A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Fevereiro

26

 
 
 
  
***
 
ALBANO MARTINS



Onde
estiver um pássaro
e o seu voo é lá
que está o signo
das mulheres. Dessas
que sempre voam
para onde
a presença é ausência. É essa
a sua ambiguidade. O seu
violino. O voo
do tambor
e do moscardo.


Albano Martins

(in "A Voz do Olhar", 1998; Agenda Poética/2000,
org. Beatriz Weigert, ed. Universidade Fernando Pessoa, 1999)



***

Bloco Poético de Notas

CABRAL DO NASCIMENTO



(Cabral do Nascimento:
"Obra Poética", Asa, 2003)


O CARACOL

Pode a noite ir já distante
E o sol arder como brasa:
Mais atrás ou adiante,
Eu paro, e cheguei a casa.

A ave, de volta ao ninho,
Rasgue o ar com sua asa,
Que eu, devagar, no caminho,
Direi já que estou em casa.

Todo o tempo me sobeja,
No monte ou campina rasa.
Em qualquer lado onde eu seja,
Se paro, cheguei a casa.


EPÍLOGO

Que seja o fim. Que Deus escreva agora um zero
Defronte do meu nome. E fique, então, cerrada
A porta... Mas se ainda perguntar se quero
Alguma coisa mais? Só música e mais nada.

Que interessa o que vai por esse mundo? As mansas
Nuvens corram no céu da minha vida, e fechem
Por completo o horizonte, e seja o fim, mas deixem
Ouvir, ouvir o riso de oiro das crianças;

E ver, e ver poisar, aos bandos, nos beirais
As pombas, ou riscar violentamente o espaço
Uma andorinha. Assim, que mais eu quero? O abraço
Que alguém me der será... será talvez demais;

E ver, e ver ainda abrir-se lá nos frisos
De vasos uma outra delicada flor.
O arco-íris também... Aves e flores, risos
De crianças... E sons de música ao redor.

Fechado guardarei comigo a sete chaves
O efémero da vida... o que traz a alvorada
E a noite depois leva... Risos, flores, aves,
O arco-íris, o som da música e mais nada.

(in "Fábulas", s.d.,
Portugália Editora,
Lisboa)

*
João Cabral do Nascimento (n. Funchal e f. Lisboa,

1897-1978) era licenciado em Direito e foi docente

do Ensino Técnico Profissional. Organizou e dirigiu

o Arquivo Distrital do Funchal. Fundou e orientou o

"Arquivo Histórico da Madeira" e pertenceu à Academia

Portuguesa de História. Fernando Pessoa elogiou a sua

primeira obra,"As Três Princesas Mortas num Palácio

em Ruínas" (1916), na revista "Exílio", considerando-o

como "um poeta digno" do movimento "Orpheu".

Traduziu e publicou a obra de, entre outros, R. L.

Stevenson, George Eliot, G. H. Wells, Henry James,

Pearl S. Buck. Deu à estampa volumosa bibliografia,

incluindo estudos históricos, ensaios, poesia e diversas

antologias de vários géneros literários. Toda a sua lavra

lírica, com destaque para títulos como "Cancioneiro"

(1932), "Digressão" (1953) e "Descaminho" (1953), acaba

de ser agora reunida na "Obra Poética", com chancela

das "Edições Asa", num trabalho de Mónica Teixeira,

prefaciado por Vasco Graça Moura.



***


PITADA DE SAL

O que diz - LÍLIA MATA




CONTOS DE EMBARCAR


Nunca se tinha visto semelhante coisa por estas bandas. Aos domingos à tarde, e também às quintas-feiras, os vizinhos avistavam no poio em frente da porta um lençol branco.
O lençol abanava e mexia-se mesmo sem vento. E ouviam-se vozes e risos, gritinhos também. Debaixo do lençol, a brincar, estavam a Maria da Paz e o João Abel.
- Já viu aquela pouca vergonha, vizinha?
- Sabe o que é que eu acho? Que não tarda muito o mundo vai se acabar. Nosso Senhor disse, está escrito nos Evangelhos, que quando o mundo estiver perto do fim, vão acontecer muitas coisas de espantar.
- Cá na minha opinião havia uma maneira rápida e simples de resolver aquilo. Era pegar num bocado de pau e dar umas vergastadas em cada um.
- O mal é não haver quem ensine. O pai não se importa, está mais preocupado é com o seu vinhinho. E a mãe, olhe, ainda um dia destes eu fui lhe dizer alguma coisa, lhe dar um conselho, e ela mandou eu me meter na minha vida.
- Quando ela se arrepender já não vai ter remédio, oxalá eu esteja enganada.
- O que eu sei é que ninguém é obrigado a ver aquilo e calar. Afinal é um mau exemplo para o sítio todo. Já viu se pega de moda namorar daquele jeito?
(...)

LÍLIA MATA

(in "Contos de Embarcar", Colecção "Terra à Vista" 3,
direcção de José António Gonçalves,
Ed. Arguim-Madeira, 2002)

*
Lília Mata (n. Caniço, Santa Cruz, Madeira, 1967), é jornalista profissional da RDP-Madeira. Como escritora venceu já alguns prémios literários, inclusive na "internet". Obras: histórias de bertoldinho" (Prémio Cidade do Funchal/Edmundo de Bettencourt), 1989; "Contos de Embarcar" (Prémio Câmara Municipal de S. Vicente/Escritor Horácio Bento de Gouveia), Colecção Terra à Vista, nº. 3, direcção de José António Gonçalves, introdução de José Luís Peixoto, Ed. Arguim-Madeira, 2002.


***

UM POETA DA MADEIRA



REBÊLO DE QUENTAL




AVENIDA


Avenida,
Rua triste e deserta,
Rua longa e comprida,
Sem uma só janela aberta.

Aqui e além um candeeiro;
Uma luz frouxa e baça
Deixa que se distinga
As indistintas formas
Duma mulher que passa.

Avenida,
Minha vida
Que não tem uma só janela aberta
Pronde eu possa ver tudo o que não vejo
E ouvir o que não oiço.
Vida,
Avenida comprida.

(Do livro inédito "Avenida")



A MENINA DO LADO


A menina do lado
Tem uma história bem diferente
Das histórias de toda a gente.

Mas,
Que tenho eu com a menina do lado,
De olhos quentes a arder em febre,
De mãos esquálidas, esguias como fusos,
De faces brancas como a neve?

Não sei que tenho com a menina do lado,
Que se levanta logo pela manhã
E leva a vida entre o piano e a janela,
Entre o homem que passa na rua
E a sombra de Chopin,
Que é a sombra dela...

Ah! A menina do lado
Tem uma história bem diferente
Das histórias de toda a gente.

A sua vida estranha e misteriosa
É paralela
À minha vida.
Mas eu fui além do piano e da janela...

E a menina do lado continua esquecida.

(Do livro inédito "Avenida")



SEGUNDO POEMA MARÍTIMO


Andam naves perdidas na noite e no tempo,
Envoltas nas areias do fundo do mar...
Partiram-se os mastros, romperam-se as velas,
Mortalhas de vento
Que as fez naufragar.

Marinheiro da Triste Sorte,
Diz-me quem ana a boiar
Nos braços
Dos sargaços
Sobre as ondas do mar.

Diz-me, eu te peço,
Na intensidade da vibrações o meu ser,
Desfeita a rede dos meus sentidos,
Nesta hora que me consome,
De quem são os corpos que flutuam perdidos,
Destroçados duma epopeia sem nome.

Eu quero como eles cruzar os braços na ausência
E morder a areia das praias desertas,
Eu quero como eles ser nave perdida
E pasto das Descobertas!

O marinheiro não respondeu.

Anda o corpo a boiar
Nos braços
Dos sargaços,
Sobre as onda do mar...

(Do livro inédito "Rasgo no Céu")

*

António Manuel Rebelo Pereira Roiz Quintal (n. Funchal, ilha da Madeira, 1931), é licenciado em Direito,
pela Faculdade de Dieito de Lisboa, tendo sido presidente da Associação Académica da Universidade de Lisboa e membro do seu Conselho Académico. Em Lisboa foi Director da revista universitária "Quadrante". Advogado ilustre, exerce no Funchal. Desempenhou o cargo de agente do Ministério Público no Tribunal do Funchal e foi eleito procurador à Junta Geral do Distrito Autónomo do Funchal (1972), de cuja Comissão Executiva fez parte. Foi eleito Deputado pelo Distrito Autónomo do Funchal à Assembleia Nacional, na sequência da abertura do regime, protagonizada pelo Professor Marcelo Cateano (1969). Pertenceu ao "Arquipélago" (1952), volume antológico de poesia que integrava nomes como Herberto Helder, António Aragão e Jorge Freitas. Tem vários livros inéditos, entre os quais "Avenida" e "Rasgo no Céu". Nunca publicou qualquer das suas obras.


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POEMÁRIO


Assírio & Alvim


2004




FERNANDO PESSOA







FRESTA



Em meus momentos escuros



Em que em mim não há ninguém



E tudo é névoas e muros



Quanto a vida dá ou tem,







Se, um instante, erguendo a fronte



De onde em mim sou soterrado,



Vejo o longínquo horizonte



Cheio de Sol posto ou nado,





Revivo, existo, conheço:



E, inda que seja ilusão



O exterior em que me esqueço,



Nada mais quero nem peço:



Entrego-lhe o coração.




FERNANDO PESSOA



(1888-1935)



(in "Ficções do Interlúdio")



***


Um poema inédito
de
José António Gonçalves




RETRATADO

para a Gilda, sempre


retratado em teu espelho de desterro
lamento as lágrimas imensas que escorrem
pelo teu rosto de deusa


(olhar o vácuo e beber a tua dor
apertar-te em meus braços e guardar-te


lá pelos lados da montanha de Afrodite
ou nas nuvens de prata invioláveis)


no andarilhar da ausência
sentiste as flores da amargura


e choras
naquele sempre retrato espelhado
dormindo à minha cabeceira


choras como se liquedificasses meus olhos
e me partisses irremediavelmente
a existência



JOSÉ ANTÓNIO GONÇALVES

(inédito.Maio.1972)



 

Selecção e Montagem: JAG