A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Fevereiro

23

 
 
 
  
***
 
ALBANO MARTINS


Do pássaro nem as asas
nos pertencem. O que delas
se conhece é o gesto
oblíquo do seu voo
perseguido e as formas
que as penas inventam. É de lá
que irrompem os olhos, as pernas
e os seios destas figuras
transfiguradas.


Albano Martins

(in "Três Poemas de Amor seguidos de Livro Quarto", Quási, 2004)



***

Bloco Poético de Notas


LUÍS FILIPE CASTRO MENDES



ERA O ÚLTIMO AMOR

Era o último amor. A casa fria,
os pés molhados no escuro chão.
Era o último amor e não sabia
esconder o rosto em tanta solidão.

Era o último amor. Quem advinha
o sabor pela escuridão?
Quem oferece frutos nessa neve?
Quem rasga com ternura o que foi verão?

Era o último amor, o mais perfeito
fulgor do que viveu sem as palavras.
Era o último amor, perfil desfeito
entre lumes e vozes passadas.

Era o último amor e não sabia
que os pés à terra nua oferecia.


NUMA PRAIA

Em cada corpo recomeça o mundo,
mas onde então acaba este começo?
Amor não sabe mais o que é profundo,
vem da pele e respira só no verso.

Passamos a toalha pelo corpo,
com o suor a enxugar a morte:
há gotas de água fria no teu rosto,
em ti meus dedos lêem sua sorte.

Um riso nos chamou,fulgor ou seta,
e o dia se refez sem mais promessa.
Nos meus dedos ficou a ferida aberta:
só no teu corpo o mundo recomeça.


Noutra praia

Mas tu pensas
que o mar te não esqueceu:
por isso voltas cada ano a esta praia
onde tudo o que permanece te ignora;
e encaras o mar como se fosses tu,
ainda tu,
quem recebe na face a mudança dos ventos


Every Poem is an Epitaph

Desfiz meu corpo nas vivas marés
que os versos me traziam. Solidão
mil vezes retomada, sombra e pó,
palavras que nos doem mais de perto:
tudo desfez meu corpo e neste mar
um navegante encontra o seu deserto.

(in Outras Canções"

***

Luís Filipe Castro Mendes nasceu em Idanha-a-Nova, 1950. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa. Diplomata.
Poeta e ficcionista.

***


PITADA DE SAL

O que diz - MARIA AURORA HOMEM





(Vamberto Freitas, Jopes Filho, Adelaide
Baptista e Maria Aurora Homem)



"A Poesia merece-me um profundo respeito e o acto da escrita, que a ela diz respeito, entendo-o como um labor de aplicada e fina emoção, que sublima e enreda pelo toque da criação, pelo simbolismo das palavras, pelo seu uso melódico, harmónico e rítmico, pelo desvio a todas as normas codificadas, pela criação de uma nova realidade onde aposta a imaginação encarnada em imagens e símbolos. (...). Não há palavras poéticas, há sim palavras exacta que conseguem sugerir a emoção. É isto, sim, a emoção. (...) A emoção que nos faz agarrar num poema e fazer dele um ponto de partida e de chegada, que faz transbordar um mundo inimaginável dentro de nós, que se torna uma jóia cada vez que relido, relevando um brilho diferente. Um poema é um mundo inesgotável pleno de cintilações. Chamemos, pois, ao discurso poético, a ressureição da linguagem emotiva. Ser poeta é um estado de graça. E á interrogação se o poeta nasce ou se faz eu responderia que as duas coisas. Quero com isto dizer que a sensibilidade não é distribuída a todos por igual. E que esta é fundamental para a adesão à poesia. E que nem todos têm o dom da emoção ou das emoções. Mas parafraseando Ruy Belo «a poesia é uma coisa que também se aprende«. Isto é: o exercício da leitura, o despertar do amor pelas palavras, o caldeamento do seu peso, a vulnerabilidade da sua textura, é uma aprendizagem para quem tem o dom que, por si só, não constrói o verdadeiro poeta. Com isto pretende dizer-se que nem todos os que versejam atingem a estatura «divina». Mas o versejador não tem o seu lugar? Estaremos aqui a depreciar aqueles que se dão ao prazer dos versos porque necessariamente gostam das palavras e de dizer-se? Naturalmente que não. Quem verseja tem o seu lugar e tem todo o direito de se dar a ler. E quem sou eu, afinal, para achar que não haverá destinatários para os seus escritos? (..) Das pessoas que escrevem versos nem todas chegarão a ser poetas. Por dentro das palavras há que descobrir, por vezes debaixo da cinza, uma chama, uma cintilação, um brilho. E por mais que nos esforcemos muitas há em que, ao correr de todos os versos, nada transborda E por mais que publiquem ficarão sempre versejadores. (...) Outros há que dominam a técnica. Os acentos estão no sítio, a métrica perfeita, a rima soante ou consoante surge no local próprio. Mas só isso. Que é pouco. Que é nada. Por tudo isto há que chamar as coisas pelo que elas são. O seu a seu dono. Sem medo de exclusões, sem atitudes classistas, sem arvorar em mentor. Apenas pelo respeito aos Poetas. Pelo Amor à Poesia. Pela defesa da qualidade, pela dignificação das palavras. E os versos continuarão a ter o seu lugar. Os versejadores também. Há quanto tempo ando eu à espera dum POEMA?

MARIA AURORA HOMEM

(in "Discurs(ilha)ndo", crónicas, Editorial Calamar, Funchal, 1999)
*
Maria Aurora Carvalho Homem nasceu em S. Pedro do Sul (1939) e reside no Funchal há cerca de trinta anos. Foi jornalista (trabalho, entre outros, no extinto "Diário de Lisboa) e professora do ensino secundário. Assessora dos serviços culturais da Câmara Municipal do Funchal, é também colaboradora da rádio e da televisão, tendo publicado regularmente livros de poesia, contos, ensaio e literatura infanto-juvenil.


***

UM POETA DA MADEIRA

HERBERTO HELDER


POEMAS INÉDITOS EM LIVRO




(II dos sete poemas para a mãe)



Mãe:
todos nós sabemos que nasce uma planta ou um animal
e que existe um rio irreprimível que flue
e cujas águas banham todas as coisas da terra.
- Ah! mas essas águas são invioláveis
e nossos olhos de barro não as vêem
nas palpitantes mãos por onde corre.

Foi assim que em teu ventre
um ponto escuro surgiu
- nada mais que um ponto escuro.

Oh mãe! oh sagrada portadora das águas invisíveis!
Oh límpida fonte da alma com carne!
Oh misterioso sinal do futuro!

E o ponto escuro era eu,
eu - a ternura e o medo e a alegria e o pecado.
Esta coisa soberba: um homem!
Aquele que traz nas veias o riso - a morte.

Esta coisa maravilhosa - sopro e barro,
esta coisa suprema e inconcebivelmente imperfeita:
a boca que blasfema e beija:
as mãos que dão ternura, escrevem poemas
e cravam punhais no coração dos homens;
os olhos que choram e que fuzilam;
o coração que ama e odeia;
a carne que peca e que redime.

Eis o portador da vida e da morte:
- teu filho!



MINIATURA DE ESFINGE SOBRE
A MESA DE TRABALHO


Alarmado escuto. Eis que te guardas
na mudez firme dum segredo.
Lúdica de ironia e vago medo
vacilante em mim tardas.

De repente, algo como manhã decisivamente nasce:
- contemplo a absurda limpidez da tua face.



SALMO EM QUE SE FALA
DAS ALEGRIAS SECRETAS
DO CORAÇÃO


Hoje é o dia da nossa suprema alegria.

Não mais te erguerás em plena noite do leito da tua dor para olhar ao espelho a face de agonia e remorsos. Ah! nunca mais! E quanto à boca de sabor antigo e silvestre, foi feita com esse sabor só para que fosse beijada sempre com a mais perfeita das alegrias e com o maior calor do nosso coração.

Ah! empenhadamente te peço que esqueças as quatro paredes do teu quarto onde escreveste a lápis negro os apelos da morte e os mais pungentes desencantos da vida. Esquece. Ah! esquece. Limpa a tua memória de todos os momentos atrozes. Cura as feridas que as unhas fizeram na tua mesma carne. Porque te digo eu que hoje - e para sempre - é o dia da nossa suprema alegria.

Deves esquecer todas as injúrias e insatisfações, todos os temores e todos os desesperos. Eis que te quero dar um coração mais puro.

Não é pecado o que te recrimino. O que te recrimino é o cansaço e o remorso. Esses são os grandes pecados do teu coração magoado. Por isso te peço que sejas alegre. Eis que é esse o coração que te quero oferecer: o coração para a alegria.

Beija a boca do maduro sabor dos frutos da terra. Empenhadamente te peço que a beijes e ames. Ama e beija e bebe também. Bebe, que a alegria é impossível no coração comedido. O vinho alarga o peito - digo-to eu - alarga o peito e abre os braços até ao outro lado do mundo. O vinho é o verdadeiro sangue dos corações. Hoje é o dia da nossa suprema alegria.

Ah! Empenhadamente te peço que cantes. Canta para o teu coração desolado. Canta e chama o amor no teu canto.

Não te erguerás mais do leito de inquietações para uma outra vez medir a fundura da tua insatisfação. E quanto à boca de sabor a mosto e a rosas, confunde-a com a tua boca. Porque se essa boca traz o sinal das videiras e dos pólens é para que a confundas, cheio de alegria, com a tua própria boca.

E nuca mais te erguerás do leito de pesadelos para escrever a lápis negro as frases mais desesperadas na paredes do teu quarto. Empenhadamente te peço que não escrevas nas quatro paredes do teu quarto as frases desesperadas. Esquece as injúrias e os desencantos, todas as feridas do teu coração. Bebe e canta. Quero dar-te um coração mais puro. Um coração para a alegria.

Levanta-te e anda! Levanta-te e bebe o verdadeiro sangue dos corações pela boca do gosto violento dos frutos perfeitos que, se existe com esse sabor, é para que a beijes e dela bebas o verdadeiro sangue dos corações.

Empenhadamente te peço que me escutes, porque hoje e não amanhã deve ser o dia da nossa suprema alegria.


HERBERTO HELDER

(De "Arquipélago", opúsculo colectivo, Funchal, 1952)

*
Herberto Helder, nascido no Funchal, ilha da Madeira, em 1930, é hoje considerado como o mais importante poeta português vivo e um poeta maior da Língua Portuguesa. De personalidade forte e reservada, não se alia a convencionalismos, recusa os prémios que o distinguem e à sua obra e tem uma vida tão aventurosa como fantásticos são de conteúdo muitos dos seus textos. Nos últimos anos vem publicando na Assírio & Alvim, editora que lhe reuniu os livros na "Poesia Toda", disponível no mercado livreiro.


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POEMÁRIO

Assírio & Alvim

2004



e. e. cummings



ii



supõe

a Vida um velho carregando flores à cabeça.

a jovem morte senta-se num café

sorrindo, uma moeda segura entre

o polegar e o indicador

(eu digo "comprará flores" para ti

e a"a morte é jovem

a vida usa calças de veludo

a vida tropeça, a vida tem barbas" eu

digo para ti que estás emudecido. - "Vês

a Vida? está ali e aqui,

ou aquilo, ou isto

ou nada ou um velho 3 terços

adormecido, à cabeça

flores, sempre a gritar

para ninguém alguma coisa sobre les

roses les bluets

sim,

comprará?

Les belles bottes - oh escuta

, pas chères")

e o meu amor lentamente respondeu Eu acho que sim. Mas

Eu acho que vejo alguém mais

há uma senhora, cujo nome é Emseguida

está sentada junto da jovem morte, é esguia;

gosta de flores.





E. E. CUMMINGS



(1894-1962)





(in "xix poemas"; tradução de Jorge Fazenda Lourenço)



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IMAGINÁRIO


Assírio & Alvim


2004


LIÚ XIÀNG





(O "Xunzi", em madeira, com os 32 livros coligidos por Liú Xiàng)





O SENHOR YÈ GOSTAVA DE DRAGÕES




«Zi Zhãng foi visitar o senhor Ãi de Lu mas, como este último se tivesse recusado a



recebê-lo durante sete dias, resolveu deixar um recado ao cocheiro: "Foi porque ouvi



dizer que o teu senhor aprecia os letrados que vim de tão longe para o ver. Atravessei



orvalhos e geadas, sofri com o pó e a sujidade e caminhei tanto que os meus pés se



encheram de bolhas. Não me dei descanso para ver o teu senhor e, no entanto, há sete



dias que ele me trata sem cortesia, recusando receber-me.



"O apreço do teu senhor pelos letrados assemelha-se ao gosto do senhor Yè pelos



dragões. O senhor Yè gostava muito de dragões: gravou um dragão no seu gancho,



gravou um dragão no seu cinzel e decorou todos os seus quadros com dragões. Mal



soube disto, o dragão celeste desceu até à sua casa. Porém, quando o senhor Yè o viu a



espreitar pela janela com a cauda à mostra na sala, desatou a fugir. Ficou sem pingo de



sangue, muito pálido.



"Enfim, o senhor Yè não gostava de dragões. Gostava do que se parece com um dragão



mas não é um dragão.



"Ouvindo dizer que o teu senhor aprecia os letrados, vim de muito longe até aqui para o



visitar. No entanto, durante sete dias, ele tratou-me sem cortesia e não me recebeu. O teu



senhor não aprecia os letrados mas apenas aqueles que, parecendo letrados, não o são.





"No Shi-jing lê-se: "Não é possível esquecer o que o coração encerra!" É por isso que eu



me atrevo a deixar esta mensagem.»







LIÚ XIÀNG



(71-6 a. C.)



(in "O Rosto do Vento Leste - doze textos de prosa clássica chinesa",

Tradução de Cláudia Ribeiro e Zhang Zhèng-chun)




***


Um poema inédito

de

José António Gonçalves



POR DENTRO DA ILHA



Como confessar: estas esperas metem-me medo.
É como se o tempo estivesse parado
temendo progredir nas margens
do meu silêncio
em segredo.


E reparo:
caído nas calçadas do arquipélago
dominado
o pássaro quer rebater as asas imobilizadas
e saltar os muros as sebes os telhados
da cidade
apontando o bico em direcção aos céus
aos cérebros
(deixando derramar cá por baixo
bocas abertas de espanto
no exacto espaço
da liberdade).


Do que se sabe:
é sempre o mesmo incidente.
Os barcos estão presos a âncoras
e não há brisa
alguma
nem ventos livres soprando
onde seja possível navegar.
As gaivotas desfizeram os ninhos
esqueceram os mapas as bússolas
a algazarra das manhãs no calhau
e partiram em busca de outras sinas
cumprindo a ambição que sonharam
desde pequeninas.


Como dizer: faz-se tarde
nos caminhos escuros do futuro
e se o mar é o cerco a prisão
que da ilha brota
e se os dedos nos crispam
de ausências cúmplices
magoados por turbilhões de raiva
fechando-se no peito
e se a água nos afoga no isolamento
do seu sal
é chegada a hora de nos deixarem amar
as distâncias
levando o sabor da terra e da lenha queimada
nos lábios
como se os incêndios vorazes das serras
obrigassem à libertação das cinzas
dos seus degredos.


Como confessar: por dentro da ilha
as esperas metem-me medo.
Venham mais barcos e aviões
para encher os cais e aeroportos.
Programem as viagens, abram alas ao sonho
de partir. Chamem mais passageiros.

Eis que está denunciado o segredo.


José António Gonçalves

(inédito. Funchal.1990)

 

Selecção e Montagem: JAG