A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Fevereiro

1

 
 
 
  
***
 
ALBANO MARTINS
  
 
Já sabíamos
que na poesia cabem
todas as cores e todos
os disfarces. Ou não fosse ela
feminina. Mas lá
também cabem, como agora
sabemos, todos
os timbres
do solfejo. No corpo
da poesia há sempre
uma partitura: é esse
o sexo
do poema.
 
 
 
Albano Martins
 
 
(in "A Voz do Olhar" 1998;
"Agenda Poética 2000
- 50 Anos de Vida Literária",
Edições Universidade
Fernando Pessoa,
org. Beatriz Werget,
1999)
 
 ***
 
Bloco Poético de Notas 
 
- Selecção de JAG -
 
 
ROGÉRIO  CARROLA
 
 
 
POEMA XI
 
 
Preferes então a história dos três arbustos?
 
Digo-te já: três medíocres arbustos.
 
Quantas vezes quietos na calma do vento e, outras,
agitados pelo mesmo vento ou talvez por um mal interior indecifrável.
 
Três arbustos presos ao terreno onde horizontalmente
os seus pés têm marcada a condenação.
 
Junto ao solo, mas não tanto como isso, eles suspendem o princípio
de uma música que o tempo escreve.
 
Dentro deles existe uma seiva, princípio da terra que se há-de abrir
à morte de todos os arbustos.
 
Um silêncio cresce-lhes nos pés e sobe até ao gosto do vinho acre
que a brisa transporta depois para os lados do mar.
 
Digo-te: são três arbustos de montanha.
 
Não mastigam algas nem conhecem outra cor
senão a dos ossos milenários que a montanha tem dentro de si.
 
Preferes então a história dos três arbustos?
 
(in "Os Lírios da Lua",
SRTC/DRAC, Funchal,
1995)
 
 
DO CANAVIAL DE BRESCOS
(excerto)
 
(...)
Lembras-te do resumo do Estrangeiro do
Camus?
Era mais ou menos assim.
 
Os meus olhos ficaram cegos,
por detrás desta cortina
de lágrimas e de sal.
Sentia apenas as pancadas do sol na testa e,
indistintamente,
a espada de fogo brotou da navalha,
sempre diante de mim.
Foi então que tudo vacilou.
O mar enviou-me um sopro espesso
e fervente...
Todo o meu ser se retesou
e crispei a mão que segurava o revólver.
O gatilho cedeu. Sacudi o suor e o sol.
Compreendi que destruíra
o equilíbrio do dia.
Voltei então a disparar
mais quatro vezes.
E era como se batesse
quatro breves pancadas,
à porta da desgraça.
Quando o procurador se sentou,
houve uns longos momentos de silêncio.
Quanto a mim, sentia-me atordoado
pelo calor e pelo espanto.
O presidente tossiu um pouco e,
em voz muito alta,
perguntou-me se eu queria acrescentar
alguma coisa.
Levantei-me e,
como tinha vontade de falar, disse,
aliás um pouco ao acaso,
que não tinha tido intenção
de matar o árabe.
O presidente respondeu
que isto era uma afirmação.
Redargui rapidamente,
misturando um pouco as palavras
e consciente do ridículo,
que fora por causa do sol.
Houve risos na sala.
 
Depois tentei toda a vida explicar-te
que o sol,
de facto,
pode ser culpado.
 
Os juízes, no entanto,
vestem de corvo e são juízes. Nada mais.
(...)
 
 
 
 
(in "Da permanência",
Edições Fluviais,
Lisboa, 2003)
 
*
José Rogério Mineiro Carrola nascido na Covilhã em 1947, licenciou-se em filosofia e exerce a profissão de professor na Escola Secundária Elias Garcia, sendo ainda consultor Pedagógico na área da formação profissional, com trabalhos desenvolvidos na Região Autónoma da Madeira. De 1966 a 1972 esteve no "Diário de Lisboa- Juvenil" que ganhou logo a atenção privilegiada da crítica. Publicou depois Inverno (1975), Quando a memória Dói (1977), Viola Delta IV , Colectivo (1979), Viola Delta V, Colectivo (1980), Poema para Camus ( Edições 5 Amigos, Almada, 1982), Cantares de Amigo (1983), Os Lírios da Lua ( Secretaria Regional do Turismo e Cultura da Madeira, DRAC, 1995), A Oração de Filipa (Edições Tema, 1998), O Caminho e Tales, (Edições Fluviais, 2202) e "Da Permanência" (Edições Fluviais, 2003). O facto de ser professor resultou da enorme vocação que sentiu pela profissão, um pouco devido ao facto de amar, desde muito cedo, as letras. Conforme costuma dizer, "cada livro representa um momento e um contexto da nossa vida e pensamento. Por tal facto, mesmo que deixemos de gostar de um ou outro, ele foi aquilo que foi a nossa vida. É como os filhos..."

***

UM POETA DA MADEIRA

 
 

FÁTIMA PITTA DIONÍSIO

 

 

DESLUMBRANTE

PÁSSARO BRANCO

 
deslumbrante pássaro branco
cavalgando a cidade
como uma anémona no mar
 
encanta pégasos solares
pousando-os nas nuvens
atravessa pontes de oiro
oscula as sombras dos gritos
prende as mãos dos ventos
 
(e as aves - as outras aves -
ao vê-lo estremecem
e invertem rumos
de encontro às nascentes do silêncio)
 
deslumbrante pássaro branco
sobre as nossas cabeças
traça rastos de luz ardente
arrebata as flores do sul
 
junto às falésias quando a noite se insinua
poisa vagaroso e solene
e aí entoa o cãntico supremo do amor
 
é quando a lua desce
solerte e nostálgica
para encontros perfeitos
 
 
PROCURO
O DELÍRIO DO CAIS
 
procuro o delírio do cais
debruçado sobre o mar
 
que marinheiro de espuma
navega de encontro ao vento?
 
a tarde é uma miragem
vê-la é o mesmo que bebê-la
 
um banco pode ser lugar de sonho
imita as nuvens e a cor
de instalar o corpo para viagens em terra
 
músicas chegam das águas
são segredos
que a maré revela
dos fundos misteriosos
 
na magia que é estar ali há vertigens
abismos desconhecidos se ocultam do olhar
sabor antigo de devorar a paisagem
 
 
 
 
(in "Poeti Contemporanei dell'Isola di Madera",
a cura di Giampaolo Tonini, Centro Internazionale
della Grafica di Venezia, Italia, 2001) 
 
 
  
POESIA EM VIAGEM

 

 
a poesia reagrupa flores
em secretos espaços
que simulam jardins suspensos

 

 
descobre a limpidez do ar
na pureza do gesto
 
cultua o sol e o cais
onde germinam sonhos infinitos
 
é um olhar em viagem
por mares múltiplos seguros
 
perde-se em gritos de fascínio
e escuta deus
 
a eternidade da sua luz
sobrepõe-se à própria morte
 
é a leveza das musas
sobre a noite que as liberta
reacordando as cigarras
 
densamente repousa sobre o fogo
e atribui um rosto à lua
revelando as magias que conhece
 
passa através de nós
com passos de solidão
na migratória rota das aves
 
concreta como fruto sublimado
a palavra recupera
e principia o seu canto
 
persegue o silêncio de ouro
que fale mais alto do que o som
 
estrela polar nos guia
a reinos de perfeição
 
divina de mil rosto que lhe damos
é a presença grega
que soleniza a nossa voz
 
(inédito.21.5.91.Funchal)
 
 
 
 *
 
Fátima Pitta Dionísio (n. Funchal, 1950). Licenciada em História pela Universidade Clássica de Lisboa, exerce a docência no ensino secundário. Colaboradora desde muito jovem da imprensa e de revistas culturais da Madeira e de Portugal Continental (com realce para a "Islenha", DRAC-Madeira), está representada em algumas colectâneas poéticas, tais como "Da Ilha que Somos" (org. A.J. Vieira de Freitas, CMF, 1977) "Antologia da Poesia Erótica" (Universitária editora, 1999), "Poeti Contemporanei dell'Isola di Madera" (com org. e trad. de Giampaolo Tonini, texto introdutório de José António Gonçalves, 2001) e outras organizadas por José António Gonçalves, presidente da Associação de Escritores da Madeira, entre as quais, "O Natal na Voz dos Poetas Madeirenses" (SRTCE, 1989), "Poet'Arte 90" (AEM, 1990), "Vers'Arte 91" (AEM, 1991). Obras: "Edifiquei-te uma Ilha" (DRAC, 1989) e "Amor em Memória" (ed. Espaço XXI, 1999).
 
 
***

 

POEMÁRIO
Assírio & Alvim
2004  
  
 
JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA
 
 
 
 
RECOMEÇO
 
 
Recomeço a partir de muito pouco,
nesta margem onde a areia, húmida e
sombria, erguida do sono,
se esvai por entre os meus dedos perdidos.
Recomeço a partir de uma única palavra,
de um ínfimo sinal que vi gravado nos
muros da tua cidade em ruínas.
Aí, nessa cal desaparecida,
vi, um dia, um pássaro imóvel, quase vivo,
com os olhos trespassados pelas agulhas do tempo,
inclinar-se e cair sobre as pedras mudas,
e esse pássaro eras tu,
ferida de morte,
afastando as lágrimas em vão.
 
 
JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA
 
(Funchal, 1948)
 
(in "Anjos Caídos")
 
 

 

*** 
 
Um Poema Inédito
 
de
 
José António Gonçalves
  
 
      
 
 
O DIA DA MINHA PARTIDA
 
Arrumados os livros e as marcas
das páginas por ler é tempo de partir.
Abram-me a porta e desimpeçam-me
o caminho. Afastem-me essas mulheres
cheirando a aguardente, dêem-lhes um banho
de perfume de rosas e cubram-nas de poesia
maldita. Uns poemas muito usados,
com umas trezentas vezes a palavra amor
a divagar no algodão da saia. Vou levar comigo
o bordão dos passeios nas levadas e uma cesta
de vime com fruta verde, umas azedas e o chapéu
do pai, ainda impregnado de poeira e suor
das estradas de Orangestad. Tragam-me
os quadros com as fotografias dos avós
e uns pedaços de lenha para acender fogueiras
no frio da alma. A minha alma chora como se
cantasse e começo a pensar como sempre
desconheci o destino da minha partida.
Terei de rever toda a rota percorrida no tempo
e apontar para  o sentido inverso. O sol
é inalcançável. Então perseguirei as sombras
desenhadas pelos anos no empedrado das ruas
ou nos silvados das serras. Ofereço-vos então
as noites, as minhas noites, para decorarem
as histórias do bruxedo da paróquia e olharem
as estrelas. Esquecer-me-ei propositadamente
de dizer adeus, serei profeta ou apóstolo
e seguirei pelas montanhas junto ao mar,
deixando as gentes amadas para trás cuidando
da casa. Comigo apenas uns cadernos
com rascunhos de Álvaro de Campos, uns versos infinitos de Leopardi e umas anotações
de Da Vinci retiradas da mala do sótão. Carregarei também algumas lágrimas, os ventos, as chuvas frescas dos invernos e umas flores secas. Misturarei tudo com uns postais
de Aruba e umas estampas da mãe
quando era nova. Agora tenho mesmo de ir. Chegou a hora. Se não for agora, sei-o
porque me conheço, jamais saberei como voltar.
E se vou, terei de regressar, vivo ou morto,
um dia qualquer.
Prometi-o a minha mulher, ontem, pela tardinha.
 

 

JOSÉ ANTÓNIO GONÇALVES

 

(inédito, 1.2.04)

 
 
 

Selecção e Montagem: JAG