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ALBANO MARTINS
A um simples aceno
a vida nasce;
cobrem-se de orvalho
e de flores
nossos dedos.
Albano Martins
(in "Vocação do Silêncio - 1950-1985", 1990;
"Agenda Poética 2000 - 50 Anos de Vida Literária",
Edições Universidade Fernando Pessoa,
org. Beatriz Werget, 1999)
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Bloco Poético de Notas
- Selecção de JAG -
MIGUEL TORGA
Mar
Mar!
E é um aberto poema que ressoa
No búzio do areal...
Ah, quem pudesse ouvi-lo sem mais versos!
Assim puro,
Assim azul,
Assim salgado...
Milagre horizontal
Universal,
Numa palavra só realizado.
(in Diário XI)
PÁTRIA
Serra!
E qualquer coisa dentro de mim se acalma...
Qualquer coisa profunda e dolorida,
Traída,
Feita de terra
E alma.
Uma paz de falcão na sua altura
A medir as fronteiras:
- Sob a garra dos pés a fraga dura,
E o bico a bicar estrelas verdadeiras...
(in "Diário II")
CAMÕES
Nem tenho versos, cedro desmedido,
Da pequena floresta portuguesa!
Nem tenho versos, de tão comovido
Que fico a olhar de longe tal grandeza.
Quem te pode cantar, depois do Canto
Que deste à pátria, que to não merece?
O sol da inspiração que acendo e que levanto
Chega aos teus pés e como que arrefece.
Chamar-te génio é justo, mas é pouco.
Chamar-te herói, é dar-te um só poder.
Poeta dum império que era louco,
Foste louco a cantar e louco a combater.
Sirva, pois, de poema este respeito
Que te devo e confesso,
Única nau do sonho insatisfeito
Que não teve regresso.
(in "Poemas Ibéricos)
*
Miguel Torga (1907-1995) nasceu em São Martinho de Anta (Vila Real).
Pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha.
Licenciado em Medicina pela Universidade de Coimbra em 1937.
Poeta, romancista, novelista, dramaturgo, memorialista e ensaísta.
Prémio Camões.
Ele é a «reencarnação de um poeta mítico por excelência -
daqueles que vivem na intimidade das forças
elementares (a terra, o sol, o vento, a água)
para celebrá-las com o seu canto» (David Mourão-Ferreira).
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UM POETA DA MADEIRA
IRENE LUCÍLIA ANDRADE
A CIDADE
1º. Dia
Como de vez em quando
o dia de hoje vem de um céu de estanho e tule
demora-se indeciso sobre este maio sem horas
e vestem ainda a cidade
uma trama subtil de pequenas traições
e de carbonos
um veludo de tráficos escusos
uma franja de pânico na serpente do trânsito
um eco incerto
enreda-se cinzento
nas grandes casas vazias
embaciam-se as memórias de prata
em esfíngicos armários
o mofo azeda as lágrimas deixadas
na toalha do chá e das ausências
nada se sabe
da interrupção convulsiva dos passos
nos altos andares que dor repentina
ou estranho deslumbre
operou a asfixia dos ruídos
nos corredores do fundo
e na garganta dos galos
ligeiramente enervados
nos quintais traseiros
maio medroso moroso calado descontente
(in "Água de Mel e Manacá",
Campo das Letras, 2002)
Imagino um átrio novo
para a minha verve adormecida
por onde a casa se alongue
e fique iluminada
nenhuma luz se apague
nenhum canto se ensombre
nenhum espaço se oculte
e todas as portas se abram
ao mais vibrante clamor
das coisas plenas
sabedoras
inextinguíveis
raras.
(in "Protesto e Canto de Atena",
Editorial Diferença, 2001)
Era a terra
ou era apenas a data das vindimas
da colheita das sombras na superfície do vinho.
as tarefas buliçosas moviam-se miúdas
dum lado a outro dos dias.
Era a vida
ou era apenas uma imagem dos pássaros
irremediáveis que habitavam em nós.
Setembro morno convincente memorável
setembro solto à tuna dum lento desvario
(in "Sobre a Memória destes Dias",
Ilha 3, Org. e Prefácio de José António Gonçalves,
Câmara Municipal do Funchal, 1991)
*
Irene Lucília Andrade (n. Funchal, 1938), frequentou
a antiga Academia de Música e Belas Artes da Madeira.
Em 1968 licenciou-se em Pintura pela Escola Superior de
Belas-Artes de Lisboa. No entanto, a actividade profissional
que seguiu foi a rádio - o Posto Emissor do Funchal -,
para a qual realizou vários programas e até teatro radiofónico.
De então para cá, dedicou-se essencialmente
à pedagogia e a diversas questões culturais, tendo já
uma valiosa bibliografia ao alcance do público.
Revelada em 1968 com "Hora Imóvel" (Prémio Nacional
do SNI), está incluída em várias antologias, integrou
o movimento "Ilha", na Madeira, e tem publicado
nas áreas da poesia, do romance e da literatura
infanto-juvenil. Realce para os seus livros "A Mão que
Amansa os Frutos" (1991), "Estrada de um Dia Só" (com
posfácio de João Rui de Sousa, 1995), "Protesto
e Canto de Atena" e "Água de Mel e Manacá", ambos
de 2002, no domínio da Poesia.
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POEMÁRIO
Assírio & Alvim
2004
IBN 'AMMÂR
DESCRIÇÃO DE UM REGATO
CORRENDO PARA UM TANQUE
1. o curso do regato vai fluindo
tal como seu dorso vai luzindo.
o vento poente o véu tirou
e o segredo da desgraça desvendou
2. como se na espuma estivessem,
em pânico, as águas prisioneira
e num tropel elas quisessem
do lago se tornarem companheiras.
3. fere-se nas arestas do rochedo
de cada vez que sobre ele passa
e vai murmurando como a medo
o queixume de quem sofre dores.
4. em suas margens bebemos pela taça.
era tempo de beber e de mais nada
mas os olhos do copeiro, na rodada,
eram os mais embriagadores.
5. a estrela d'alva toda iluminada
apareceu, qual batedor
que ao ter a soldadesca orientada,
informasse o chefe, seu senhor.
IBN 'AMMÂR
(1031-1084)
(In Ibn 'Ammâr Al Andalusi - Drama de um Poeta;
Tradução: Adalberto Alves e Hamdane Hadjadji)
*
IMAGINÁRIO
Assírio & Alvim
2004
ALEXANDRE MELO
(...)
Uma hipótese de deslocação consiste em deixar de pensar
o indivíduo em termos de unidade/essência/verdade para
o pensar em termos de multiplicidade/velocidade/experiência.
Des-multiplicação do nome, decomposição e recomposição
das velocidades, relançamento premente de experimentação.
Reencontramos aqui princípios básicos
do trabalho de Robert Wilson.
A propósito do visionamento de uma série de filmes
de mães consolando os filhos, feitos por uma psiquiatra, Robert Wilson
conta: "Projectando esses filmes à velocidade normal, víamos apenas uma
criança a chorar e a mãe que se debruçava sobre ela para a acalmar.
Passando em seguida o filme a uma velocidade mais lenta víamos algo
completamente diferente. As três primeiras imagens mostravam a mãe que
atacava a criança e a criança que se defendia.
Nas duas ou três imagens seguintes víamos uma outra
atitude da mãe, e nas seguintes, uma outra ainda".
Bill Viola na sua instalação Passage (1987) obtém o mesmo efeito,
quando, ao mostrar, de muito perto, e em velocidade muito lenta, o filme
da festa de um aniversário de criança, instaura uma atmosfera
aterrorizante.
A unidade dá lugar à multiplicidade, o cliché dá lugar
à complexidade. Trata-se então de dar a ver, fazer sentir,
a multiplicidade, a complexidade.
(...)
Alexandre Melo
(1959)
(in "Velocidade Contemporânea")
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Um Poema Inédito
de
José António Gonçalves
SOU O CORPO
sou o corpo que se movimenta
devagar liquidamente onde uma voz
me pertence
no espaço materno de um gesto
um esgar onde o amor
muito raramente não acontece
sou uma pétala
uma ave ferida esperando
no chão
por uma ajuda breve sublime
algo que só dificilmente
recupera a vida dura de dobrar
como o bronze o aço o vime
sou algures o cangalheiro
pronto para todo o serviço
o lavrador
esperançado na boa colheita
o jovem perdido do caminho
o velho já sem viço em busca
do livrar-se de qualquer maleita
sou o anjo da guarda a música
melodiosa talvez um pouco
de benção
a gargalhada o dizer não
o calar do sim
na palavra silenciosa
ao nascer e ao morrer
de qualquer madrugada
no orvalho de uma rosa
sou um pedaço
do todo
o pó a sina o navio a vapor
assombrando o verso
a pena o sol dum porto
sou o tudo que ao longe
se reclina ao de leve
no sonho da lua grande
que se vê pequenina
na gota límpida
do suor
José António Gonçalves
(inédito)
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