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ALBANO MARTINS
Toma-se o pulso
à madeira, à pedra. Mo
vem-se aqui,
os nós da febre, ali,
a silhueta branca do desejo.
O labirinto cede.
Albano Martins
(in "Vocação do Silêncio
(1950-1985)";
"Agenda Poética 2000 - 50 Anos de
Vida Literária",
Edições Universidade Fernando Pessoa,
org. Beatriz Werget,
1999)
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Bloco Poético de
Notas
- Selecção de JAG -
CARLOS LOPES PIRES
Soneto
a Luís Vaz de Camões
Incerto amor, tempos duros e sangrentos,
preso num tempo que o teu peito recusou,
e onde padeceste soldado na vida e no amor;
pobre em vida, e na morte tão cheio de honrarias.
Andaste por terras de muito estranhos ventos,
sofrendo de amores que a vida dura separou,
desterrado por paragens de ódio e terror,
desmerecido de uma sorte que imerecias.
Sincero amor que por barcos e países repartiste,
numa dor tão humana e brutalmente imensa,
foi rodeado de inveja e torpeza que te viste.
Saberás agora tu, se onde estiveres existe,
que a poesia que amaste de forma tão extensa,
é só a alegria da vida, que a vida tornou triste.
(in "Falar às Aves", 1993)
De Immenso
Não deixes de saber as coisas
que fundas te falam à memória.
As coisas dos dias frágeis.
As pequenas coisas com que entretinhas
os teus olhos pequenos.
execessivamente perto da claridade.
Tão perto que chegava a cegar-te as mãos
quando colhias as maçãs das árvores
e as trazias para dentro de ti
Até ao fundo do coração.
Era como se todo o chão do mundo
fosse pouco para caber na medida do teu olhar.
A vastidão das coisas, o abismo dentro delas,
a descoberta de que todo o mar tem fundo,
mas profundo demais te viste
quando olhaste um dia no espelho o teu olha.
Tudo isso
são coisas que precisas de saber.
(in "De Immenso", 1997)
O Sinal de Jonas
Precisas de saber isto:
muitas gerações virão beber na água destas palavras.
Dirás a teus filhos.
As montanhas serão subidas
e descidas várias vezes. A pedra irá repetir-se.
Serão feitas medidas,
mas nenhuma abarcará a extensão da tua sede.
Novas batalhas serão travadas,
vão repetir-se as cidades
com as suas inúmeras ruas e latidos de cães.
Mães assustadas olharão para cima.
Deixa-me salgar-te a língua.
(in "O Sinal de Jonas", 1999)
E haverá um tempo em
que tudo será dito. Coisa a coisa,
rosa com rosa, água da água,
e a ferida será do lábio que
a gerou,
e o fruto estará na árvore
e não no apanhador,
e tu não nomearás fora
da tua boca,
nem a cereja estará fora do cesto,
nem o gesto espreitará através
da água,
porque o tempo de sermos velhos
será uma estação cheia de
raízes, e tu dirás caminhei e caminhei
e agora estou onde os
teus olhos.
(in "Onde", 2001)
CARLOS LOPES PIRES
*
Carlos Lopes Pires (n. a
7.8.1956, em Quadrazais e, desde os cinco anos, reside
em Leiria). Licenciou-se em Psicologia pela Universidade
de Coimbra (onde lecciona na mesma área). Algumas das
suas Obras publicadas: A Invenção do Tempo e Outros
Poemas (Átrio, 1993), Falar às Aves(1993),
O Livro de Pó (Poemas de Terra e Adeus) (1994),
O Livro dos Salmos (Poemas de Redenção e Nada)
(1994), O Caminho do País Lilás (1995), Viver
(1995; 2ª ed. revista, 1997), O Livro dos Cânticos
(Poemas de Amor e Ausência) (1995), A Poeira dos
Dias (1996), A Última Ceia (1996; 2ª ed.
revista,1997), O Perfume da Flor (romance, 1996),
A Fuga das Cidades (1997), De Immenso (1997),
Todas as Estrelas do Mundo (em co-autoria com Maria
Rosa Colaço, 1997), Alguém que tu Conheces
(1998), Imensitude (1999; fotos: Saul Neves de
Jesus), O Sinal de Jonas (1993), Escríticas
(ensaio, em co-autoria com João Rui de Sousa, José
Carlos González, J. O. Travanca-Rêgo e Fernando
Guerreiro), Sete poemas da Bretanha,
seguidos de Kerladágio (livro de poesia bilingue-
português/francês), Em cada um (2000) , Onde
(2001), As Estações de Deus (Dezembro de 2002).
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UM POETA DA
MADEIRA
JOAQUIM EVÓNIO
3
INÉDITOS
Caravela
Tanto naveguei
e nem uma caravela
de tantas que naufragaram
me deixou uma só vela
uma estilha de saudade
Encantamento
A minha fada encantou-me
sou morcego
nunca durmo
também não acordo
incerteza
de quem não sabe o que quer
Futuro
Já vivi tantos lamentos
e sofri tal amargura
que mereço uma só pena
dessa ave do futuro
*
3 POEMAS DE
"ESBOÇOS PESSOANOS"
SINTETIZAÇÃO
Fazem a cruz dois traços...
E por mais aleatória
Que seja a forma do nó,
Serão sempre poesia,
Poema,
Um Pessoa
Só!
OMNIPRESENÇA
O poeta
ente solitário
Senta-se à mesa do café.
Fica pensando,
Fumando
Seu cigarro proletário.
Da cinza,
Cai o poema.
Do fumo,
Evola-se o Mário
OFÉLIA
Eu
sei!
O mundo fala de mim
Sem entender
Que o amor é,
Ao mesmo tempo,
Casto e sensual...
Um dia,
Alguém julgará o meu
ardor
Pois
O que a minha alma
Mais deseja e quer
É o calor suave
Do teu suave
corpo de mulher!
(in "Esboços Pessoanos";
ilustrações: José Jorge
Soares; Universitária
Editora, Lisboa, 1994)
*
Joaquim Evónio Rodrigues de
Vasconcelos (n. Freguesia de Santa Maria Maior, Funchal,
Madeira, 3.9.1938), é licenciado em Ciências Militares
(Coronel de Infantaria na situação de Reforma
Extraordinária) e em Ciências Sociais e Política
Ultramarina (pela UT de Lisboa). Auditor do Curso de
Defesa Nacional (CDN 83) possui também o "Certificado de
Proficiency in English", do British Institute em Lisboa.
Neste momento é Assessor Principal do Serviço Nacional
de Bombeiros e Protecção Civil (SNBPC). Pertence à
Associação Portuguesa de Escritores (APE), à Associação
Cultural SOL XXI, ao Instituto Açoriano de Cultura (IAC),
à Associação Escadote Cultural (http://escadotecultural.cbj.pt
e
http://www.escadoteonline.planetaclix.pt
), à Associação de
ex-Auditores dos Cursos de Defesa Nacional, à Sociedade
Portuguesa de Engenharia Sísmica (SPES) e ao Núcleo de
Apoio ao Centro Desportivo Universitário de Lisboa (NACDUL). Tem
um site -
http://www.joaquimevonio.com - e
um blogue -
http://www.joaquimevonio.blogspot.com
- na internet, estando ainda
presente em:
http://www.joaquimevonio.no.sapo.pt
, estando todos estes contactos
acessíveis pelos principais motores de pesquisa. Está
incluído em diversas antologias e participa em vários
grupos da rede, assim como tem poesia e ensaio
distribuídos por diferentes meios de comunicação social.
Obra publicada - Poesia: ESBOÇOS PESSOANOS - Poemas
sobre desenhos de José Jorge Soares - Ceres Editora,
Lda., Ponte de Lima, 1994; ESBOÇOS PESSOANOS - Pessoan
Sketches - Poemas sobre desenhos de José Jorge Soares -
2.ª edição bilingue, revista e actualizada,
Universitária Editora, Lda., Lisboa, 1999. Contos:
SOMBRA EM CLAVE DE SOL , Universitária Editora Lda.,
Lisboa, 1999. Desenhos de José Jorge Soares. Detém
variado material literário inédito, quase todo ele
preparado para edição.
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POEMÁRIO
Assírio & Alvim
2004
GEORG TRAKL
Tempos houve em que o meu demónio ria,
E eu era uma luz em jardins soalheiros,
Tinha jogo e dança por companheiros
e o vinho do amor que me inebria.
Tempos houve em que o meu demónio chorava,
E eu era uma luz em jardins de crueldade,
Tinha por companheira a humildade
Que a casa da pobreza iluminava.
Hoje o meu demónio não ri nem chora,
Eu sou uma sombra num jardim perdido,
E o meu companheiro, pela morte enegrecido,
É o silêncio vazio de antes da aurora.
Georg Trakl
(1887-1914)
(in "Outono Transfigurado";
Tradução: João Barrento)
*
IMAGINÁRIO
Assírio & Alvim
2004
HUGO VON HOFMANNSTHAL
O facto de os aforismos
de Novalis pintarem com
um grande profundidade
de pensamento a alma
ingénua de um jovem é
que os torna tão fascinantes
HUGO VON HOFTMANNSTHAL
(1874-1929)
(in "Livro dos Amigos"
Tradução: José A. Palma Caetano)
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Um Poema Inédito
de
José António
Gonçalves
ALEGORIA
para Jim Henson
ouve-se música e todavia fez-se silêncio
na penumbra de um palco alimentado de
sombras
de lantejoulas azuis e perucas louras e
luvas brancas
como se a televisão suspendesse um sonho
para ouvir a voz trémula do apresentador
ladys and gentlemen grita um ser
verde
ao som do rufar de uma bateria
tresloucada
e o teatro é uma concha viva com assentos
camarotes tectos ecos uma plateia
enevoeirada
e a orquestra um acidente meteorológico
com relâmpagos chuva granizo neve e
trovoada
inundando a superfície de um jardim
zoológico
na libertação fugaz de um ajuntamento de
marretas
vestidos de bicharada
e o sapo canta e faz estremecer os
bastidores
mexendo com papa-formigas ursos e
galinhas
umas cobras orientais cozinheiros e
cientistas loucos
e o seu canto embala uma porca
deslumbrante
predestinada a num indescortinável
instante
a por ele morrer de amores
aos poucos
rodeada de holofotes e de espelhos
e é assim que às vezes
numa desbotada coxia de um balcão
as críticas aos tempos pertencem aos
velhos
à sabedoria do sussurro e do sorriso
revelando como sem ser preciso
que fiquem roucos
acabam sempre felizes
como deuses
José António Gonçalves
(inédito, 28/29.8.99.Funchal) |