A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Fevereiro

29

 
 
 
  
***
 
ALBANO MARTINS


O papagaio sabe
que o silêncio deixa
um nó na garganta.


Albano Martins



(in "COM AS FLORES DO SALGUEIRO", 1995; Agenda Poética/2000,
org. Beatriz Weigert, ed. Universidade Fernando Pessoa, 1999)



***

Bloco Poético de Notas

LUÍS CARLOS PATRAQUIM





LAMENTO DE SANCHO PANÇA
A D. QUIXOTE, SEU SENHOR

Para António Assunção

"La existencia es una letra "
Ibn' Arabî

"Teimoso é ele pois que não vê
e vai de lanço e cu alçado
a espadeirar um tuboso vento.
O coiro tenho já enregelado,
ó meu senhor do tempo,
em trocada hora achado.

"Se a uns moinhos não viu
senão desvairados cavaleiros,
como se em um palco os lesse
imagem de livros desordeiros
e lhes brandisse e afoito desse
o que se não dá a bandoleiros,

"pois que de roubo e sonho
se nos vai a vida esvaindo
em real compasso de sextelhos,
mais que de sextinas se vindo
ou heróicas crinas e pentelhos
afagando-se-nos e mui rindo

"da letra etérea indescoberta,
eis que me assomo e alto digo
este arrazoado de surdas penas,
a seu mando fazendo-me amigo
da noite sem tecto nem empenas
e do caminho que se esvai comigo."

Tal falei eu, temeroso, subindo
ao pano rude onde me embrulho,
já de borco rocinando as tábuas;

ferido era Ele sobre as fráguas,
ora só cenário e lamentoso entulho
de seco golpe e rumorosas águas.

(Publicado no "GrandAmadora" de 29/10/1998)


MUHIPITI

E onde deponho todas as armas. Uma palmeira
harmonizando-nos o sonho. A sombra.
Onde eu mesmo estou. Devagar e nu. Sobre
as ondas eternas. Onde nunca fui e os anjos
brincam aos barcos com livros como máos.
Onde comemos o acidulado último gomo
das retóricas inúteis. E onde somos inúteis.
Puros objectos naturais. Uma palmeira
de missangas com o sol. Cantando.
Onde na noite a Ilha recolhe todos os istmos
e marulham as vozes. A estatuária nas virilhas.
Golfando. Maconde não petrificada.
É onde estou neste poema e nunca fui.
O teu nome que grito a rir do nome.
Do meu nome anulado. As vozes que te anunciam.
E me perco. E estou nu. Devagar. Dentro do corpo.
Uma palmeira abrindo-se para o silêncio.
E onde sei a maxila que sangra. Onde os leopardos
naufragam. O tempo. O cigarro a metralhar
nos pulmões. A terra empapada. Golfando. Vermelha.
E onde me confunde de ti. Um menino vergado
ao peso de ser homem. Uma palmeira em azul
humedecido sobre a fronte. A memória do infinito.
O repouso que a si mesmo interroga. Ouve.
A ronda e nenhum avião partiu. E onde estamos.
Onde os pássaros são pássaros e tu dormes.
E eu vagueio em soluços de sílabas. Onde
Fujo deste poema. Uma palmeira de fogo.
Na Ilha. Incendiando-nos o nome.



METAMORFOSE

Ao poeta José Craveirinha

quando o medo puxava lustro à cidade
eu era pequeno
vê lá que nem casaco tinha
nem sentimento do mundo grave
ou lido Carlos Drummond de Andrade
os jacarandás explodiam na alegria secreta de serem vagens
e flores vermelhas
e nem lustro de cera havia
para que o soubesse
na madeira da infância
sobre a casa

a Mãe não era ainda mulher
e depois ficou Mãe
e a mulher é que é a vagem e a terra
então percebi a cor
e metáfora
mas agora morto Adamastor
tu viste-lhe o escorbuto e cantaste a madrugada
das mambas cuspideiras nos trilhos do mato
falemos dos casacos e do medo
tamborilando o som e a fala sobre as planícies verdes
e as espigas de bronze
as rótulas já não tremulam não e a sete de Marco
chama-se Junho desde um dia de há muito com meia dúzia
de satanhocos moçambicanos todos poetas gizando
a natureza e o chão no parnaso das balas
falemos da madrugada e ao entardecer
porque a monção chegou
e o último insone povoa a noite de pensamentos grávidos
num silêncio de rãs a tisana do desejo
enquanto os tocadores de viola
com que latas de rícino e amendoim

percutem outros tendões da memória
e concreta
a música é o brinquedo
a roda
e o sonho
das crianças que olham os casacos e riem
na despudorada inocência deste clarão matinal
que tu
clandestinamente plantaste
AOS GRITOS

LUÍS CARLOS PATRAQUIM

*
Luís Carlos Patraquim (n. 1953, Lourenço Marques, Moçambique) é já apontado como "provavelmente o mais importante poeta moçambicano surgido depois da independência", e como um "mestre na fusão poética de questões pessoais e públicas, na utilização de uma linguagem metafórica, na forma como trata temas particularmente complexos". Afirma a crítica que é um "poeta cujo trabalho se tornou progressivamente mais denso na estrutura, mais alusivo a cada novo livro". Jornalista de profissão, publicou dois livros ainda em Moçambique: "Monção" (1982) e "A Inadiável Viagem" (1985). A sua terceira obra "Vinte e tal Novas Formulações e uma Elegia Carnívora", foi editada em Portugal em 1991. O seu último livro "Lindenberg Blues" saiu a lume em 1998. Deixou Moçambique em 1986 e vive actualmente em Portugal.

***

PITADA DE SAL


PEDRO BARBOSA




(Pioneiro da ciberliteratura em Portugal)


AFORISMOS GERADOS
POR COMPUTADOR


* Desconfia, saberás triunfar
* Esquece, saberás ignorar
* Amar é desejar
* Quem bem crê, bem morre
* Triunfar é dominar
* Quem bem pergunta, bem ouve
* Quem bem ri, bem esquece
* Viver é alcançar
* Quem bem grita, bem repousa
* Cala, saberás dominar
* Quem bem mente, bem pensa
* Ler é ignorar
* Quem bem reflecte, nem escreve
* Pergunta, saberás ganhar
* Quem bem mente, bem morre
* Calar é alcançar
* Ouve, saberás responder
* Aprende, saberás viver
* Quem bem ordena, bem estuda
* Repousa, saberás escrever
* Ignora, saberás morrer
* Quem bem pensa, bem desconfia
* Quem bem morre, bem escreve
* Quem bem ri, bem almoça
* Responde, saberás ensinar
* Ama, saberás alcançar
* Cala, saberás morrer
* Vive, saberás calar
* Morrer é protestar




(in "Máquinas Pensantes (Aforismos Gerados por Computador) -
Ciclo "Literatura Cibernética", Colecção Movimento, nº. 38,
Edição "Livros Horizontes, 1988)

*
Pedro Barbosa (n. 1950, Porto), é licenciado em Letras (Coimbra) e Doutorado em CIências da Comunicação (Semiótica, Universidade Nova de Lisboa), tendo leccionado em universidades portuguesas e estrangeiras, incluindo a de Louis Pasteur, em Estrasburgo, onde desenvolveu, com Abraham Moles, uma investigação no âmbito da arte gerada por computador. Presentemente é professor coordenador na Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo (Instituto Politécnico do Porto) e é fundador do Centro de Estudos do Texto Informático e Ciberliteratura (CETIC), na Universidade Fernando Pessoa. Publicou diversos livros nos domínios do ensaio, etaro, ficção e literatura gerada por computador.


***

UM POETA DA MADEIRA



ROGÉRIO CORREIA




TEMPESTADE...


Ao Exmo. Snr.
JOSÉ CRUZ TAVARES
simples homenagem de
respeito e admiração.



O vento trepa o dorso da montanha,
A chuva é uma agonia em meu redor...
Foge o silêncio numa fuga estranha
E as folhas tremem, frias de pavor.

O mar bravio em fúrias se despenha,
Cuspindo espumas brancas com fragor...
- Descem estrelas que ninguém apanha...
Vão esconder no mar o seu terror.

Também no vendaval em turbilhão
Se arrastam desenganos pelo chão
Porque não há bonança na Ansiedade!

E o vento corre no meu peito aberto...
- Talvez meu coração seja um deserto
Onde se espalha a Dor... em tempestade!

Pérola do Atlântico, 1950

(Do livro em preparação "Rosa dos Ventos")



ZAGAL...



Deixei castelos de oiro sem tristeza,
Quis ser pastor errante das estrelas...
- Do firmamento azul, cor de turquesa,
Fiz verdejantes prados para elas.

Com nuvens brancas - nívea singeleza -
Atapetei no Céu relvagens belas!
Deixei roupagens, quis melhor pobreza,
- Apenas um redil p'ra adormecê-las.

E quando a noite morde a luz dos dias
Que desmaiam em fogo, mortalmente,
- Acorda o meu rebanho lentamente...

E sou fauno de virgens nostalgias,
A pascentar estrelas fugidias:
Deixei castelos - sonho livremente!

Funchal, 3-7-1947



AQUELAS MÃOS...

(À minha Mãe)

As tuas mãos vieram lá do Céu,
Asas descidas sobre mim, bondosas...
Por serem santas, leves como um véu,
Voltam a Deus em preces fervorosas.

São pétalas as mãos que Deus te deu,
As tuas mãos humildes e formosas...
Benção de luz - como o luar do Céu -
Nas minhas horas tristes, duvidosas.

As tuas mãos são como um livro aberto
Aonde o Amor escreve sempre certo...
- Mãos como as tuas não as tem ninguém.

Se elas afagam todo o meu tormento,
Assim mesmo crispadas pelo Tempo
Beijo-te as mãos... as tuas mãos de Mãe!

Funchal, 6-12-51
Ilha da Madeira

(Do livro a publicar "Persianas")

*
Rogério Correia (n. Funchal, 1908, já falecido), era colaborador da imprensa e de almanaques literários, tendo conquistado alguns prémios em jogos florais promovidos no Funchal, nos Açores e em Lisboa, ficando conhecido como o "Príncipe dos Poetas Insulanos". Organizou (1950-53) a Semana do Livro Açoriano e do Livro Madeirense, no Funchal. Está representado na colectânea "Arquipélago" (com Herberto Helder, António Aragão e Jorge Freitas, entre outros), Funchal, 1952. Deixou inéditos vários livros de poesia e prosa, tais como o "Chuva de Estrelas" e "Vitrais", tendo publicado, em 1949, o volume "Visão do Céu".
 

 


****

Um poema inédito

de

José António Gonçalves





ZECA AFONSO



Cantas
e levanta-se uma revoada de pássaros
sombreando as copas das árvores
e uma réstea de sol abre a tarde
alertando os ventos para os dilemas
das esquecidas vivências
dos tempos em que as consciências
escondiam
a liberdade.



E cantas. O coração parte-se-me
na revelação das palavras
como as chamas de um incêndio
devorando a alma.Então junto
um dos seus pedaços
para guardar no compêndio
da memória,
bem perto do espírito indecifrável
desta minha condição humana
sem história.



Cantas. E eu fervo pensando
nos rótulos que te deram
no desentendimento das tuas orações
a um deus vestido com as carnes
de um povo
cansado de outras
canções.




Fico então quieto
solenemente prisioneiro da tua voz.
E és tu quem me chegas em coro
com o Adriano e o Fausto
e dás-me tudo e nada me pedes
no rasgar dos silêncios e dos dias
com as cordas tonitruantes
de uma guitarra infernal
nas mãos celestiais
de Carlos Paredes
nos dedos mágicos
de António
com o sobrenome de Portugal.




Cantas
e o palco é um campo verde
uma eira aplanada a caminho do infinito
onde semeaste o sonho derradeiro
com o teu dom de visionário.
Nunca deste o dito por não dito
e no grito do teu canto acordaste
um lugar imaginário
onde havia uma pátria
de verdade.




Um lugar onde a palavra
subiu aos palanques de outras árvores novas
e assumiu
a transparência a nudez clara
da sua própria autoridade.


A palavra liberdade.




JOSÉ ANTÓNIO GONÇALVES

(inédito.1999)



 

Selecção e Montagem: JAG