A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Fevereiro

20

 
 
 
  
***
 
ALBANO MARTINS
  
 
O rosto oscila
entre dois tons: o verde
esmeralda
do fundo em que se apoia
e o amarelo
das franjas, aloirado
lá onde o ombro
direito se esquece, e também
o do pálido
rubor dos lábios. É
para si
que parece olhar, como Narciso,
reflexamente debruçada
sobre as rosas
que lhe afloram
no peito. E sabe-se
que algumas flores
às vezes de si próprias
se enamoram. É daí
que lhes vem
o mistério e o perfume.
 
 

 

Albano Martins
 
 

(in "A Voz do Olhar", 1998;

"Agenda Poética 2000 -
50 Anos de Vida Literária",
Edições Universidade
Fernando Pessoa,
org. Beatriz Werget, 1999)
 
 
***
 
Bloco Poético de Notas 
 
 
  
DANIEL GONÇALVES
 
 
 
sinto que me movo na alma moribunda do poeta.
na sua trincheira alcanço também a vertigem do fim.
contudo o silêncio recua sem lugar onde se supor
e é só uma parte que se inclina para o esquecimento.
 
vê bem como trago a boca rasgada. os ombros vagos.
os olhos descarregados. a cintura oblíqua de tonturas.
acreditas agora que ele morreu antes de cada verso
ou finges amar georg trackl sem tê-lo sentido na pele?
 
(in "Um Lugar onde Supor o Silêncio", Labirinto, 2003)
 
 
 
 
estou tão perto que me movo dentro de ti.
tão perto que sinto este poema desabitado.
 
estou tão perto. eu sei. tão perto que me dói a boca.
de tão fulgente. de tão incessante que é a água.
 
tão perto que as palavras saem do mesmo rumor.
como se ardessem no mesmo gesto atado.
 
assim tão perto. tão perto que nem te posso mostrar
o mar aberto. a colina acesa à nossa frente.
 
mas sentes ao menos a distância invocada da procura?
a estrela profunda da noite. a vereda do paraíso.
que vai deste poema ao lugar onde te condensas?
 
sentes como o vão infinito das palavras inexiste?
como elas se não desvendam e passam sem te tocar?
 
(in "Um Lugar onde Supor o Silêncio", Labirinto, 2003)
 
 
 
 
há um lugar inextinguível em cada poema.
um arco de fogo se consumindo de eternidade.
sulcando as palavras. atravessando as palavras.
até não haver mais espaço para o silêncio.
 
há o lugar da magnólia. o lugar da pedra:
a profunda rosácea da pedra com a magnólia.
 
há um epicentro admirável ardendo em cada gesto.
um epicentro veloz onde somente sopram e pesam
os eixos da manhã. a respiração nos eixos da manhã.
 
porque as palavras contramovem-se, encontram-se.
nas pequenas coisas que surpreendem no seu tempo.
 
e dão-nos um esplendor impossível. uma outra manhã.
uma linguagem acesa para falarmos desacordados
e depois ardermos na esperança de um novo poema.
 
(in "Um Lugar onde Supor o Silêncio", Labirinto, 2003)
 
*
Daniel da Silva Gonçalves, professor na Escola Básica e Secundária do Porto Moniz, Madeira, nasceu em Wetzikon, Zurique (Suiça), em 1975. Conquistou em 1997 o Prémio revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores (APE), com a obra "A Respiração dos Gestos" (Difel, 2000), tendo ainda sido galardoado com o Primeiro Prémio Literário do Centro Internazionale Amici Scuola (UNESCO, 1993) e com o terceiro prémio do Concurso Internacional da Família (1993). Na Universidade do Minho concluiu, em 1999, a Licenciatura em Ensino de Português (curso que exerce profissionalmente).  Em 2003 venceu o Prémio de Poesia Cesário Verde, da Câmara Municipal de Oeiras, com o livro "Um Lugar onde Supor o Silêncio" (ed. Labirinto, 2003), cuja edição foi apresentada em Dezembro, por Júlia Serra, em Santo Tirso.

 

                                                                  

***
 
PITADA DE SAL 
 
O que diz - TOURO SENTADO
 
 
 
Que tratado houve que os homens brancos tenham respeitado e o homem vermelho rompido? Nenhum. Que tratado houve que o homem branco alguma vez haja feito connosco e ele tenha respeitado? Nenhum. Quando eu era criança, os Sioux eram senhores do mundo; o sol nascia e punha-se dentro das suas terras e podiam enviar dez mil homens ao combate. Onde estão hoje esses guerreiros? Quem os terá chacinado? E as nossas terras, onde estão? Quem será que as possui? Que homem branco poderá sustentar que eu alguma vez lhe tenha roubado a terra ou um só centavo do seu dinheiro? E apesar disso chamam-me ladrão. Que homem branco, mesmo sozinho, foi alguma vez feito cativo ou insultado por mim? E apesar disso clamam que eu sou um índio ruim. Que homem branco me terá alguma vez visto bêbado? Quem terá alguma vez chegado ao pé de mim com fome e se foi embora sem comer? E alguém me terá visto alguma vez bater nas minhas mulheres ou maltratar os meus filhos? Que lei terei eu quebrado? Não terei eu razão por ser fiel à minha própria lei? Acaso será um mal que eu tenha a pele vermelha? Que seja um sioux? Que tenha nascido onde meu pai viveu? Que morra pelo meu povo e pela minha terra?
 
(in "A Fala do Índio - Auto-retrato da Vida dos Povos Nativos da América do Norte", Teri C. McLuhan; Tradução, Notas e Iconografia de Júlio Henriques, ed. Fenda, 2000)
 

 ***

 
UM POETA DA MADEIRA
 
 
  
TERESA SOUTO
 
 
  
FALSO NÉCTAR
 
  "Perdi-me dentro de mim
    porque eu era labirinto,
    e hoje, quando sinto
    é com saudades de mim"
    Mário de Sá-Carneiro
 
que procuras tu nesse falso néctar
que te enreda, te enleia, te afasta de ti?
 
que esperas tu da vida
que a deixas fugir sem lhe dares guarida
e precipitas teus princípios em abismos sem fim?
 
que é que te faz mergulhar nesse inferno embriagador
que te acorrenta, te corrói
e em agónicos desvarios te derruba, te destrói?
 
porque rastejas sobre o rasto dolente
que sangra em ti?
 
olha:
não é ilusão
a visão
da mão quente e nua que alcança
a tua mão
 
julho91
 
 
SIMBIOSE
 
  "Verdes são os campos
    da cor do limão:
    assi são os olhos
    do meu coração"
        Camões
 
 
galgo num olhar o verde que se estende
lentamente
e veloz recuo no tempo
galgando os campos da minha infância
 
sorvo o doce profundo da natureza
imanente
no hálito fresco e húmido da manhã
 
gotas de orvalho cintilam
como lágrimas
num rosto de inefável beleza
 
a paisagem palpita
de luz, cores, odores, sons
- em tropel as sensações
 
fecho os olhos - a volúpia antiga:
tudo retenho
pintado
numa tela de retina
 
algo se funde em mim
 
Fevereiro89
 
(in "Um Olhar Além de Mim",
Colecção "Cadernos Ilha", nº. 9,
Direcção de José António Gonçalves,
Editorial Correio da madeira, 1998)
 

 

 

*

 
Teresa Souto (n. Funchal, 1959). Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, variante de estudos Portugueses, ramo Científico, concluiu também a Licenciatura em Línguas e Literaturas Clássicas, ramo Ensino, na Universidade da Madeira. É professora do Ensino Secundário, tendo colaborado na revista "Parenthesis", da Associação Académica da UMa (1996/97) e no semanário "Eco do Funchal" (1997). Publicou "Um Olhar Além de Mim" (colecção Cadernos Ilha, nº. 9, direcção de José António Gonçalves e ed. Editorial Correio da Madeira, 1998).
 
 
 
****
 

 

POEMÁRIO

 

Assírio & Alvim

 

2004

 

 

W. H. AUDEN

 

 

 

 

 

LAUDES

 

  

 

Na folhagem os passarinhos cantam;

O canto do galo comanda a madrugada:

Em solidão, por companhia.

 

O sol brilhante ilumina as criaturas mortais;

O homem descobre o seu vizinho:

Em solidão, por companhia.

 

O Canto do galo comanda a madrugada;

Já repica o sino da igreja:

Em solidão, por companhia.

 

O homem descobre o seu vizinho;

Deus abençoe o Lugar e o Povo:

Em solidão, por companhia.

 

Já repica o sino da igreja;

A roda da azenha continua a girar:

Em solidão, por companhia.

 

Deus abençoe o Lugar e o Povo;

Deus abençoe este verde mundo efémero:

Em solidão, por companhia.

 

A roda da azenha continua a girar;

Na folhagem os passarinhos cantam:

Em solidão, por companhia.

 

 

W. H. AUDEN

 

(1907-1973)

 

(in "O Massacre dos Inocentes",

Tradução de José Alberto Oliveira)

 

***

 

 

 

 

 IMAGINÁRIO

 

Assírio & Alvim

 

2004

 

 

                                      

ANAIS NIN

 

 

 

 

     Quero conhecer o que lá corre em baixo assim pontuado por convulsões amargas. As duas correntes não se encontram. Vejo em mim duas mulheres bizarramente ligadas uma à outra como gémeos de circo. Vejo-as arrancarem-se uma da outra. Consigo mesmo ouvir o rasgão, a ira e o amor, a paixão e o sofrimento. Quando esse acto-deslocação de repente pára - ou quando deixo de ter consciência do som - o silêncio torna-se então ainda mais terrível uma vez que à minha volta não há senão loucura, a loucura das coisas que atraem coisas de dentro de cada um, raízes que se afastam para crescerem separadamente, tensão provocada para atingir a unidade.

 

 

 

ANAIS NIN

 

(1903-1977)

 

 

(in "A Casa do Incesto";

trad. Isabel Hub Faria)

 

 

 

*** 

 
Um poema inédito
 
de
 
José António Gonçalves
 
 
 
 
O FAROL ACENDE-SE
 
 
há um mar parado na sua invisibilidade
e um marinheiro cego em movimento permanente.
há um marinheiro cego e o mar rente
à face dura da terra e um barco e a cidade.
 
ninguém decora os recifes e os corais verdes
e azuis fundem-se em cristais nos olhos do navegador.
há um navegador cego e o mar acordando a dor
da sua cegueira em música de silenciosos acordes.
 
há um barco e a cidade e a escuridão e um gigante
Adamastor em cada vaga em cada litro de água salgada.
há a água salgada nos agrestes medos de tudo e de nada
e a coragem que se esfuma no ar talvez por um instante.
 
o breu da noite engole mais fundo que a aguardente
e arde no cerne da garganta da vida que lenta se afasta.
é a cidade e as suas luzes apagadas a ave que arrasta
a esperança para o abismo onde a verdade sempre mente.
 
os milagres não existem na tempestade forjada na loucura
do marinheiro cego em busca da cidade branca banhada de sol.
e há um barco resistindo, um homem persistindo e então um farol
acende-se e derrama o dia no seu olhar molhado pela noite escura.
 
 

  

José António Gonçalves
 
(inédito.20/2/04)
 
 
 
 
 

Selecção e Montagem: JAG