A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

 

Fevereiro

22

 
 

Albano Martins

 

O BEIJO, DE GUSTAV KLIMT 

 

O beijo é só uma palavra

escolhida

ao acaso. O que as tintas

encobrem e descobrem

e os pincéis revelam,

mas não nomeiam,

é a ordem

que se pressente

em todas

as nebulosas. Que sempre

a ordem precede

a desordem. E essa

é uma das leis

indeclináveis

do amor. A sua regra

de ouro, que não admite

excepções.

 

Albano Martins

 

 

(in "A Voz do Olhar", 1998;

"Agenda Poética 2000 -

50 Anos de Vida Literária",

Edições Universidade

Fernando Pessoa,

org. Beatriz Werget, 1999)

 

*****

 

Bloco Poético de Notas 

 

SOPHIA DE MELLO

BREYNER ANDRESEN 

 

 

Mar

I
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

II
Cheiro a terra as árvores e o vento
Que a Primavera enche de perfumes
Mas neles só quero e só procuro
A selvagem exalação das ondas
Subindo para os astros como um grito puro.

(in "Poesia I")

 

PORQUE
 

Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

 

(In"Mar Novo")

 

Lisboa

Digo:
"Lisboa"
Quando atravesso - vinda do sul - o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do meu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas -
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência

Digo o nome da cidade
- Digo para ver

(in  "Navegações")

*

 

Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu no Porto em 1919. Cursou Clássicas na Universidade de Lisboa. Colaborou em diversas revistas de poesia. Autora de obras de literatura infantil. Poeta, contista e ensaísta. Na limpidez e sensibilidade fina da sua poesia, o mar é presença assídua.

 

 

*

PITADA DE SAL 

 

O que diz - E. M. DE MELO E CASTRO

 

  

    "É muito curioso notarmos as contradições básicas dos grandes poetas de vanguarda. Os futuristas italianos, que são os primeiros a reivindicar uma liberdade para a palavra nunca dantes pensada, acabam aliados ao fascismo. Ezra Pound, que luta com todas as suas forças contra a usura, contra o poder do dinheiro, fazendo dessa ideia o motivo central da construção dos Cantos, alia-se também ao fascismo. Antes dele já Rimbaud, que tinha criado a fórmula maravilhosa «poesia liberdade livre», vem a abandonar tudo isso e a ganhar a sua vida como mercador de escravos. T. S. Eliot, que foi um poeta de vanguarda dos de maior qualidade intrinsecamente poética, acaba por converter-se ao catolicismo e escrever poemas como o The Waste Land e o The Hollowmen que são de facto poemas de desolação e da falta de fé do homem contemporâneo, baseando-se também curiosamente em Dante. Maiakovski, o mais progressista dos futuristas, suicida-se. Tudo isto são contradições que resultam do afrontamento entre dois poderes, o Poético e o Político, e da impossibilidade da resolução dessas contradições como simples afrontamento. Mas, há mais: Fernando Pessoa, poeta que modela a sua linguagem em contradições, que é o criador do modelo linguístico do português actual, é incapaz de fazer a síntese dialéctica, é incapaz do grande salto qualitativo - e quase todos os seus poemas, após as contradições, após lançados os dados, recuam para posições esotéricas e idealistas. O movimento DADA que aparece como o grande reivindicador da liberdade e como um movimento fortemente político, dissolve-se na anarquia e dá ao origem ao ressurgimento, contraditório também, do racionalismo francês, quando é contestado e finalmente absorvido pelos surrealistas. Estes, os surrealistas franceses ao proporem um mergulho abissal no subconsciente, acabam por criar um novo dogmatismo estético que é muito contrário à noção de liberdade que se encontra, linha sim, linha não, em todos os seus manifestos".

 

E. M. DE MELO E CASTRO

(in "As Vanguardas na Poesia Portuguesa do Séc. XX", Biblioteca Breve ICLP, 1980)

 

***

  

UM POETA DA MADEIRA

 

ANTÓNIO QUINTELA PROENÇA

 

CECÍLIA COBRA

 

 

Cecília me chama a minha mãe

Todos os outros cobra

 

Vivo no ilhéu de Câmara de Lobos

Há nove anos crescida descalça

E já fui duas vezes ao Funchal

 

Moro na "galaria"

São 25 quartos para 25 famílias

E 3 retretes ao lado

Nós somos 9, aqueles 6, aqueles 8

 

Sou a décima-quarta de 16 filhos de um pescador

Companheiro sem barco

 

Não ando na escola

A senhora diz que só para o ano vai haver sala para todos

 

O meu pai quando vem bêbado

Dá-me com cada malha

Que me mijo toda

Mas quando não, traz peixe e é bom

 

Sei dizer dinheiro em todas as línguas

Para pedir aos senhores bonitos e bem vestidos que cá vêm

Mesmo aos senhores do Funchal

 

A gente pede em inglês

Se não, não dão

Lavo-me ao domingo para ir à missa

E se lá não vou, a minha mãe dá-me porrada que me desfaz

 

O mar é a nossa horta

 

Quando troveja

A minha mãe reza e grita

Mas quando o mar alteia e quase galga a rocha

Ela diz «diabos o levem, era um freguês a menos na tasca»

 

Dormimos os 9 no mesmo quarto

às vezes o meu pai manda-nos para a rua

Já tenho espreitado pela fechadura

 

Justiça é vir o polícia e levar a gente presa

 

Outro dia um homem de barbas disse que tinha o 5º. ano

Mas logo vimos que não podia ter:

Fumava Santa Maria

 

A minha irmã mais velha tem 4 filhos

E já anda outra vez de barriga

Ontem ouvi-a dizer para a minha mãe:

«O que mais me custa é pensar que vou ter o filho

por causa do abono»

 

Todos os turistas tiram retratos

Aos socalcos da vinha

Que sobem da Vila do Pico

Dizem que é lindo

O verde moço

Com que agora estão

Mas eu não vejo...

O verde mora nas vivendas do Funchal

O meu pai diz que bom para o pescador

Foi Marcelo Caetano

Tirou a guarda fiscal e deu os abonos

Nós andamos sujos

Somos tontos e falamos mal

Comemos o milho com a cebola

Se na loja fiarem

O peixe não do fino

Pior estão os filhos dos vilões

Que já têm de trabalhar nas fazendas

 

As mulheres do Ilhéu invejam a mãe da Goreti

Depois que lhe morreu o homem no mar

Recebe agora dinheiro

Como nunca antes

E não atura borracheiras.

Mas eu cá ficava triste

Se o meu pai morresse

 

ANTÓNIO QUINTELA PROENÇA

 

(in "Da Ilha que Somos", Poemas, volume colectivo, org. e prefácio de A. J. Vieira de Freitas, CMF, 1977)

 

 

 

*

 

António Quintela Proença (nascido em 1944 em Castelo Branco), licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa, revelou-se como poeta na Madeira, integrando a edição colectiva "Da Ilha Que Somos", organizada e prefaciada pelo já desaparecido poeta, escritor e ensaísta A. J. Vieira de Freitas (Edição da Câmara Municipal do Funchal, 1977), o qual assinala que este autor, "não sendo madeirense, captou no poema Cecília Cobra uma realidade social, intensamente cruel e dramática; tal realidade é Câmara de Lobos, contraste do Funchal dos hotéis de luxo, onde a miséria e a promiscuidade vivem de mãos dadas".

 

 

*** 

 

Um poema inédito

 de

José António Gonçalves

 

 

OS PÂNTANOS DA AGONIA 

 

os pântanos ocultam os limbos da alma

camuflando as raízes com as folhas húmidas

das árvores centenárias de outras civilizações

 

o lodo abafa o negrume das suas profundidades

e obriga à quietude dos pássaros e dos répteis pacientes

cuidando de aplanar o movimento das suas águas

 

no isolamento dos seus silêncios não se escutam ecos

de choros ou do uivar dolorido dos cães da pradaria

misteriosamente aliados aos ventos soprando ao longe

 

as chuvas invernosas não incomodam a lama verde nem o sol

atiça lembranças outonais nem de verões ou de primaveras subtis

despertando flores de um sono calmo coberto de nevoeiro

 

espera-se somente pela claridade de um amanhecer no desenhar

da luz abrindo janelas de espanto onde nem uma porta havia

descobrindo-se ali o cerco fechado com as chaves da agonia

 

  

José António Gonçalves

 

(inédito.17.10.99)

 

 

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