|
A POESIA DOS CALENDÁRIOS |
|||
|
Janeiro |
16 |
||
|
ALBANO MARTINS
Se um besouro de asas translúcidas entrasse agora no poema - tu deixavas? Albano Martins (in "Entre a Cicuta e o Mosto", 1992; "Agenda Poética 2000 - 50 Anos de Vida Literária", Edições Universidade Fernando Pessoa, org. Beatriz Werget, 1999) *** Bloco Poético de Notas - Selecção de JAG - MANUEL ALEGRE Coração Polar 1. Não sei de que cor são os navios quando naufragam no meio dos teus braços sei que há um corpo nunca encontrado algures no mar e que esse corpo vivo é o teu corpo imaterial a tua promessa nos mastros de todos os veleiros a ilha perfumada das tuas pernas o teu ventre de conchas e corais a gruta onde me esperas com teus lábios de espuma e de salsugem os teus naufrágios e a grande equação do vento e da viagem onde o acaso floresce com seus espelhos seus indícios de rosa e descoberta. Não sei de que cor é essa linha onde se cruza a lua e a mastreação mas sei que em cada rua há uma esquina uma abertura entre a rotina e a maravilha há uma hora de fogo para o azul a hora em que te encontro e não te encontro há um ângulo ao contrário uma geometria mágica onde tudo pode ser possível há um mar imaginário aberto em cada página não me venham dizer que nunca mais as rotas nascem do desejo e eu quero o cruzeiro do sul das tuas mãos quero o teu nome escrito nas marés nesta cidade onde no sítio mais absurdo num sentido proibido ou num semáforo todos os poentes me dizem quem tu és. 2. Ouvi dizer que há um veleiro que saiu do quadro é ele que vem talvez na nuvem perigosa esse veleiro desaparecido que somos todos nós. Da minha janela vejo-o passar no vento sul outras vezes sentado olhando o ângulo mágico sinto a sua presença logarítmica vem num alexandrino de Cesário Verde traz a ferragem e a maresia traz o teu corpo irrepetível o teu ventre subitamente perpendicular à recta do horizonte e dos presságios ou simplesmente a outra margem o enigma cintilante a florir no cedro em frente qual é esse país pergunto eu qual é esse país onde tudo existe e não existe qual é esse país de onde chega este perfume este sabor a alga e despedida esta lágrima só de o pensar e de o sentir. Não é apenas um lugar físico algures no mapa é talvez o adjectivo ocidental o verbo ocidentir o advérbio ocidentalmente quem sabe se o substantivo ocidentimento. Está na palma da mão no nervo do destino e também no teu corpo aberto ao vento do nordeste é talvez o teu rosto alegre e triste — esse país que existe e não existe. Eu não sei de que cor são os navios sei que por vezes no mais recôndito recanto no simples agitar de uma cortina numa corrente de ar num ritmo há um brilho súbito de estrela e bússola uma agulha magnética no pulso um mar por dentro um mar de dentro um mar no pensamento. Há um eu errante e mareante não mais que um signo um batimento um coração polar algo que tem a cor do gelo e do antárctico e sabe a sul a medo a tentação uma irremediável navegação interior um navio fantasma amor fantástico. (in Senhora das Tempestades; Centro Virtual Camões) * Manuel Alegre nasceu em Águeda (1936). Estudou Direito na Universidade de Coimbra, onde esteve ligado aos grupos de teatro CITAC e TEUC. Poeta e ficcionista. A sua poesia está eivada de uma grande musicalidade e por ela perpassa a sua atitude socialmente interventiva. ***
UM POETA DA MADEIRA José de Sainz-Trueva Ilha a fio de prumo é toda ela secreta no ventre do caroço inanimado canto que se pressente no tempo para que a percorram legível linha a linha como a cigana desvendando na mão a sina e da água sem remorso a paz bebam e glorifiquem o que está dentro carnívoras flores do sol em erupção nas bocas em trânsito como as nossas coisas (in "Entre os Olhos", "ILHA 3", direcção de José António Gonçalves, ed. Câmara Municipal do Funchal, 1991) LARGO DO COLÉGIO Manhã na praça grande cheia de pombos brancos atravessá-la célere como se um infinito sentimento me retivesse ali a vê-los um a um (que olhos bastam?) num voo aberto circular e firme frémito ocasional riscando telhados a pique separam-se depois em queda livre a cor danificada e o vento por baixo da tempestade só de um golpe de asa (in "Musa Grata", "Ilha 4", direcção de José António Gonçalves, prefácio de Ernesto Rodrigues, ed. Câmara Municipal do Funchal, 1994) * José de Sainz-Trueva (Funchal, 1947), é o actual Director do Museu de Arte Contemporânea da Madeira. Colaborador de diferentes revistas de defesa do património, heráldica e de outros reminiscentes temas culturais (Atlântico, Girão, Islenha, Margem), escreveu em revistas universitárias e participou em exposições de poesia ilustrada promovidas pela Associação de Escritores da Madeira (de cuja primeira fase chegou a ser director), no Funchal e em Lisboa. Foi também colaborador da RTP-Madeira para estas áreas. Integrou os volumes da Poesia 70 e Poesia 71 (Editora Inova, Porto), e do Anuário de Poesia (84 e 85, Assírio & Alvim). Ainda sem obra própria a título individual, a sua produção poética tem sido integrada (para além da selecta "Poeti Contemporanei dell'Issola di Madeira", org. prefácio, e tradução para o italiano de Giampaolo Tonini (Centro Internazionale della Grafica de Veneza, 2001), em obras colectivas organizadas e publicadas por José António Gonçalves, tais como "Espaço da Relva" (Ilha 2, prefácio de Natália Correia, 1979), "O Natal na Voz dos Poetas Madeirenses" (1989), "Poet'Arte 90" (1990), "Entre os Olhos" (Ilha 3, 1991), "Musa Grata" (Ilha 4", prefácio de Ernesto Rodrigues, 1994). Poeta intimista, ainda não se decidiu pela edição em livro próprio, estando prevista, porém, a sua inserção na colecção "Autores da Madeira", na editora "Campo das Letras". *** poemário 2004 (Assírio & Alvim) ORAÇÃO COLECTA Derrama sobre nossa cabeça o turbilhão da água ó eterno Deus omnipotente nossos olhos rebentem em fonte de lágrimas que no lavacro tornem inocente a mácula assim vençamos vinganças das penas e do pranto as altas chamas (in "O Dom das Lágrimas - Orações da Antiga Liturgia Cristã" - tradução de Joaquim Félix de Carvalho e José Tolentino Mendonça) *** IMAGINÁRIO 2004 (Assírio & Alvim) José de Almada Negreiros A SOCIEDADE SÓ TEM QUE VER COM TODOS, NÃO TEM NADA QUE CHEIRAR COM CADA UM Cada um tem o destino universal de fazer consigo mesmo o modelo de mais uma estátua humana. E esta fabrica-se apenas com íntimo pessoal. O nosso íntimo pessoal é inatingível por outrem. E é este o fundamento de toda a humanidade, de toda a Arte e de toda a Religião. O nosso íntimo pessoal é de ordem humana, estética e sagrada. Serve apenas o próprio. É o seu único caminho. O melhor que se pode fazer em favor de qualquer é ajudá-lo a entregar-se a si mesmo. Com o seu íntimo pessoal cada um poderá estar em toda a parte, sejam quais forem as condições sociais, as mais favoráveis e as mais adversas. Sem ele, nem para fazer número se aproveita ninguém. A individualidade e a personalidade são florescências desse invisível do nosso ser a que chamamos o nosso íntimo. Tudo quanto de bom ou de mau, de óptimo ou de péssimo exista em cada qual nasceu com ele e formou-se secretamente, intimamente, a despeito de todo o aspecto que lhe venha do exterior, de toda a educação e acção alheias. O papel da sociedade é imediatamente mais evidente sobre cada pessoa do que o atropelado movimento das gerações que a antecederam e lhe determinaram o seu sangue, mas aquela não vale esta. Que uma pessoa tome a seu cargo dirigir o próprio destino que lhe coube, é com ela. Que seja a sociedade quem se proponha dirigi-lo, é ingenuidade. O mais que neste caso poderá a sociedade é eliminar esse destino pessoal. A sociedade só tem que ver com todos, não tem nada que cheirar com cada um! (...). José de Almada Negreiros (1893-1970) (in "Nome de Guerra") * Um poema de José António Gonçalves EIS O DIA eis o dia a luz a visão desesperada um gesto cor de sangue pulsando o inadiável o ventre quente ainda abominavelmente revolto da madrugada o amanhã é a página riscada do poema a voz que ecoa por dentro das casas a seta presa ao alvo das tardes mornas ou o indolente cansaço da descoberta do dilema que habita todas a magias valerá a pena dormir à força deixar-se ir nas mãos de uma brisa cheirando a pinho por entre labirintos de anjos e demónios negros brincando no cimento que incomoda as montanhas no despertar das águas onde se banham as ninfas e se aprisiona a bruxa das levadas porém no acordar surge o milagre eis o dia a rasgar as sombras os cobertores as enseadas virgens o pesadelo no abismo os amores desencontrados e loucos no desfazer dos lençóis e dos suores e tudo recomeça até que acabe a revolta silenciosa dos vulcões abafados pela paisagem José António Gonçalves (in "Noites de Insónia", Colecção "Livros de Cordel", nº. 1, Ed. Câmara Municipal do Funchal, 1998) |
|||
|
Selecção e Montagem: JAG |
|||