O BEIJO,
DE GUSTAV KLIMT
O beijo é só
uma palavra
escolhida
ao acaso. O que
as tintas
encobrem e
descobrem
e os pincéis
revelam,
mas não
nomeiam,
é a ordem
que se
pressente
em todas
as nebulosas.
Que sempre
a ordem precede
a desordem. E
essa
é uma das leis
indeclináveis
do amor. A sua
regra
de ouro, que
não admite
excepções.
Albano Martins
(in "A Voz
do Olhar", 1998;
"Agenda Poética
2000 -
50 Anos de Vida
Literária",
Edições
Universidade
Fernando
Pessoa,
org. Beatriz
Werget, 1999)
*****
Bloco Poético de
Notas
Mar
I
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.
II
Cheiro a terra as árvores e o vento
Que a Primavera enche de perfumes
Mas neles só quero e só procuro
A selvagem exalação das ondas
Subindo para os astros como um grito puro.
(in "Poesia
I")
PORQUE
Porque os
outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
(In"Mar
Novo")
Lisboa
Digo:
"Lisboa"
Quando atravesso - vinda do sul - o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do meu nome
nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas -
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria
ausência
Digo o nome da cidade
- Digo para ver
(in "Navegações")
Sophia de
Mello Breyner Andresen nasceu no Porto em 1919.
Cursou Clássicas na Universidade de Lisboa.
Colaborou em diversas revistas de poesia. Autora
de obras de literatura infantil. Poeta, contista
e ensaísta. Na limpidez e sensibilidade fina da
sua poesia, o mar é presença assídua.
*
PITADA DE SAL
O
que diz - E. M. DE MELO E CASTRO
"É muito
curioso notarmos as contradições básicas dos grandes
poetas de vanguarda. Os futuristas italianos, que são os
primeiros a reivindicar uma liberdade para a palavra
nunca dantes pensada, acabam aliados ao fascismo. Ezra
Pound, que luta com todas as suas forças contra a usura,
contra o poder do dinheiro, fazendo dessa ideia o motivo
central da construção dos Cantos, alia-se
também ao fascismo. Antes dele já Rimbaud, que tinha
criado a fórmula maravilhosa «poesia liberdade livre»,
vem a abandonar tudo isso e a ganhar a sua vida como
mercador de escravos. T. S. Eliot, que foi um poeta de
vanguarda dos de maior qualidade intrinsecamente
poética, acaba por converter-se ao catolicismo e
escrever poemas como o The Waste Land e o
The Hollowmen que são de facto poemas de desolação
e da falta de fé do homem contemporâneo, baseando-se
também curiosamente em Dante. Maiakovski, o mais
progressista dos futuristas, suicida-se. Tudo isto são
contradições que resultam do afrontamento entre dois
poderes, o Poético e o Político, e da impossibilidade da
resolução dessas contradições como simples afrontamento.
Mas, há mais: Fernando Pessoa, poeta que modela a sua
linguagem em contradições, que é o criador do modelo
linguístico do português actual, é incapaz de fazer a
síntese dialéctica, é incapaz do grande salto
qualitativo - e quase todos os seus poemas, após as
contradições, após lançados os dados, recuam para
posições esotéricas e idealistas. O movimento DADA que
aparece como o grande reivindicador da liberdade e como
um movimento fortemente político, dissolve-se na
anarquia e dá ao origem ao ressurgimento, contraditório
também, do racionalismo francês, quando é contestado e
finalmente absorvido pelos surrealistas. Estes, os
surrealistas franceses ao proporem um mergulho abissal
no subconsciente, acabam por criar um novo dogmatismo
estético que é muito contrário à noção de liberdade que
se encontra, linha sim, linha não, em todos os seus
manifestos".
E. M. DE MELO E
CASTRO
(in "As Vanguardas
na Poesia Portuguesa do Séc. XX", Biblioteca Breve ICLP,
1980)
***
UM POETA DA MADEIRA
ANTÓNIO QUINTELA PROENÇA
CECÍLIA COBRA
Cecília me chama a minha mãe
Todos os outros cobra
Vivo no ilhéu de Câmara de LobosHá
nove anos crescida descalça
E já fui duas vezes ao Funchal
Moro na "galaria"São 25 quartos para
25 famílias
E 3 retretes ao ladoNós somos 9,
aqueles 6, aqueles 8
Sou a décima-quarta de 16 filhos de um pescador
Companheiro sem barco
Não ando na escolaA senhora diz que
só para o ano vai haver sala para todos
O meu pai quando vem bêbado
Dá-me com cada malhaQue me mijo toda
Mas quando não, traz peixe e é bom
Sei dizer dinheiro em todas as línguas
Para pedir aos senhores bonitos e bem vestidos que cá
vêm
Mesmo aos senhores do Funchal
A gente pede em inglêsSe não, não
dão
Lavo-me ao domingo para ir à missaE
se lá não vou, a minha mãe dá-me porrada que me desfaz
O mar é a nossa horta
Quando troveja
A minha mãe reza e gritaMas quando o
mar alteia e quase galga a rocha
Ela diz «diabos o levem, era um freguês a menos na
tasca»
Dormimos os 9 no mesmo quartoàs
vezes o meu pai manda-nos para a rua
Já tenho espreitado pela fechadura
Justiça é vir o polícia e levar a gente presa
Outro dia um homem de barbas disse que tinha o 5º. ano
Mas logo vimos que não podia ter:
Fumava Santa Maria
A minha irmã mais velha tem 4 filhos
E já anda outra vez de barriga
Ontem ouvi-a dizer para a minha mãe:
«O que mais me custa é pensar que vou ter o filho
por causa do abono»
Todos os turistas tiram retratosAos
socalcos da vinha
Que sobem da Vila do PicoDizem que é
lindo
O verde moçoCom que agora estão
Mas eu não vejo...O verde mora nas
vivendas do Funchal
O meu pai diz que bom para o pescador
Foi Marcelo Caetano
Tirou a guarda fiscal e deu os abonos
Nós andamos sujos
Somos tontos e falamos malComemos o
milho com a cebola
Se na loja fiaremO peixe não do fino
Pior estão os filhos dos vilõesQue
já têm de trabalhar nas fazendas
As mulheres do Ilhéu invejam a mãe da Goreti
Depois que lhe morreu o homem no mar
Recebe agora dinheiro
Como nunca antesE não atura
borracheiras.
Mas eu cá ficava tristeSe o meu pai
morresse
ANTÓNIO QUINTELA PROENÇA
(in "Da Ilha que Somos",
Poemas, volume colectivo, org. e prefácio de A. J. Vieira de
Freitas, CMF, 1977)
António Quintela
Proença (nascido em 1944 em Castelo Branco), licenciado em
Direito pela Universidade de Lisboa, revelou-se como poeta
na Madeira, integrando a edição colectiva "Da Ilha Que
Somos", organizada e prefaciada pelo já desaparecido poeta,
escritor e ensaísta A. J. Vieira de Freitas (Edição da
Câmara Municipal do Funchal, 1977), o qual assinala que este
autor, "não sendo madeirense, captou no poema Cecília
Cobra uma realidade social, intensamente cruel e
dramática; tal realidade é Câmara de Lobos, contraste do
Funchal dos hotéis de luxo, onde a miséria e a promiscuidade
vivem de mãos dadas".
***
Um poema inédito
de
José António Gonçalves
OS PÂNTANOS DA AGONIA
os pântanos ocultam os limbos da alma
camuflando as raízes com as folhas
húmidas
das árvores centenárias de outras
civilizações
o lodo abafa o negrume das suas
profundidadese obriga
à quietude dos pássaros e dos répteis pacientes
cuidando de aplanar o movimento das suas
águas
no isolamento dos seus silêncios não se
escutam ecosde choros
ou do uivar dolorido dos cães da pradaria
misteriosamente aliados aos ventos
soprando ao longe
as chuvas invernosas não incomodam a lama
verde nem o solatiça
lembranças outonais nem de verões ou de primaveras subtis
despertando flores de um sono calmo
coberto de nevoeiro
espera-se somente pela claridade de um
amanhecer no desenhar
da luz abrindo janelas de espanto onde nem uma porta havia
descobrindo-se ali o cerco fechado com as
chaves da agonia
José António Gonçalves
(inédito.17.10.99)
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