A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

 

Fevereiro

3

 
 
 
***
 
ALBANO MARTINS
  
 
 
Toma-se o pulso
à madeira, à pedra. Mo
vem-se aqui,
os nós da febre, ali,
a silhueta branca do desejo.
 
O labirinto cede.
 
 
Albano Martins
 
 
(in "Vocação do Silêncio (1950-1985)";
"Agenda Poética 2000 - 50 Anos de Vida Literária",
Edições Universidade Fernando Pessoa,
org. Beatriz Werget, 1999)
 
 
 
 ***
 
Bloco Poético de Notas 
 
- Selecção de JAG -
 
 
CARLOS LOPES PIRES
 
 
 
Soneto
a Luís Vaz de Camões

Incerto amor, tempos duros e sangrentos,
preso num tempo que o teu peito recusou,
e onde padeceste soldado na vida e no amor;
pobre em vida, e na morte tão cheio de honrarias.

Andaste por terras de muito estranhos ventos,
sofrendo de amores que a vida dura separou,
desterrado por paragens de ódio e terror,
desmerecido de uma sorte que imerecias.

Sincero amor que por barcos e países repartiste,
numa dor tão humana e brutalmente imensa,
foi rodeado de inveja e torpeza que te viste.

Saberás agora tu, se onde estiveres existe,
que a poesia que amaste de forma tão extensa,
é só a alegria da vida, que a vida tornou triste.



(in "Falar às Aves", 1993)
 
 
 
De Immenso


Não deixes de saber as coisas
que fundas te falam à memória.
As coisas dos dias frágeis.
As pequenas coisas com que entretinhas
os teus olhos pequenos.
execessivamente perto da claridade.
Tão perto que chegava a cegar-te as mãos
quando colhias as maçãs das árvores
e as trazias para dentro de ti
Até ao fundo do coração.
Era como se todo o chão do mundo
fosse pouco  para caber na medida do teu olhar.
A vastidão das coisas, o abismo dentro delas,
a descoberta de que todo o mar tem fundo,
mas profundo demais te viste
quando olhaste um dia no espelho o teu olha.

Tudo isso
são coisas que precisas de saber.
 
 
 (in "De Immenso", 1997)
 
 
 
O Sinal de Jonas

 
Precisas de saber isto:

muitas gerações virão beber na água destas palavras.

Dirás a teus filhos.

As montanhas serão subidas

e descidas várias vezes. A pedra irá repetir-se.

Serão feitas medidas,

mas nenhuma abarcará a extensão da tua sede.

Novas batalhas serão travadas,

vão repetir-se as cidades

com as suas inúmeras ruas e latidos de cães.

Mães assustadas olharão para cima.



Deixa-me salgar-te a língua.
 
(in "O Sinal de Jonas", 1999)
 
 
E haverá um tempo em
que tudo será dito. Coisa a coisa,
rosa com rosa, água da água,

e a ferida será do lábio que
a gerou,
e o fruto estará na árvore
e não no apanhador,

e tu não nomearás fora
da tua boca,

nem a cereja estará fora do cesto,
nem o gesto espreitará através
da água,

porque o tempo de sermos velhos
será uma estação cheia de
raízes, e tu dirás caminhei e caminhei

e agora estou onde os

teus olhos.
 
 
 
 
(in "Onde", 2001)
 
 
CARLOS LOPES PIRES
 
 
 
*
Carlos Lopes Pires (n. a 7.8.1956, em Quadrazais e, desde os cinco anos, reside em Leiria). Licenciou-se em Psicologia pela Universidade de Coimbra (onde lecciona na mesma área). Algumas das suas Obras publicadas: A Invenção do Tempo e Outros Poemas (Átrio, 1993), Falar às Aves(1993), O Livro de Pó (Poemas de Terra e Adeus) (1994), O Livro dos Salmos (Poemas de Redenção e Nada) (1994), O Caminho do País Lilás (1995), Viver (1995; 2ª ed. revista, 1997), O Livro dos Cânticos (Poemas de Amor e Ausência) (1995), A Poeira dos Dias (1996), A Última Ceia (1996; 2ª ed. revista,1997), O Perfume da Flor (romance, 1996), A Fuga das Cidades (1997), De Immenso (1997), Todas as Estrelas do Mundo (em co-autoria com Maria Rosa Colaço, 1997), Alguém que tu Conheces (1998), Imensitude (1999; fotos: Saul Neves de Jesus), O Sinal de Jonas (1993), Escríticas (ensaio, em co-autoria com João Rui de Sousa, José Carlos González, J. O. Travanca-Rêgo e Fernando Guerreiro), Sete poemas da Bretanha, seguidos de Kerladágio (livro de poesia bilingue- português/francês), Em cada um (2000) , Onde (2001), As Estações de Deus (Dezembro de 2002). 
 
 
***
 
UM POETA DA MADEIRA
 
 
JOAQUIM EVÓNIO
 

3 INÉDITOS 

 

Caravela

Tanto naveguei
e nem uma caravela

de tantas que naufragaram

me deixou uma só vela
uma estilha de saudade

 

 

Encantamento

A minha fada encantou-me
sou morcego

nunca durmo
também não acordo

incerteza
de quem não sabe o que quer

 

Futuro

Já vivi tantos lamentos
e sofri tal amargura

que mereço uma só pena

dessa ave do futuro

*

3 POEMAS DE

"ESBOÇOS PESSOANOS"

 

SINTETIZAÇÃO

Fazem a cruz dois traços...
 

E por mais aleatória
Que seja a forma do nó,
Serão sempre poesia,
Poema,
Um Pessoa
Só!

 

OMNIPRESENÇA

O poeta
ente solitário
Senta-se à mesa do café.

Fica pensando,
Fumando
Seu cigarro proletário.

Da cinza,
Cai o poema.
Do fumo,
Evola-se o Mário

 

OFÉLIA

Eu sei!
O mundo fala de mim
Sem entender
Que o amor é,
Ao mesmo tempo,
Casto e sensual...

Um dia,
Alguém julgará o meu ardor
Pois
O que a minha alma 
Mais deseja e quer
É o calor suave
Do teu suave
corpo de mulher!

 

 

(in "Esboços Pessoanos";
ilustrações: José Jorge
Soares; Universitária
Editora, Lisboa, 1994)
 
*
Joaquim Evónio Rodrigues de Vasconcelos (n. Freguesia de Santa Maria Maior, Funchal, Madeira,  3.9.1938), é licenciado em Ciências Militares (Coronel de Infantaria na situação de Reforma Extraordinária) e em Ciências Sociais e Política Ultramarina (pela UT de Lisboa). Auditor do Curso de Defesa Nacional (CDN 83) possui também o "Certificado de Proficiency in English", do British Institute em Lisboa. Neste momento é Assessor Principal do Serviço Nacional de Bombeiros e Protecção Civil  (SNBPC). Pertence à Associação Portuguesa de Escritores (APE), à Associação Cultural SOL XXI, ao Instituto Açoriano de Cultura (IAC), à Associação Escadote Cultural (http://escadotecultural.cbj.pt  e http://www.escadoteonline.planetaclix.pt ), à Associação de ex-Auditores dos Cursos de Defesa Nacional, à Sociedade Portuguesa de Engenharia Sísmica (SPES) e ao Núcleo de Apoio ao Centro Desportivo Universitário de Lisboa (NACDUL). Tem um site - http://www.joaquimevonio.com - e um blogue  - http://www.joaquimevonio.blogspot.com  - na internet, estando ainda presente em: http://www.joaquimevonio.no.sapo.pt , estando todos estes contactos acessíveis pelos principais motores de pesquisa. Está incluído em diversas antologias e participa em vários grupos da rede, assim como tem poesia e ensaio distribuídos por diferentes meios de comunicação social. Obra publicada - Poesia: ESBOÇOS PESSOANOS - Poemas sobre desenhos de José Jorge Soares - Ceres Editora, Lda., Ponte de Lima, 1994; ESBOÇOS PESSOANOS - Pessoan Sketches - Poemas sobre desenhos de José Jorge Soares - 2.ª edição bilingue, revista e actualizada, Universitária Editora, Lda., Lisboa, 1999. Contos: SOMBRA EM CLAVE DE SOL , Universitária Editora Lda., Lisboa, 1999. Desenhos de José Jorge Soares. Detém variado material literário inédito, quase todo ele preparado para edição.
 
 
***
POEMÁRIO
Assírio & Alvim
2004  
 
 
GEORG TRAKL
 
 
 
 
 
Tempos houve em que o meu demónio ria,
E eu era uma luz em jardins soalheiros,
Tinha jogo e dança por companheiros
e o vinho do amor que me inebria.
 
Tempos houve em que o meu demónio chorava,
E eu era uma luz em jardins de crueldade,
Tinha por companheira a humildade
Que a casa da pobreza iluminava.
 
Hoje o meu demónio não ri nem chora,
Eu sou uma sombra num jardim perdido,
E o meu companheiro, pela morte enegrecido,
É o silêncio vazio de antes da aurora.
 
 
Georg Trakl
 
(1887-1914)
 
(in "Outono Transfigurado";
Tradução: João Barrento)
 
 
 
*
 

 

IMAGINÁRIO

 

Assírio & Alvim

2004

 

 

 

 

 

HUGO VON HOFMANNSTHAL

 

 

O facto de os aforismos

de Novalis pintarem com

um grande profundidade

de pensamento a alma

ingénua de um jovem é

que os torna tão fascinantes

 

 

HUGO VON HOFTMANNSTHAL

 

(1874-1929)

 

(in "Livro dos Amigos"

Tradução: José A. Palma Caetano)

 

 
*** 
 
Um Poema Inédito
 
de
 
José António Gonçalves
 
 
 
ALEGORIA 

 

                            para Jim Henson

 

ouve-se música e todavia fez-se silêncio

na penumbra de um palco alimentado de sombras

de lantejoulas azuis e perucas louras e luvas brancas

como se a televisão suspendesse um sonho

para ouvir a voz trémula do apresentador

 

ladys and gentlemen grita um ser verde

ao som do rufar de uma bateria tresloucada

e o teatro é uma concha viva com assentos

camarotes tectos ecos uma plateia enevoeirada

e a orquestra um acidente meteorológico

com relâmpagos chuva granizo neve e trovoada

inundando a superfície de um jardim zoológico

na libertação fugaz de um ajuntamento de marretas

vestidos de bicharada

 

e o sapo canta e faz estremecer os bastidores

mexendo com papa-formigas ursos e galinhas

umas cobras orientais cozinheiros e cientistas loucos

e o seu canto embala uma porca deslumbrante

predestinada a num indescortinável instante

a por ele morrer de amores

aos poucos

rodeada de holofotes e de espelhos

 

e é assim que às vezes

numa desbotada coxia de um balcão

as críticas aos tempos pertencem aos velhos

à sabedoria do sussurro e do sorriso

revelando como sem ser preciso

que fiquem roucos

acabam sempre felizes

como deuses

 

 

 

 

 

 

José António Gonçalves

 

(inédito, 28/29.8.99.Funchal)

 

Selecção e Montagem: JAG