A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Fevereiro

19

 
 
 
  
***
 
ALBANO MARTINS
  
 
Para serem
mulheres
falta-lhes o rosto. Ou
talvez não. Porque as mulheres,
às vezes,
apenas se distinguem
pela cor. Ou pelo traço
descaído
que lhes vai
dos ombros à cintura. E é lá
que o azul
se tinge de vermelho.
 
 
 

 

Albano Martins
 
 

(in "A Voz do Olhar", 1998;

"Agenda Poética 2000 -
50 Anos de Vida Literária",
Edições Universidade
Fernando Pessoa,
org. Beatriz Werget, 1999)
 
 
***
 
Bloco Poético de Notas 
 
EMANUEL FÉLIX

   (1936-2004)

 

ELEGIA

 

Quando a manhã rasgou o coração do poeta

voavam pássaros dos teus ombros

e o tempo era uma laranja azul

rolando nos teus dedos meninos


Quando a manhã rasgou o coração do poeta

colhias no jardim os versos puros

da primeira canção


Quando a tarde chegou ao coração do poeta

com flores breves e conchas

desenhavas

nas horas quase brancas

teu caminho de abelha


Ah mas o sol morreu no coração do poeta

e uma andorinha tristemente vem

com um ramo de vento

pairar a tua ausência

 

(in "A viagem possível", Colecção

Gaivota, S. R. Educação e Cultura/Açores)

 

 

FIVE O'CLOCK TEAR

 

Coisa tão triste aqui esta mulher
com seus dedos pousados no deserto dos joelhos
com seus olhos voando devagar sobre a mesa
para pousar no talher
Coisa mais triste o seu vaivém macio
p'ra não amachucar uma invisível flora
que cresce na penumbra
dos velhos corredores desta casa onde mora

Que triste o seu entrar de novo nesta sala
que triste a sua chávena
e o gesto de pegá-la

E que triste e que triste a cadeira amarela
de onde se ergue um sossego um sossego infinito
que é apenas de vê-la
e por isso esquisito

E que tristes de súbito os seus pés nos sapatos
seus seios seus cabelos o seu corpo inclinado
o álbum a mesinha as manchas dos retratos

E que infinitamente triste triste
o selo do silêncio
do silêncio colado ao papel das paredes
da sala digo cela
em que comigo a vedes

Mas que infinitamente ainda mais triste triste
a chávena pousada
e o olhar confortando uma flor já esquecida
do sol
do ar
lá de fora
(da vida)
numa jarra parada

(in "A Palavra O Açoite", 1977)

 

AS RAPARIGAS LÁ DE CASA

 

Como eu amei as raparigas lá de casa

discretas fabricantes da penumbra
guardavam o meu sono como se guardassem
o meu sonho
repetiam comigo as primeiras palavras
como se repetissem os meus versos
povoavam o silêncio da casa
anulando o chão os pés as portas por onde
saíam
deixando sempre um rastro de hortelã
traziam a manhã
cada manhã
o cheiro do pão fresco da humidade da terra
do leite acabado de ordenhar

 

    (se voltassem a passar todas juntas agora
    veríeis como ficava no ar o odor doce e materno
    das manadas quando passam)

aproximavam-se as raparigas lá de casa
e eu escutava a inquieta maresia
dos seus corpos
umas vezes duros e frios como seixos
outras vezes tépidos como o interior dos frutos
no outono
penteavam-me
e as suas mãos eram leves e frescas como as folhas
na primavera

não me lembro da cor dos olhos quando olhava
os olhos das raparigas lá de casa
mas sei que era neles que se acendia
o sol
ou se agitava a superfície dos lagos
do jardim com lagos a que me levavam de mãos dadas
as raparigas lá de casa
que tinham namorados e com eles
traíam
a nossa indefinível cumplicidade

eu perdoava sempre e ainda agora perdoo
às raparigas lá de casa
porque sabia e sei que apenas o faziam
por ser esse o lado mau de sua inexplicável bondade
o vício da virtude da sua imensa ternura
da ternura inefável do meu primeiro amor
do meu amor pelas raparigas lá de casa

(in "Habitação das Chuvas", 1997)

 

*

Emanuel Félix (n. Terceira, Açores, 1936; f. 2004). Poeta, ensaísta, contista, cronista e crítico literário e de artes plásticas, antes de passar pelo surrealismo foi considerado - o que rejeitou - como o introdutor do concretismo poético em Portugal. Co-director da revista "Atlântida" (Instituto Açoriano de Cultura), foi fundador e co-director da "Gávea" (1958). Estudou no estrangeiro e especializou-se no Laboratório de Estudo de Obras de Arte por Métodos Científicos do Instituto Superior de Arqueologia e História de Arte, na Universidad Católica de Lovaina. Deve-se-lhe a criação (e a Direcção) do Centro de Estudo, Conservação e Restauro de Obras de Arte dos Açores. Leccionou Tecnologia da Pintura e Técnicas de Conservação e Restauro e colaborou na reestruturação do "curriculum" do Curso Superior de Conservação e Restauro da Escola Superior de Tecnologia de Tomar. Foi um dos peritos do "Projecto 10" do CDCC do Conselho da Europa, responsável pelo estudo para o desenvolvimento cultural das Regiões Europeias. Oficial da Ordem de Mérito, pertenceu a diversas instituições culturais nacionais e estrangeiras. Está incluído em várias antologias e outras publicações. Algumas das suas obras, no domínio da poesia: "O Vendedor de Bichos", 1965; "A Palavra O Açoite", 1977; "A Viagem Possível", 1965/1981 (ed. refundida, 1993); "Seis Nomes de Mulher", 1985; "O Instante Suspenso", 1992; e "Habitação das Chuvas", 1997:

***

PITADA DE SAL 
 
O que diz - BLAISE PASCAL
 
 
 
 
    "A maior baixeza do homem é a busca da glória, mas é essa precisamente a maior marca da sua excelência. Porque, qualquer que seja a riqueza que tenha na terra, a saúde e os bens de que disponha, não está satisfeito se não possui a estima dos homens. Considera tão grande a razão do homem que, qualquer que seja a vantagem que tenha na terra, se não estiver também colocado vantajosamente na razão do homem, não está satisfeito. É o mais belo lugar do mundo: nada o pode afastar desse desejo, e é a qualidade mais indelével do coração do homem.
    E os que desprezam mais os homens e os igualam aos animais querem ainda ser admirados e cridos deles e contradizem-se pelo seu próprio sentimento, convencendo-os a sua natureza, que é mais forte do que tudo, da grandeza do homem mais fortemente do que a razão os convence da sua baixeza".
 
BLAISE PASCAL
(1623-1662)
 
(in "Pensamentos", pg.161,
Edições Europa-América, 3ª.ed.,1998)
   
 
 

*** 

 
UM POETA DA MADEIRA
 
 
TERESA JARDIM
 
 
ANJO DE ÁGUA SALGADA
 
A meu lado um anjo de água,
salgada, tira os sapatos, desliga a luz
e vem encostar a cabeça à última casa
 
Conheci-o um dia numa livraria. Procurava,
ansioso, um livro pra reler. Ao meu olhar
indiscreto e interrogativo, justificou a sua urgência
recitando de memória um excerto da minha pele:
 
  "A saudade só ataca os pães de trigo
    terrível de beleza, a dos rostos imprecisos. Bolores
    para a vida. E tudo pode acontecer simplesmente
    quando alguém toca o ar que não lhes pertence."
 
Ao longo dos anos, foi descobrindo o meu pulmão
quebradiço, a minha fala de escamas, a doença
com que acendo e talho as pedras, a secreta escada
de açucar, a estação certa para a colheita dos frutos
os dias em que me fecho como uma casa
a fazer colares de lagartas de ouro
para surpreender as montras das ourivesarias
tudo estava escrito
 
(inédito)
 
 
DUAS VERDADES, DUAS MENTIRAS
 
1.
Sabia que ali estava há muito tempo
porque talvez já não respirasse as formas
quase imperceptíveis, apagavam-se
simplesmente olhando para elas
 
Matara muitos dias
até chegar a um lugar onde
não a reconhecessem, ou de onde
não tivesse que fugir à pressa
 
Curvou-se um pouco e aproximou o rosto do papel
 
2.
Não queria acreditar mas tudo desaparecera, ou nunca
teria existido mais alguma coisa para além do que via?
Nada restava do azul dos pássaros, dos pincéis dentro do pote
de barro, dos incontáveis peixes, das montanhas, das sombras
permanentes, das artes de mastigar flores, da escova de cabelo
 
Sentou-se
com o seu antigo trejeito de esperar por alguém
e deixou-se ficar
 
(Apenas uma mancha de tinta azul no braço
fazia crer que nos teria dito a verdade naquele dia)
 
(inédito)
 
 
 

*

 
Teresa Jardim (. Funchal, 1960). Licenciada em Artes Plásticas/Pintura e em Design/Projectação Gráfica pelo Instituto Superior de Artes Plásticas da Madeira, presentemente integrado na Universidade da Madeira. É professora profissionalizada do Ensino Secundário (Artes Visuais). Expõe colectiva e individualmente desde 1976, participando também em intervenções de Arte Pública. É sócia-fundadora da Circul'Arte/AAPM-Associação de Artes Plásticas da Madeira. Integrou as colectâneas "Anuário de Poesia" (Assírio & Alvim, 1986), "O Natal na Voz dos Poetas Madeirenses" (org., selecção e prefácio de  José António Gonçalves, SRTCE, 1989) e "Poet'Arte 90" (org., selecção e prefácio de José António Gonçalves, AEM, 1990). Publicou, em 1993, o livro "Anjos de Areia", com chancela da DRAC-Madeira.
 
 
*
 
****
 

 

POEMÁRIO

 

Assírio & Alvim

 

2004

 

VICTOR HUGO 

 

 

 

 

FÁBULA OU HISTÓRIA

 

Um dia, magro e sentindo um real desfastio,

Um macaco com a pele de um tigre se vestiu.

O tigre fora malvado, ele tornou-se atroz.

Ele tinha assumido o direito a ser feroz.

Arreganhava os dentes, gritando: eu serei

O herói dos matagais, da noite o temível rei!

Como malfeitor dos bosques, emboscado nos espinhos,

De horror, morte e rapinas, escureceu os caminhos,

Degolou os viajantes e devastou a floresta,

Fez tudo o que faz aquela pele funesta.

Vivia no seu antro, no meio da voragem.

Todos, vendo-lhe a pele, criam na personagem.

Gritava e rugia como as feras danadas:

Olhem, a minha caverna está cheia de ossadas;

Olhem para mim, sou um tigre! Tudo treme,

Diante de mim, tudo recua e emigra; tudo freme!

Temiam-no os animais. fugindo com grandes passos.

Um domador apareceu e tomando-o nos braços,

Rasgou-lhe a pele, como se rasga um farrapo,

E, pondo a nu o herói, disse: "Não passas de um macaco!"

 

                                                                                    Jersey, Setembro de 1852

 

 

Victor Hugo

(1802-1885)

 

(in "Poemas", tradução de Maria

Manuela Parreira da Silva)

 

 

 

***

 

 

 

 

 IMAGINÁRIO

 

Assírio & Alvim

 

2004

 

                                      

GMOJDEH BAYAT

 

MOHAMMAD ALI SAMNIA

 

 

 

     (...)

    Um certo número de aves entendeu um dia que deveria ter um rei. Tomada a decisão, pediram a uma sábia e prudente poupa . pássaro com uma crista em feitio de leque - que lhes concedesse ajuda na busca do rei. A poupa disse-lhes que o rei por que ansiavam tinha o nome de Simurgh, o que no idioma persa significa "trinta aves", e que vivia num esconderijo da montanha de Kaf; e disse-lhes também que a viagem até esse sítio era perigosa e difícil. As aves imploraram à poupa que as guiasse. A poupa deu o seu acordo e começou a instruir as aves uma a uma, tendo em conta os diversos níveis de entendimento e os variados temperamentos individuais. Fez-lhes saber que, para alcançarem o cume da montanha teriam de passar por cinco vales e dois desertos; depois de haverem atravessado o último deserto, então poderiam entrar no palácio do rei.

    (...)

 

 

 

Mojdeh Bayat

 

Mohammad Ali Samnia

 

 

 (in "Contos do País dos Sufis";

trad. José Domingos Morais)

 

 

 

 

 

*** 

 
Um poema inédito
 
de
 
José António Gonçalves
 
 
 
 
APENAS BORBOLETAS
 
 
as escarpas são dolorosas
para o bater de asas
das borboletas
 
são como as pétalas
de um milhão de rosas
nas mãos dos poetas
 
em voos de gavião perdido
encolhem-se nas penedias
e lá morrem sozinhos
 
disso falam as borboletas
no silêncio das estradas
sobretudo ao entardecer
 
nas rosas colhem os espinhos
e com eles vencem as madrugadas
para poderem sobreviver
 
as rosas são como trombetas
de arcanjo acordando a manhã
no recolhimento dos ascetas
 
amanhã
serão apenas
borboletas
 
(transformando o seu cortinado de asas
num colchão de penas
para o descanso
dos poetas)
 

  

José António Gonçalves
 
(inédito.19/2/04)
 

 

 
 

Selecção e Montagem: JAG