O
rosto oscila
entre
dois tons: o verde
esmeralda
do fundo
em que se apoia
e o
amarelo
das
franjas, aloirado
lá onde o
ombro
direito
se esquece, e também
o do
pálido
rubor dos
lábios. É
para si
que
parece olhar, como Narciso,
reflexamente debruçada
sobre as
rosas
que lhe
afloram
no peito.
E sabe-se
que
algumas flores
às vezes
de si próprias
se
enamoram. É daí
que lhes
vem
o
mistério e o perfume.
Albano
Martins
(in "A
Voz do Olhar", 1998;
"Agenda
Poética 2000 -
50 Anos
de Vida Literária",
Edições
Universidade
Fernando
Pessoa,
org.
Beatriz Werget, 1999)
***
Bloco Poético de Notas
DANIEL GONÇALVES
sinto que me movo na alma moribunda
do poeta.
na sua trincheira alcanço também a
vertigem do fim.
contudo o silêncio recua sem lugar
onde se supor
e é só uma parte que se inclina para
o esquecimento.
vê bem como trago a boca rasgada. os
ombros vagos.
os olhos descarregados. a cintura
oblíqua de tonturas.
acreditas agora que ele morreu antes
de cada verso
ou finges amar georg trackl sem
tê-lo sentido na pele?
(in "Um Lugar onde
Supor o Silêncio", Labirinto, 2003)
estou tão perto que me movo dentro
de ti.
tão perto que sinto este poema
desabitado.
estou tão perto. eu sei. tão perto
que me dói a boca.
de tão fulgente. de tão incessante
que é a água.
tão perto que as palavras saem do
mesmo rumor.
como se ardessem no mesmo gesto
atado.
assim tão perto. tão perto que nem
te posso mostrar
o mar aberto. a colina acesa à nossa
frente.
mas sentes ao menos a distância
invocada da procura?
a estrela profunda da noite. a
vereda do paraíso.
que vai deste poema ao lugar onde te
condensas?
sentes como o vão infinito das
palavras inexiste?
como elas se não desvendam e passam
sem te tocar?
(in "Um Lugar onde
Supor o Silêncio", Labirinto, 2003)
há um lugar inextinguível em cada
poema.
um arco de fogo se consumindo de
eternidade.
sulcando as palavras. atravessando
as palavras.
até não haver mais espaço para o
silêncio.
há o lugar da magnólia. o lugar da
pedra:
a profunda rosácea da pedra com a
magnólia.
há um epicentro admirável ardendo em
cada gesto.
um epicentro veloz onde somente
sopram e pesam
os eixos da manhã. a respiração nos
eixos da manhã.
porque as palavras contramovem-se,
encontram-se.
nas pequenas coisas que surpreendem
no seu tempo.
e dão-nos um esplendor impossível.
uma outra manhã.
uma linguagem acesa para falarmos
desacordados
e depois ardermos na esperança de um
novo poema.
(in "Um Lugar onde
Supor o Silêncio", Labirinto, 2003)
*
Daniel da Silva
Gonçalves, professor na Escola Básica e
Secundária do Porto Moniz, Madeira,
nasceu em Wetzikon, Zurique (Suiça), em
1975. Conquistou em 1997 o Prémio
revelação de Poesia da Associação
Portuguesa de Escritores (APE), com a
obra "A Respiração dos Gestos" (Difel,
2000), tendo ainda sido galardoado com o
Primeiro Prémio Literário do Centro
Internazionale Amici Scuola (UNESCO,
1993) e com o terceiro prémio do
Concurso Internacional da Família
(1993). Na Universidade do Minho
concluiu, em 1999, a Licenciatura em
Ensino de Português (curso que exerce
profissionalmente). Em 2003 venceu o
Prémio de Poesia Cesário Verde, da
Câmara Municipal de Oeiras, com o livro
"Um Lugar onde Supor o Silêncio" (ed.
Labirinto, 2003), cuja edição foi
apresentada em Dezembro, por Júlia
Serra, em Santo Tirso.
***
PITADA DE SAL
O
que diz - TOURO SENTADO
Que tratado houve que os
homens brancos tenham respeitado
e o homem vermelho rompido?
Nenhum. Que tratado houve que o
homem branco alguma vez haja
feito connosco e ele tenha
respeitado? Nenhum. Quando eu
era criança, os Sioux eram
senhores do mundo; o sol nascia
e punha-se dentro das suas
terras e podiam enviar dez mil
homens ao combate. Onde estão
hoje esses guerreiros? Quem os
terá chacinado? E as nossas
terras, onde estão? Quem será
que as possui? Que homem branco
poderá sustentar que eu alguma
vez lhe tenha roubado a terra ou
um só centavo do seu dinheiro? E
apesar disso chamam-me ladrão.
Que homem branco, mesmo sozinho,
foi alguma vez feito cativo ou
insultado por mim? E apesar
disso clamam que eu sou um índio
ruim. Que homem branco me terá
alguma vez visto bêbado? Quem
terá alguma vez chegado ao pé de
mim com fome e se foi embora sem
comer? E alguém me terá visto
alguma vez bater nas minhas
mulheres ou maltratar os meus
filhos? Que lei terei eu
quebrado? Não terei eu razão por
ser fiel à minha própria lei?
Acaso será um mal que eu tenha a
pele vermelha? Que seja um sioux?
Que tenha nascido onde meu pai
viveu? Que morra pelo meu povo e
pela minha terra?
(in "A
Fala do Índio - Auto-retrato da
Vida dos Povos Nativos da
América do Norte", Teri C.
McLuhan; Tradução, Notas e
Iconografia de Júlio Henriques,
ed. Fenda, 2000)
***
UM
POETA DA MADEIRA
TERESA SOUTO
FALSO NÉCTAR
"Perdi-me
dentro de mim
porque eu era
labirinto,
e hoje,
quando sinto
é com
saudades de mim"
Mário de
Sá-Carneiro
que procuras tu nesse
falso néctar
que te enreda, te
enleia, te afasta de ti?
que esperas tu da
vida
que a deixas fugir
sem lhe dares guarida
e precipitas teus
princípios em abismos sem fim?
que é que te faz
mergulhar nesse inferno embriagador
que te acorrenta, te
corrói
e em agónicos
desvarios te derruba, te destrói?
porque rastejas sobre
o rasto dolente
que sangra em ti?
olha:
não é ilusão
a visão
da mão quente e nua
que alcança
a tua mão
julho91
SIMBIOSE
"Verdes
são os campos
da cor do limão:
assi são os olhos
do meu coração"
Camões
galgo num olhar o
verde que se estende
lentamente
e veloz recuo no
tempo
galgando os campos da
minha infância
sorvo o doce profundo
da natureza
imanente
no hálito fresco e
húmido da manhã
gotas de orvalho
cintilam
como lágrimas
num rosto de inefável
beleza
a paisagem palpita
de luz, cores,
odores, sons
- em tropel as
sensações
fecho os olhos - a
volúpia antiga:
tudo retenho
pintado
numa tela de retina
algo se funde em mim
Fevereiro89
(in "Um Olhar Além de
Mim",
Colecção "Cadernos
Ilha", nº. 9,
Direcção de José
António Gonçalves,
Editorial Correio da
madeira, 1998)
Teresa Souto (n.
Funchal, 1959). Licenciada em Línguas e
Literaturas Modernas, variante de
estudos Portugueses, ramo Científico,
concluiu também a Licenciatura em
Línguas e Literaturas Clássicas, ramo
Ensino, na Universidade da Madeira. É
professora do Ensino Secundário, tendo
colaborado na revista "Parenthesis", da
Associação Académica da UMa (1996/97) e
no semanário "Eco do Funchal" (1997).
Publicou "Um Olhar Além de Mim"
(colecção Cadernos Ilha, nº. 9, direcção
de José António Gonçalves e ed.
Editorial Correio da Madeira, 1998).
****
POEMÁRIO
Assírio & Alvim
2004
W. H.
AUDEN
LAUDES
Na folhagem os passarinhos cantam;
O canto do galo comanda a madrugada:
Em solidão, por companhia.
O sol brilhante ilumina as criaturas
mortais;
O homem descobre o seu vizinho:
Em solidão, por companhia.
O Canto do galo comanda a madrugada;
Já repica o sino da igreja:
Em solidão, por companhia.
O homem descobre o seu vizinho;
Deus abençoe o Lugar e o Povo:
Em solidão, por companhia.
Já repica o sino da igreja;
A roda da azenha continua a girar:
Em solidão, por companhia.
Deus abençoe o Lugar e o Povo;
Deus abençoe este verde mundo efémero:
Em solidão, por companhia.
A roda da azenha continua a girar;
Na folhagem os passarinhos cantam:
Em solidão, por companhia.
W. H. AUDEN
(1907-1973)
(in "O Massacre dos
Inocentes",
Tradução de José Alberto
Oliveira)
***
IMAGINÁRIO
Assírio &
Alvim
2004
ANAIS NIN
Quero conhecer o que
lá corre em baixo assim pontuado por convulsões
amargas. As duas correntes não se encontram.
Vejo em mim duas mulheres bizarramente ligadas
uma à outra como gémeos de circo. Vejo-as
arrancarem-se uma da outra. Consigo mesmo ouvir
o rasgão, a ira e o amor, a paixão e o
sofrimento. Quando esse acto-deslocação de
repente pára - ou quando deixo de ter
consciência do som - o silêncio torna-se então
ainda mais terrível uma vez que à minha volta
não há senão loucura, a loucura das coisas que
atraem coisas de dentro de cada um, raízes que
se afastam para crescerem separadamente, tensão
provocada para atingir a unidade.
ANAIS NIN
(1903-1977)
(in "A Casa do Incesto";
trad. Isabel Hub Faria)
***
Um
poema inédito
de
José
António Gonçalves
O FAROL ACENDE-SE
há um mar parado na sua
invisibilidade
e um marinheiro cego em movimento
permanente.
há um marinheiro cego e o mar rente
à face dura da terra e um barco e a
cidade.
ninguém decora os recifes e os
corais verdes
e azuis fundem-se em cristais nos
olhos do navegador.
há um navegador cego e o mar
acordando a dor
da sua cegueira em música de
silenciosos acordes.
há um barco e a cidade e a escuridão
e um gigante
Adamastor em cada vaga em cada litro
de água salgada.
há a água salgada nos agrestes medos
de tudo e de nada
e a coragem que se esfuma no ar
talvez por um instante.
o breu da noite engole mais fundo
que a aguardente
e arde no cerne da garganta da vida
que lenta se afasta.
é a cidade e as suas luzes apagadas
a ave que arrasta
a esperança para o abismo onde a
verdade sempre mente.
os milagres não existem na
tempestade forjada na loucura
do marinheiro cego em busca da
cidade branca banhada de sol.
e há um barco resistindo, um homem
persistindo e então um farol
acende-se e derrama o dia no seu
olhar molhado pela noite escura.
José António
Gonçalves
(inédito.20/2/04)
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