A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Fevereiro

25

 
 
 
  
***
 
ALBANO MARTINS


Foi assim: naquele
jeito de preguiça
iluminada, os frutos
suculentos do real entraram
no poema
e o constelaram.


Albano Martins

(in "Entre a Cicuta e o Mosto", 1992; Agenda Poética/2000,
org. Beatriz Weigert, ed. Universidade Fernando Pessoa, 1999)



***

Bloco Poético de Notas



EUGÉNIO TAVARES


Canção ao Mar
(Mar Eterno)

Oh mar eterno sem fundo
Sem fim
Oh mar de túrbidas vagas
Oh mar!
De ti e das bocas do mundo
a mim
Só me vem dores e pragas
Oh mar!

Que mal te fiz oh mar, oh mar
Que ao ver-me pões-te a arfar, a arfar
Quebrando as ondas tuas
De encontro às rochas nuas

Suspende a zanga um momento
Escuta
A voz do meu sofrimento
Na luta
Que o amor acende em meu peito
Desfeito
De tanto amar e penar
Oh mar!

Que até parece oh mar, oh mar
Um coração a arfar, a arfar
Em ondas pelas fráguas
Quebrando as suas máguas
Dá-me notícias do meu amor,
Amor
Que um dia os ventos do céu
Oh dor!
Nos seus braços furiosos
Levaram
E ao meu sorriso, invejosos,
Roubaram

Não mais voltou ao lar, ao lar
Não mais o vi oh mar, oh mar
Mar fria sepultura
Desta minha alma escura

Roubaste-me a luz querida
Do amor,
E me deixaste sem vida
No horror
Oh alma da tempestade
Amansa,
Não me leves a saudade
E a esperança

Que esta saudade, é quem, é quem
Me ampara tão fiel, fiel
É como a doce mãe
Suavíssima e cruel

Mas mágoas desta aflição
Que agita
Meu infeliz coração,
Bendita,
Bendita seja a esperança
Que ainda
Lá me promete a bonança
Tão linda!

(in "Mornas")

*


Eugénio Tavares (1821-1930) nasceu na Brava (Cabo Verde). Autodidacta, funcionário publico, jornalista e polemista. Dramaturgo, ficcionista e poeta. Paradigma da crioulidade, autor de inúmeras mornas.


***


PITADA DE SAL

O que diz - LUIS SEPÚLVEDA





POR QUE ESCREVO?

Não sou dado a perder-me nas velhas dúvidas que mortificaram e fizeram pensar os antigos filósofos, nem a sentir outras dúvidas além das necessárias para avançar no único caminho que sinto possível e que é o da escrita, essa barricada onde aportei quando já todas as outras tinham explodido, chegando a pensar que já não havia nenhum lugar possível para a resistência. De Guimarães Rosa aprendi que "narrar é resistir", e, nessa barricada da escrita, resisto aos embates da mediocridade planetária, a essa monstruosa proposta única de existência e cultura que ameaça o agonizante século XX e aquele que acaba de começar.
Por isso escrevo, por uma necessidade de resistir diante do império do unidimensional, da negação dos valores que humanizaram a vida e que se chamam fraternidade, solidariedade, sentido de justiça. Escrevo para resistir à impostura, à fraude de um modelo social no qual não acredito, porque não é verdade que a chamada globalização nos aproxime e permita, finalmente, a todos os habitantes do planeta conhecerem-se, entenderem-se e compreenderem-se.
Partilho plenamente a definição da nossa época feita por José Saramago: o confronto entre a globalização e os direitos humanos. E escrevo para resistir em nome desses direitos sagrados e inalienáveis, que não podem ser manipulados, administrados ou mutilados pelo Fundo Monetário Internacional e pelo Banco Mundial.
Escrevo porque acredito na força militante das palavras. Nunca fui nem serei homem de convicções religiosas porque feriria as minhas convicções morais, mas do cristianismo resgato a magnífica afirmação que diz "primeiro foi o verbo", verdade jamais teológica mas gramatical, porque a palavra é por si só um acto fundacional e as coisas existem à força de serem nomeadas.
Durante os anos negros da ditadura no Chile, os resistentes cantavam uns versos de Paul Eluard: "Escrevo o teu nome nos muros da minha cidade", e a Liberdade existia para além da memória imediata, para além do desejo fervoroso de a recuperar, para além da dor provocada pela certeza de tanta morte em seu nome. Existia com toda a sua deslumbrante vivência porque, cada vez que alguém a nomeava, a inventava novamente.
Escrevo por amor às palavras que amo e pela obsessão de nomear as coisas a partir de uma perspectiva ética herdada de uma prática social intensa. Escrevo porque tenho memória e a cultivo escrevendo acerca dos meus, acerca dos habitantes marginais dos meus mundos marginais, acerca das minhas utopias escarnecidas, acerca dos meus memoráveis companheiros e companheiras derrotados em milhares de batalhas, e que continuam preparando os próximos combates sem medo das derrotas.
Escrevo porque amo a minha língua e nela reconheço a única pátria possível, pois o seu território não conhece limites e o seu vigor é um acto constante de resistência.
Escrevo da barricada solitária de inventor de mundos e, como dizia Osvaldo Soriano, "da responsável satisfação daquele que sabe ser convidado a habitar o coração das melhores gentes".

LUIS SEPÚLVEDA



(in "O General e o Juiz",
Edições Asa, 2003)




***

UM POETA DA MADEIRA



JOÃO DE BRITO CÂMARA



CRIAÇÃO

A Pedro da Silveira

Meu lápis negro que em papel desliza
Pondo na neve a sua mancha escura.
É o pobre viandante que procura
A beleza que deslumbra e se eterniza.

Se a chama que o impele fica indecisa
Na moldagem ideal da forma pura.
Tem suspensões nervosas de tortura
Que só um recomeço suaviza.

Mas se nesses momentos de inclemência
Perdura transitória uma impotência
Que não permite logo novo arranco.

O tombar duma lágrima somente.
Dorando a foz e o leito da corrente.
É o lápis que não deixa o papel branco.


(in "Relance", 1942; "Poesias Completas", 1967;
e "Poesia da Ilha", org. e prefácio de José António
Gonçalves, Biblioteca Nacional, Lisboa, 1991)


TRÍPTICO

I

Confessa, Deus, que foste além dos planos
Que concebeste outrora, iluminado,
E o segredo do Mundo em Ti gerado
Perdeu-se já na treva dos arcanos.

Sem temer insucessos, desenganos,
Como o que cria em êxtase, inspirado,
Tudo ajustaste, tão maravilhado,
Que teu poema é novo há milhões de anos.

Mas, de certeza, o fogo, a euforia
De quem constrói em sangue, de quem cria,
Já feneceu e nunca mais Te ilumina;

E, sem divino sonho ao rubro arder,
Nossa ânsia de tudo compreender
É a mesma que te aflige extinta a chama...


II

Quanto perdão, meu Deus, devo pedir
Por querer igualar-Te à impotência,
Do que, mesmo exaltado em viva ardência,
Jamais Teu alto voo há-de atingir.


Julguei também um mundo constuir
Só por roçar um pouco Tua essência,
Mas o calor da minha penitência
Há-de acabar, bom Deus, por me remir:

Não foi meu vil desejo profanar-Te,
Fazer de Ti simples motivo de arte
Na vaidade da falsa criação;

Mas, no sangrar da derradeira fase,
A forma de suprir o eterno quase
Foi não deixar-Te ser mais do que irmão...


III

Eis-me, enfim, sem a lama do pecado
De unir-Te à minha humana condição,
Na mais primaveril ressurreição
Das vilezas da terra libertado.

O corpo feito espírito, em estado
De graça, todo alma e devoção,
Bem pouco mais consente ao coração
Que desejos de amar e ser amado.

E, agora, assim liberto e redimido,
Para o mais alto, para Ti erguido,
Pronto a acolher-Te como me criaste,

Só falta, pra extinguir leves abrolhos,
Surgires à varanda dos meus olhos,
Mostrar-me o Mundo como tu sonhaste!...

(in "Ilha", poemas, Coimbra, 1950; "O Natal
na Voz dos Poetas Madeirenses", organização
de José António Gonçalves, Funchal, 1989)

*
João de Brito Câmara, nascido em Lisboa (1909-1969), vem para a Madeira viver com quatro anos de idade. Figura proeminente das Letras madeirenses e até nacionais (chega a publicar em livro a entrevista que realizou com Edmundo Bettencourt sobre "O Modernismo em Portugal", em 1944, hoje um documento de leitura indispensável para a compreensão da evolução da poética na Língua de Camões, reeditado em 1996), era licenciado em Direito e declarado opositor ao regime do Estado Novo, liderado pelo Prof. António de Oliveira Salazar. Em 1967 reuniu os seus livros (alguns deles prefaciados por ilustres escritores, como Cabral do Nascimento e Fernando Namora) no volume "Poesias Completas", a que juntou alguns inéditos (1967).

****



POEMÁRIO


Assírio & Alvim


2004




FREI LUÍS DE LÉON



Alargo, incerto, o passo e volto, quanto



alargo o passo, atrás o pensamento;



não volto, que antes sempre fito atento



a causa de meu gozo e de meu pranto.



Ali estou firme e quieto; e, entretanto,



levado plo contrário movimento,



qual faz o torturado no tormento,



padeço feroz mal, feroz quebranto.



Em partes, pois, diversas dividida



minha alma, pra evitar tão cruas penas,



deseja dar ao solo estes despojos.



Geme, suspira e chora desvalida;



e em meio de chorar murmura apenas:



- Quando voltarei, Nise, a ver teus olhos?



FREI LUIS DE LÉON


(1527-1591)


(in "Poesias Completas",


Tradução: José Bento)




***


IMAGINÁRIO



Assírio & Alvim



2004





HERBERTO HELDER






Imaginem que sou um empregado de escritório, um pequeno



burguês calafetado cuja existência foi de súbito invadida pela



peste. Volto sempre ao mesmo. Esta ideia da peste não me sai



da cabeça. Podem supor o que era a minha vida. O trabalho,



as noites no café ou no cinema, um livro, a visita a um



prostíbulo. Vida sem imaginação, não é? Pois bem, estive



preso durante um mês. Não é muito. Agora parece-me que já



não poderei ter qualquer espécie de esperança. Sento-me



neste bar e embebedo-me. Preciso estar bêbado. Vejo os



vestidos vermelhos e azuis das raparigas escoando-se por



entre as mesas. Toca-se uma música lancinante. Gosto deste



bar. Atordoa-me. O espelho mostra-me um olhar aflito.



Levanto o copo com a mão hesitante, e saúdo-me. Noto



perfeitamente a minha mediocridade. Uma bebedeira dolorosa,



um pouco repugnante, não?



- Pagas-me uma bebida? - Um vestido encarnado sobe



pelo meu lado esquerdo. É bem suja esta vidinha, meus



amigos.




(in "Os Passos em Volta")




***


Um poema inédito
de
José António Gonçalves







A CIDADE CHAMA POR MIM



A cidade chamava pelo meu nome e a noite ouvia
e alguma coisa ofegava dentro de mim nas calçadas
de pedra nua e cinza como a alma dos vulcões extintos


Não tenho a certeza se o meu nome era o da cidade
que me chamava alertando-me para o apelo das ribeiras
no canto vigoroso das invernias ensaiado entre as penedias


O que sei é que o meu nome estava escrito nos telhados
e escorria até ao chão como um verme vivo e ondulante
caminhando em direcção às luzes na busca do seu dono


E o nome crescia como o coração dos planetas junto do sol
ensaiando outros passos estabelecendo ritmos cobrindo
as sombras escondidas sob as ombreiras das portas fechadas


Só poderia ser o meu nome o do chamado da cidade e a noite
era minha pertencia-me e a mais ninguém e nascia dentro de mim
e o chamado tornou-se tão irresistível que esqueci donde vim


JOSÉ ANTÓNIO GONÇALVES

(inédito.24.2.04)


 

Selecção e Montagem: JAG