A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Fevereiro

27

 
 
 
  
***
 
ALBANO MARTINS


Sabe-se agora
que o rouxinol acorda
à meia-noite.
É do seu bico,
mas também dos olhos,
que nascem as luas
e as estrelas cegas extraídas
do rigor
e da lentidão das tintas. A cada
nota solta
da garganta outras luas
e outras estrelas
nascem.


Albano Martins

(in "A Voz do Olhar", 1998; Agenda Poética/2000,
org. Beatriz Weigert, ed. Universidade Fernando Pessoa, 1999)

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Bloco Poético de Notas

almada negreiros




CANÇÃO

A pastorinha morreu, todos estão a chorar. Ninguém a conhecia e todos estão a chorar.

A pastorinha morreu, morreu de seus amores. A beira do rio nasceu uma árvore e os braços da árvore abriram-se em cruz.

As suas mãos compridas já não acenam de além. Morreu a pastorinha e levou as mãos compridas.

Os seus olhos a rirem já não troçam de ninguém. Morreu a pastorinha e os seus olhos a rirem.

Morreu a pastorinha, está sem guia o rebanho. E o rebanho sem guia é o enterro da pastorinha.

Onde estão os seus amores? Há prendas para lhe dar. Ninguém sabe se é ele e há prendas para lhe dar.

Na outra margem do rio deu à praia uma santa que vinha das bandas do mar. Vestida de pastora p'ra se não fazer notar. De dia era uma santa, à noite era o luar.

A pastorinha em vida era uma linda pastorinha; a pastorinha morta é a Senhora dos Milagres.


A FLOR

-Je travaille tant que je peux et le mieux que je peux, toute la journée. Je donne toute ma mesure, tous mes moyens. Et après, si ce que j'ai fait n'est pas bon, je n'en suis plus responsable; c'est que je ne peux vraiment pas faire mieux.
Henri Matisse

Pede-se a uma criança. Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.
Passado algum tempo o papel está cheio de linhas, Umas numa direcção, outras noutra; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase não resistiu.
Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais.
Depois a criança vem mostrar essa linhas às pessoas: uma flor!
As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor!
Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas, são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!


RECONHECIMENTO À LOUCURA

Já alguém sentiu a loucura
vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parecer ser o fim?
Exactamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem
nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descer abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
atrevidamente
e ganhar-lhe, e ganhar-lhe
a ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?

Tu só, loucura, és capaz de transformar
o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuais
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar
a quem tas vier buscar

(in "Poemas", Assírio & Alvim)


*
Almada Negreiros (José Sobral de), artista plástico e escritor português (Lisboa, 1893 - id., 1970). Colaborou em publicações de apoio ao movimento futurista em Portugal e na Espanha, tendo exposto telas modernistas e participado da fundação da revista Orfeu. Publicou: A invenção do dia claro (1921), Nome de guerra (1938), Pierrô e Arlequim (1924), Elogio da ingenuidade (1936), Cadernos de poesia, Bicórnio e peças teatrais.


***


PITADA DE SAL


TOM LANOYE





PROGRAMA

Sei eu lá bem que aspecto a poesia
deva ter. Não esse tipo paralisado,
monocórdico. É uma coisa que não
aprecio muito. O mesmo tom repetido
até ficar gasto, e depois chamar isso
"coerência formal", ou "uma voz
própria", esse género de tretas.
Não, isso é pouco do meu gosto.

Então antes a guloseima favorita
da minha infância. O rebuçado
mágico. A gente vai chupando,
chupando, estão sempre a aparecer
outras cores e, mal uma pessoa
se distrai, não sobra mais
nada. É exactamente isso, acho
eu. Uma coisa assim. É ela por ela.

TOM LANOYE
(1958)

(in "Uma Migalha na Saia do Universo
- Antologia da Poesia Neerlandesa do
Século Vinte", selecção e introdução de
Gerrit Komrij, Tradução de Fernando
Venâncio, Assírio & Alvim, 1997)


***

UM POETA DA MADEIRA


SILVÉRIO PEREIRA



PÂNTANO


Quem não chega a ter pena, estando a ver
Essa água turva, imóvel, estagnada,
Que não canta, nem chora - resignada!
Quando a queremos límpida e a correr?

Não sei que sinto, quando está a chover,
Lembrando-me daquela água parada!
Vir do Céu tanta lágrima chorada
Para entreter o lodo - e lá morrer.

Eu não sei como, nesta lama imunda,
A vida possa despertar fecunda
Que possa latejar um coração!

Há ali, Vidas e Vidas às mãos cheias,
Tal como nas cidades e nas aldeias...
Entre cenas de amor e de paixão.

(Do livro inédito "Pinceladas)


A LAVADEIRA


Sou lavadeira,
Lavando a roupa, seja de quem for.
Debruço-me sobre a água da ribeira,
Misturo o sujo com a minha dor!

Se a minha dor era negra,
Mais negra vai ficando,
De tanto tirar o negro,
da roupa que vou lavando!

A roupa fica presa entre os meus dedos,
Como estivessem a prender alguém!
E a minha dor, - lá vai entre rochedos,
Esses dedos, que não são de ninguém!

Se a minha dor, não quer prender-se a mim,
Não iria dar-se, fosse com quem fosse,
E talvez, por ser grande, não ter fim,
Quer fugir, porque a minha alma quebrou-se!

Na minha alma, não pode ser contida,
Quer fugir... fugir... não sei para onde?!
E como ela, está presa á minha vida,
Quando quer fugir, mais em mim se esconde!

Ela, no entanto, tenta e vai sair
A beijar a luzerna e o alecrim!
Quando se julga já pronta a fugir,
É comprida, está sempre presa a mim!

Como vai na corrente, em longo fio,
Embebida do negro, da amargura,
Vai tingir todo o espaço vazio,
Vivo assim, numa eterna noite escura!

Lavo a roupa, que a água não estanca,
Lavo-a, como se fosse o corpo meu!
E quando vejo a roupa toda branca,
Julgo que a dor, também, embranqueceu!

Já não é negra, a minha dor,
É branca, branca como a neve!
Um sol cheiínho de esplendor,
Que me tenta a voar, por me sentir mais leve!

E assim, vivendo enganada,
Tenho, ao menos, uma hora de alegria!
E embora esteja muito mais cansada,
A minha noite se transforma em dia!

Lavo, e torno a lavar,
A lavar... já não sei o quê!
Sei, ao certo, que estou a me enganar,
E o que mais me custa, é que ninguém crê!

Ninguém... ninguém me ampara,
Não sei a que destino vou parar!
Não sei se tenho mãos, se tenho cara,
Ou se foi tudo já, no meu lavar.


(Do livro inédito "Canções do Mundo")

*
Manuel Silvério Pereira (1903-1970), nasceu na freguesia da Sé, no Funchal, Madeira. Funcionário aduaneiro (serviu em Ponta Delgada, Açores e na sua terra-natal), era licenciado em Ciências Económicas e Financeiras pela Universidade de Lisboa. Poeta de particulares qualidades ascéticas, reconhecidas por figuras literárias do seu tempo, conauistou o 1º. Prémio dos Jogos Florais da Madeira, promovidos pelo Ateneu Comercial do Funchal (1945-46). Usava os pseudónimos "Rio Silva " e "Silva Prado". Colaborou na imprensa local e deixou vários livros inéditos, tais como "Curvas", Pinceladas" e "Canções do Mundo", tendo integrado o volume colectivo "Arquipélago", com Herberto Helder, António Aragão e Jorge Freitas, ente outros, em 1952 (Tipografia Eco do Funchal).


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POEMÁRIO

Assírio & Alvim

2004





CAMILO PESSANHA




SAN GABRIEL


I
Inútil! Calmaria. Já colheram
As velas. As bandeiras sossegaram,
Que tão altas nos topes tremularam,
- Gaivotas que a voar desfaleceram.

Pararam de remar! Emudeceram!
(Velhos ritmos que as ondas embalaram)
Que cilada que os ventos nos armaram!
A que foi que tão longe nos trouxeram?

San Gabriel, arcanjo tutelar.
Vem outra vez abençoar o mar,
Vem-nos guiar sobre a planície azul.

Vem-nos levar à conquista final
Da luz, do Bem, doce clarão irreal.
Olhai! Parece o Cruzeiro do Sul!



CAMILO PESSANHA

(1867-1926)



(in "Clepsydra")





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IMAGINÁRIO

Assírio & Alvim

2004




ANTONIN ARTAUD



No topo das essências fixadas, correspondente às

inumeravéis modalidades da matéria, existe aquilo que, na

subtileza das essências, na violência do fogo ígneo

corresponde aos princípios geradores das coisas, aquilo

que o espírito que pensa pode denominar princípios, os

quais porém correspondem, em relação à totalidade

fervente das coisas, a graus conscientes da Vontade na

Energia.


Não existem princípios da matéria subtil ou do

enxofre ou do sal, mas, para além do sal, do mercúrio ou

do enxofre, matérias ainda mais subtis que, no último

extremo da vibração orgânica, dão conta da diversidade

do espírito através das coisas; e a quem pede lhe sejam

apresentadas as coisas, só os números respondem dando

conta das suas existências separadas.



(...)



ANTONIN ARTAUD

(1896-1948)


(in "Heliogabalo ou o Anarquista Coroado",Tradução de Mário Cesariny)





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Um poema inédito
de
José António Gonçalves





PARA UMA RAZÃO


ler foi uma ambição sem milagre
que num dia sem chuva nem afagos
se tornou uma realidade estranha

as palavras entravam-me nos olhos
com a violência do amor nascido
nos seios duma criança-mãe

fiquei prenhe de versos:
explodiram-mos pelos dedos
de rompante, até nos invernos

nos verões era diferente:
abria as pálpebras
com a poesia adormecida
nas pupilas do silêncio
no copo de água fria sobre a mesa
ou no raio de sol que me acordava


JOSÉ ANTÓNIO GONÇALVES

(inédito.Novembro.1972)

 

Selecção e Montagem: JAG