A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Fevereiro

24

 
 
 
  
***
 
ALBANO MARTINS




ROSALIA

Rosa lírica dos
jardins da Galiza. Em tua
garganta cantam
verdes rouxinóis, a flor
do verde pino, as ondas
do mar de Vigo.
Canta,
enamorado,
um trovador
antigo.

Cantigas de amor,
cantigas de amigo.


Albano Martins

(in "Entre a Cicuta e o Mosto", 1992, Agenda Poética/2000, org. Beatriz Weigert, 1999)


***

Bloco Poético de Notas

FERNANDO PESSOA



(Ilustração: Henrique Tigo)

Chuva Oblíqua


Atravessa esta paisagem o meu sonho dum porto infinito
E a cor das flores é transparente de as velas de grandes navios
Que largam do cais arrastando nas águas por sombra
Os vultos ao sol daquelas árvores antigas...

O porto que sonho é sombrio e pálido
E esta paisagem é cheia de sol deste lado...
Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio
E os navios que saem de porto são estas árvores ao sol...

Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo...
O vulto do cais é a estrada nítida e calma
Que se levanta e se ergue como um muro,
E os navios passam por dentro dos troncos das árvores
Com uma horizontalidade vertical,
E deixam cair amarras na água pelas folhas uma a uma dentro...

Não sei quem me sonho...
Súbito toda a água do mar do porto é transparente
E vejo no fundo, como uma estampa enorme que lá estivesse desdobrada,
Esta paisagem toda, renque de árvore, estrada a arder em aquele porto,
E a sombra duma nau mais antiga que o porto que passa
Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem
E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro,
E passa para o outro lado da minha alma...

*

Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.


2 "novas" poesias inéditas


Todas as cousas que há neste mundo
Têm uma história,
Excepto estas rãs que coaxam no fundo
Da minha memória.
Qualquer lugar neste mundo tem
Um onde estar,
Salvo este charco de onde me vem
Esse coaxar.

Ergue-se em mim uma lua falsa
Sobre juncais,
E o charco emerge, que o luar realça
Menos e mais.

Onde, em que vida, de que maneira
Fui o que lembro
Por este coaxar das rãs na esteira
Do que deslembro?

Nada. Um silêncio entre jucos dorme.
Coaxam ao fim
De uma alma antiga que tenho enorme
As rãs sem mim.


13-8-1933.



Sonhei, confuso, e o sono foi disperso,
Mas, quando dispertei da confusão,
Vi que esta vida aqui e este universo
Não são mais claros do que os sonhos são
Obscura luz paira onde estou converso
A esta realidade da ilusão
Se fecho os olhos, sou de novo imerso
Naquelas sombras que há na escuridão.

Escuro, escuro, tudo, em sonho ou vida,
É a mesma mistura de entre-seres
Ou na noite, ou ao dia transferida.

Nada é real, nada em seus vãos moveres
Pertence a uma forma definida,
Rastro visto de coisa só ouvida.


28-9-1933.
***


Fernando Pessoa (1888-1935) nasceu em Lisboa. Entre 1895 e 1905, viveu na África do Sul. Escreveu quer sob os heterónimos Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis, quer sob o semi-heterónimo Bernardo Soares e Pessoa ortónimo. É considerado um dos maiores poetas portugueses de todos os tempos. Poeta e prosador. Apesar de muito conhecido, Pessoa continua ainda por conhecer. É, decerto, o mais complexo e diversificado dos escritores portugueses.

***

PITADA DE SAL

O que diz: CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE





A Máquina do Mundo

E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco
se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas
lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,
a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.
Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável
pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar
toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.
Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera
e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,
convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,
assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,
a outro alguém, nocturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
"O que procuraste em ti ou fora de
teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afectando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,
olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,
essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo
se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste... vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo."
As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge
distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos
e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber
no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar,
na estranha ordem geométrica de tudo,
e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que todos
monumentos erguidos à verdade;
e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,
tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.
Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,
a esperança mais mínima - esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;
como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face
que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,
passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes
em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,
baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.
A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,
se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.



*

Um grupo representativo de escritores e críticos, a pedido do caderno "MAIS" (edição de 02-01-2000), publicado aos domingos pelo jornal "Folha de São Paulo", escolheu "A Máquina do Mundo", de Carlos Drummond de Andrade, aqui transcrito na sua versão original em Língua Portuguesa, adoptada, à excepção do seu grafismo, na edição "60 Anos de Poesia", "O Jornal", Lisboa, 1985, organizada e apresentada por Arnaldo Saraiva, como "o melhor poema brasileiro de todos os tempos".




UM POETA DA MADEIRA


HORÁCIO BENTO DE GOUVEIA



IMPRESSIONISMO



Pensei um dia em atirar-me ao mar, para que o mar escondesse o meu corpo na misteriosa profundidade das suas águas glaucas. Eis a vingança vitoriosa da minha vontade dominante: escorraçar do cérebro todas as imagens doentias que aniquilam o estandarte chamejante do espírito, impelindo-o para o fogo do prazer, e sentir a plenitude do Oceano na sua pureza de virgem.
Pensei um dia em vir noivar com o mar, eternamente sentindo a quintessência de uma delícia infinita.

*

Hei-de cravar um punhal no sacrário do meu peito moço para que eu sinta a dor suprema na ventura do gozo, ao Ver as minhas mãos laivadas de púrpura. Abrir uma chaga na alvura do meu peito, ó maravilha única de sedução. Uma fonte perpétua de rubis, aos jorros, na brancura do meu peito!

*

Assim como as lâninas luzentes das navalhas arrebatam num sortilégio enlouquecido, o desvairo na obsessão dos grandes crimes trágicos - assim há olhos com tal poder soberano de feitiço que electrizam e impelem-nos para o rapto, para a fuga, através do caminho vertiginoso dos beijos, que conduz os amantes à fonte do vinho do amor.
Ó sortilégio das lâminas chamejantes das navalhas! Ó fascinação dos olhos perturbantes e endemoninhados!

*

Para mim, a perfeição reside naquilo que é grotesco e a que eu comunico a minha volúpia de perfectibilidade. Assim, só encontro beleza em tudo que é imperfeito.

(in "Diário da Madeira", excertos, Julho/1926)



PRIMEIRA ENTREVISTA


Lua cheia. E a noite alta, silente
amadorna os teus passos no eirado...
Além, reza uma fonte no montado.
Um grito pavoriza a noite quente.

De surpres, uma dor faz-me assombrado.
A êsmo, pela rua, vai gemente
um fado melancólico, dormente...
Como num sonho, sinto-me encantado.

Sem sentidos, eu olho a Bem-Amada,
e fito a sua fronte enluarada.
Está branca, tão branca como o lírio.

Quando ela, além da morte, me chamar,
então, eu vou rezar... eu vou orar...
- Entrevista primeira - meu martírio.


(in "Diário da Madeira", 1922)




NO PENEDO DA FAJÃ

(Para o Carlos Marinho Lopes)


Julho. Névoas ao sol-pôr, pela tarde...
A Fajã do Penedo ao pé da serra
é um altar de Deus, feito na terra.
O sol, no mar, envolto em chamas arde...

A festa vai no fim, mas sem alarde...
Sobre o vale, ridente, o céu descerra
laivos de uma cor sépia. A tarde encerra
a paisagem, de minha soledade...

Cai a noite, morrente e olorosa
em afagos, morna e silenciosa...
O caminho deserta, sem ninguém.


De cantigas, ao longe inda há um rumor.
E um cantar desperta minha dor...
Sinto um acarinhar d'Alguém - d'Além...

Vale dos Flamengos
(Faial)

(in "Diário da Madeira", Dez.1922)





(Obra org. e prefaciada por
José António Gonçalves, 1994)


Horácio Bento de Gouveia (1901-1983), nasceu na freguesia de Ponta Delgada, S. Vicente, Madeira. Licenciado em Ciências Histórico-Geográficas, foi um professor dedicado e polivalente de diversos estabelecimentos de ensino secundário, no Funchal e em Portugal Continental, jornalista, conferencista, articulista, colaborador da imprensa, da rádio e da televisão, cronista, ensaísta, contista, romancista e, quando jovem, poeta, tendo publicado alguns dos principais romances da história da Literatura Madeirense, com realce para "Ilhéus" (mais tarde publicado com o título original "Canga"), nos anos quarenta, sendo de destacar "Lágrimas Correndo Mundo", "Águas Mansas", "Margareta" e "Luiza Marta". Também publicou no ensaio "Páginas de Jornalismo", "Canhenhos da Ilha" e "Alma Negra e Outros Almas". Em 1994, José António Gonçalves organizou, prefaciou e publicou uma selecção dos seus textos jornalísticos sobre o norte da ilha, a que deu o título de "Crónicas do Norte", numa edição da edilidade da sua terra-natal, S. Vicente.



****


POEMÁRIO


Assírio & Alvim


2004




MARTIM OPITZ





EPITÁFIOS






DE UM CÃO



Aos ladrões eu ladrava, calava-me aos amantes,



E assim servia dono e dona, em duas frentes.






DE UM COZINHEIRO



Como o mundo em geral anda sempre às avessas!



Aqui um cozinheiro seu descanso encontrou,



Que em vida muitos e bons pratos cozinhou.



Comem-no agora os vermes - cru e sem travessas!




MARTIN OPITZ




(1597-1639)



(in "O Cardo e a Rosa -


Poesia do Barroco Alemão";


Tradução de João Barrento)





***



Um poema inédito

de

José António Gonçalves






O POETA APRESENTA-SE


a Carlos Drummond de Andrade




Com uma cadeira preta na mão

entrava o poeta no salão

da página branca





Entrevia-se-lhe um sorriso por debaixo

da carranca

que afastava as perguntas das entrelinhas





Às vezes largava tudo e sentava-se lesto

no chão

fazendo desconfiar da sua fragilidade





e batia palmas aos artistas sem fazer eco

como se temesse perder a liberdade

- mais importante do que o resto -

de não querer aplaudir





Parecia alto magro mesmo seco

de carnes

com os seus olhos brilhantes escondidos

na graduação elevada

dos óculos





Dizem que escrevia de madrugada

que não gostava do ruído da cidade

e amava os espaços abertos dos céus





Tudo lhe servia de tema poético

um prato de peixe frito com bróculos

uma menina semi-nua na varanda do olhar

um alpinista morrendo em voo nos Pirinéus

um casal de namorados com os lábios feridos

de tanto se beijar

um soldado depondo as armas no solo ardido

a vítima de um assalto ainda exangue

nadando muda numa poça de sangue

ou até mesmo um sonho perdido





Nesse dia em que entrou na página branca

transportando uma cadeira preta

ficou de pé sereno firme envolto num manto

da mais completa felicidade

no cumprimento do seu dilema

de se assumir como poeta

de semblante correspondente à sua idade

de criança doce



Então decidiu não semear ali nenhum poema

e apresentou-se:

Carlos Drummond de Andrade







José António Gonçalves



(inédito. Funchal. 24.2.04)


 

Selecção e Montagem: JAG