A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Janeiro

13

 
 
 
 
ALBANO MARTINS



E o homem, então,
olhou em seu redor
e disse
às árvores: eu sou
a folha maior.
E as aves
do crepúsculo fizeram
ninho na sua boca.


Albano Martins

(in "O Mesmo Nome", 1996;
"Agenda Poética 2000 - 50 Anos de Vida Literária",
Edições Universidade Fernando Pessoa,
org. Beatriz Werget, 1999)


***

"Bloco Poético de Notas"


- Selecção de JAG -



Herberto Helder

UM GRANDE POETA
DA MADEIRA E DO MUNDO





As barcas gritam sobre as águas.
Eu respiro nas quilhas.
Atravesso o amor, respirando.
Como se o pensamento se rompesse com as estrelas
brutas. Encosto a cara às barcas doces.
Barcas maciças que gemem
com as pontas da água.
Encosto-me à dureza geral.
Ao sofrimento, à ideia geral das barcas.
Encosto a cara para atravessar o amor.
Faço tudo como quem desejasse cantar,
colocado nas palavras.
Respirando o casco das palavras.
Sua esteira embatente.
Com a cara para o ar nas gotas, nas estrelas.
Colocado no ranger doloroso dos remos,
Dos lemes das palavras.

É o chamado rio tejo
pelo amor dentro.
Vejo as pontes escorrendo.
Ouço os sinos da treva.
As cordas esticadas dos peixes que violinam a água.
É nas barcas que se atravessa o mundo.
As barcas batem, gritam.
Minha vida atravessa a cegueira,
chega a qualquer lado.
Barca alta, noite demente, amor ao meio.
Amor absolutamente ao meio.
Eu respiro nas quilhas. É forte
o cheiro do rio tejo.

Como se as barcas trespassassem campos,
a ruminação das flores cegas.
Se o tejo fosse urtigas.
Vacas dormindo.
Poças loucas.
Como se o tejo fosse o ar.
Como se o tejo fosse o interior da terra.
O interior da existência de um homem.
Tejo quente. Tejo muito frio.
Com a cara encostada à água amarela das flores.
Aos seixos na manhã.
Respirando. Atravessando o amor.
Com a cara no sofrimento.
Com vontade de cantar na ordem da noite.

Se me cai a mão, o pé.
A atenção na água.
Penso: o mundo é húmido. Não sei
o que quer dizer.
Atravessar o amor do tejo é qualquer coisa
como não saber nada.
É ser puro, existir ao cimo.
Atravessar tudo na noite despenhada.
Na despenhada palavra atravessar a estrutura da água,
da carne.
Como para cantar nas barcas.
Morrer, reviver nas barcas.

As pontes não são o rio.
As casas existem nas margens coalhadas.
Agora eu penso na solidão do amor.
Penso que é o ar, as vozes quase inexistentes no ar,
o que acompanha o amor.
Acompanha o amor algum peixe subtil.

(In Poemacto, Centro Virtual Camões)

*

Herberto Helder nasceu no Funchal (Madeira) em 1930.
Frequentou a Faculdade de Letras de Lisboa.
Colaborou em diversas revistas de poesia.
Tradutor, poeta e ficcionista.
Indiscutivelmente, um dos grandes poetas
portugueses, com um exímio domínio da linguagem.
A sua obra poética está condensada em dois
volumes notáveis: "Poesia Toda"
e "Ou o Poema Contínuo" (Assírio & Alvim).



***


poemário
2004

(Assírio & Alvim)


António Franco Alexandre







Nesta última tarde em que respiro
a justa luz que nasce das palavras
e no largo horizonte se dissipa
quantos segredos únicos, precisos,
e que altiva promessa fica ardendo
na ausência interminável do teu rosto.
Pois não posso dizer sequer que te amei nunca
senão em cada gesto e pensamento
e dentro destes vagos vãos poemas;
e já todos me ensinam em linguagem simples
que somos mera fábula, obscuramente
inventada na rima de um qualquer
cantor sem voz batendo no teclado;
desta falta de tempo, sorte, e jeito,
se faz noutro futuro o nosso encontro.
E como, em noite parda, esse escritor demente
descobre no papel as formas do seu fim,
sem desistir de ti, ainda que as água cubram
de escamas a mansa pele,
ao meu delgado corpo de ar sonoro
ato em nova aliança o antigo canto.

António Franco Alexandre
(1944)

(in "Uma Fábula")


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IMAGINÁRIO
2004

(Assírio & Alvim)

NIKOLAI GÓGOL
(1809-1852))



Era pouco provável encontrar em qualquer lado pessoa que
vivesse tão a fundo o seu emprego. Dizer que servia com zelo
é dizer pouco - não, servia com amor. Naquilo, naquela repro-
dução de cópias, via ele o seu mundo, variado e deleitoso.
Uma volúpia se lhe exprimia na cara quando copiava; tinha
algumas letras favoritas e, quando lhe apareciam, perdia a
cabeça: ria-se baixinho, piscava o olho, mexia os lábios a
ajudar, e como que era possível ler-lhe na fisionimia cada
letra que a sua pena traçava. Se lhe tivessem dado as recom-
pensas correspondentes ao seu zelo, ele, para a sua própria
admiração, teria chegado mesmo ao grau de conselheiro de
Estado; apenas ganhou, porém, como se exprimiam os brin-
calhões dos seus colegas, uma fivela na botoeira e hemerrói-
das abaixo dos rins.

Nicolai Gógol

(in "O Capote" Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra)

***

Um poema
de
José António Gonçalves



EFEBO DE CÍCERO

para Albano Martins

mestre, enquanto discípulo de Cícero
quero queixar-me das pedras do caminho.
enquanto ele fala eu ando; enquanto
ele sabe, eu aprendo. enquanto sofro,
ele ri-se na defesa da cidade, sem cuidar
do meu alento, nem da minha fome.
traz as muralhas, as casas e as ruas no coração.
carrego a De amicitia à cabeça e não sei ler.
a única verdade que nos une, mestre,
é que enquanto ele fala eu ando.
e se ando, aprendo.




José António Gonçalves




(12.1.04/inédito)


 

Selecção e Montagem: JAG