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ALBANO
MARTINS
Na rota do sensível,
a cor é a linha,
o seu contorno esquivo.
Entre as macias
arestas, confluindo,
espaço e tempo
mutuamente se devoram.
Albano Martins
(in "Vocação do Silêncio
(1950-1985)";
"Agenda Poética 2000 - 50
Anos de Vida Literária",
Edições Universidade Fernando
Pessoa,
org. Beatriz
Werget, 1999)
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Bloco
Poético de Notas
- Selecção de
JAG -
EGITO
GONÇALVES
Um sinuoso caminho enlameado
atravessa o jardim. O mar
está excitado - e à sua
imagem
sobreponho outras de um tempo
em que a minha vida
se feria contra as rochas. É
como
se eu entrasse num velho
quadro
emoldurado
na parede húmida de um quarto
abandonado. Mas tu entras
comigo
e nada reconheço. Não lembro
que a alegria das ruas
viesse ao meu encontro. Que
um mar
tão sereno me envolvesse,
parado,
num caminho de sol. Os
pássaros
olham as nossas mãos,
descemos
ao porto sob um túnel de
jacarandás.
As imagens misturam-se,
esvoaçam,
começam a entrar no poema,
saio
do quadro e eis que a tua mão
domina a vertigem, o caminho
está rodeado de flores, a
chuva
terminou: não havia palavras
para ela.
Os sentidos estão despertos,
ancorados
em torno do teu rosto. Havia
ali um quadro,
dele devem ter saído estas
gaivotas,
o veleiro que abandona o
porto,
talvez - quem sabe? - as
montanhas
que protegem a cidade. Agora
é um espaço branco onde se
espraiam
os meus pensamentos. Sinuosos
avançam um comboio de
palavras: ilha,
rosto, amor, ternura, a
carícia
longa que se eleva da casa, a
pele
de um sonho realizado, o
sangue
do rubi. A chuva parou. A luz
reproduz-se no labirinto
dos espelhos. É o fecho, o
momento
em que te debruças na moldura
da janela
e as minhas mãos te colhem
como se fosses a música que
convoca
o perfume que da relva cria a
noite.
Funchal, 12.97
Sentei-me na esplanada do
hotel,
fiz um gesto para o
empregado: um copo
atravessou o espaço -
evitando
a chuva, aterrou suavemente
na mesa,
debaixo do toldo. Era um bom
serviço.
No copo oscilava uma bebida
branca
estranha
que pensei ser emblemática da
ilha.
Imaginei o coquetel: o sumo
de um limão,
um pouco de insularidade,
umas gotas de horizonte
marítimo,
uma pisca de bruma,
excipiente q.b.
e um disfarce de cor
problemática
que poderia ser azul de céu,
mas
apenas cintilava no enganoso
branco.
Não era mau de gosto, de boa
companhia
para meditar a vida, gozar as
ondulações
da memória, o valor da moeda
que com palavras se foi
cunhando
ao longo de naufrágios, a
chuva lava
os sobressaltos de alma,
abre-se
nesta mesa um porto,um
relógio
de sangue que detém as horas;
neste presente, sinto-me como
se
flutuasse, penso que somos
uma ilha
de felicidade no meio de
gente
que corre de angústia em
angústia.
A nossa razão de ser forja o
destino
como se escreve um poema e se
acredita
na sua magia, no seu poder
de obter o perdão do
sofrimento
como se lançasse peixes ao
mar
e os perdesse. Olho em torno
de mim
enquanto espero a tua
chegada,
os teus sacos de compras, o
relato
do que sem mim viste ou
pensaste.
Então verás o copo e a
escrita
que o seu peso me deu. E
saberás
que é azul de paraíso
a cor líquida que agora
partilhámos.
Funchal, 12.97
EGITO GONÇALVES
(Matosinhos, 1920 -
Porto, 2001)
(in "A Ferida Amável",
Campo das Letras, 2000)
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UM POETA
DA MADEIRA
ANTÓNIO BRITO FIGUEIRÔA
I
possivelmente
vou aproveitar os vitrais
esfarrapadas da lua
e atravessar a nudez do gozo;
do gozo
a deslizar por entre os pés
de pedra do silêncio estilhaçado
e a criar sem misticismos
a denúncia duma deusa
esmagada como uma mulher
vulgar
numa manhã inquieta:
- onde o fim será o começo do
mar
nos alçapões das noras
por onde circulam feridas
cobardes
e cabelos risonhos
tento inutilizar as palavras
acres
e enlaçar os olhos sujos
nas portas eivadas de
fantasmas.
de tanto imaginar
formam-se em redor de mim
labaredas reflectindo o
espanto
das mulheres que sonham alto
e têm bocas viris reais
II
digo. digo que há mais tempo
para inventar. afirmo:
os cães escorregam pintados
de bolor
entre o bafo das paredes e a
sombra
das suas entranhas
apunhaladas:
os poetas penetram nas
lágrimas do vento
e sugam-nas para que nas suas
mentes
deslizem poemas que não sejam
secretos;
e as flores - até as flores -
claudicam
ante as filas de lembranças
perfumadas
que golpeiam a disciplina dos
cemitérios
empedrados de silêncio
III
possivelmente
não haverá: lua
gozo silêncio
não criarei: uma
denúncia uma manhã
e não haverá o mar
ANTÓNIO BRITO FIGUEIRÔA
(in "Ilha 2",
prefácio de Natália Correia,
org. e direcção:
José António Gonçalves,
ed. CMF,1979)
*
António Brito Figueirôa
(n. Funchal, 1955), exerce actualmente a
docência no Ensino Oficial na Madeira. Foi
jornalista e colaborador da imprensa e da rádio
locais. Revelou-se como poeta no "Suplemento
2000", do "Jornal da Madeira" (anos 70),
dirigido por José António Gonçalves. Integrou o
volume "Da Ilha Que Somos", CMF, 1977,
organizado por A. J. Vieira de Freitas e algumas
colectâneas promovidas por José António
Gonçalves, tais como "Ilha" (1975), com "Um
Tempo para Rasgar" e "Ilha 2" (CMF, 1979), com
"Função Ambígua do Ser", não tendo publicado
nenhum livro individual, até ao momento.
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POEMÁRIO
Assírio &
Alvim
2004
VICTOR
SEGALEN
NOME ESCONDIDO
O verdadeiro Nome não é
aquele que doura os pórticos, ilustra
os actos; nem o que o povo
remoneia de enfado;
O verdadeiro Nome
tão-pouco é lido no Palácio, nem nos jar-
dins ou nas grutas, mas vive
escondido pelas águas sob a abóbada do
aqueduto onde eu me
dessedento.
Somente na muito grande
sequidão, quando o Inverno crepita
sem fluxo, quando os
mananciais, baixos ao extremo, enconcham
nos seus gelos,
Quando o vazio está no
coração do subterrâneo e no subterrâ-
neo do coração, - onde o
próprio sangue já não gira, - sob a abó-
bada então acessível pode
recolher-se o Nome.
Mas derretam as águas
duras, explua a vida, vem a torrente
devastadora primeiro que o
Conhecimento!
VICTOR SÉGALEN
(1878-1919)
(in "Mesa de Amigos";
versões de poesia:
Pedro da Silveira)
*
IMAGINÁRIO
Assírio & Alvim
2004
MÁRIO DE SÁ CARNEIRO
(...)
Todas as noites,
depois de ter jantado vagamente, Monforte
seguia pelos grandes
boulevards que a multidão pejava, fazendo
quasi sempre todo o longo
percurso entre a Madalena e a Praça da
República. O barulho contínuo
dos guizos e do trote dos cavalos dos
fiacres, o som rouquenho das
buzinas dos autotaxímetros - a música
característica do boulevard
onde só deslizam rodas silenciosas -
embalava-o como uma melopeia
suave e monótona. Na sua frente
materializavam-se mil
aparições gentis da filha, sentia pesar o braço
dela no seu braço e ouvia, na
realidade ouvia, as suas perguntas, as
suas observações. No rosto,
esboçava-se-lhe uma ventura serena,
terna e enlevada. Mas, de
súbito, o contacto brusco com um tran-
seunte, qualquer ruído que
destoasse, faziam-no despertar - e era
então toda a sua miséria que
lhe surgia implacável diante dos olhos.
Ah! a sua filha não caminhava
junto dele, não... e nunca mais cami-
nharia... nunca mais sentiria
sobre o seu, aquele braço frio duro;
nunca mais admiraria aquele
corpo esbelto, aquela boca a sorrir divi-
namente, aqueles olhos de
sonho... Nunca mais... nunca mais!...
Um oceano de amargura parecia
tumultuar-lhe no peito; as luzes
bailavam de fronte dele em
cancans alucinantes, mas o autor-dramá-
tico continuava o seu
caminho, até que de novo perdia a noção das
coisas e a miragem benéfica
voltava...
(...)
MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO
(1890-1916)
(in "Primeiros Contos")
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Um Poema
Inédito
de
José António
Gonçalves
A INCÓGNITA
em memória de Charles Darwin
sem disso sequer terem recebido
notícia
congeminavam os homens como
habitar
as planícies semear os campos
escalar
as montanhas amasssar o barro
pintar as grutas
caçar antílopes beber uma cerveja
perguntar
a Darwin como tudo isso amanhã
seria possível
ainda amolecidos pelo peso da
água
tolhendo-lhes as entranhas e os
movimentos
sem que os deuses tivessem por
esses
momentos
dado qualquer sinal de vida e já
a terra
apascentava pachorrentamente uns
paquidermes
à mistura com uns insectos
insignificantes
e umas aves desengonçadas
brincando com répteis
querendo subir a árvores sem que
memória
houvesse do desaparecimento dos
dinossauros
enquanto o sol persistentemente
manteve a ideia
de iluminar as flores na
repetição contínua
dos calendários
de modo a que se não acabasse o
futuro
aqui nesta aldeia
José António
Gonçalves
(inédito, 17.10.99.Funchal)
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