A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Fevereiro

4

 
 
 
  
***
 
ALBANO MARTINS


O lápis,
o carvão
desenham
a margem fluida
dos cabelos
e das rosas,
os espelhos,
a
nudez dos apelos.


Albano Martins


(in "Vocação do Silêncio (1950-1985)";
"Agenda Poética 2000 - 50 Anos de Vida Literária",
Edições Universidade Fernando Pessoa,
org. Beatriz Werget, 1999)


***

Bloco Poético de Notas

- Selecção de JAG -

CECÍLIA MEIRELES



(Mulher ao Espelho/Pablo Picasso, 1932)


MULHER AO ESPELHO
Hoje que seja esta ou aquela,
pouco me importa.
Quero apenas parecer bela,
pois, seja qual for, estou morta.


Já fui loura, já fui morena,
já fui Margarida e Beatriz.
Já fui Maria e Madalena.
Só não pude ser como quis.


Que mal faz, esta cor fingida
do meu cabelo, e do meu rosto,
se tudo é tinta: o mundo, a vida,
o contentamento, o desgosto?


Por fora, serei como queira
a moda, que me vai matando.
Que me levem pele e caveira
ao nada, não me importa quando.


Mas quem viu, tão dilacerados,
olhos, braços e sonhos seus
e morreu pelos seus pecados,
falará com Deus.


Falará, coberta de luzes,
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,
outros, buscando-se no espelho.




(in "Flor de Poemas",
Editora Record, 1998,
Rio de Janeiro, Brasil)





Aqui está minha vida.
Esta areia tão clara com desenhos de andar
dedicados ao vento.
Aqui está minha voz,
esta concha vazia, sombra de som
curtindo seu próprio lamento
Aqui está minha dor,
este coral quebrado,
sobrevivendo ao seu patético momento.
Aqui está minha herança,
este mar solitário
que de um lado era amor e, de outro, esquecimento.



Cântico IV

Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.

CECÍLIA MEIRELES

*


Cecília Meireles nasceu no Rio, em 7 de novembro de 1901, mesma cidade em que morreu, a 9 de novembro de 1964. A menina foi criada pela avó materna, Jacinta Garcia Benevides. Tendo feito aos 9 anos a primeira poesia, estreou em 1919 com o livro de poemas Espectros, escrito aos 16 e recebido com louvor por João Ribeiro. Publicou a seguir: Criança, meu amor, 1923; Nunca mais..., 1923; Poema dos Poemas,1923; Baladas para El-Rei, 1925; O Espírito Vitorioso, 1935; Viagem, 1939; Vaga Música, 1942; Poetas Novos de Portugal, 1944; Mar Absoluto, 1945; Rute e Alberto, 1945; Rui — Pequena História de uma Grande Vida, 1948; Retrato Natural, 1949; Problemas de Literatura Infantil, 1950; Amor em Leonoreta, 1952; 12 Noturnos de Holanda e o Aeronauta, 1952; Romanceiro da Inconfidência, 1953; Poemas Escritos na Índia, 1953; Batuque, 1953; Pequeno Oratório de Santa Clara, 1955; Pistóia, Cemitério Militar Brasileiro, 1955; Panorama Folclórico de Açores, 1955; Canções, 1956; Giroflê, Giroflá, 1956; Romance de Santa Cecília, 1957; A Bíblia na Literatura Brasileira, 1957; A Rosa, 1957; Obra Poética,1958; Metal Rosicler, 1960; Antologia Poética, 1963; Solombra, 1963; Ou Isto ou Aquilo, 1964; Escolha o Seu Sonho, 1964; Crônica Trovada da Cidade de San Sebastian do Rio de Janeiro, 1965; O Menino Atrasado, 1966; Poésie (versão francesa), 1967; Obra em Prosa - 6 Volumes - Rio de Janeiro, 1998.Traduziu peças teatrais, livros de poesia e prosa, e deixou numerosos textos inéditos, como trabalhadora intelectual incansável que foi durante toda a vida.

***

UM POETA DA MADEIRA



GONÇALO NUNO DOS SANTOS


O PROFESSOR

Da paternidade das letras à combustão completa da palavra,
melhor dizendo, do sopro que a alimenta ao gume que a corta,
para o professor a viagem começava no traço, no riacho
que lhe escorregava pela garganta em matásteses convulsivas.

Dependurada pelos dedos, a mão (dorso, carícia, mão de maestro)
movimentava-se quando se apresentava com o seu nome estrangeiro
(os dedos subiam e desciam como aranhas no quadro preto, tecendo
pontos sucessivos, ventres abertos ao vento desenhando encostas
e constelações). Tudo era leve e pálido
na mão do professor, cirurgião de palavras.

O seu nome aparecia na confusão dos pontos brancos
com pernas, braços e rosto. Nele começava a viagem. Ou seja,
na palavra manuseada com a afinação de um relojoeiro manipulador
do tempo. Aí as tempestades alternavam com bonanças, os deuses
do Olimpo com os infernos de Dante. A sedução era então cetim
puro, chão de terra desmesurada, jasmins, paisagem grega
de verdes oliveiras ou a secura abrupta de Coríntio
e do palco (ah, tão amada como Natacha e Rachel no esplendor
dos seus seios nos longos verões nocturnos).

Viajava o professor de parapeito em parapeito, de ave em ave,
e de pecado em pecado, com o seu viajar quieto, na incoerência
da própria viagem, no espaço dos olhos e da mão certa. E a sala
transformava-se de cumplicidade: o estilo assumia o seu degredo
e o passado reunia-se ao presente na elaboração de novas paisagens.
Os deuses eram sensíveis às suas invocações: se os chamava, ei-los
que respondiam e, logo, o quadro negro, invadido pelas palavras,
embranquecia. Apetecia - a quem o soubesse - fazer-lhe o mesmo:
inventar um risco e segui-lo como as pétalas
seguem as rosas ou os cavalos
a elegância.

(inédito)


Escondo a raiva das lágrimas do nada
que te dei

Ferida dilacerada
sangue exposto nos caminhos que plantámos
nos desertos da nossa esperança

Poderíamos amar loucamente
a sombra do gesto
a canção nua
o vinho a semente a baga
construir cometas à volta do desejo

se não fosse a alma a remissão e o pecado

Poderíamos benzer as casas com hortelã
onde acendo o coração aberto

mas há a excomunhão das trepadeiras
e eu entendo

(in "Suplemento Cultura",
direcção e José António Gonçalves,
"Notícias da Madeira", 28.8.93)

*
Gonçalo Nuno dos Santos (n. Funchal, 1955), é Conselheiro do Secretário Regional dos Recursos Humanos do Governo Regional da Madeira, Director do Centro das Comunidades Madeirenses, Past-Presidente do Rotary Club do Funchal, presidente da Sociedade Protectora dos Animais Domésticos, co-fundador da Associação de Escritores da Madeira (AEM) e, recentemente, foi deputado pelo PSD à Assembleia da República (pela Emigração). Colaborou literariamente com a revista "Margem" (Câmara Municipal do Funchal" e, entre outros, no "Suplemento Cultura", dirigido por José António Gonçalves, na anterior fase editorial do "Notícias da Madeira" (1993), tendo ainda integrado, numa selecção deste último, a colectânea "Vers'Arte 91" (AEM, 1991). Está a preparar o seu primeiro livro de poesia.


***


POEMÁRIO
Assírio & Alvim
2004

UMBERTO SABA




INVERNO


É noite, inverno desfeito. Entreabres
um pouco as cortinas. Vibra
a selva dos teus cabelos, a alegria
dilata-te imprevista os olhos negros;
porque o viste - era uma imagem
do fim do mundo - te conforta
o íntimo coração, já quente e pago.

Um homem aventura-se num lago
de gelo, sob uma lâmpada evasiva.

UMBERTO SABA
(1883-1957)

(in "Mesa de Amigos";
versões de poesia
por Pedro da Silveira)

*






IMAGINÁRIO



Assírio & Alvim

2004





(Verdadeira Informação das Terras

do Preste João, impresso em 1540)





Preste João das Índias







(...) Nascem também na nossa terra cavalos

e burros selvagens, homens de cornos, bois selvagens,

homens selvagens, monóculos, homens com olhos adiante

e atrás, homens sem cabeça, com a boca e os olhos no

peito, cujo comprimento é doze pés, e a largura seis;

na cor, são semelhantes ao ouro puríssimo; homens com

doze pés e seis braços, doze mãos, quatro cabeças,

em cada uma das quais têm duas bocas e três olhos.

Nascem ainda na nossa terra mulheres com grandes

corpos, barbas até às mamas, cabeças rapadas, vestidas

de peles, óptimas caçadoras, que criam animais selvagens

como cães para a caça, leão contra leão, urso contra urso, cervo contra cervo e assim todos os outros; (...)



Carta do Preste João das Índias

- versões medievais latinas



(Tradução de Leonor Buescu)






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Um Poema Inédito

de

José António Gonçalves

 



POETA OFERECE-SE



Resposta ao poema

"Procura-se"

de Dalva Agne Lynch





Faço versos. Ainda absorto

pela inegável responsabilidade

ofereço-me ao seu apelo singular

em busca de um poeta.



O anúncio nada diz que nos remeta

para uma definição de idade

ou se é vivo ou morto

o bardo que se venha a entregar

a tão misteriosa personagem.



Na dúvida então respondo

com o coração batendo em sobressalto;

é assim que aqui vou em viagem

para um universo desconhecido;

aonde pertenço - se parto - falto,

mas como o mundo é redondo

e está em plena rotação

talvez a encontre apenas parado

levando comigo esta mensagem

com o vosso nome escrito

(porque aqui não pode ser dito)

no branco da palma da minha mão.



José António Gonçalves

(Funchal, 21 de Agosto de 2003)




Procura-se

(26/07/02)



© Dalva Agne Lynch



Procura-se poeta

que entenda de flores

para camuflar de cores

meus tempos de inverno.



Procura-se também

vestimenta de musa

para a realidade confusa

de minha nudez de poeta.



Enviar respostas

apenas em rimas e versos

contendo amores confessos

por mim - de preferência...





 

Selecção e Montagem: JAG