A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Janeiro

11

 
 
 
 
ALBANO MARTINS




Que árvore
tão alta
morre
asfixiada
no teu sangue?



(in "Vocação do Silêncio 1950-1985", 1990;
"Agenda Poética 2000 - 50 Anos de Vida Literária",
Edições Universidade Fernando Pessoa,
org. Beatriz Werget, 1999)


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"Bloco Poético de Notas"
- Selecção de JAG -



Pedro Tamen




Os Nautas

Para a Maria Gabriel

Quando até sobre o tarde navegavam
a luz que dentro vinha sobrepunha
a lantejoula aguda de outro sol
ao passo opaco, idêntico, cercando
os braços intranquilos, a surpresa
que só de pressentida lhes doía.

Ao frio sal que sob os pés sentiam
e à escuridão mais fundo, ao sonolento
e bruto som da corda e da madeira,
às dores de fome e ao gemido fraco
duma saudade parda, à solidão
sem espelho, à gula insaciada, ao medo

— a tudo combatia uma paixão
neles tão nova, nevoenta outrora,
qual a de ver, de ver de olhos abertos
até sentir no roçagar dos dedos,
a mínima paisagem, mais total
que os montes lerdos, pátrios e trocados:

a crispação da vela, o peixe lento
de súbito surgindo, ignotas flores,
cores purulentas, vasto e escasso espaço
para estrídulos pássaros abertos
e outra vida mor,
e ainda bruma
que não sabem se é deste ou doutro sonho.



(Depois de Ver; Centro Virtual Camões)


Pedro Tamen nasceu em Lisboa (1934). Licenciado em Direito
pela Universidade de Lisboa. Dirigiu a revista Anteu – Cadernos de Cultura.
Actualmente é administrador da Fundação Calouste Gulbenkian.
É tradutor e poeta.


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IMAGINÁRIO
2004


(Assírio & Alvim)


Matsuo Bashô
(1644-1694)




PRÓLOGO

Os meses e os dias são viajantes da eternidade. Assim como o ano que passa e o ano que vem. Para aqueles que se deixam flutuar a bordo dos barcos ou envelhecem conduzindo cavalos, todos os dias são viagem e a sua casa é o espaço sem fim. Dos homens do passado, muitos morreram em plena rota. A mim mesmo, desde há anos, me perseguem pensamentos de vagabundo mal vejo uma nuvem arrastada pelo vento. Passei o último
Inverno percorrendo a costa. No Outono regressei à minha cabana nas margens do rio. Mal tivera tempo de limpar as teias de aranha quando me surpreendeu o fim do ano. Em breve, a névoa da Primavera cobriria o céu e os campos, e eu queria atravessar Shirakawa nessa altura. Tudo o que via me convidava a viajar. Tão possuído estava pelos deuses que não conseguia dominar os meus pensamentos. Os espíritos do caminho faziam-me sinais, e dei-me conta que não podia adiar por mais tempo a minha partida. Remendei as minhas calças rotas, mudei as tiras do meu chapéu de palha e untei as minhas pernas para as fortalecer. A ideia da lua na ilha de Matsushima enchia as minhas horas. Cedi a minha cabana e fui para casa de Sampu. Num dos pilares deixei este poema:
Também esta cabana de colmo

se há-de transformar

em casa de bonecas




(in "O Gosto Solitário do Orvalho", seguido de "O Caminho Estreito", organização de Jorge Sousa Braga)



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UM POETA DA MADEIRA


JOÃO HENRIQUE GONÇALVES







a memória I

vamos abreviar num sorriso
anos de existência.
um sorriso agora demora séculos cinzentos
e por isso sofres
na véspera da morte que não chega
nem tu imaginas.
o meu lucro na aventura é aparente, irreal.
a fadiga se faz vida
e a memória não tem preço.





a memória II

e se o vento nos apagasse a memória
que transportamos duma algibeira a outra
sem nos entendermos
nem às aves que nos estrangulam as entranhas vermelhas de loucura
e nos empurram devagarinho
rente ao mar,
qualquer sábado de tarde
quando o vento ainda não dói
às três da tarde em Buchenwald
no dia de natal.







(in "Recital de Poesia", Congresso de Cultura Madeirense,
Associação de Escritores da Madeira/Associação Académica
da Universidade da Madeira, organização e direcção de
José António Gonçalves, 1990; in "Chão de Inverno",
ed. Danúbio, de Pedro Ferreira, Lisboa, 1990)




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João Henrique Gonçalves (n. Funchal, 1952). Desde muito jovem

tornou-se colaborador da imprensa e da rádio na sua terra natal,

a Madeira. É advogado, licenciado pela Faculdade de Direito de

Lisboa e exerceu as funções de professor do ensino secundário.

Preside ao Conselho Executivo da Casa da Europa da Madeira (CERNE)

e é co-fundador da AEM-Associação de Escritores da Madeira.
Participou nalgumas antologias poéticas e publicou, nos anos 90,

um pequeno conjunto de folhetos de poesia, com destaque para

"As Palavras", e o livro "Chão de Inverno" (Ed. Danúbio, 1990).


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Um poema
de
José António Gonçalves





MEIO DIA


venham devagar. ouçam as bombas zunirem nos ares. não
levantem as mãos. abandonem as armas no solo ferido. tragam
um sorriso nos lábios. mordam a saliva quente. o que esperamos
é silencioso. rasteja como um réptil. não escouceia. nem se deixa
amolecer pelo cansaço. vem sempre. devagar. assim como vamos
ao encontro do passado. abraça-nos sem ruído e sem queixume. no
chão como trapos esquecemos como é tarde. venham devagar. como a
madrugada. ou as aves metálicas brotando da terra. frias. voando junto
aos gritos surdos. venham devagar. sempre devagar. aprendam
a descobrir a noite. o código de maldição das corujas. a linha do
horizonte, de onde ninguém mais regressa. estamos sós. perdidos
na ilha. envelhecemos. como o vinho. apodrecemos nos cadernos
escolares. as guerras são de papel. venham devagar. deixem-se
matar, mas não lentamente. os vossos filhos jazem em canteiros
brancos. como o meio-dia.


José António Gonçalves


(in "20 Textos para Falar de Mim",
col. Cadernos Ilha, nº.1, 1988)




JAG

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