O que estas cores
reclamam
de nós
é só uma palavra:
obrigado.
Nunca
os frutos chegaram
à boca
tão frescos. Nunca
a nudez esteve
ao alcance da mão
tão despida
e redonda, a inocência
tão próxima
da luz que vem
do olho dos cristais.
Albano Martins
(in "A Voz do Olhar" 1998;
"Agenda Poética 2000 -
50 Anos de Vida Literária",
Edições Universidade
Fernando Pessoa,
org. Beatriz Werget, 1999)
***
Bloco Poético de Notas
- Selecção de JAG -
J. O. TRAVANCA-RÊGO
INACABADOS
DIÁSPORA
Montei, tanto tempo, não sei quantos cavalos
espantados na noite num longo atropelo:
- Iam todos à sorte, como as Faces do Erro,
se procura secreta de um único atalho...
GAIOLAS
Mudar. Mudar a vida. - E a vida a mesma...
A mesma, duma ponta até à outra!
- Aves de asas cortadas, a dor solta,
morderam o coração de raiva feridas.
UM LUGAR: TRÊS MOMENTOS
Aqui eu estive. A vida irrepetível...
Mesmo que eu volte, o tempo será outro!
- Não tenho abraço para unir dois ventos
para além da memória em que os retive.
OCORRÊNCIAS
Enquanto eu vivo na minha gota de vida,
o mar afunda mil navios e o ar
levanta a água com que a chuva
horas depois afundará o mundo
-Eis como é alta a Ignorância,
e vasto o que falta no que eu vivo!
(in "Hiatos", Editorial
Diferença, Leiria, 1998)
*
A poesia de J.O. Travanca-Rêgo, de que Hiatos (Editorial Diferença)
é uma síntese (cobre um período de trinta e seis anos, tendo alguns
dos poemas escolhidos carácter antológico visto já aparecerem em
anteriores recolhas) que sublinha a natureza fragmentária de um
percurso existencial pontuado por crises, dúvidas ontológicas,
perplexidades, rupturas, inconclusões. Testemunho de alguém que viu
o seu tempo e as suas vissicitudes do seu próprio percurso através
de um vidro fosco, comentário a uma conflitualidade íntima não
resolvida (de referir, a propósito, o curto mas ilucidativo poema
Infinito (Im) Pessoal), descarnado e auto-dilacerante discurso da
revolta impotente, Hiatos tem a seu favor a honestidade intelectual
de quem assim se expõe e assim escreve. Ou como, melhor do que nós,
diz João Rui de Sousa no prefácio: «...estamos uma vez mais perante
um poeta que, antes de tudo, se move por uma profunda autenticidade,
por uma acerada vocação meditativa e até pela coragem de enfrentar,
frequentemente em revolta ou em subtilizado sarcasmo, as suas mais
´ntimas fracturas e enigmas.» Ezra Pound e Nietzche tutelam
epigraficamente esta edição de Hiatos.(in "Boca do Inferno", número
quatro, Outubro de 1999).
*
J.O. Travanca-Rêgo (n. Elvas, 1940-2003. Licenciado em Filosofia
pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa. Quadro
Superior do Instituto do Emprego e Formação Profissional, começou a
publicar em 1959 (jornal Linhas de Elvas). Posteriormente, colaborou
em vários jornais e revistas, citando-se: ´Ler & Escrever´ (Diário
de Lisboa); Revista da Associação Portuguesa de Escritores - A.P.E.;
etc. Tem igualmente colaborado, ou está representado , em diversas
publicações de carácter colectivo. Cita-se: Colectânea de Poesia
Portuguesa 1970/1990, Lello & Irmão, Porto, 1992. Publicou os livros
de poesia cujos títulos vêm - por adequada referência - enunciados
no contexto da segunda parte de "Hiatos". Principais obras
publicadas (títulos e outras referências): Amar a palavra estar
(1981)/Habitante in-concluso (1982)/Palavras eventuais-A morte
ofendida (1985)/Extrato sensitivo (1988)/Abertura dos corpos (1989)/
Sinais: 15 poemas de sideração e saudade (1991)/Cinco
incisões-Antologia pessoal 1961/1991 (1993)/ Sexta incisão (1995)/
Hiatos (1998)/ (1), que inclui o até então, livro inédito "Dimensão
Ausente," escrito em 1961; (2), que inclui alguns poemas inéditos,
escritos em 1963/1965/ Da poesia: dois segmentos (1999).
***
PITADA DE SAL
O que diz - Vergílio Ferreira:
«Escrever. Porque escrevo?
Escrevo para criar um espaço habitável da minha necessidade, do que
me oprime, do que é difícil e excessivo. Escrevo porque o
encantamento e a maravilha são verdade e a sua sedução é mais forte
do que eu. Escrevo porque o erro, a degradação e a injustiça não
devem ter razão. Escrevo para tornar possível a realidade, os
lugares, tempos, pessoas que esperam que a minha escrita os desperte
do seu modo confuso de serem. E para evocar e fixar o percurso que
realizei, as terras, gentes e tudo o que vivi e que só na escrita eu
posso reconhecer, por nela recuperarem a sua essencialidade, a sua
verdade emotiva, que é a primeira e a última que nos liga ao mundo.
Escrevo para tornar visível o mistério das coisas. Escrevo para ser.
Escrevo sem razão»
*
Virgílio Ferreira nasceu em Melo, Serra da Estrela, e faleceu em
Lisboa (1916-1996). Frequentou o Seminário do Fundão (1926-1932) e
licenciou-se em Filologia Clássica na Faculdade de Letras da
Universidade de Coimbra (1940). A par do trabalho de escrita, foi
professor de Português e de Latim em várias escolas do país.
Inicialmente neo-realista, depressa se deixou influenciar pelos
existencialistas franceses (André Malraux e Jean-Paul Sartre),
iniciando um caminho próprio a partir do romance Mudança (1949). É
considerado um dos mais importantes romancistas portugueses do
século XX, tendo ganho vários prémios, entre eles o Grande Prémio de
Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (ganho duas
vezes, primeiro com o romance "Até ao Fim" e depois com o romance Na
tua Face), e o Prémio Femina na França com o romance "Manhã
Submersa".
***
UM POETA DA MADEIRA
(Funchal, Forte de S. Tiago)
FRANCISCO FREITAS ABREU
3 POEMAS DA ILHA
Pensei construir um poema
com dores de parto
e vontade de morder
com odor a vento nauseabundo
Intencionalmente construí
um poema com o objectivo
de desistir da vivência
demarcada convencional
e subjectiva
da revolta consentida
ao sangue derramado
esquematizei um poema
com o suave hálito dos mortos
e o sabor do estrume
que nos envolve
--
estou tentando vencer no
deserto determinado
pelas cores que imperam
comandadas electronicamente as
palavras saíram disformes
imperfeitas
regressámos ao mar
das marés os
sons aglutinados
multicoloriram-se e
eu subjuguei-me a dizer
que tinha
vencido
dominei a carne irreverente
insultei as facções
destronei o ditador
e
quedei-me só
--
a guerra insultou as gentes
germinou o ódio
vegetou entre duas
famílias
a guerra fugiu de dois
cafés
mergulhou no bigode de
uma constelação
instigou dois cigarros
apagados
a erupção flagelou o
povo afogado
ao alvorecer idealista da
paz
idealizámos a
guerra galardoada
numa cela
no espaço limítrofe
de duas margens marcialmente
demarcadas
pereci ao histerismo das
ideias pré-concebidas e
universalizadas
(in "ILHA", Poesia 2000,
Funchal, 1975)
*
Francisco Freitas Abreu nasceu a 21 de Janeiro de 1957, na freguesia
de Santa Maria Maior, Funchal, ilha da Madeira. Jornalista
profissional, iniciou a sua carreira como colaborador, ainda muito
jovem, do "Suplemento 2000", do "Jornal da Madeira", fundado e
dirigido por José António Gonçalves, no início dos anos 70. Foi
também colaborador da rádio local, chefiando actualmente a redacção
do Centro Regional da Radiodifusão Portuguesa. "Cinco Poemas" foi o
seu único conjunto editado em livro, na obra colectiva dirigida por
JAG, publicada em Janeiro de 1975, com o título de "Ilha".
Presentemente dedica-se em exclusividade ao jornalismo, estando
relativamente afastado, como autor, dos meandros da literatura.
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POEMÁRIO
Assírio & Alvim
2004
POEMA DOS ZUNHIS
OFERENDA
Que a nossa mãe a terra se envolva
numa quádrupla túnica de farinha branca;
que se encha de flores de geada;
e, além, em todas as montanhas cobertas de musgo,
de frio se acheguem os bosques uns aos outros;
e os braços das árvores se quebrem ao peso da neve,
e fique assim a terra:
- Esculpi os bastões da oração em forma de seres vivos.
América do Norte, Zunhis
(in Rosa do Mundo - 2001 Poemas para o Futuro",
Tradução de Herberto Helder, Poemário/2003)
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IMAGINÁRIO
Assírio & Alvim
2004
SAMUEL BECKETT
(...) Querida incomprensão, se sou eu devo-o a ti. Em breve não
restará nada das suas empanzinadelas. E serei eu a vomitar, com
arrotos retumbantes e inodoros de famélico, que acabarão no coma,
num longo e delicioso coma. Mas eles, quem? Valerá mesmo a pena
informar-me, com os meus meios viciados? Não, mas isso não é razão.
Vou varrê-los no seu próprio terreno, com as suas próprias armas, a
eles e ao seu malogrado fantoche. E talvez encontre vestígios de
mim. Está decidido. Mas porque destroço hei-de começar? Estranho, já
há algum tempo que não me importunam, sim, também me impuseram a
noção do tempo. De acordo com o seu método, que devo concluir? (...)
Samuel Beckett
(1906-1989)
(in "O Inominável": Tradução de
Maria Jorge Vilar de Figueiredo)
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Um Poema Inédito
de
José António Gonçalves
ANIMAIS DOMÉSTICOS
Para o Gonçalo Nuno dos Santos
O encanto das árvores
na sua relação com os animais domésticos
esconde o som das nuvens
na sua aproximação com a terra.
É o desvelo do gato com o ramo
(ou a paixão momentânea do cão
com o tronco estático e marcado pelo cheiro do amor)
o agente provocador do único ruído possível.
As nuvens ficam-se pelo azul
do céu, debruçadas sobre as asas dos ventos,
e, na sua renúncia ao alarido das cidades,
regressam em silêncio
ao topo das montanhas.
Levam consigo o reflexo do mundo.
Isto é, um pedaço de luz, uma mão de sombras
e o registo calado das vidas passadas
de todas as multidões.
Como os cães e os gatos, também amam
os deuses e os anjos voláteis
a protecção quieta das árvores. Dentro de si
ocultam o peso das manhãs, o breu das madrugadas,
o projecto que alimenta os sonhos.
Torna-se urgente denunciar o risco, a visão
do seu comportamento em fuga, como os seres frágeis
nas mãos dos fortes, com os disfarces
das anónimas almas, com as vestes dos loucos,
com os corpos dos mortos imitando vivos,
nas suas imagens estranhas.
Esta é a ilusão dos animais domésticos
presos às correntes dos dias. Amam as árvores
- como se representassem a vontade de Zeus -
e, como elas, sofrem todo o tempo.
Dizem os antigos que por infeliz coincidência
- talvez afinal imitando as nuvens - essa é a razão
porque inexplicavelmente morrem aos poucos.
José António Gonçalves
(in "Memórias da Casa de Pedra",
Colecção Terra à Vista, nº. 1,
nota de contracapa: Albano Martins,
Ed. "Arguim-Madeira", 2002)