A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Fevereiro

8

 
 
 
  
***
 
ALBANO MARTINS
  
 




O que estas cores
reclamam
de nós
é só uma palavra:
obrigado.
Nunca
os frutos chegaram
à boca
tão frescos. Nunca
a nudez esteve
ao alcance da mão
tão despida
e redonda, a inocência
tão próxima
da luz que vem
do olho dos cristais.

Albano Martins


(in "A Voz do Olhar" 1998;
"Agenda Poética 2000 -
50 Anos de Vida Literária",
Edições Universidade
Fernando Pessoa,
org. Beatriz Werget, 1999)



***

Bloco Poético de Notas

- Selecção de JAG -



J. O. TRAVANCA-RÊGO

INACABADOS

DIÁSPORA

Montei, tanto tempo, não sei quantos cavalos
espantados na noite num longo atropelo:
- Iam todos à sorte, como as Faces do Erro,
se procura secreta de um único atalho...

GAIOLAS

Mudar. Mudar a vida. - E a vida a mesma...
A mesma, duma ponta até à outra!
- Aves de asas cortadas, a dor solta,
morderam o coração de raiva feridas.

UM LUGAR: TRÊS MOMENTOS

Aqui eu estive. A vida irrepetível...
Mesmo que eu volte, o tempo será outro!
- Não tenho abraço para unir dois ventos
para além da memória em que os retive.
OCORRÊNCIAS

Enquanto eu vivo na minha gota de vida,
o mar afunda mil navios e o ar
levanta a água com que a chuva
horas depois afundará o mundo
-Eis como é alta a Ignorância,
e vasto o que falta no que eu vivo!




(in "Hiatos", Editorial
Diferença, Leiria, 1998)

*

A poesia de J.O. Travanca-Rêgo, de que Hiatos (Editorial Diferença) é uma síntese (cobre um período de trinta e seis anos, tendo alguns dos poemas escolhidos carácter antológico visto já aparecerem em anteriores recolhas) que sublinha a natureza fragmentária de um percurso existencial pontuado por crises, dúvidas ontológicas, perplexidades, rupturas, inconclusões. Testemunho de alguém que viu o seu tempo e as suas vissicitudes do seu próprio percurso através de um vidro fosco, comentário a uma conflitualidade íntima não resolvida (de referir, a propósito, o curto mas ilucidativo poema Infinito (Im) Pessoal), descarnado e auto-dilacerante discurso da revolta impotente, Hiatos tem a seu favor a honestidade intelectual de quem assim se expõe e assim escreve. Ou como, melhor do que nós, diz João Rui de Sousa no prefácio: «...estamos uma vez mais perante um poeta que, antes de tudo, se move por uma profunda autenticidade, por uma acerada vocação meditativa e até pela coragem de enfrentar, frequentemente em revolta ou em subtilizado sarcasmo, as suas mais ´ntimas fracturas e enigmas.» Ezra Pound e Nietzche tutelam epigraficamente esta edição de Hiatos.(in "Boca do Inferno", número quatro, Outubro de 1999).

*

J.O. Travanca-Rêgo (n. Elvas, 1940-2003. Licenciado em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa. Quadro Superior do Instituto do Emprego e Formação Profissional, começou a publicar em 1959 (jornal Linhas de Elvas). Posteriormente, colaborou em vários jornais e revistas, citando-se: ´Ler & Escrever´ (Diário de Lisboa); Revista da Associação Portuguesa de Escritores - A.P.E.; etc. Tem igualmente colaborado, ou está representado , em diversas publicações de carácter colectivo. Cita-se: Colectânea de Poesia Portuguesa 1970/1990, Lello & Irmão, Porto, 1992. Publicou os livros de poesia cujos títulos vêm - por adequada referência - enunciados no contexto da segunda parte de "Hiatos". Principais obras publicadas (títulos e outras referências): Amar a palavra estar (1981)/Habitante in-concluso (1982)/Palavras eventuais-A morte ofendida (1985)/Extrato sensitivo (1988)/Abertura dos corpos (1989)/ Sinais: 15 poemas de sideração e saudade (1991)/Cinco incisões-Antologia pessoal 1961/1991 (1993)/ Sexta incisão (1995)/ Hiatos (1998)/ (1), que inclui o até então, livro inédito "Dimensão Ausente," escrito em 1961; (2), que inclui alguns poemas inéditos, escritos em 1963/1965/ Da poesia: dois segmentos (1999).
 


***
PITADA DE SAL

O que diz - Vergílio Ferreira:


«Escrever. Porque escrevo?
Escrevo para criar um espaço habitável da minha necessidade, do que me oprime, do que é difícil e excessivo. Escrevo porque o encantamento e a maravilha são verdade e a sua sedução é mais forte do que eu. Escrevo porque o erro, a degradação e a injustiça não devem ter razão. Escrevo para tornar possível a realidade, os lugares, tempos, pessoas que esperam que a minha escrita os desperte do seu modo confuso de serem. E para evocar e fixar o percurso que realizei, as terras, gentes e tudo o que vivi e que só na escrita eu posso reconhecer, por nela recuperarem a sua essencialidade, a sua verdade emotiva, que é a primeira e a última que nos liga ao mundo. Escrevo para tornar visível o mistério das coisas. Escrevo para ser. Escrevo sem razão»

*

Virgílio Ferreira nasceu em Melo, Serra da Estrela, e faleceu em Lisboa (1916-1996). Frequentou o Seminário do Fundão (1926-1932) e licenciou-se em Filologia Clássica na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (1940). A par do trabalho de escrita, foi professor de Português e de Latim em várias escolas do país. Inicialmente neo-realista, depressa se deixou influenciar pelos existencialistas franceses (André Malraux e Jean-Paul Sartre), iniciando um caminho próprio a partir do romance Mudança (1949). É considerado um dos mais importantes romancistas portugueses do século XX, tendo ganho vários prémios, entre eles o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (ganho duas vezes, primeiro com o romance "Até ao Fim" e depois com o romance Na tua Face), e o Prémio Femina na França com o romance "Manhã Submersa".


***

UM POETA DA MADEIRA




(Funchal, Forte de S. Tiago)


FRANCISCO FREITAS ABREU


3 POEMAS DA ILHA


Pensei construir um poema
com dores de parto
e vontade de morder
com odor a vento nauseabundo

Intencionalmente construí
um poema com o objectivo
de desistir da vivência
demarcada convencional
e subjectiva

da revolta consentida
ao sangue derramado
esquematizei um poema
com o suave hálito dos mortos
e o sabor do estrume
que nos envolve

--

estou tentando vencer no
deserto determinado
pelas cores que imperam

comandadas electronicamente as
palavras saíram disformes
imperfeitas

regressámos ao mar

das marés os
sons aglutinados
multicoloriram-se e
eu subjuguei-me a dizer
que tinha
vencido

dominei a carne irreverente
insultei as facções
destronei o ditador
e
quedei-me só

--

a guerra insultou as gentes
germinou o ódio
vegetou entre duas
famílias

a guerra fugiu de dois
cafés
mergulhou no bigode de
uma constelação

instigou dois cigarros
apagados
a erupção flagelou o
povo afogado

ao alvorecer idealista da
paz
idealizámos a
guerra galardoada
numa cela

no espaço limítrofe
de duas margens marcialmente
demarcadas
pereci ao histerismo das
ideias pré-concebidas e
universalizadas





(in "ILHA", Poesia 2000,
Funchal, 1975)


*
Francisco Freitas Abreu nasceu a 21 de Janeiro de 1957, na freguesia de Santa Maria Maior, Funchal, ilha da Madeira. Jornalista profissional, iniciou a sua carreira como colaborador, ainda muito jovem, do "Suplemento 2000", do "Jornal da Madeira", fundado e dirigido por José António Gonçalves, no início dos anos 70. Foi também colaborador da rádio local, chefiando actualmente a redacção do Centro Regional da Radiodifusão Portuguesa. "Cinco Poemas" foi o seu único conjunto editado em livro, na obra colectiva dirigida por JAG, publicada em Janeiro de 1975, com o título de "Ilha". Presentemente dedica-se em exclusividade ao jornalismo, estando relativamente afastado, como autor, dos meandros da literatura.

****


POEMÁRIO

Assírio & Alvim

2004





POEMA DOS ZUNHIS





OFERENDA





Que a nossa mãe a terra se envolva

numa quádrupla túnica de farinha branca;

que se encha de flores de geada;

e, além, em todas as montanhas cobertas de musgo,

de frio se acheguem os bosques uns aos outros;

e os braços das árvores se quebrem ao peso da neve,

e fique assim a terra:

- Esculpi os bastões da oração em forma de seres vivos.



América do Norte, Zunhis



(in Rosa do Mundo - 2001 Poemas para o Futuro",

Tradução de Herberto Helder, Poemário/2003)





***





IMAGINÁRIO

Assírio & Alvim

2004





SAMUEL BECKETT





(...) Querida incomprensão, se sou eu devo-o a ti. Em breve não restará nada das suas empanzinadelas. E serei eu a vomitar, com arrotos retumbantes e inodoros de famélico, que acabarão no coma, num longo e delicioso coma. Mas eles, quem? Valerá mesmo a pena informar-me, com os meus meios viciados? Não, mas isso não é razão. Vou varrê-los no seu próprio terreno, com as suas próprias armas, a eles e ao seu malogrado fantoche. E talvez encontre vestígios de mim. Está decidido. Mas porque destroço hei-de começar? Estranho, já há algum tempo que não me importunam, sim, também me impuseram a noção do tempo. De acordo com o seu método, que devo concluir? (...)



Samuel Beckett

(1906-1989)



(in "O Inominável": Tradução de

Maria Jorge Vilar de Figueiredo)



***



Um Poema Inédito

de

José António Gonçalves






ANIMAIS DOMÉSTICOS



Para o Gonçalo Nuno dos Santos





O encanto das árvores

na sua relação com os animais domésticos

esconde o som das nuvens

na sua aproximação com a terra.



É o desvelo do gato com o ramo

(ou a paixão momentânea do cão

com o tronco estático e marcado pelo cheiro do amor)

o agente provocador do único ruído possível.



As nuvens ficam-se pelo azul

do céu, debruçadas sobre as asas dos ventos,

e, na sua renúncia ao alarido das cidades,

regressam em silêncio

ao topo das montanhas.



Levam consigo o reflexo do mundo.

Isto é, um pedaço de luz, uma mão de sombras

e o registo calado das vidas passadas

de todas as multidões.


Como os cães e os gatos, também amam

os deuses e os anjos voláteis

a protecção quieta das árvores. Dentro de si

ocultam o peso das manhãs, o breu das madrugadas,

o projecto que alimenta os sonhos.



Torna-se urgente denunciar o risco, a visão

do seu comportamento em fuga, como os seres frágeis

nas mãos dos fortes, com os disfarces

das anónimas almas, com as vestes dos loucos,

com os corpos dos mortos imitando vivos,

nas suas imagens estranhas.



Esta é a ilusão dos animais domésticos

presos às correntes dos dias. Amam as árvores

- como se representassem a vontade de Zeus -

e, como elas, sofrem todo o tempo.

Dizem os antigos que por infeliz coincidência

- talvez afinal imitando as nuvens - essa é a razão

porque inexplicavelmente morrem aos poucos.



José António Gonçalves




(in "Memórias da Casa de Pedra",
Colecção Terra à Vista, nº. 1,
nota de contracapa: Albano Martins,
Ed. "Arguim-Madeira", 2002)



 

Selecção e Montagem: JAG