A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Fevereiro

21

 
 
 
  
***
 
ALBANO MARTINS
  
 
Folheamos agora dicionários
cada vez mais breves.
                                    De noite,
os teus cabelos emigram
como espigas de incenso. Há gerânios
pisados entre os dedos, dálias
viagens sufocadas
na epiderme.
                       As palavras
só conhecem o limbo, a rigorosa
película da sede.
 
 
Albano Martins
 
 

(in "Três Poemas de Amor seguidos de Livro Quarto", Quási, 2004)

 
 
***
 
Bloco Poético de Notas 
 
 
 
 
 
JOÃO CABRAL MELO E NETO
 
 
POEMA
 
Deixa que no teu pensamento viajem apenas
os pensamentos que estiveram presentes
na cabeça do primeiro homem
quando ele foi ao teatro.
As estradas em long-shot todas
se reuniram numa só estrada
que corria entre representações ideais
e que ele descobriu estarem presentes
na retina do primeiro homem
quando ele foi ao teatro
.
 
 
RIOS SEM DISCURSO
 

Quando um rio corta, corta-se de vez
o discurso-rio de água que ele fazia;
cortado, a água se quebra em pedaços,
em poços de água, em água paralítica.
Em situação de poço, a água equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma,
e porque assim estanque, estancada;
e mais: porque assim estancada, muda,
e muda porque com nenhuma comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele discorria.

O curso de um rio, seu discurso-rio,
chega raramente a se reatar de vez;
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.
Salvo a grandiloqüência de uma cheia
lhe impondo interina outra linguagem,
um rio precisa de muita água em fios
para que todos os poços se enfrasem:
se reatando, de um para outro poço,
em frases curtas, então frase a frase,
até a sentença-rio do discurso único
em que se tem voz a seca ele combate.

 
*
 
O mar soprava sinos,
Os sinos secavam as flores,
As flores eram cabeças de santos.

Minha memória cheia de palavras,
Meus pensamentos procurando fantasmas
Meus pesadelos atrasados de muitas noites.

De madrugada, meus pensamentos puros
Voavam como telegramas;
E nas janelas acesas toda a noite
O retrato da morta
Fez esforços desesperados para fugir.
 

(in "Pedra do Sono", 1942)

 

***

João Cabral Melo e Neto (1920-1999), poeta brasileiro nascido em Recife, PE. Com sua tentativa de desvendar os elementos concretos da realidade, inaugurou um novo modo de fazer poesia em nossa literatura. Ingressou na carreira diplomática aos 25 anos, exercendo sua profissão, em diversos países, por mais de quarenta anos; um período em que o poeta conheceu a fundo a cultura espanhola, especialmente quando viveu em Barcelona e Sevilha, o que deixou muitas marcas na sua poesia. Membro da Academia Brasileira de Letras (1968), após se aposentar do serviço público, radicou-se no Rio de Janeiro. Teve a publicação em volume único de sua obra completa, pela editora Nova Aguilar (1994). Seu poema mais conhecido, Morte e vida Severina (1956), é uma narrativa subintitulada Auto de Natal pernambucano, que trata da caminhada de um retirante do sertão até o litoral, em busca de condições para sobreviver à seca. A semelhança com um auto natalino ocorre no final, quando, ao presenciar o nascimento de uma criança, renuncia aos seus pensamentos suicidas. Esse poema teve uma versão apresentada pela Rede Globo de Televisão com participação da cantora Elba Ramalho. A obra do autor ainda contempla Pedra do sono (1942), O engenheiro (1945), Psicologia da composição (1947), O cão sem plumas (1950), O no (1954), Paisagem com figuras (1956), Uma faca só lâmina (1956), A educação pela pedra (1966), Museu de tudo (1975), Auto do frade (1984), Agrestes (1985) e Crime na Calle Relator (1987).

***
 
PITADA DE SAL
 
O que diz - ANTÓNIO NOBRE
 
 
 
 
 
Soneto
 
 
Vários poetas vieram à Madeira
(Pela fama que tem) a ares do mar:
Uns pra breve voltarem à lareira,
Outros, ai deles! para aqui ficar.
 
 
Esta ilha é Portugal, mesma é a bandeira,
Morrer nesta ilha não deve custar,
Mas para mim sempre é terra estrangeira,
À minha pátria quero, enfim, voltar.
 
Ilhas amadas! Céu cheio de luas!
Ah, como é triste andar por essas ruas,
Pálido, de olhos grandes, a tossir!
 
Eu vou-me embora, adeus! mas volto a vê-las.
Vou com as ondas, voltarei com elas,
Mas como elas pra tornar a ir!
 
 
ANTÓNIO NOBRE
 

  

 
 

 ***

 
UM POETA DA MADEIRA
 
 
Pe. ALFREDO VIEIRA DE FREITAS
 
 

 

A NOITE DE AMARGURA
 
  
É grande, é densa a noite da amargura,
De medonhos fantasmas toda cheia;
Do céu caliginoso na espessura,
Nem sequer uma estrela bruxoleia.
 
 
Em vão por toda a parte se procura
Aquilo que a nossa alma tanto anseia:
Uma esperança, um raio de ventura...
A duvidosa luz duma candeia.
 
 
O mar do Pensamento, tormentoso,
Ruge, marulha sem repouso,
No crânio ressoando o seu rugido.
 
 
Noite sem lua, noite apavorante,
É desgraçado o pobre viajante
Que fôr por ti na vida surpreendido!...
 
 
 
ASAS FERIDAS
 
            Eu tinha umas asas brancas
            Asas que um anjo me deu
                                        Garrett
 
 
Asas de neve, puras, ideais,
Meu coração refluva-as, ia ao céu,
Quando irrequieto o pensamento meu
Contemplava as belezas siderais.
 
Bem me recordo: as asas eram tais
Que nunca o seu valor desfaleceu,
A buscar nas alturas o apogeu,
Sempre a subir, sem me cansar jamais.
 
Ó voos sublimes dum sonhar ardente!
Quando no azul a voar contente,
As asas me feriram ao batê-las.
 
Embora nunca mais ao céu subisse,
Ainda contemplo os astros com meiguice...
Fiquei sempre cativo das estrelas.
 
 
 
 
A VIDA DOS POETAS
 
 
O viver do poeta é nostalgia,
Inquietação, tortura permanente;
Padece como Cristo padecia,
Também com Ele, a dor dos outros sente...
 
E sofre a indiferença dura e fria
Dos títeres que vê constantemente;
Imbecís não lhe entendem a Poesia:
Um sonho belo a palpitar fremente.
 
O seu nobre Ideal só Deus atinge
E nele vêem os homens uma Esfinge,
Que não ousam sequer interrogar.
 
Assim vive o poeta agonizando,
Por ser mal compreendido, suspirando,
Até descer à campa tumular.
 
(in "Céu de Estrelas", Sonetos, 1948)
 
 

*

 

Alfredo Vieira de Freitas, sacerdote católico, era natural de Gaula, Santa Cruz, ilha da Madeira (1908-1992), era poeta e investigador do cancioneiro popular madeirense. Professor de Português, de Literatura Portuguesa e de Religião e Moral. Colaborador da imprensa, criando e escrevendo secções de crónica, com e sem pseudónimos, especialmente no "Jornal da Madeira". Algumas das suas obras: Mãos Suplicantes; Céu de Estrelas; Era Uma Vez... Na Madeira; Amadis de Gaula: . Gaula de Amadis; O Problema do Sofrimento na Vida Humana; Pétalas ao Vento; Flores do Tempo; Linha de Rumo; O Amor no Folclore Madeirense; O Humor no Folclore Madeirense; e Continhos Populares Madeirenses.

 
 
 
****
 

 

POEMÁRIO

 

Assírio & Alvim

 

2004

 

 

 

 

LUÍS BUÑUEL

 

 

 

 

 

 

 

PROJECTO DE CONTO

 

 

 

 

    É uma soirée que dou em minha casa e que acaba

 

catastroficamente. Sou obrigado a ir a casa de um

 

cientista, amigo meu, onde se passam coisas gradas. De

 

ali, vou cair ao Hospital de Fora, de Toledo, que também

 

tem muito que se lhe diga. Finalmente, morro, não sem

 

fazer testamento - verás que testamento! - e, por fim...

 

 

    Meu dito, meu feito, só me sobrou o tempo de morrer

 

com decência. Quatro gatos pingados apoderam-se do

 

meu corpo, levando-o para a igreja do lado a fim de

 

procederem ao enterro. Retiram a laje infecta do sepulcro

 

do cardeal Tavera e, expulsando a imunda carcaça, que

 

tiveram de atirar a um cemitério de mulas porque já nem os

 

pobres a queriam, meteram-me ali para sempre.

 

 

    DESCANSEM EM PAZ OS TAPA-SARDAS!!!

 

 

LUÍS BUÑUEL 

 

(1900-1983)

 

 

(in "Os Poemas de Luís Buñuel", org. de J. F. Aranda, tradução de Mário Cesariny) 

 

 

 

 
***

 

 

 

 

 IMAGINÁRIO

 

Assírio & Alvim

 

2004

 

 

 

 

 

 

 

ROBERT LOUIS STEVENSON

 

 

 

 

    O velho calabouço, que tanto tempo acoitou aqueles

 

extraviados, era um rectângulo murado à esquina de uma

 

avenida sombria da zona ocidental da cidade, pouco antes de

 

chegarmos ao Consulado Britânico. Dentro havia um pátio

 

invadido pela erva e por detritos dos ocupantes do acaso, seis

 

ou sete celas abertas a esse espaço interior. As portas,

 

antigamente trancadas na cara dos marinheiros recalcitrantes,

 

apodreciam na erva. Sinais da primitiva utilização só as grades

 

das janelas, cheias de ferrugem.

 

 

    O chão de uma das celas estava meio limpo. Ao pé da porta

 

fora deixado um balde com água (derradeiro haver dos três

 

miseráveis) e ao lado meia noz de coco a servir de copo. Huish

 

dormia de boca aberta nuns restos de esteira, com a face

 

tomada por uma cor terrosa. A incandescência da tarde tropical

 

e os reflexos verdes da folhagem entravam por aquela sombra,

 

trespassando as aberturas da porta e da janela. Herrick andava

 

de um lado para o outro no chão de coral, e às vezes parava

 

para lavar a cara e pescoço na água morna do balde. As penas

 

que já amargara, a noite em claro, os ultrajes daquela manhã, a

 

canseira da carta tinham-no arrastado ao ponto em que a fadiga

 

se confunde quase num prazer, o tempo se reduz a um só

 

instante, morte e vida são a mesmíssima coisa. Andava como a

 

fera na jaula, perdido de todo em pensamentos e memórias, de

 

olhar distraidamente posto nas inscrições da parede que

 

enchiam uma demão de tinta já meia descascada. Eram

 

palavras tahitianas, francesas, inglesas, desenhos

 

grosseiramente feitos de barcos à vela e homens algemados.

 

    (...)

 

 

ROBERT LOUIS STEVENSON

 

(1850-1894)

 

(in "No Vazio da Onda - Trio e Quarteto",

Tradução de Aníbal Fernandes)

 

 

 

 

 

 

*** 

 
Um poema inédito
 
de
 
José António Gonçalves
 
 
 
 
 
 
SUSPIRO PELAS CASAS
 
 
Onde hoje há auto-estradas
dantes moravam homens
e havia figueiras
e nespereiras em flor.
Havia recantos de sombras
e cheiro a terra
em redor das casas.
Havia amor. Anjos. Asas. Presépios.
Sabia-se à distância das notícias
novas da guerra
em territórios ultramarinos
e escutava-se telefonia à noitinha
depois da reza do terço,
do lavar dos dentes,
do uso do penico,
do beijinho da mãe e dos trabalhos
da escola, três cópias, um ditado, quatro
somas e duas contas para dividir,
sem direito a ajudar os irmãos
mais pequeninos.
Dantes havia o candeeiro a petróleo,
o calendário da colgate, a vigília
do vizinho moribundo. A igreja fechava
muito tarde e pululava de beatas.
Em segredo os rapazes falavam
de poder, da reforma agrária, do preço
do pão e da ânsia de liberdade.
Depois numa manhã de capitães
com soldados vestidos de cravos,
entrou a revolução pelas portas do país.
Cantavam democracia, igualdade
para todos e alguma coisa aconteceu
sem interferência de cardeais,
de professores, regedores,
dos curas da paróquia
ou de trovoadas no céu.
Chegaram as obras e as bandeiras,
os caminhos saltaram de sítio, a luz
acendeu por si, a televisão trouxe
imagens a preto e branco
que pintaram a cores.
O amor ficou na rua
e as auto-estradas entraram no lugar
onde dantes moravam os homens.
Mudaram os feriados, as horas, as pontes
e as paisagens. Agora tenho saudades
dos presépios. Dos Anjos. Das asas.
Cansei-me das liberdades
e já suspiro pelas casas.
 
José António Gonçalves
 
(inédito. 21.2.04) 
 
 
 
 

Selecção e Montagem: JAG