Ias de passagem; entraste com curiosidade. Em todo
o caso, como ele, saíste só, e talvez ferida. Se fosses mais
bonita e com Julián em forma, teria caído na sua rede, e talvez
ele se tivesse assustado menos do que com Marisa e acabasse por
consentir-te a seu lado. Gostaria de ti? Porque não? E Enrique?
Imagina-o antes da sua infelicidade. Não o conheci então e já
ninguém fala disso. Parece que era mais espevitado e, claro, não
sofria as crises que agora são cíclicas.
(...)
LUIS MARIGÓMEZ
(1957)
(in "Vésperas"; tradução do poeta madeirense
José Agostinho Baptista)
***
Um poema inédito
de
José António Gonçalves
O FADO DO MEU PAÍS
este é o país das forças ocultas
o rosto de um povo em marcha
para um lugar bíblico para além
de tudo o que possa ser imaginado
este é o território com mar e campos
um sol desigual e um futuro resignado
esta é a pátria de sangue seco e pobre
onde as memórias crescem todos os dias
para falar de heróis condestáveis e barões
alguns príncipes e reis sem castelos nem reino
com uma multidão de sucessores nas barricadas
organizada para a guerra do suor mesmo sem
treino
esta é nação com o olor das eiras e das chuvas
com o fado dos marialvas nas janelas abertas
e a ambição de não ultrapassar as vozes do
destino
com o silêncio do que se passa em casa sempre
na boca
e uma vida de feirante de cigano de viajante
eterno
com o sonho maior de voltar mais tarde ao
calor da toca
esta é a terra calcinada do passado onde se
repete
em cada história a esperança num amanhã melhor
de rios que serão oceanos e montanhas
continentes
de angústias que se transformam em fogosos
bailaricos
de miragens altaneiras voando sobre dez
milhões
de filhos de viriato sem fortuna e armados em
ricos
José António Gonçalves
(inédito, 24/2/04)
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