Sobe até ao cimo da manhã.
É lá que deves esperar-me,
grande intervalo de silêncio
musicado e fresco,
até que eu me liberte
do terror das palavras sedentárias
e aprenda, irmão mais novo dos insectos,
a linguagem perfumada das flores.
Albano Martins
(in "Vocação do Silêncio (1950-1985)", 1990;
"Agenda Poética 2000 - 50 Anos de Vida Literária",
Edições Universidade Fernando Pessoa,
org. Beatriz Werget, 1999)
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"Bloco Poético de Notas"
- Selecção de JAG -
ANTÓNIO RAMOS ROSA
Na Igualdade da Torrente
Na igualdade da torrente, uma só árvore,
palavras e pedras acolhendo
uma cabeça ao ritmo das vagas,
e uma sombra oval sobre as espáduas,
respirando lentamente o ar redondo,
os reflexos nos ramos, semelhanças
de um sopro, os anéis do dia,
sem fim nem centro a inacabada arca
que sobre o mar, errante, é a permanência.
(Acordes; Centro Virtual Camões)
*
António Ramos Rosa nasceu em Faro, em 1924. Esteve ligado às
revistas Cadernos do Meio-Dia, Árvore e Cassiopeia. Tradutor,
crítico literário, ensaísta e poeta. Além de uma grande depuração da
palavra, reflecte sobre o fenómeno poético. Em 2002, com "Nascente
Submersa", integrou a Colecção Livros de Cordel (nº. 9), dirigida
por José António Gonçalves, com edição da Câmara Municipal do
Funchal (Departamento de Cultura).
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poemário
2004
(Assírio & Alvim)
Mário Cesariny
(1923)
COLAPSO
Tudo está
eternamente
escrito
(Spinosa)
Tudo está
eternamente
em Quito
(Uma Rosa)
Mário Cesariny
(1923)
(in "Manual de Prestidigiração")
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IMAGINÁRIO
2004
(Assírio & Alvim)
Yukio Mishima
(1925-1970)
(...)
Nessa noite, depois de chegar à nossa casa dos arredores,
comecei, pela primeira vez na minha vida, a encarar seria-
mente a hipótese de me suicidar. Mas, pensando bem, esta
ideia pareceu-me extremamente enfadonha e acabei por
decidir que seria um acto profundamente ridículo. Por dis-
posição natural, tinha sempre relutância em dar-me por ven-
cido. Além do mais, disse para comigo, é inútil ser eu a co-
meter esse acto decisivo, com tantas maneiras de morrer aqui
mesmo, à minha volta: a morte durante um raid aéreo, a mor-
te no meu posto, a morte no serviço militar, a morte no campo
da batalha, a morte num desastre de automóvel, a morte por
doença. Era indubitável que o meu nome já estava inscrito nu-
ma destas listas; e um condenado à morte não se suicida. Não,
qualquer que fosse o ângulo da abordagem, não me parecia
que os tempos estivessem para suicídios. Seria melhor que algo
me fizesse o favor de acabar comigo. O que, em última análise,
é o mesmo que dizer que estava à espera que algo me fizesse
o favor de me manter vivo.
(...)
Yukio Mishima
(in "Confissões de uma Máscara".
Versão de António Mega Ferreira)
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Um poema
de
José António Gonçalves
CHOVE DENTRO
para Joaquim Evónio
o sol entra todos os dias na minha casa
sem que agradeça a deus ao menos chove
na primavera dizem os mestres das obras
que nunca me arranjam o telhado já mandaram
os fiscais com cartas para me contarem que tem
buracos nas paredes e telhas quebradas como
a querer ensinar o pai nosso ao senhor vigário
e depois dão-me papéis brancos para pagar com
dinheiro fresco e levam-me aos arames porque se
eu estivesse com patacas na algibeira tinha tapado
as pedras no inverno que fazia frio e apetecia mais
uma aguardente com mel e o vento não parava
de assobiar à minha porta era melhor que me dessem
uns tachos para apanhar a água que cai no chão e
sempre havia alguma coisa para lavar a louça
em vez de ela ficar para aí a criar teias de aranha
na cabeça do presidente da junta de freguesia e eu
não estivesse para aqui a contar histórias para o
soalho à espera que a lua se vá embora e se faça
dia que a terra não espera pelo seu dono e se não
houver batatas e couve ninguém come e então
é que não haverá um amanhã para ir à cidade
pagar todas as contas com boas intenções
mas só as que estão em meu nome
José António Gonçalves
(14.1.04/inédito)