Do pássaro nem as asas
nos pertencem. O que delas
se conhece é o gesto
oblíquo do seu voo
perseguido e as formas
que as penas inventam. É de lá
que irrompem os olhos, as pernas
e os seios destas figuras
transfiguradas.
Albano Martins
(in "Três Poemas de Amor seguidos de Livro Quarto", Quási, 2004)
***
Bloco Poético de Notas
LUÍS FILIPE CASTRO MENDES
ERA O ÚLTIMO AMOR
Era o último amor. A casa fria,
os pés molhados no escuro chão.
Era o último amor e não sabia
esconder o rosto em tanta solidão.
Era o último amor. Quem advinha
o sabor pela escuridão?
Quem oferece frutos nessa neve?
Quem rasga com ternura o que foi verão?
Era o último amor, o mais perfeito
fulgor do que viveu sem as palavras.
Era o último amor, perfil desfeito
entre lumes e vozes passadas.
Era o último amor e não sabia
que os pés à terra nua oferecia.
NUMA PRAIA
Em cada corpo recomeça o mundo,
mas onde então acaba este começo?
Amor não sabe mais o que é profundo,
vem da pele e respira só no verso.
Passamos a toalha pelo corpo,
com o suor a enxugar a morte:
há gotas de água fria no teu rosto,
em ti meus dedos lêem sua sorte.
Um riso nos chamou,fulgor ou seta,
e o dia se refez sem mais promessa.
Nos meus dedos ficou a ferida aberta:
só no teu corpo o mundo recomeça.
Noutra praia
Mas tu pensas
que o mar te não esqueceu:
por isso voltas cada ano a esta praia
onde tudo o que permanece te ignora;
e encaras o mar como se fosses tu,
ainda tu,
quem recebe na face a mudança dos ventos
Every Poem is an Epitaph
Desfiz meu corpo nas vivas marés
que os versos me traziam. Solidão
mil vezes retomada, sombra e pó,
palavras que nos doem mais de perto:
tudo desfez meu corpo e neste mar
um navegante encontra o seu deserto.
(in Outras Canções"
***
Luís Filipe Castro Mendes nasceu em Idanha-a-Nova, 1950. Licenciado
em Direito pela Universidade de Lisboa. Diplomata.
Poeta e ficcionista.
***
PITADA DE SAL
O que diz - MARIA AURORA HOMEM
(Vamberto Freitas, Jopes Filho, Adelaide
Baptista e Maria Aurora Homem)
"A Poesia merece-me um profundo respeito e o acto da escrita, que a
ela diz respeito, entendo-o como um labor de aplicada e fina emoção,
que sublima e enreda pelo toque da criação, pelo simbolismo das
palavras, pelo seu uso melódico, harmónico e rítmico, pelo desvio a
todas as normas codificadas, pela criação de uma nova realidade onde
aposta a imaginação encarnada em imagens e símbolos. (...). Não há
palavras poéticas, há sim palavras exacta que conseguem sugerir a
emoção. É isto, sim, a emoção. (...) A emoção que nos faz agarrar
num poema e fazer dele um ponto de partida e de chegada, que faz
transbordar um mundo inimaginável dentro de nós, que se torna uma
jóia cada vez que relido, relevando um brilho diferente. Um poema é
um mundo inesgotável pleno de cintilações. Chamemos, pois, ao
discurso poético, a ressureição da linguagem emotiva. Ser poeta é um
estado de graça. E á interrogação se o poeta nasce ou se faz eu
responderia que as duas coisas. Quero com isto dizer que a
sensibilidade não é distribuída a todos por igual. E que esta é
fundamental para a adesão à poesia. E que nem todos têm o dom da
emoção ou das emoções. Mas parafraseando Ruy Belo «a poesia é uma
coisa que também se aprende«. Isto é: o exercício da leitura, o
despertar do amor pelas palavras, o caldeamento do seu peso, a
vulnerabilidade da sua textura, é uma aprendizagem para quem tem o
dom que, por si só, não constrói o verdadeiro poeta. Com isto
pretende dizer-se que nem todos os que versejam atingem a estatura
«divina». Mas o versejador não tem o seu lugar? Estaremos aqui a
depreciar aqueles que se dão ao prazer dos versos porque
necessariamente gostam das palavras e de dizer-se? Naturalmente que
não. Quem verseja tem o seu lugar e tem todo o direito de se dar a
ler. E quem sou eu, afinal, para achar que não haverá destinatários
para os seus escritos? (..) Das pessoas que escrevem versos nem
todas chegarão a ser poetas. Por dentro das palavras há que
descobrir, por vezes debaixo da cinza, uma chama, uma cintilação, um
brilho. E por mais que nos esforcemos muitas há em que, ao correr de
todos os versos, nada transborda E por mais que publiquem ficarão
sempre versejadores. (...) Outros há que dominam a técnica. Os
acentos estão no sítio, a métrica perfeita, a rima soante ou
consoante surge no local próprio. Mas só isso. Que é pouco. Que é
nada. Por tudo isto há que chamar as coisas pelo que elas são. O seu
a seu dono. Sem medo de exclusões, sem atitudes classistas, sem
arvorar em mentor. Apenas pelo respeito aos Poetas. Pelo Amor à
Poesia. Pela defesa da qualidade, pela dignificação das palavras. E
os versos continuarão a ter o seu lugar. Os versejadores também. Há
quanto tempo ando eu à espera dum POEMA?
MARIA AURORA HOMEM
(in "Discurs(ilha)ndo", crónicas, Editorial Calamar, Funchal, 1999)
*
Maria Aurora Carvalho Homem nasceu em S. Pedro do Sul (1939) e
reside no Funchal há cerca de trinta anos. Foi jornalista (trabalho,
entre outros, no extinto "Diário de Lisboa) e professora do ensino
secundário. Assessora dos serviços culturais da Câmara Municipal do
Funchal, é também colaboradora da rádio e da televisão, tendo
publicado regularmente livros de poesia, contos, ensaio e literatura
infanto-juvenil.
***
UM POETA DA MADEIRA
HERBERTO HELDER
POEMAS INÉDITOS EM LIVRO
(II dos sete poemas para a mãe)
Mãe:
todos nós sabemos que nasce uma planta ou um animal
e que existe um rio irreprimível que flue
e cujas águas banham todas as coisas da terra.
- Ah! mas essas águas são invioláveis
e nossos olhos de barro não as vêem
nas palpitantes mãos por onde corre.
Foi assim que em teu ventre
um ponto escuro surgiu
- nada mais que um ponto escuro.
Oh mãe! oh sagrada portadora das águas invisíveis!
Oh límpida fonte da alma com carne!
Oh misterioso sinal do futuro!
E o ponto escuro era eu,
eu - a ternura e o medo e a alegria e o pecado.
Esta coisa soberba: um homem!
Aquele que traz nas veias o riso - a morte.
Esta coisa maravilhosa - sopro e barro,
esta coisa suprema e inconcebivelmente imperfeita:
a boca que blasfema e beija:
as mãos que dão ternura, escrevem poemas
e cravam punhais no coração dos homens;
os olhos que choram e que fuzilam;
o coração que ama e odeia;
a carne que peca e que redime.
Eis o portador da vida e da morte:
- teu filho!
MINIATURA DE ESFINGE SOBRE
A MESA DE TRABALHO
Alarmado escuto. Eis que te guardas
na mudez firme dum segredo.
Lúdica de ironia e vago medo
vacilante em mim tardas.
De repente, algo como manhã decisivamente nasce:
- contemplo a absurda limpidez da tua face.
SALMO EM QUE SE FALA
DAS ALEGRIAS SECRETAS
DO CORAÇÃO
Hoje é o dia da nossa suprema alegria.
Não mais te erguerás em plena noite do leito da tua dor para olhar
ao espelho a face de agonia e remorsos. Ah! nunca mais! E quanto à
boca de sabor antigo e silvestre, foi feita com esse sabor só para
que fosse beijada sempre com a mais perfeita das alegrias e com o
maior calor do nosso coração.
Ah! empenhadamente te peço que esqueças as quatro paredes do teu
quarto onde escreveste a lápis negro os apelos da morte e os mais
pungentes desencantos da vida. Esquece. Ah! esquece. Limpa a tua
memória de todos os momentos atrozes. Cura as feridas que as unhas
fizeram na tua mesma carne. Porque te digo eu que hoje - e para
sempre - é o dia da nossa suprema alegria.
Deves esquecer todas as injúrias e insatisfações, todos os temores e
todos os desesperos. Eis que te quero dar um coração mais puro.
Não é pecado o que te recrimino. O que te recrimino é o cansaço e o
remorso. Esses são os grandes pecados do teu coração magoado. Por
isso te peço que sejas alegre. Eis que é esse o coração que te quero
oferecer: o coração para a alegria.
Beija a boca do maduro sabor dos frutos da terra. Empenhadamente te
peço que a beijes e ames. Ama e beija e bebe também. Bebe, que a
alegria é impossível no coração comedido. O vinho alarga o peito -
digo-to eu - alarga o peito e abre os braços até ao outro lado do
mundo. O vinho é o verdadeiro sangue dos corações. Hoje é o dia da
nossa suprema alegria.
Ah! Empenhadamente te peço que cantes. Canta para o teu coração
desolado. Canta e chama o amor no teu canto.
Não te erguerás mais do leito de inquietações para uma outra vez
medir a fundura da tua insatisfação. E quanto à boca de sabor a
mosto e a rosas, confunde-a com a tua boca. Porque se essa boca traz
o sinal das videiras e dos pólens é para que a confundas, cheio de
alegria, com a tua própria boca.
E nuca mais te erguerás do leito de pesadelos para escrever a lápis
negro as frases mais desesperadas na paredes do teu quarto.
Empenhadamente te peço que não escrevas nas quatro paredes do teu
quarto as frases desesperadas. Esquece as injúrias e os desencantos,
todas as feridas do teu coração. Bebe e canta. Quero dar-te um
coração mais puro. Um coração para a alegria.
Levanta-te e anda! Levanta-te e bebe o verdadeiro sangue dos
corações pela boca do gosto violento dos frutos perfeitos que, se
existe com esse sabor, é para que a beijes e dela bebas o verdadeiro
sangue dos corações.
Empenhadamente te peço que me escutes, porque hoje e não amanhã deve
ser o dia da nossa suprema alegria.
HERBERTO HELDER
(De "Arquipélago", opúsculo colectivo, Funchal, 1952)
*
Herberto Helder, nascido no Funchal, ilha da Madeira, em 1930, é
hoje considerado como o mais importante poeta português vivo e um
poeta maior da Língua Portuguesa. De personalidade forte e
reservada, não se alia a convencionalismos, recusa os prémios que o
distinguem e à sua obra e tem uma vida tão aventurosa como
fantásticos são de conteúdo muitos dos seus textos. Nos últimos anos
vem publicando na Assírio & Alvim, editora que lhe reuniu os livros
na "Poesia Toda", disponível no mercado livreiro.
****
POEMÁRIO
Assírio & Alvim
2004
e. e. cummings
ii
supõe
a Vida um velho carregando flores à cabeça.
a jovem morte senta-se num café
sorrindo, uma moeda segura entre
o polegar e o indicador
(eu digo "comprará flores" para ti
e a"a morte é jovem
a vida usa calças de veludo
a vida tropeça, a vida tem barbas" eu
digo para ti que estás emudecido. - "Vês
a Vida? está ali e aqui,
ou aquilo, ou isto
ou nada ou um velho 3 terços
adormecido, à cabeça
flores, sempre a gritar
para ninguém alguma coisa sobre les
roses les bluets
sim,
comprará?
Les belles bottes - oh escuta
, pas chères")
e o meu amor lentamente respondeu Eu acho que sim. Mas
Eu acho que vejo alguém mais
há uma senhora, cujo nome é Emseguida
está sentada junto da jovem morte, é esguia;
gosta de flores.
E. E. CUMMINGS
(1894-1962)
(in "xix poemas"; tradução de Jorge Fazenda Lourenço)
***
IMAGINÁRIO
Assírio & Alvim
2004
LIÚ XIÀNG
(O "Xunzi", em madeira, com os 32 livros coligidos por Liú Xiàng)
O SENHOR YÈ GOSTAVA DE DRAGÕES
«Zi Zhãng foi visitar o senhor Ãi de Lu mas, como este último se
tivesse recusado a
recebê-lo durante sete dias, resolveu deixar um recado ao cocheiro:
"Foi porque ouvi
dizer que o teu senhor aprecia os letrados que vim de tão longe para
o ver. Atravessei
orvalhos e geadas, sofri com o pó e a sujidade e caminhei tanto que
os meus pés se
encheram de bolhas. Não me dei descanso para ver o teu senhor e, no
entanto, há sete
dias que ele me trata sem cortesia, recusando receber-me.
"O apreço do teu senhor pelos letrados assemelha-se ao gosto do
senhor Yè pelos
dragões. O senhor Yè gostava muito de dragões: gravou um dragão no
seu gancho,
gravou um dragão no seu cinzel e decorou todos os seus quadros com
dragões. Mal
soube disto, o dragão celeste desceu até à sua casa. Porém, quando o
senhor Yè o viu a
espreitar pela janela com a cauda à mostra na sala, desatou a fugir.
Ficou sem pingo de
sangue, muito pálido.
"Enfim, o senhor Yè não gostava de dragões. Gostava do que se parece
com um dragão
mas não é um dragão.
"Ouvindo dizer que o teu senhor aprecia os letrados, vim de muito
longe até aqui para o
visitar. No entanto, durante sete dias, ele tratou-me sem cortesia e
não me recebeu. O teu
senhor não aprecia os letrados mas apenas aqueles que, parecendo
letrados, não o são.
"No Shi-jing lê-se: "Não é possível esquecer o que o coração
encerra!" É por isso que eu
me atrevo a deixar esta mensagem.»
LIÚ XIÀNG
(71-6 a. C.)
(in "O Rosto do Vento Leste - doze textos de prosa clássica
chinesa",
Tradução de Cláudia Ribeiro e Zhang Zhèng-chun)
***
Um poema inédito
de
José António Gonçalves
POR DENTRO DA ILHA
Como confessar: estas esperas metem-me medo.
É como se o tempo estivesse parado
temendo progredir nas margens
do meu silêncio
em segredo.
E reparo:
caído nas calçadas do arquipélago
dominado
o pássaro quer rebater as asas imobilizadas
e saltar os muros as sebes os telhados
da cidade
apontando o bico em direcção aos céus
aos cérebros
(deixando derramar cá por baixo
bocas abertas de espanto
no exacto espaço
da liberdade).
Do que se sabe:
é sempre o mesmo incidente.
Os barcos estão presos a âncoras
e não há brisa
alguma
nem ventos livres soprando
onde seja possível navegar.
As gaivotas desfizeram os ninhos
esqueceram os mapas as bússolas
a algazarra das manhãs no calhau
e partiram em busca de outras sinas
cumprindo a ambição que sonharam
desde pequeninas.
Como dizer: faz-se tarde
nos caminhos escuros do futuro
e se o mar é o cerco a prisão
que da ilha brota
e se os dedos nos crispam
de ausências cúmplices
magoados por turbilhões de raiva
fechando-se no peito
e se a água nos afoga no isolamento
do seu sal
é chegada a hora de nos deixarem amar
as distâncias
levando o sabor da terra e da lenha queimada
nos lábios
como se os incêndios vorazes das serras
obrigassem à libertação das cinzas
dos seus degredos.
Como confessar: por dentro da ilha
as esperas metem-me medo.
Venham mais barcos e aviões
para encher os cais e aeroportos.
Programem as viagens, abram alas ao sonho
de partir. Chamem mais passageiros.
Eis que está denunciado o segredo.
José António Gonçalves
(inédito. Funchal.1990)