Tens na ponta do lápis uma chave
para abrir o poema.
Por onde é que ela o abre?
Albano Martins
(in "Entre a Cicuta e o Mosto", 1992;
"Agenda Poética 2000 - 50 Anos de Vida Literária",
Edições Universidade Fernando Pessoa,
org. Beatriz Werget, 1999)
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"Bloco Poético de Notas"
- Selecção de JAG -
EUGÉNIO DE ANDRADE
Sobre Flancos e Barcos
Havia ainda outro jardim o da minha vida
exíguo é certo mas o do meu olhar
são talvez dois pássaros que se amam
um sobre o outro ou dois cães de pé
é sempre a mesma inquietação
este delírio branco ou o rumor
da chuva sobre flancos e barcos
o inverno vai chegar
sobre a palha ainda quente a mão
uma doçura de abelha muito jovem
era o sopro distante das manhãs sobre o mar
e eu disse sentindo os seus passos nos pátios do
coração
é o silêncio é por fim o silêncio
vai desabar
(Véspera de Água; Centro Virtual Camões)
*
Eugénio de Andrade, pseudónimo de José Fontinhas, nasceu em Póvoa da
Atalaia (Fundão), em 1923. Funcionário público. No Porto existe uma
Fundação com o seu nome. Tradutor, organizador de antologias,
ficcionista e poeta. Nada melhor que as suas palavras para definir a
sua obra: «(...) desde pequeno, de abundante só conheci o sol e a
água... aprendi que poucas coisas há absolutamente necessárias. São
essas coisas que os meus versos amam e exaltam. A terra e a água, a
luz e o vento (...)».
***
UM POETA DA MADEIRA
JOSÉ LAURINDO LEAL DE GOES
Ocre para Vieira da Silva
Escuto o espanto, o poema, no silêncio de prata.
A rotação minuciosa de duas senhoras e suas rendas
por fazer e por pagar. No ocre da tarde, escuto os fios,
os ritos, as sedas sedutoras, no resvalar da fábrica de linguagens
que construímos. Suas memórias e seus canais de água.
Regressas, então, às pedras e aos passos. De noite, à tua casa.
E reparas as evidências do poema possível, liberto nos degraus,
nos sorrisos da Criação. Nesse ar diáfano que escorre
das tuas tintas para o coração dos solitários.
Que, nos celeiros da tua imaginação, procuram a forma.
(in "O Fogo e a Lágrima",
Colecção "autores da Madeira/Poesia",
ed. Campo das Letras, 2003)
mahler
Entre o verde irreal
do abismo a escada
descendo para o som
rente ao chão
frutos do pó as crianças dormindo
o verde irreal dos poços
o som
no baloiço de jardim
nefasta perseguição
com jogos e aragem
uma cadência de silêncios
pequena perdição
no sistema irreal da música.
José Laurindo Leal de Goes
(in "Ilha 4", Coordenação e Direcção:
José António Gonçalves, Prefácio:
Ernesto Rodrigues, Ed. C.M.F., 1994)
*
José Laurindo Leal de Goes (n. Funchal, 1954, radicou-se em Lisboa
na década de 80). Iniciou-se no jornalismo radiofónico nos anos
73-75.
Revelou-se como poeta no "Suplemento 2000" do "Jornal da Madeira",
nos anos setenta, fundado e dirigido por José António Gonçalves,
vindo,
por este, a ser inserido nos quatro volumes colectâneos "Ilha" (75,
79, 91
e 94). Colaborou na imprensa e mantém a divulgação de textos
ensaísticos
na "Margem" e na "Islenha", depois de ter participado na extinta
"Atlântico".
Está representado em "Poeti Contemporani dell'Isola di Madera" (coord.
e trad. de Giampaolo Tonini, Centro Internazionale della Grafica de
Venezia,
2001). Obras: "Dos Sábados" (Ilha, 1975); Evolução Lógica da Palavra
Escrita" (Da Ilha Que Somos", coord. A. J. Vieira de Freitas, 1977);
"Cal
e Luz", (Ilha 2, 1979); "Poet'Arte 90" (Antologia de Poesia
Madeirense,
coord. José António Gonçalves, 1990); "Ciclo da Rústica Alegria"
(Ilha 3,
1991); "Rosa de Palavras", (Ilha 4, 1994); "O Fogo e a Lágrima",
(Campo
das Letras", 2003).
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poemário
2004
(Assírio & Alvim)
OSSIP MANDELSTAM
(1891-1938)
Não, eu não sou de ninguém contemporâneo,
para uma honra tal não estou pronto.
É que nojo me provoca um tal homónimo,
dizer que não fui eu, foi o outro.
Duas sonolentas maçãs o século-rei ostenta
e magnífica boca de barro,
mas, moribundo, à mão enlanguescente
do filho a envelhecer se agarra.
A compasso do século ergui também as pálpebras
doentias - duas maçãs grandes.
Contavam-me histórias de humanos pleitos inflamados
os rios largos e retumbantes.
Há cem anos branquejava com suas travesseiras
uma cama leve e desdobrável,
e estirou-se estranho o corpo de barro, a primeira
embriaguez do século findava.
Bem no meio da marcha tão rangente do mundo,
como é levíssima esta cama!
E pois não podemos forjar um outro do fumo,
com este século convivamos.
Num quarto quente, ou numa caverna, nas tendas
morre o século - e por último
sobre hóstia córnea duas maçãs sonolentas
resplandecem num fogo de pluma.
Ossip Mandelstam
(in "Rosa do Mundo - 2001 Poemas para o Futuro";
tradução: Nina Guerra e Filipe Guerra)
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IMAGINÁRIO
2004
(Assírio & Alvim)
Bernardo Soares
(Pessoa 1888-1935)
Não fales... Acontece demasiado... Tenho pena de te estar
vendo... Quando serás tu apenas uma saudade minha? Até
lá quantas tu não serás! E Eu ter de te julgar que te posso ver
é uma ponte velha onde ninguém passa... A vida é isto. Os
outros abandonaram os remos... Não há já disciplina nas cor-
tes... Foram-se os cavaleiros com a manhã e o som das lan-
ças... Teus castelos ficaram esperando estar desertos... Ne-
nhum vento abandonou os renques das árvores ao cimo...
Pórticos inúteis, baixelas guardadas, prenúncios de profecias
- isso pertence aos crepúsculos prosternados nos templos e
não agora, ao encontrarmo-nos, porque não há razões para
tílias dando sombra senão teus dedos e o seu gesto tardio...
Razão de sobra para territórios remotos... Tratados feitos por
vitrais de reis... Lírios de quadros religiosos... Por quem espera
o séquito?... Por onde se ergueu a águia perdida?
Bernardo Soares
(heterónimo de Fernando Pessoa)
(in "O Livro do Desassossego")
***
Um poema
de
José António Gonçalves
NÃO SOMOS OS ANJOS DE ONTEM
É noite e de nada serve a escuridão,
nem o acolhimento solitário do nevoeiro,
quando esperamos a racionalidade da escrita,
identificando o objectivo de quanto importa
o cheiro de tudo quanto se imagina
ser verdade.
Não somos exactamente hoje os anjos de ontem,
nem alucinados seres procurando acordar
onde não há camas, sonhos, universos
desprovidos de despertador.
É o reflexo de todas as luzes o que nos faz atentos
ao tempo em que as sombras nas paredes
nos dizem que amanhã
poderá renascer algo mais dos limbos
do agora
e, devagar,
estremunhamos onde nem se escuta o forjar
de paixões,
flores, montanhas, desencantos, projectos
e descansamos nos sofás de outras épocas,
esperançados que acabem todos os horizontes
(para além dos azuis e dos sóis e das luas perdidas)
porque, depois destas tempestades,
todos concordamos, solicitamente,
pela inexistência de outras
vidas.
José António Gonçalves
(in "Aventura na Casa dos Livros",
Colecção "Cadernos Ilha", nº. 10,
Editorial Correio da Madeira,
Funchal, 2000)