Folheamos agora dicionários
cada vez mais breves.
De noite,
os teus cabelos emigram
como espigas de incenso. Há
gerânios
pisados entre os dedos,
dálias
viagens sufocadas
na epiderme.
As
palavras
só conhecem o limbo, a
rigorosa
película da sede.
Albano Martins
(in "Três
Poemas de Amor seguidos de Livro Quarto", Quási,
2004)
***
Bloco Poético de
Notas
JOÃO CABRAL MELO E NETO
POEMA
Deixa que no teu pensamento viajem apenas
os pensamentos que estiveram presentes
na cabeça do primeiro homem
quando ele foi ao teatro.
As estradas em long-shot todas
se reuniram numa só estrada
que corria entre representações ideais
e que ele descobriu estarem presentes
na retina do primeiro homem
quando ele foi ao teatro.
RIOS SEM DISCURSO
Quando um rio corta, corta-se de vez
o discurso-rio de água que ele fazia;
cortado, a água se quebra em pedaços,
em poços de água, em água paralítica.
Em situação de poço, a água equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma,
e porque assim estanque, estancada;
e mais: porque assim estancada, muda,
e muda porque com nenhuma comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele discorria.
O curso de um rio, seu discurso-rio,
chega raramente a se reatar de vez;
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.
Salvo a grandiloqüência de uma cheia
lhe impondo interina outra linguagem,
um rio precisa de muita água em fios
para que todos os poços se enfrasem:
se reatando, de um para outro poço,
em frases curtas, então frase a frase,
até a sentença-rio do discurso único
em que se tem voz a seca ele combate.
*
O mar soprava sinos,
Os sinos secavam as flores,
As flores eram cabeças de santos.
Minha memória cheia de palavras,
Meus pensamentos procurando fantasmas
Meus pesadelos atrasados de muitas noites.
De madrugada, meus pensamentos puros
Voavam como telegramas;
E nas janelas acesas toda a noite
O retrato da morta
Fez esforços desesperados para fugir.
(in "Pedra do Sono",
1942)
***
João Cabral Melo e Neto
(1920-1999), poeta brasileiro nascido em Recife, PE. Com sua
tentativa de desvendar os elementos concretos da realidade,
inaugurou um novo modo de fazer poesia em nossa literatura.
Ingressou na carreira diplomática aos 25 anos, exercendo sua
profissão, em diversos países, por mais de quarenta anos; um
período em que o poeta conheceu a fundo a cultura espanhola,
especialmente quando viveu em Barcelona e Sevilha, o que deixou
muitas marcas na sua poesia. Membro da Academia Brasileira de
Letras (1968), após se aposentar do serviço público, radicou-se
no Rio de Janeiro. Teve a publicação em volume único de sua obra
completa, pela editora Nova Aguilar (1994). Seu poema mais
conhecido, Morte e vida Severina (1956), é uma
narrativa subintitulada Auto de Natal pernambucano, que
trata da caminhada de um retirante do sertão até o litoral, em
busca de condições para sobreviver à seca. A semelhança com um
auto natalino ocorre no final, quando, ao presenciar o
nascimento de uma criança, renuncia aos seus pensamentos
suicidas. Esse poema teve uma versão apresentada pela Rede Globo
de Televisão com participação da cantora Elba Ramalho. A
obra do autor ainda contempla Pedra do sono (1942),
O engenheiro (1945), Psicologia da composição
(1947), O cão sem plumas (1950), O no (1954),
Paisagem com figuras (1956), Uma faca só lâmina
(1956), A educação pela pedra (1966), Museu de
tudo (1975), Auto do frade (1984), Agrestes
(1985) e Crime na Calle Relator (1987).
***
PITADA DE SAL
O que diz - ANTÓNIO
NOBRE
Soneto
Vários poetas vieram à Madeira
(Pela fama que tem) a ares do mar:
Uns pra breve voltarem à lareira,
Outros, ai deles! para aqui ficar.
Esta ilha é Portugal, mesma é a
bandeira,
Morrer nesta ilha não deve custar,
Mas para mim sempre é terra
estrangeira,
À minha pátria quero, enfim, voltar.
Ilhas amadas! Céu cheio de luas!
Ah, como é triste andar por essas
ruas,
Pálido, de olhos grandes, a tossir!
Eu vou-me embora, adeus! mas volto a
vê-las.
Vou com as ondas, voltarei com elas,
Mas como elas pra tornar a ir!
ANTÓNIO NOBRE
UM POETA DA MADEIRA
Pe. ALFREDO VIEIRA DE
FREITAS
A NOITE DE AMARGURA
É grande, é densa a noite da amargura,
De medonhos fantasmas toda cheia;
Do céu caliginoso na espessura,
Nem sequer uma estrela bruxoleia.
Em vão por toda a parte se procura
Aquilo que a nossa alma tanto anseia:
Uma esperança, um raio de ventura...
A duvidosa luz duma candeia.
O mar do Pensamento, tormentoso,
Ruge, marulha sem repouso,
No crânio ressoando o seu rugido.
Noite sem lua, noite apavorante,
É desgraçado o pobre viajante
Que fôr por ti na vida surpreendido!...
ASAS FERIDAS
Eu tinha umas asas
brancas
Asas que um anjo me deu
Garrett
Asas de neve, puras, ideais,
Meu coração refluva-as, ia ao céu,
Quando irrequieto o pensamento meu
Contemplava as belezas siderais.
Bem me recordo: as asas eram tais
Que nunca o seu valor desfaleceu,
A buscar nas alturas o apogeu,
Sempre a subir, sem me cansar jamais.
Ó voos sublimes dum sonhar ardente!
Quando no azul a voar contente,
As asas me feriram ao batê-las.
Embora nunca mais ao céu subisse,
Ainda contemplo os astros com meiguice...
Fiquei sempre cativo das estrelas.
A VIDA DOS POETAS
O viver do poeta é nostalgia,
Inquietação, tortura permanente;
Padece como Cristo padecia,
Também com Ele, a dor dos outros sente...
E sofre a indiferença dura e fria
Dos títeres que vê constantemente;
Imbecís não lhe entendem a Poesia:
Um sonho belo a palpitar fremente.
O seu nobre Ideal só Deus atinge
E nele vêem os homens uma Esfinge,
Que não ousam sequer interrogar.
Assim vive o poeta agonizando,
Por ser mal compreendido, suspirando,
Até descer à campa tumular.
(in "Céu de Estrelas", Sonetos, 1948)
Alfredo Vieira de
Freitas, sacerdote católico, era natural de Gaula, Santa
Cruz, ilha da Madeira (1908-1992), era poeta e investigador
do cancioneiro popular madeirense. Professor de Português,
de Literatura Portuguesa e de Religião e Moral. Colaborador
da imprensa, criando e escrevendo secções de crónica, com e
sem pseudónimos, especialmente no "Jornal da Madeira".
Algumas das suas obras: Mãos Suplicantes; Céu de Estrelas;
Era Uma Vez... Na Madeira; Amadis de Gaula: . Gaula de
Amadis; O Problema do Sofrimento na Vida Humana; Pétalas ao
Vento; Flores do Tempo; Linha de Rumo; O Amor no Folclore
Madeirense; O Humor no Folclore Madeirense; e Continhos
Populares Madeirenses.
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POEMÁRIO
Assírio & Alvim
2004
LUÍS BUÑUEL
PROJECTO DE CONTO
É uma soirée que dou em minha casa e que
acaba
catastroficamente. Sou obrigado a ir a casa
de um
cientista, amigo meu, onde se passam coisas
gradas. De
ali, vou cair ao Hospital de Fora, de Toledo,
que também
tem muito que se lhe diga. Finalmente, morro,
não sem
fazer testamento - verás que testamento! - e,
por fim...
Meu dito, meu feito, só me sobrou o tempo
de morrer
com decência. Quatro gatos pingados
apoderam-se do
meu corpo, levando-o para a igreja do lado a
fim de
procederem ao enterro. Retiram a laje infecta
do sepulcro
do cardeal Tavera e, expulsando a imunda
carcaça, que
tiveram de atirar a um cemitério de mulas
porque já nem os
pobres a queriam, meteram-me ali para sempre.
DESCANSEM EM PAZ OS TAPA-SARDAS!!!
LUÍS BUÑUEL
(1900-1983)
(in "Os Poemas de Luís Buñuel", org. de J. F. Aranda,
tradução de Mário Cesariny)
***
IMAGINÁRIO
Assírio & Alvim
2004
ROBERT LOUIS STEVENSON
O velho calabouço, que tanto tempo
acoitou aqueles
extraviados, era um rectângulo murado à
esquina de uma
avenida sombria da zona ocidental da cidade,
pouco antes de
chegarmos ao Consulado Britânico. Dentro
havia um pátio
invadido pela erva e por detritos dos
ocupantes do acaso, seis
ou sete celas abertas a esse espaço interior.
As portas,
antigamente trancadas na cara dos marinheiros
recalcitrantes,
apodreciam na erva. Sinais da primitiva
utilização só as grades
das janelas, cheias de ferrugem.
O chão de uma das celas estava meio
limpo. Ao pé da porta
fora deixado um balde com água (derradeiro
haver dos três
miseráveis) e ao lado meia noz de coco a
servir de copo. Huish
dormia de boca aberta nuns restos de esteira,
com a face
tomada por uma cor terrosa. A incandescência
da tarde tropical
e os reflexos verdes da folhagem entravam por
aquela sombra,
trespassando as aberturas da porta e da
janela. Herrick andava
de um lado para o outro no chão de coral, e
às vezes parava
para lavar a cara e pescoço na água morna do
balde. As penas
que já amargara, a noite em claro, os
ultrajes daquela manhã, a
canseira da carta tinham-no arrastado ao
ponto em que a fadiga
se confunde quase num prazer, o tempo se
reduz a um só
instante, morte e vida são a mesmíssima
coisa. Andava como a
fera na jaula, perdido de todo em pensamentos
e memórias, de
olhar distraidamente posto nas inscrições da
parede que
enchiam uma demão de tinta já meia
descascada. Eram
palavras tahitianas, francesas, inglesas,
desenhos
grosseiramente feitos de barcos à vela e
homens algemados.
(...)
ROBERT LOUIS STEVENSON
(1850-1894)
(in "No Vazio da Onda - Trio e Quarteto",
Tradução de Aníbal Fernandes)
***
Um poema inédito
de
José António Gonçalves
SUSPIRO PELAS CASAS
Onde hoje há auto-estradas
dantes moravam homens
e havia figueiras
e nespereiras em flor.
Havia recantos de sombras
e cheiro a terra
em redor das casas.
Havia amor. Anjos. Asas. Presépios.
Sabia-se à distância das notícias
novas da guerra
em territórios ultramarinos
e escutava-se telefonia à noitinha
depois da reza do terço,
do lavar dos dentes,
do uso do penico,
do beijinho da mãe e dos trabalhos
da escola, três cópias, um ditado, quatro
somas e duas contas para dividir,
sem direito a ajudar os irmãos
mais pequeninos.
Dantes havia o candeeiro a petróleo,
o calendário da colgate, a vigília
do vizinho moribundo. A igreja fechava
muito tarde e pululava de beatas.
Em segredo os rapazes falavam
de poder, da reforma agrária, do preço
do pão e da ânsia de liberdade.
Depois numa manhã de capitães
com soldados vestidos de cravos,
entrou a revolução pelas portas do país.
Cantavam democracia, igualdade
para todos e alguma coisa aconteceu
sem interferência de cardeais,
de professores, regedores,
dos curas da paróquia
ou de trovoadas no céu.
Chegaram as obras e as bandeiras,
os caminhos saltaram de sítio, a luz
acendeu por si, a televisão trouxe
imagens a preto e branco
que pintaram a cores.
O amor ficou na rua
e as auto-estradas entraram no lugar
onde dantes moravam os homens.
Mudaram os feriados, as horas, as pontes
e as paisagens. Agora tenho saudades
dos presépios. Dos Anjos. Das asas.
Cansei-me das liberdades
e já suspiro pelas casas.
José António Gonçalves
(inédito. 21.2.04)
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