A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

 

Fevereiro

2

 
 
***
 
ALBANO MARTINS
  
 
 
 
Na rota do sensível,
a cor é a linha,
o seu contorno esquivo.
Entre as macias
arestas, confluindo,
espaço e tempo
mutuamente se devoram.
 
 
 
Albano Martins
 
 
(in "Vocação do Silêncio (1950-1985)";
"Agenda Poética 2000 - 50 Anos de Vida Literária",
Edições Universidade Fernando Pessoa,
org. Beatriz Werget, 1999)
 
 
 
 ***
 
Bloco Poético de Notas 
 
- Selecção de JAG -
 
 
EGITO GONÇALVES
 
 
 
Um sinuoso caminho enlameado
atravessa o jardim. O mar
está excitado - e à sua imagem
sobreponho outras de um tempo
em que a minha vida
se feria contra as rochas. É como
se eu entrasse num velho quadro
emoldurado
na parede húmida de um quarto
abandonado. Mas tu entras comigo
e nada reconheço. Não lembro
que a alegria das ruas
viesse ao meu encontro. Que um mar
tão sereno me envolvesse, parado,
num caminho de sol. Os pássaros
olham as nossas mãos, descemos
ao porto sob um túnel de jacarandás.
As imagens misturam-se, esvoaçam,
começam a entrar no poema, saio
do quadro e eis que a tua mão
domina a vertigem, o caminho
está rodeado de flores, a chuva
terminou: não havia palavras para ela.
Os sentidos estão despertos, ancorados
em torno do teu rosto. Havia ali um quadro,
dele devem ter saído estas gaivotas,
o veleiro que abandona o porto,
talvez - quem sabe? - as montanhas
que protegem a cidade. Agora
é um espaço branco onde se espraiam
os meus pensamentos. Sinuosos
avançam um comboio de palavras: ilha,
rosto, amor, ternura, a carícia
longa que se eleva da casa, a pele
de um sonho realizado, o sangue
do rubi. A chuva parou. A luz
reproduz-se no labirinto
dos espelhos. É o fecho, o momento
em que te debruças na moldura da janela
e as minhas mãos te colhem
como se fosses a música que convoca
o perfume que da relva cria a noite.
 
Funchal, 12.97
 
 
 
Sentei-me na esplanada do hotel,
fiz um gesto para o empregado: um copo
atravessou o espaço - evitando
a chuva, aterrou suavemente na mesa,
debaixo do toldo. Era um bom serviço.
No copo oscilava uma bebida branca
estranha
que pensei ser emblemática da ilha.
Imaginei o coquetel: o sumo de um limão,
um pouco de insularidade,
umas gotas de horizonte
marítimo,
uma pisca de bruma,
excipiente q.b.
e um disfarce de cor problemática
que poderia ser azul de céu, mas
apenas cintilava no enganoso branco.
Não era mau de gosto, de boa companhia
para meditar a vida, gozar as ondulações
da memória, o valor da moeda
que com palavras se foi cunhando
ao longo de naufrágios, a chuva lava
os sobressaltos de alma, abre-se
nesta mesa um  porto,um relógio
de sangue que detém as horas;
neste presente, sinto-me como se
flutuasse, penso que somos uma ilha
de felicidade no meio de gente
que corre de angústia em angústia.
A nossa razão de ser forja o destino
como se escreve um poema e se acredita
na sua magia, no seu poder
de obter o perdão do sofrimento
como se lançasse peixes ao mar
e os perdesse. Olho em torno de mim
enquanto espero a tua chegada,
os teus sacos de compras, o relato
do que sem mim viste ou pensaste.
Então verás o copo e a escrita
que o seu peso me deu. E saberás
que é azul de paraíso
a cor líquida que agora partilhámos.
 
Funchal, 12.97
 
EGITO GONÇALVES
(Matosinhos, 1920 - Porto, 2001)
 
 
(in "A Ferida Amável",
Campo das Letras, 2000)
 

 

***
 
UM POETA DA MADEIRA
 
 

ANTÓNIO BRITO FIGUEIRÔA

 

I
 
possivelmente
vou aproveitar os vitrais esfarrapadas da lua
e atravessar a nudez do gozo;
do gozo
a deslizar por entre os pés de pedra do silêncio estilhaçado
e a criar sem misticismos
a denúncia duma deusa
esmagada como uma mulher vulgar
numa manhã inquieta:
- onde o fim será o começo do mar
 
nos alçapões das noras
por onde circulam feridas cobardes
e cabelos risonhos
tento inutilizar as palavras acres
e enlaçar os olhos sujos
nas portas eivadas de fantasmas.
de tanto imaginar
formam-se em redor de mim
labaredas reflectindo o espanto
das mulheres que sonham alto
e têm bocas viris reais
 
II
 
digo. digo que há mais tempo
para inventar. afirmo:
os cães escorregam pintados de bolor
entre o bafo das paredes e a sombra
das suas entranhas apunhaladas:
os poetas penetram nas lágrimas do vento
e sugam-nas para que nas suas mentes
deslizem poemas que não sejam secretos;
e as flores - até as flores - claudicam
ante as filas de lembranças perfumadas
que golpeiam a disciplina dos cemitérios
empedrados de silêncio
 
III
 
possivelmente
não haverá:   lua            gozo            silêncio
 
não criarei:    uma denúncia             uma manhã
 
e não haverá o mar
 
 
ANTÓNIO BRITO FIGUEIRÔA
 
 
 
(in "Ilha 2",
prefácio de Natália Correia,
org. e direcção:
José António Gonçalves,
ed. CMF,1979) 
 
*
António Brito Figueirôa (n. Funchal, 1955), exerce actualmente a docência no Ensino Oficial na Madeira. Foi jornalista e colaborador da imprensa e da rádio locais. Revelou-se como poeta no "Suplemento 2000", do "Jornal da Madeira" (anos 70), dirigido por José António Gonçalves. Integrou o volume "Da Ilha Que Somos", CMF, 1977, organizado por A. J. Vieira de Freitas e algumas colectâneas promovidas por José António Gonçalves, tais como "Ilha" (1975), com "Um Tempo para Rasgar" e "Ilha 2" (CMF, 1979), com "Função Ambígua do Ser", não tendo publicado nenhum livro individual, até ao momento. 
 
 
***
 
POEMÁRIO
Assírio & Alvim
2004  
 
 
VICTOR SEGALEN
 
 
 
 
 
NOME ESCONDIDO
 
 
    O verdadeiro Nome não é aquele que doura os pórticos, ilustra
os actos; nem o que o povo remoneia de enfado;
 
    O verdadeiro Nome tão-pouco é lido no Palácio, nem nos jar-
dins ou nas grutas, mas vive escondido pelas águas sob a abóbada do
aqueduto onde eu me dessedento.
 
    Somente na muito grande sequidão, quando o Inverno crepita
sem fluxo, quando os mananciais, baixos ao extremo, enconcham
nos seus gelos,
 
    Quando o vazio está no coração do subterrâneo e no subterrâ-
neo do coração, - onde o próprio sangue já não gira, - sob a abó-
bada então acessível pode recolher-se o Nome.
 
    Mas derretam as águas duras, explua a vida, vem a torrente
devastadora primeiro que o Conhecimento!
 
VICTOR SÉGALEN
 
(1878-1919)
 
(in "Mesa de Amigos";
versões de poesia:
Pedro da Silveira)
 
 
*
 

 

 

IMAGINÁRIO

 

Assírio & Alvim

2004

 

 

 

 

 

MÁRIO DE SÁ CARNEIRO

 

 

       (...)

        Todas as noites, depois de ter jantado vagamente, Monforte

seguia pelos grandes boulevards que a multidão pejava, fazendo

quasi sempre todo o longo percurso entre a Madalena e a Praça da

República. O barulho contínuo dos guizos e do trote dos cavalos dos

fiacres, o som rouquenho das buzinas dos autotaxímetros - a música

característica do boulevard onde só deslizam rodas silenciosas -

embalava-o como uma melopeia suave e monótona. Na sua frente

materializavam-se mil aparições gentis da filha, sentia pesar o braço

dela no seu braço e ouvia, na realidade ouvia, as suas perguntas, as

suas observações. No rosto, esboçava-se-lhe uma ventura serena,

terna e enlevada. Mas, de súbito, o contacto brusco com um tran-

seunte, qualquer ruído que destoasse, faziam-no despertar - e era

então toda a sua miséria que lhe surgia implacável diante dos olhos.

Ah! a sua filha não caminhava junto dele, não... e nunca mais cami-

nharia... nunca mais sentiria sobre o seu, aquele braço frio duro;

nunca mais admiraria aquele corpo esbelto, aquela boca a sorrir divi-

namente, aqueles olhos de sonho... Nunca mais... nunca mais!...

Um oceano de amargura parecia tumultuar-lhe no peito; as luzes

bailavam de fronte dele em cancans alucinantes, mas o autor-dramá-

tico continuava o seu caminho, até que de novo perdia a noção das

coisas e a miragem benéfica voltava...

        (...)

 

MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO

 

(1890-1916)

 

(in "Primeiros Contos")

 
 
 
 
*** 
 
Um Poema Inédito
 
de
 
José António Gonçalves
 

 

A INCÓGNITA

 

em memória de Charles Darwin

 

sem disso sequer terem recebido notícia

congeminavam os homens como habitar

as planícies semear os campos escalar

as montanhas amasssar o barro pintar as grutas

caçar antílopes beber uma cerveja perguntar

a Darwin como tudo isso amanhã

seria possível

ainda amolecidos pelo peso da água

tolhendo-lhes as entranhas e os movimentos

sem que os deuses tivessem por esses

momentos

dado qualquer sinal de vida e já a terra

apascentava pachorrentamente uns paquidermes

à mistura com uns insectos insignificantes

e umas aves desengonçadas brincando com répteis

querendo subir a árvores sem que memória

houvesse do desaparecimento dos dinossauros

enquanto o sol persistentemente manteve a ideia

de iluminar as flores na repetição contínua

dos calendários

de modo a que se não acabasse o futuro

aqui nesta aldeia

 

 

 

 

José António Gonçalves

 

 

(inédito, 17.10.99.Funchal)

 

 

Selecção e Montagem: JAG