A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Fevereiro

28

 
 
 
  
***
 
ALBANO MARTINS


E são elas
que abrem no espaço
azul as clareiras
por onde
o sol espreita. E são estes
os corredores
da sombra, os seus
cometas. Os papagaios
de luz que latejam
no cérebro da noite.

Albano Martins

(in "A Voz do Olhar", 1998; Agenda Poética/2000,
org. Beatriz Weigert, ed. Universidade Fernando Pessoa, 1999)

 


***
Bloco Poético de Notas

VITORINO NEMÉSIO


A CONCHA

A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fechada de marés, a sonhos e a lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhadosa de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta pelo vento, as salas frias.

A minha casa... Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.


SEMÂNTICA ELECTRÓNICA


Ordeno ao ordenador que me ordene o ordenado
Ordeno ao ordenador que me ordenhe o ordenhado
Ordinalmente
Ordenadamente
Ordeiramente.
Mas o desordeiro
Quebrou o ordenador
E eu já não dou ordens
coordenadas
Seja a quem for.
Então resolvo tomar ordens
Menores, maiores,
E sou ordenado,
Enfim --- o ordenado
Que tentei ordenhar ao ordenador quebrado.
--- Mas --- diz-me a ordenança ---
Você não pode ordenhar uma máquina:
Uma máquina é que pode ordenhar uma vaca.
De mais a mais, você agora é padre,
E fica mal a um padre ordenhar, mesmo uma ovelha
Velhaca, mesmo uma ovelha velha,
Quanto mais uma vaca!
Pois uma máquina é vicária (você é vigário?):
Vaca (em vacância) à vaca.
São ordens...
Eu então, ordinalmente ordeiro, ordenado, ordenhado,
Às ordens da ordenança em ordem unida e dispersa
(Para acabar a conversa
Como aprendi na Infantaria),
Ordenhado chorei meu triste fado.
Mas tristeza ordenhada é nata de alegria:
E chorei leite condensado,
Leite em pó, leite céptico asséptico,
Oh, milagre ordinal de um mundo cibernético!

*
Não cantarei a virgem que o cavalo
Com um xairel de sangue arrebatou,
Quebrada pelo bruto, - nem levá-Io
Ao potro vingador de um verso vou.

Não cantarei tal noite aziaga. Falo
Apenas do que tenho, do que sou
Com ela, como o vinho no gargalo
Do frasco em que me bebe e me esgotou.

Nem cantarei a vítima do resto,
Violada na inocência que perdeu
Nas emboscadas de um punício lodo:

Que só meu próprio amor acendo. E atesto
A chama da Victória que me deu
Na margarida branca o mundo todo.


(in "Caderno de Caligraphia e Outros Poemas a Marga", 2003)


*
Vitorino Nemésio (ilha Terceira, Açores, 1901; Lisboa, 1978) fez os seus estudos na Universidade de Coimbra e foi professor da Faculdade de Letras em Lisboa, acabando ainda por ser docente no Brasil, França, Bélgica, Espanha e Holanda. Poeta, conferencista e escritor, colaborou com a televisão estatal, a RTP, apresentando um programa cultural durante alguns anos, com o qual conquistou o povo português com um aura de simpatia, respeito e curiosidade. Foi director, após o 25 de Abril de 1974 de O Dia (em 1975). A sua eloquência oral, reveladora de invulgar cultura, projectou-o a um plano raro nos meios académicos e até nos populares, dentro e fora de Portugal. Bibliografia: (Poesia) La Voyelle Promise (1935), O Bicho Harmonioso (1938), Festa Redonda (1950), Nem Toda a Noite a Vida (1952), O Pão e a Culpa (1955), O Verbo e a Morte (1959), O Cavalo Encantado (1963), Canto da Véspera (1966), Limite de Idade (1972), Sapateia Açoriana (1976); (Ficção) Paço do Milhafre (1924), Varanda de Pilatos (1926), A Casa Fechada (1937), Mau Tempo no Canal (1944), O Mistério do Paço do Milhafre (1949), Quatro Prisões Debaido de Armas (1971); (Ensaios e crónicas) A Mocidade de Herculano até à Volta do Exílio (1934), Relações Francesas do Romantismo Português (1936), Isabel de Aragão (1936), O Campo de S. Paulo, a Companhia de Jesus e o Plano Português do Brasil (1954), Vida e Obra do Infante D. Henrique (1959), Corsário das Ilhas (1956), O retrato do Semeador (1958), Jornal do Observador (1974), Quase que os vi viver (1985).

***


PITADA DE SAL


JACK KEROUAC





Os jogos musculados do sexo são uma enorme seca mas Billie e eu divertimo-nos imenso enquanto fazemos amor e é por isso que conseguimos filosofar assim e estamos sempre de acordo e rimo-nos os dois numa doce nudez. "Oh querido somos os dois malucos, podíamos viver numa velha cabana de toros na montanha e não dizermos sequer uma palavra durante anos e anos, estava escrito que havíamos de encontrar-nos" - Enquanto ela diz estas e muitas outras coisas uma ideia começa a formar-se no meu espírito: "Já sei, Billie, vamos sair da Cidade e levamos o Elliott connosco para passarmos uma semana ou duas na cabana de Monsanto lá na floresta, longe de tudo" - "Óptimo, eu vou ligar já ao meu patrão e peço-lhe duas semanas de folga, Oh Jack vamos embora" - "E vai ser bom para o Elliott, poder afastar-se destes teus amigos sinistros, meu deus" - "O Perry não é sinistro".
"Havemos de casar-nos, partiremos daqui e teremos uma casa de campo nas Andirondacks, e à noite jantaremos frugalmente com o Elliott à luz da lamparina" - "E eu farei sempre amor contigo" - "Mas nem sequer serás obrigada a isso porque ambos compreenderemos que somos doidos varridos... a verdade estará escrita em todas as paredes da nossa casa e mesmo que o mundo inteiro venha sujá-la com grandes manchas negras de ódio e mentira nós viveremos embriagados pela verdade" - "Bebe um café" (...).


JACK KEROUAC

(in "Big Sur", 1962; tradução: Paulo Faria,
Colecção Mil folhas, Lisboa, 2003)





***

UM POETA DA MADEIRA


MANUEL GONÇALVES
(FEITICEIRO DO NORTE)




A FRUTA DO VERÃO



Deus fizera o ano inteiro
com tanta repartição,
sabendo que a gema dele
é a Primavera e o Verão.

A vinte a tantos de Março
p'ra quem sabe apreciar
começa o dia a crescer
e as noites a mingar;
sente-se o sol aquecer,
e os ventos a se aquietar.

Começa o peixe a morrer
que o mar entra a abonançar;
árvores todas rebentam
com as flores a cheirar.

Passarinhos a pôr ovos,
outros loucos a cantar,
entram a dar criação
nos arbustos pelo ar.

Ainda agora nós falamos
das árvores que "arrebento",
é fartura que Deus dá
para o nosso mantimento.

Talvez inda não sabeis
a fruta quem vem primeiro:
as nêsperas e as amoras,
a fruta do morangueiro,
e logo em seguida vem
o fruto do damasqueiro.

Ameixas pretas e brancas
é fruta de muita fama,
há umas de carocinho
e outra ciraguçana.

O pêssego é a melhor fruta
que em todo o Verão se apresenta,
o maior senão que tem
é a maldita barejenta.

Se não fosse a barejenta,
eu requentava os lugares
dos calvos e amarelos
dos dourados e mulares.

Vem agora o rico figo
preto, branco e bacorinho,
bêberas e figos doces
e o belo figo martinho
e ao mesmo tempo já vêm
os cótios e os mulatinhos.

Pero doce e d'alegrete,
ainda a vontade é pouca;
mais atrás vêm os de vime
e a rica pera de estôpa.

Então a bela castanha,
essas são mais engraçadas,
quando estão no castanheiro
com ponta arreganhadas.

O dono, por vezes, raiva,
prega-lhe umas vergalhadas
e depois vão para o fumo
ficam todas empilhadas.

Quem tem muitas faz caniça,
quem tem poucas não as seca
e fazem empandeirar
as que nos dão a carepa.

Nozes para comer com pão
oh! que petisco tão lindo!
Cá p'ra mim não me serve
que tenho os dentes caindo.

É uma fruta chocalheira
mesmo dentro duma saca,
há negões e nozes boas
e das mais reles, macacas.

Então a rica laranja
isso é fruta mais fina:
há doces e as azedas
e há outras tangerinas.

Os pobres e ricos gostam
do estimado limão
a casca serve p'ra poncha
e o sumo p'ra esfregação.


Cá tabaibos não se tem
porque a gente se picava;
no nosso norte não há
nem cereja, nem goiaba.




O MEU GALO PRETO


(EXCERTO)


(...)
Quem se põe a analisar,
tendo sentido profundo,
o galo é o primeiro
dos animais deste mundo.

Deus fez a noite e temeu-a
por ter pouca boniteza
e todos guardamos dela,
com mui rigor e frieza,
mas o galo rompe tudo
com seu dom de Natureza.

À hora da meia noite
mostra a sua delicadeza;
também o galo preto
sabe cantar que é beleza.

O galo à meia noite,
de cima do seu poleiro,
com seu dom de Natureza,
alegra o mundo inteiro.

Anuncia o dia que vem
dá aviso ao jornaleiro.
Só'quele que não analisa,
quem não sabe pensar nisto
pois o galo anunciou
o nascimento de Cristo.
Porque canta à meia noite
tem aquela devoção,
não há pássaro neste mundo
que faça tal reflexão.
Também ao meu galo preto
dou-lhe grande estimação.

Nem que venha o rei da França,
ou mesmo o de Portugal,
Deus me livre de vender
o meu rico animal.

Porque não tenho relógio
que tenha despertador,
marca as horas da manhã
o meu rico cantador;
à hora da meia noite
quer dar sua opinião;
dá três palmadas c'as asas
para acordar seu patrão.

Canta três vezes espaças
por causa de não se enfadar,
sendo perto da manhã
pega então a miudar.

De manhã desce p'ra o chão
c'as galinhas estimadas,
dá meia volta à direita
c'as asas dependuradas,
com a cabeça torta à banda;
e umas meias remunhadas.
(...)



(in "Versos", 2ª. Ed/DRAC-Madeira, 1994)

*

Manuel Gonçalves (Feiticeiro do Norte), nascido na freguesia do Arco de São Jorge, Santana, Madeira (1858), mais conhecido pela alcunha de Feiticeiro do Norte, segundo o Centro de Estudos de História do Atlântico, era um camponês analfabeto e sem grau algum de cultura, que, aproximadamente aos quarenta anos de idade, começou a revelar uma extraordinária aptidão para a composição e improvisação de trovas e cantigas populares, que logo alcançaram uma grande nomeada entre a gente dos campos desta ilha. Ao som dum rajão, numa melopeia monótona, cantava o Feiticeiro os seus versos, que, pela sua originalidade e pitoresco, e, sobretudo, pelo interesse que o assunto despertava, eram avidamente escutados e constituíam um dos grandes atractivos nos diversos arraiais da Madeira. De pequenas trovas e de ligeiros recitativos passou a mais desenvolvidas composições, muitas das quais foram impressas em folhetos avulsos: Santo Antonio, Chegada de Suas Magestades, As Raparigas dos Bordados, O Lavrador, A Cidade do Funchal, As Inundações, O meu Galo Preto, A antiguidade de meu pae, A vida do Feiticeiro do Norte escrita por ele mesmo, A Madeira (entre outras). Animado pelo êxito das suas composições, foi ao Brasil, onde se demorou algum tempo. Entre os folhetos que ali imprimiu conta-se um intitulado Pedro Alvares Cabral.Faleceu na freguesia do Arco de São Jorge, no mês de Abril de 1927.



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POEMÁRIO



Assírio & Alvim



2004





ALFONSO X,


REI DE CASTELA





Penhoremos o daiam

Pois que me foi el furtar

na cadela, polo cam,

meu podend'e mi o negar,

e, quant'é a meu cuidar,

estes penhos pesar-lh'-am,

ca o quer'eu penhorar

na cadela, polo cam.

Penhoremos o daiam

na cadela, polo cam.




Mandoum'el furtar alvor

o meu podengo melhor

que havia em sabor,

e penhorar-lh'-ei de pram

e filhar-lh'-ei a maior

sa cadela, polo cam.

Penhoremos o daiam

na cadela, polo cam.



Pero querrei-mi aviir

com ele, se consentir,

mais se o el nom comprir

os seus penhos ficar-mi-am,

e querrei-me bem servir

da cadela, polo cam.

Penhoremos o diam

na cadela, polo cam.



AFONSO X, REI DE CASTELA


(1221-1284)

(in "Rosa do Mundo - 2001 Poemas para o Futuro")





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IMAGINÁRIO


Assírio & Alvim


2004





AGOSTINHO DA SILVA



(...) Repare, nós queixamo-nos de um certo número

de males do mundo, toda a gente tem um catálogo

de males. E depois começa reclamando deles, não é?

A polícia da esquina começa reclamando contra os

males. Eu não, eu decido fazer o mal ao contrário...

e quero ver se o choque dos males... quero ver se

alguém me chateia a mim, eu vou ver se o chateio a

ele, sabe, pelo meu processo. Como um sujeito que

tem erisipela e a erisipela o faz ganhar a vida; se se

cura chateia-se... considera isso um mal, a saúde,

um mal. Terrível, não é verdade? Então, pode ser

que suceda o mesmo; que eu desejar-lhe bem seja

acabar com o mal dele, e a coisa vai. Não me

preocupo senão em fazer exactamente o contrário

daquilo que eu não gosto no mundo. E como não me

vou matricular em nenhum partido para isso, nem

vou ter tertúlias nem nenhuma dessas histórias, vou

ser eu sozinho, não é? Acabou. Não dá certo? Ah,

deu, alguma coisa deu: diverti-me.




AGOSTINHO DA SILVA


(1906-1994)



(in "Ir à Índia sem Abandonar Portugal")





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Um poema inédito

de

José António Gonçalves




CAÍ NESTE FOSSO



caí neste fosso sem desespero.
caí como cai uma mosca na sopa.
e neste fosso morto há o quis, o quero,
o corpo que se estraga preso pela roupa.


caí. todos têm o direito a cair
a ter o passo falso, perdido no andar.
no movimento que existe neste sair
do fosso, recuso o medo, o sanar.


não gritarei por socorro.
não exultarei a angústia que me deprime.
que proclamem prisões ou fugas.
ossos. fantasmas. conspirações. ou a ajuda sublime
que me tire deste enterro de rugas.


sinto-me neste beco sem saída
como um pássaro sem penas e que delas se reveste,
dia-a-dia, no vento cálido da vida,
capturando-o sempre no mesmo naufrágio agreste.


caí. como da galinha o ovo.
aonde o são poema que me renova nesta idade
menor que o ser mais novo
de cada cidade?


JOSÉ ANTÓNIO GONÇALVES

(inédito.Junho.1972)



 

Selecção e Montagem: JAG