A POESIA  DOS CALENDÁRIOS

 

Janeiro

17

 
 
 
 
ALBANO MARTINS



Se se uma pomba
roçasse o ângulo
raso do poema
- prendê-la-ias?

Albano Martins

(in "Entre a Cicuta e o Mosto", 1992;
"Agenda Poética 2000 - 50 Anos de Vida Literária",
Edições Universidade Fernando Pessoa,
org. Beatriz Werget, 1999)


***

Bloco Poético de Notas

- Selecção de JAG -





ALDA DO ESPÍRITO SANTO



Coqueiros e palmares da Terra Natal
Mar azul das ilhas perdidas na conjuntura dos séculos
Vegetação densa no horizonte imenso dos nossos sonhos.
Verdura, oceano, calor tropical
Gritando a sede imensa do salgado mar
No deserto paradoxal das praias humanas
Sedentas de espaço e de vida
Nos cantos amargos do ossobô
Anunciando o cair das chuvas
Varrendo de rijo a terra calcinada
saturada do calor ardente
Mas faminta de irradiação humana
Ilhas paradoxais do Sul do Sará
Os desertos humanos clamam
Na floresta virgem
Dos teus destinos sem planuras


(in "É Nosso o Solo Sagrado da Terra";
Centro Virtual camões)

*

Alda do Espírito Santo nasceu em S. Tomé, em 1926. Estudou em Portugal. Professora.
Foi Ministra da Informação e Cultura e Ministra da Educação e Cultura de S. Tomé e Príncipe.
Colaborou em diversas publicações literárias. Poeta.


***

UM POETA DA MADEIRA


ANA MARGARIDA FALCÃO






No Sótão Templo da Serpente



Há rumor de tempo e vestígios de lodo

na paisagem velha sob as telhas intactas.

Destaca-se a transparência da memória

no fundo antigo de um frasco de bocal

onde a cadência do vidro continua lenta

imutável como a poeira dos móveis

intacta como as telhas da paisagem

intocável como a planta de vidro

silábica como o riso da crença

nas tábuas do sótão

templo do medo.



(in "Poemas", ILHA 4, Direcção

e Organização de José António

Gonçalves, Prefácio de Ernesto

Rodrigues, Ed. CMF, 1994)





Despedida na Ausência



Quando imaginei que podias partir

senti no corpo o gosto de uma voz distante.

Era voz de pinheiro negra como as estrelas

desprendia do acaso de um frio rarefeito

e já perdida na sua inexistência

como a pedra mais côncava

do mais profundo silêncio da terra.





Era uma voz de hora profunda e rouca

vinda dos ventres espumosos do tempo

ressoando como o rumo incerto de aves negras

crepusculares vértices tristes

sobre campos ausentes.





Vivi um pranto de fadiga indecisa

em lenta pausa de violências ocultas

e a tempestade apagou-se em círculos de brandura

nos rios de ondas pálidas do olhar de inverno

como uma velha nostalgia perdida

adormecida em sabor de ameixa triste.





Era uma fadiga de deuses errantes

vinda da hora perdida da canção de um naufrágio

espalhando-se na alma das árvores doridas

solta na vastidão de planícies de vidro

em entardecer áspero de sal.





Num abraço delgado e transparente

encostei a cabeça ao ombro da parede

marquei o limite da minha boca vacilante.

Era boca sem raiz ou fim de tarde

murmúrio arrastado ou sonolento

orvalho perseguido no país dos naufrágios

lucidez de riso afogado num cais.





Um riso a completar na tua inexistência

na ausência de quem não pode partir.

Um riso a completar na transgressão da incerteza

na despedida inventada por inventar

amanhã

ou hoje

devagar

em silêncio.



(in "Poemas", ILHA 4, Direcção e Org.

de José António Gonçalves, Prefácio

de Ernesto Rodrigues, Ed. CMF, 1994)





*



Ana Margarida Falcão (n. Funchal, 1949). Licenciada em Línguas e Literaturas

Modernas, variante Estudos Franceses, pela Faculdade de Letras da Universidade

de Lisboa. Bolseira na Universidade de Barcelona, Espanha, 1996, é Doutorada

na Universidade da Madeira, UMa, onde é docente. Tem colaboração dispersa

por revistas literárias, rádio e televisão. Integrou a “Ilha 4”, CMF, 1994

e “Narrativas da Madeira”, bilingue/francês, Funchal, 1997; co-organizou

“Literatura de Viagem – Narrativa, História, Mito”, Cosmos, Lisboa, 1998.

Obras: “O Largo ou o Percurso de um Habitante”, rec. APE/IPLL;

“Z de Zacarias”, romance, Signo, 1991 e “Um Arquipélago de

Escritores-Viajantes, monografia, Expo/98.



***
poemário

2004

(Assírio & Alvim)




MANUEL ANTÓNIO PINA


AS VOZES


A infância vem
pé ante pé
sobe as escadas
e bate à porta

- Quem é?
- É a mãe morta
- São coisas passadas
- Não é ninguém

Tanta vozes fora de nós!
E se somos nós quem está lá fora
e bate à porta? E se nos fomos embora?
E se ficámos sós?

Manuel António Pina
(1943)

(in "Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança")

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IMAGINÁRIO

2004

(Assírio & Alvim)



Fiódor Dostoviéski





PRIMEIRA NOITE


Era uma noite divina, uma noite que só pode haver, querido
leitor, quando somos jovens! O céu estava tão estrelado,
tão límpido que, olhando para ele, nos podia escapar
a pergunta: será possível viver sob este céu gente
zangada e injusta? Jovem é também esta pergunta,
querido leitor, muito jovem, mas oxalá Deus a mande
mais vezes à tua alma!... Por falar de gente injusta
e zangada, não poderia também deixar de me lembrar
do meu lindo comportamento durante todo o dia
que passou. Desde manhã que uma mágoa me
começou a atormentar. De tão solitário que sou, parece
que toda a gente me abandona e me renega. Ora, qualquer
um tem o direito, claro, de perguntar: mas quem é essa
"toda a gente"? Porque eu vivo há oito anos em Petersburgo
e ainda não arranjei praticamente nenhum conhecimento.
Também, para que preciso eu de conhecimentos?

Fiódor Dostoiévski

(1821-1881)

(in "Noites Brancas",
tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra)

*

Um poema
de
José António Gonçalves




A PALAVRA É UMA BORBOLETA


A palavra pode voar
espairecer por aí como uma ave
solta e branca
desprendida de sóis
e ninguém dar por ela
no silêncio das sombras
da manhã


A palavra se não bate asas
oculta-se nos tectos
mais antigos das casas
e sopra imagens imperceptíveis
num rosário de recordações
que se esfuma nas tardes
em sons inaudíveis


Se a palavra quisesse
serenava-se
no coração dos homens
e petrificava-os para os atormentar
em sonhos permanentemente iguais
marcando-lhes a memória
com os sinais
dos dias desencontrados
e sempre na penumbra
da noite seguinte


A verdade é que a silhueta da palavra
assusta a cidade
mesmo quando apenas visita os telhados
para lhes abençoar o sono


A palavra é como uma borboleta
esplendorosa
esquece que já foi larva
embora hoje se aparente
com uma rosa


José António Gonçalves

(16.1.04/inédito)



 

Selecção e Montagem: JAG