A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Janeiro

15

 
 
 
 
ALBANO MARTINS



Tens na ponta do lápis uma chave
para abrir o poema.
Por onde é que ela o abre?


Albano Martins

(in "Entre a Cicuta e o Mosto", 1992;
"Agenda Poética 2000 - 50 Anos de Vida Literária",
Edições Universidade Fernando Pessoa,
org. Beatriz Werget, 1999)


***

"Bloco Poético de Notas"
- Selecção de JAG -





EUGÉNIO DE ANDRADE

Sobre Flancos e Barcos

Havia ainda outro jardim o da minha vida
exíguo é certo mas o do meu olhar
são talvez dois pássaros que se amam
um sobre o outro ou dois cães de pé
é sempre a mesma inquietação

este delírio branco ou o rumor
da chuva sobre flancos e barcos
o inverno vai chegar
sobre a palha ainda quente a mão
uma doçura de abelha muito jovem

era o sopro distante das manhãs sobre o mar
e eu disse sentindo os seus passos nos pátios do
coração
é o silêncio é por fim o silêncio
vai desabar

(Véspera de Água; Centro Virtual Camões)

*
Eugénio de Andrade, pseudónimo de José Fontinhas, nasceu em Póvoa da Atalaia (Fundão), em 1923. Funcionário público. No Porto existe uma Fundação com o seu nome. Tradutor, organizador de antologias, ficcionista e poeta. Nada melhor que as suas palavras para definir a sua obra: «(...) desde pequeno, de abundante só conheci o sol e a água... aprendi que poucas coisas há absolutamente necessárias. São essas coisas que os meus versos amam e exaltam. A terra e a água, a luz e o vento (...)».


***

UM POETA DA MADEIRA

JOSÉ LAURINDO LEAL DE GOES





Ocre para Vieira da Silva





Escuto o espanto, o poema, no silêncio de prata.

A rotação minuciosa de duas senhoras e suas rendas

por fazer e por pagar. No ocre da tarde, escuto os fios,

os ritos, as sedas sedutoras, no resvalar da fábrica de linguagens

que construímos. Suas memórias e seus canais de água.



Regressas, então, às pedras e aos passos. De noite, à tua casa.

E reparas as evidências do poema possível, liberto nos degraus,

nos sorrisos da Criação. Nesse ar diáfano que escorre

das tuas tintas para o coração dos solitários.

Que, nos celeiros da tua imaginação, procuram a forma.





(in "O Fogo e a Lágrima",

Colecção "autores da Madeira/Poesia",

ed. Campo das Letras, 2003)





mahler



Entre o verde irreal

do abismo a escada

descendo para o som



rente ao chão

frutos do pó as crianças dormindo



o verde irreal dos poços

o som

no baloiço de jardim



nefasta perseguição

com jogos e aragem

uma cadência de silêncios



pequena perdição

no sistema irreal da música.





José Laurindo Leal de Goes



(in "Ilha 4", Coordenação e Direcção:

José António Gonçalves, Prefácio:

Ernesto Rodrigues, Ed. C.M.F., 1994)



*

José Laurindo Leal de Goes (n. Funchal, 1954, radicou-se em Lisboa

na década de 80). Iniciou-se no jornalismo radiofónico nos anos 73-75.

Revelou-se como poeta no "Suplemento 2000" do "Jornal da Madeira",

nos anos setenta, fundado e dirigido por José António Gonçalves, vindo,

por este, a ser inserido nos quatro volumes colectâneos "Ilha" (75, 79, 91

e 94). Colaborou na imprensa e mantém a divulgação de textos ensaísticos

na "Margem" e na "Islenha", depois de ter participado na extinta "Atlântico".

Está representado em "Poeti Contemporani dell'Isola di Madera" (coord.

e trad. de Giampaolo Tonini, Centro Internazionale della Grafica de Venezia,

2001). Obras: "Dos Sábados" (Ilha, 1975); Evolução Lógica da Palavra

Escrita" (Da Ilha Que Somos", coord. A. J. Vieira de Freitas, 1977); "Cal

e Luz", (Ilha 2, 1979); "Poet'Arte 90" (Antologia de Poesia Madeirense,

coord. José António Gonçalves, 1990); "Ciclo da Rústica Alegria" (Ilha 3,

1991); "Rosa de Palavras", (Ilha 4, 1994); "O Fogo e a Lágrima", (Campo

das Letras", 2003).




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poemário
2004

(Assírio & Alvim)




OSSIP MANDELSTAM

(1891-1938)


Não, eu não sou de ninguém contemporâneo,
para uma honra tal não estou pronto.
É que nojo me provoca um tal homónimo,
dizer que não fui eu, foi o outro.

Duas sonolentas maçãs o século-rei ostenta
e magnífica boca de barro,
mas, moribundo, à mão enlanguescente
do filho a envelhecer se agarra.

A compasso do século ergui também as pálpebras
doentias - duas maçãs grandes.
Contavam-me histórias de humanos pleitos inflamados
os rios largos e retumbantes.

Há cem anos branquejava com suas travesseiras
uma cama leve e desdobrável,
e estirou-se estranho o corpo de barro, a primeira
embriaguez do século findava.

Bem no meio da marcha tão rangente do mundo,
como é levíssima esta cama!
E pois não podemos forjar um outro do fumo,
com este século convivamos.

Num quarto quente, ou numa caverna, nas tendas
morre o século - e por último
sobre hóstia córnea duas maçãs sonolentas
resplandecem num fogo de pluma.

Ossip Mandelstam


(in "Rosa do Mundo - 2001 Poemas para o Futuro";
tradução: Nina Guerra e Filipe Guerra)


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IMAGINÁRIO
2004

(Assírio & Alvim)


Bernardo Soares
(Pessoa 1888-1935)


Não fales... Acontece demasiado... Tenho pena de te estar
vendo... Quando serás tu apenas uma saudade minha? Até
lá quantas tu não serás! E Eu ter de te julgar que te posso ver
é uma ponte velha onde ninguém passa... A vida é isto. Os
outros abandonaram os remos... Não há já disciplina nas cor-
tes... Foram-se os cavaleiros com a manhã e o som das lan-
ças... Teus castelos ficaram esperando estar desertos... Ne-
nhum vento abandonou os renques das árvores ao cimo...
Pórticos inúteis, baixelas guardadas, prenúncios de profecias
- isso pertence aos crepúsculos prosternados nos templos e
não agora, ao encontrarmo-nos, porque não há razões para
tílias dando sombra senão teus dedos e o seu gesto tardio...
Razão de sobra para territórios remotos... Tratados feitos por
vitrais de reis... Lírios de quadros religiosos... Por quem espera
o séquito?... Por onde se ergueu a águia perdida?

Bernardo Soares
(heterónimo de Fernando Pessoa)


(in "O Livro do Desassossego")

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Um poema
de
José António Gonçalves




NÃO SOMOS OS ANJOS DE ONTEM





É noite e de nada serve a escuridão,

nem o acolhimento solitário do nevoeiro,

quando esperamos a racionalidade da escrita,

identificando o objectivo de quanto importa

o cheiro de tudo quanto se imagina

ser verdade.





Não somos exactamente hoje os anjos de ontem,

nem alucinados seres procurando acordar

onde não há camas, sonhos, universos

desprovidos de despertador.





É o reflexo de todas as luzes o que nos faz atentos

ao tempo em que as sombras nas paredes

nos dizem que amanhã

poderá renascer algo mais dos limbos

do agora

e, devagar,

estremunhamos onde nem se escuta o forjar

de paixões,

flores, montanhas, desencantos, projectos

e descansamos nos sofás de outras épocas,

esperançados que acabem todos os horizontes

(para além dos azuis e dos sóis e das luas perdidas)

porque, depois destas tempestades,

todos concordamos, solicitamente,

pela inexistência de outras

vidas.





José António Gonçalves



(in "Aventura na Casa dos Livros",

Colecção "Cadernos Ilha", nº. 10,

Editorial Correio da Madeira,

Funchal, 2000)





 

Selecção e Montagem: JAG